Freedom is only a hallucination That waits at the edge of the distant horizon And we are all strangers in global illusion Wanting and needing impossible heaven
Chasing the dream as they swim out to sea The mirage ahead says that they can be free Become lost in delusion drowning their reason Swept on by the current of selfish ambition
Frightened ashamed and afraid of the blame The questions are screaming the answers are hiding The sickness is growing distracted condition You can feel the disgust and smell the confusion
Lying insane getting soaked in the rain Draining the sky of the guilt and the shame The nightmare is coming the clouds are descending Pulled under two thousand metres a second
Clawing at walls that just slip through my fingers Darkness consuming collapsing and breaking Distilled paranoia seeped into the walls And filled in the cracks with the whispering calls
Shadows are forming take heed of the warnings Creeping around at four in the morning Lie to myself start a brand new beginning But i'm losing myself in this fear of living
Freedom is only a hallucination That waits at the edge of the places you go when you dream Deep in the reason betrayal of feeling The mistakes that I made tore my conscience apart at the seems
Freedom is only a hallucination That waits at the edge of the places you go when you dream ....
Freedom is only a hallucination That waits at the edge of the places you go when you dream Deep in the reason betrayal of feeling The mistakes that I made tore my conscience apart at the seems
Freedom is only a hallucination That waits at the edge of the places you go when you dream....
Quase no final da primeira época de "Masters of Horror", encontramos esta interessante proposta, "Haeckel´s Tale" de John McNaughtan. Ainda que o argumento, de Mick Garris, tivesse originalmente sido orientado para George Romero, McNaughtan acabou por dirigir esta média.
Percebe-se por que haviam pensado em Romero, se é ele, afinal, ainda o grande mestre dos filmes de zombies, tipologia que não é, de todo, estranha a este "Haeckel's Tale".
McNaughtan será conhecido nos meandos do cinema de terror pelo seu filme de 1990, "Henry: Portrait of a Serial Killer", ainda que, eventualmente, o seu filme mais badalado nada tenha a ver com o terror; falo, claro, de "Sex, Drugs & Rock'n'Roll" (1991).
Mas há que dizer que não há em "Haeckel's Tale" nada de amadorismo nem de imaturidade.
Pelo contrário, creio ser este um dos melhores filmes da primeira época desta série.
Trata-se de uma espécie de filme de época, decorrendo no final do século XIX. Começa com a visita de Edward Ralston (Steve Bacic) a uma feiticeira conhecida por ser capaz de devolver a vida aos mortos. Ralston enviuvara recentemente, e quereria de volta a sua mulher. Antes de aceder ao seu pedido, no entanto, a feiticeira tenta dissuadi-lo, contando-lhe a história de Earnst Haekel (Derek Cecil).
Haekel, que é a figura central do filme, é um jovem estudante de medicina, obcecado com a ideia de criar vida, um pouco ao estilo de Victor Frankenstein. Esta ideia torna-se ainda mais importante para ele quando ao pai é diagnosticada uma grave doença.
Na sua busca por encontrar as possibilidades de criar vida, Haekel cruza-se com um feiticeiro, Montesquino (Jon Polito), conhecido por ser capaz de dar vida aos mortos; e com um estranho casal, Walter Wolfram (Tom McBeath) e Elise (Leela Savasta).
À medida que Haekel percebe que o casamento de Walter e Elise tem algumas fragilidades graves, vai-se apaixonando por Elise. E é quando se encontra perfeitamente dividido que descobre que a verdadeira razão do afastamento entre Walter e Elise reside no facto de ela não se encontrar capaz de se satisfazer sexualmente com nenhum homem, uma vez que está ainda fixa na vida que teve com o seu primeiro marido, entretanto falecido.
Criam-se então todas as condicionantes para que Elise tente reavivar o falecido marido, e finalmente ser feliz.
Este filme tem, evidentemente, algumas raízes bem profundas nos clássicos dos filmes de zombies, e também, claro no romance de Mary Shelley, "Frankenstein". Mas, em vez de se limitar a criar boas referências ou de a elas prestar homenagem, McNaughtan mostra-se definitivamente interessado em criar uma história que valha por si só, ou seja, auto-suficiente.
Assim sendo, aposta fortemente na cenografia, muitíssimo bem construída, com grande atenção aos detalhes, reforçados também pelo tipo de diálogos, perfeitamente capazes de nos transportar para a época em que o filme pretende acontecer. Mais ainda, o argumento de Mick Garris apresenta-se muitíssimo competente em abordar as questões essenciais para entender esta história: a morte, o luto e a necrofilia. Tanta mestria de escrita não deixa de surpreender, tendo em conta que Garris é responsável por aquele que me parece o pior filme desta série, "Chocolate", e também de um dos piores filmes que, pessoalmente, já vi.
É de um filme necrófilo que estamos a falar. A questão desse "amor dos mortos" é uma das mais fortes de toda a arte, desde sempre, e aqui temos dela um ponto de vista interessante, que está para além do amor, e parte para a obsessão, para o "dar a vida por alguém" de que tanto se fala.
Podemos entender este filme como algo de mórbido, mas também será isso a torná-lo adequado ao contexto em que surge.
E acima de tudo, levanta uma interessante questão: até que ponto será realmente benéfico trazer de volta os mortos? A resposta a esta pergunta não deixa de nos soar, aqui, satírica, terminando o filme de uma forma que, apesar de ser mais ou menos óbvia, é também a mais lógica.
Definitivamente, esta é uma proposta interessante, e também um dos filmes mais criativos de "Masters of Horror". Lamento apenas que Garris não tenha sido capaz de fazer um filme tão bom como aquele que escreveu para outro realizador.
Essencialmente a casa é uma caixa -um continente. Uma rua duma cidade é essencialmente uma sucessão de caixas colocadas muito juntas. Isso é que é uma cidade. O arquitecto concebe mentalmente as casas isto é as caixas geralmente preocupando-se mais e adornando apenas dois lados dela (na cidade claro):
o da rua (que é formado de caixas) e o das traseiras (também formado de caixas).
Geralmente o lado da rua é aí que o arquitecto se esmera: ondas nervuras saliências golpes estátuas janelas entradas cores vidros materiais diversos.
Para as traseiras ou muitas escadarias e muitas janelas ou só algumas ou então muitos canos muitos canos. Às vezes também passa o comboio ou alguma ponte. Mas não é muito frequente. Geralmente o que temos é um cubo de seis faces das quais só uma é amada em extremo: a principal. É isso o que desequilibra a casa. Por exemplo: que espécie de superfície afeiçoada apresenta a face dos alicerces? A aspereza e até a maldade dessas caves dessas depressões desses pilares, ferros etc. feíssimos entrando
pela terra dentro com duríssimos narizes acrobáticos? O telhado enfim sempre
pode ser uma açoteia ou um porto para helicópteros ou então um bosque de chaminés ou mil bicos de torres totalmente desnecessários não é verdade enfim o telhado sempre é mais arejado mas o que dizer da imensa fragilidade das faces da casa que encostam às contíguas? Que orelhas mais rentes! Alguma vez se viu? Que surdez que coisa mais chã e atrofiada! Como quem diz eis uma faca eis outra face. Não é uma coisa alegríssima considerando a perturbação da fachada essa perfuração esse rendilhado essa complicação da caixa o retalhe da caixa a indemnização do cubo? Quando os arquitectos modernos conceberam os arranha-céus a casa paralelepídeda o paralelograma em pé
nessa altura descobriram a superfluidade da fachada a não necessidade da fachada; isto é, a necessidade total da fachada. Então a casa passou a ser uma total fachada a caixa fachada a caixa fechada a tranquilidade da coisa cúbica serena pacífica totalmente desigual em todos os seus lados.
É para mim particularmente difícil falar do mais recente romance de Hélia Correia. Sinceramente, desde que li, no ano passado “Lillias Fraser” (2001), tinha sérias dúvidas de que fosse possível Hélia Correia escrever um romance que tão completamente me conquistasse. Mesmo apesar dos críticos, que aclamavam “Adoecer”, e garantiam ser o melhor romance da autora.
Olhando para trás, seria difícil prever que a autora de “O Separar das Águas” (1981) chegasse a um romance como este “Adoecer”. Não porque o primeiro fosse um mau romance, mas porque ele inaugura um percurso que não faria prever sequer a temática do mais recente. Hélia Correia começa a publicar na mesma década que alguns dos nomes mais importantes da nossa prosa, como sejam Lídia Jorge ou António Lobo Antunes. Por alguma razão, no entanto, o nome de Hélia parece sempre surgir aparte. Eu diria que isso se deve, primeiro, ao facto de Hélia publicar pouco, pelo menos comparativamente, e também ao facto de, durante muitos anos, ter publicado acima de tudo novelas, sendo que podemos considerar “A Casa Eterna” (1991) como o primeiro realmente romance. Não que seja menos importante por escrever novelas, mas já desde Irene Lisboa que percebemos que o público em geral só aceita os romancistas. Faz sentido olhar para estas questões. É justo dizer que, por ter começado justamente no domínio das novelas –textos mais curtos, por definição –Hélia tem a mão treinada para dizer o essencial, para não perder tempo nem palavras. E a publicação menos frequente também parece ser natural pois, olhando para os seus livros, percebemos que, ainda que haja um fio condutor de determinadas características que os unem, cada livro é, por si só, um universo auto-suficiente e específico; completo, o que requer determinados cuidados de construção, que levam tempo. “Adoecer” é o primeiro romance desde “Lillias Fraser”. Pelo caminho, encontramos um pequeno livro de poemas, “Apodera-te de Mim” (2002) e a novela “Bastardia” (2004). Anos e anos de investigação detalhada precedem a publicação do romance. No entanto, é de notar que “Adoecer” não é de forma alguma uma biografia e, bem pelo contrário, demarca-se assumidamente desse estilo. Como explica na nota final, Hélia permitiu-se em certas alturas modificar aquilo que está documentado. E, além disso, não há aqui uma vontade de apenas narrar, objectivamente, a história de Elizabeth Eleanor Siddal e Dante Gabriel Rossetti. Hélia coloca-se como quem está presente, e entrega-se a análises, interpretações; enfim: a uma grande liberdade ao olhar. Porque é de um olhar que se trata “Adoecer”, de um olhar humano, ainda que consiga ver tanto para “fora” como para “dentro” dos seus personagens. Além da atenção dada à investigação sobre a vida de Elizabeth e Dante Gabriel, é de notar neste livro também uma análise muito séria à história e à estética dos Pré-Rafaelitas; e um pouco também de todos os que os rodeavam, em particular Christina Rossetti, poeta e irmã de Dante Gabriel Rossetti e que, percebemos, terá sido uma das pessoas que, não tendo entendido a relação entre o irmão e Elizabeth, se terá aproximado mais. A verdade é que, em muitas das suas páginas, este romance nos revela as fontes a que foi beber: cartas, livros de memórias, poemas. Mas o interessante, e o que prova a mestria de escrita, é como nunca ficamos com a impressão de estarmos perante um relato: esses fragmentos aparecem-nos antes como formas de “precisar” as palavras daquelas pessoas, ao invés da mera especulação; o que seria um caminho muito óbvio para falar desta personagem, Elizabeth, que, podemos dizer, citando Agustina que "tinha uma enfermidade nos sentimentos." Acerca disto, ocorre-me falar de uma questão que me parece crucial em “Adoecer”, que é o respeito pelo silêncio. De facto, dada a distância a que nos encontramos da vida destas personagens, seria de esperar um romance cheio de especulação, com recriações de diálogos frequentes e com a invenção de detalhes improváveis. Nada disso. Pelo contrário, há nestas páginas um respeito pelo silêncio a que a distância nos obriga. Ainda que esse silêncio não torne a história lacónica. Pelo contrário, esta história é detalhada; mas os detalhes nunca nos parecem inusitados. No fundo, há toda uma construção aqui que não se fica por Elizabeth Eleanor e Dante Gabriel. Ela estende-se a todo o tempo, a todos os intervenientes e às circunstâncias sociais e políticas da época. É importante que assim seja pois, só conhecendo bem o contexto em que a história dos dois aconteceu poderemos perceber as verdadeiras razões por que a sua relação não era exactamente bem aceite, ou, em última análise, por que era tão “fora” de tudo. Porque percebemos, efectivamente, como já por temperamento, tanto Elizabeth como Dante Gabriel se situavam ao lado das convenções; mas ao entender as circunstâncias, a questão torna-se mais concreta. Dado que tanto Dante Gabriel como Elizabeth eram artistas, e que Elizabeth começou exactamente por ser modelo de alguns pintores, é também essencial entender-se tudo o que diga respeito à arte, naquele tempo. E também aí Hélia consegue dar-nos todos os dados importantes, e entendemos muito bem a relação que existe entre a Elizabeth desenhada e a Elizabeth viva, e onde ambas coincidiam. Porque a relação que existia entre os dois dependia muito da sua relação com a arte, ou, talvez até fosse definida por ela. E não deixa de ser um olhar refrescante sobre a pintura Pré-Rafaelita, situada muito além da mera categorização académica.
Já noutros textos sobre Hélia Correia aqui publicados, eu manifestei o meu profundo desagrado pela decisão que a autora tomou acerca da poesia, que praticamente abandonou. Volta a ser importante falar da poesia sobre “Adoecer”. Porque há uma construção livre neste livro que é mais típica da poesia do que propriamente da prosa. E, além disso, a questão da linguagem nunca realmente se separa da poesia. Não há aqui a “frieza” objectiva do romancista puro. Bem pelo contrário. Voltando ao início deste texto, pessoalmente não acreditava que fosse possível Hélia Correia ultrapassar um romance brutal como é “Lillias Fraser”. Mas a verdade é que “Adoecer” consegue. Poderá ser porque, como Hélia já explicou em várias entrevistas, este é um livro que há muito desejava escrever. Esse será um motivo plausível. Mas, acima de tudo, “Adoecer” é uma obra de absoluta maturidade, que seria impossível, mas impossível mesmo, a um romancista novo que não tivesse na bagagem todos os ensinamentos de uma obra firme, e de uma identidade perfeitamente definida. Venham mais como este!
Depois de, na primeira época de Masters of Horror nos ter dado "Deer Woman", um filme oscilante entre o bom e o previsível, John Landis aparece em grande na segunda época da mesma série.
A média que nos propõe chama-se "Family". Não podia começar de uma forma mais engraçada: ficamos perante uma série de planos que nos dão logo indício de estarmos perante uma comum rua dos subúrbios americanos, com árvores floridas e famílias felizes.
É neste ambiente que encontramos Harold (George Wendt) a receber, na cave da sua casa, o "pai". Na verdade, coloca o corpo do homem inconsciente numa banheira onde o cobre de ácido, ao som de música gospel. Logo por aqui, nos primeiros minutos de "Family" percebemos que estamos perante uma sátira promissora.
E, a verdade é que o filme não poderia ter corrido melhor.
A história avança quando um casal jovem que acaba de se mudar para o bairro, por acidente, embate contra a caixa de correio de Harold. Celia (Meredith Monroe) e David (Matt Keeslar) acabam por socializar um pouco com Harold.
Entretanto, vemos que, contrariamente ao que Harold diz quando conhece o casal recém-chegado, ele tem uma família. Uma família de esqueletos: uma mulher, uma filha, e o avô, que acaba de se mudar para a casa.
Quando Harold decide arranjar também uma avó, percebemos que, por norma, ele rapta as pessoas em bairros distantes, para não levantar suspeitas.
No entanto, apaixona-se imediatamente por Celia, ao ponto de considerar substituir por ela a esposa.
Ao longo do filme, somos confrontados com o comportamento psicótico de Harold, enquanto vemos também as angustias de Celia e David que haviam, há pouco tempo perdido uma filha.
Se se pode dizer que "Family" nos apresenta uma premissa que não é propriamente surpreendente, a verdade é que está tão bem resolvida que não conseguimos deixar de aderir.
Inesperada é a aptidão de Landis para a ironia a que o argumento, de Brent Hanley, obriga.
Podemos, por um lado, observar o filme do ponto de vista "psiquiátrico", e observamos os delírios de Harold, em que há algo de sádico e de desesperado ao mesmo tempo.
Ou, por outro lado, podemos também interpretar este filme como uma crítica à obsessão da América, e de todo o mundo, pela família e pela felicidade familiar em que um indíviduo parece ser mais normal tendo uma família de esqueletos do que se não tiver família.
Uma vez mais levanto a questão de se este filme é um filme de terror. Parece-me, claramente, que não. No entanto, ele utiliza a questão da sátira e da crítica, que está subjacente um pouco por todos os filmes do género, desde "The Texas Chainsaw Massacre" (1974) de Tobe Hooper a "Fantasmas de Marte" (2001) de John Carpenter. E, portanto, talvez não esteja assim tão descontextualizado. E, sem dúvida, utiliza uma técnica sem a qual o cinema de terror talvez nem pudesse existir, que é a apropriação das características das doenças psiquiátricas, de que podemos recordar tantos e tantos filmes, e de que cito, a título de exemplo, "Friday the 13th" (1980) de Sean S. Cunningham, ou "Frailty" (2002) de Bill Paxton.
Se "Deer Woman" era um filme de algumas fragilidades, "Family", pelo contrário, parece estar bem assente e é claramente um dos filmes a recordar de "Masters of Horror"
A abrir a segunda e última rodada de “Masters of Horror”, temos, repetente, Tobe Hooper, com este “The Damned Thing” que, diga-se de passagem, ainda que fique aquém de “Dance of the Dead” em termos estéticos e em originalidade, é realmente mais adequado a uma série de médias-metragens de terror, muito mais conseguido enquanto filme do género do que o primeiro, que, de certa forma, ainda que fosse uma história arrepiante e mórbida, não era propriamente um filme de terror. Se fosse numa qualquer outra situação, duvido que esta questão tivesse o mínimo de relevância mas, sendo “Masters of Horror” uma espécie de colecção do género, é de todo pertinente.
Concretamente, “The Damned Thing”, baseado num conto de Ambrose Bierce, é uma história sobre uma força maligna que possui as pessoas conduzindo-as a brutais homicídios e suicídios. É o que acontece com a família de Kevin Reddle, quando, na noite do aniversário, o pai assassina a mulher e, prestes a matar também o filho, é repentinamente estripado por um ser invisível. Vinte e quatro anos depois, Reddle (Sean Partrick Flanery) é xerife da localidade de Cloverdale, Texas. A sua obsessão pela criatura que terá conduzido o seu pai à loucura levara a mulher, Dina (Marisa Coughland), a separar-se dele, levando o filho que tinham em comum. Com o aniversário de Kevin a aproximar-se, começam a surgir pela localidade vários suicídios violentos e ataques, sem que a sua origem possa ser determinada. Tentando entender a origem de tudo, Kevin acaba por abrir uma caixa que pertencia ao pai, para nela encontrar uma série de recortes de jornais, acerca de uma perfuração no solo, feito numa comunidade vizinha, com vista à implantação de uma fábrica. Essa perfuração teria estado na origem de um grande massacre que devastara a população da vila; e nela, teria estado envolvido o avô de Kevin. Com a força maligna a tornar-se cada vez mais activa e mortífera, Kevin acaba por confrontar-se com os seus fantasmas, ao mesmo tempo que tenta salvar a família e a população da “coisa maldita”. E talvez seja esta a tónica mais interessante do filme. Falando propriamente, este filme segue, tal como “Dance of the Dead”, o caminho do drama familiar, enquanto palco de problemas e traumas, que originarão mais tarde as situações que o filme em si permite explorar. Não é raro encontrar-mos em filmes de terror indivíduos como Kevin, incapazes de vencerem os seus medos e a perder, por isso, a sua vida. Mais interessante do que o que nos é contado, no entanto, é, neste filme, o que não nos é contado. Tobe Hooper parece querer guardar a resolução mesmo mesmo para o fim, e a verdade é que só temos acesso à imagem da “coisa maldita” no final, e sem grande tempo para a fixarmos. O filme evolui com lentidão, e parecemos acompanhar Kevin na sua inércia e no seu vazio, enquanto procuramos as respostas sobre a noite em que ele perdera a sua família.
A questão das forças malignas que tomam as pessoas, como parasitas, não é nova. A título de exemplos, cito “Ghosts of Mars” ou “Prince of Darkness” de John Carpenter; ou “Session 9” de Brad Anderson. Tratando-se de uma premissa por assim dizer “vulgar”, a única hipótese de salvação para o filme de Hooper seria a explicação da origem dessa força, e parece-me que, nesse aspecto, Hooper é bem sucedido. Se há alguns aspectos negativos a comentar, eles parecem-me quase cosméticos. Por exemplo, no início, são muito realistas os efeitos especiais quando o pai de Kevin é esventrado; mas, no final, a figura da “coisa maldita” é tão nitidamente digital que é quase como se os operadores nem tentassem disfarça-lo. Isto, além do voz-off que, defendo, só deve existir se fôr mesmo estritamente necessário, o que não é o caso. No entanto, estas pequenas falhas são compensadas com pequenas subtilezas, que vêm confirmar o olho certeiro e treinado para a estética do grotesco que é o de Tobe Hooper. Como exemplo, deixo a cena que mais me impressionou, a do suicídio de um homem que desfigura o próprio rosto com um martelo. Os planos utilizados para filmar essa cena em particular merecem, por si só, que se veja “The Damned Thing”.
Silvio Berlusconi, que já devo ter referido aqui, está no primeiro lugar dos meus assuntos risíveis da semana, ainda que essa lista nunca seja particularmente extensa.
O homem recto, sério, católico, defensor dos bons-costumes e das belas tradições está agora no centro de mais um escândalo sexual.
Sinceramente, desde o caso Bill Clinton-Monica Lewinsky- Hillary Clinton, nunca mais encontrei um escândalo sexual que me parecesse particularmente interessante. Esse, sim, esteve na vanguarda, com mentiras, reconciliações e o envio da letra de "Do What You Have to Do" de Sarah McLachlan de Lewinsky ao presidente Clinton.
A partir daí, cada escândalo sexual é apenas mais um.
No entanto, o caso de Berlusconi, acusado de ter sexo com prostitutas menores, veio lançar dentro de mim uma felicidade extrema.
Berlusconi, o homem sério que proibiu a publicação de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" de José Saramago, para proteger a moral, é afinal agora acusado de crimes sexuais. Claro que eu duvido que haja repercursões fortes na carreira de Berlusconi. Mas a imagem é outra coisa. E, em muitos dos casos, é mesmo a imagem que interessa.
Corujas nos geraram numa noite imensa. Baionetas consagraram túmulos degredos. Morcegos presidiram rituais secretos, como se f'ossem únicos senhores do tempo.
Mas num momento simples limiar tangente nasceu outra manhã encantatória e branca :
a cidade era nova vigorosa e tanta, que extravasou seus muros e chegou aos campos onde acordou os homens duros que na sesta retemperavam forças para seus fazeres.
E aí foi que se ouviu um restolhar de gente pois do frescor da cal chegaram as crianças que atrelaram carroças a muares em espanto, levando os homens dentro e as mulheres à frente.
Dos Anathema, não havíamos álbum desde "A Natural Disaster", de 2003.
Pelo caminho, tivémos uma compilação, "Hindsight" (2008), que antologiava pela primeira vez a fase que vai desde "Eternity" (1996) ao álbum de 2003, já que os dois volumes de "Resonace" (2001 e 2002) se ocupavam da fase inicial da banda, mais marcada pela tonalidade doom-metal, que a banda abandonou quando Darren White deixou a banda.
E se "Eternity", ao colocar como vocalista o guitarrista Vincent Cavanaugh, começava uma nova sonoridade para os Anathema, seriam os álbuns "A Fine Day to Exit" (2005) e, principalmente, "A Natural Disaster" a revelar-nos a profunda maturidade dos novos Anathema: uma sonoridade sempre angustiante e tensa, mas marcada pela fusão entre o lado orquestral e sinfónico e o rock pesadote. Tornava-se cada vez mais difícil catalogar a música da banda, e, a partir de 2003, começamos a ouvir com frequência o termo progressive-rock.
"We're Here Because We're Here", lançado em 2010, vem demonstrar que essa definição de progressive-rock estava, afinal, certa.
A capa do álbum mostra-nos uma imagem luminosa, que nos aponta para uma certa libertação. Seria talvez estranho ver esta imagem nos Anathema, principalmente depois da "contemplação carinhosa da angústia" (Empresta a Agustina.) que era "A Natural Disaster".
Mas, logo que começamos a ouvir "Thin Air", percebemos que, realmente, há aqui uma espécie de libertação. Não diria propriamente uma felicidade, mas, definitivamente, uma vontade de criar canções mais luminosas. Outras canções como "Dream Light" ou "Everything" vêm ainda neste sentido. Percebe-se, definitivamente, que sete anos de silêncio tiveram a sua importância, porque talvez "We're Here Because We're Here" não fosse possível antes.
O tipo de construção destas canções também o confirma. A articulação entre o lado orquestral e o lado eléctrico é realmente bizarra, mas muito bem conseguida, contribuindo, de facto, para criar uma grande tensão dentro das composições que, por si só, já são dramáticas. A voz é ainda a mesma, Vincent Cavanaugh canta com uma certa fragilidade, mas com grande segurança e a sua "personalidade" parece inserir-se muito bem neste tipo de atmosferas mais luminosas, tanto quanto nas mais tensas a que já estamos habituados, como acontece com "Universal", que vive de um crescendo, tornando-se cada vez mais densa e cada vez mais tensa, culminando numa espécie de violência libertadora que, de resto, é muito o espírito deste álbum.
Outros exemplos disto: a canção "Summernight Horizon", que me parece uma das melhores do álbum, ainda que uma das mais tristes, a fazer lembrar um pouco os tempos de "Pulled Under at 20000 Metres a Second", mas mais arriscada e, também, mais conseguida; ou ainda "Get Off Get Out", que, sendo uma das canções mais negras, parece ser também a mais inesperada de todo o álbum, não contendo reminiscências a qualquer outro álbum a qualquer outra canção; talvez por ser uma das duas escritas por John Douglas, o baterista, que, ainda assim, revela aqui maior originalidade do que em "A Fine Day To Exit", onde compunha metade do álbum.
"We're Here Because We're Here" está também cheio de pequenas subtilezas, o que já não é estranho nos Anathema, particularmente tendo em conta os álbuns de 2001 e 2003. Exemplo disso é "Everything", onde encontramos uma certa ambiência folk, assim como em "Angels Walk Among Us", que conta com a participação de Ville Valo, o vocalista dos HIM. A letra desta última canção tem ainda uma questão curiosa, que a de fazer lembrar um pouco o estilo lírico de "Serenades" (1993) ou de "The Silent Enigma" (1995), que já não ouvíamos nos Anathema há algum tempo ainda que, como sempre, as canções sejam da autoria de Danny Cavanaugh.
Outra coisa que me parece notória neste álbum, e que vem talvez continuar um pouco o que acontecia em "A Natural Disaster" é que estas canções parecem deliberadamente afastar-se do conceito típico de "canção" com estrofe-ponte-refrão-estrofe-ponte-refrão-coda-refrão. Estas canções parecem vaguear, mais interessadas em desenvolver as possibilidades instrumentais e de letra, tornando-se assim mais fortes e surpreendentes. Se "Thin Air", "Angels Walk Among Us", "Get Off Get Out", "Universal" ou "Hindsight" são bons exemplos disto, "Presence", cuja voz está entregue a Lee Douglas, é exemplo máximo disso, parecendo uma espécie de monólogo de lamento, com cerca de três minutos apenas.
Acima de tudo, "We're Here Because We're Here" é construído por atmosferas e paisagens estranhas, de um orgânico e intrincado, e os Anathema parecem aqui sintetizar todos os sentimentos humanos. Em termos de letras, estas poderão estar ao nível das melhores da banda, lado-a-lado com "A Fine Day to Exit" e "A Natural Disaster".
Em suma, valeu a pena esperar sete anos por este álbum. Intuo nele um novo começo para os Anathema, eles que têm realmente o vício do recomeço. É de notar que ninguém, ao ouvir "Serenades" poderia prever um álbum como "We're Here Because We're Here", mas isso é o menos importante. O mais importante foi ele ter acontecido. E ter acontecido com toda esta grandeza.
Conservei-me afastada do estendal durante algum tempo. Sofro de vertigens, por isso intimidava-me olhar para baixo, o pátio vazio, restos de flores secas. Um prédio com dez andares e ele tinha logo que viver no último, tendo como horizonte o mar de terraços e antenas parabólicas.
Quando, chegado com a roupa da máquina de lavar, pega em mim, de suas mãos eu deslizo para o chão. Apressado, em vez de me apanhar imediatamente, escolhe outra; no final, atira-me para o cesto de verga.
Não é que seja particularmente ardilosa, mas verdade seja dita, preferia ser mola de rés-do-chão, dessas que faça sol ou chuva sempre prendem a roupa numa corda estendida no pátio. O destino quis-me feita de plástico, com um coração inclinado à melancolia. Tenho, no entanto, como divisa antes quebrar que torcer.
Sonho com o dia em que nas mãos da criança serei um comboio.
The lost days of my life until to-day, What were they, could I see them on the street Lie as they fell? Would they be ears of wheat Sown once for food but trodden into clay?
Or golden coins squandered and still to pay? Or drops of blood dabbling the guilty feet? Or such spilt water as in dreams must cheat The throats of men in Hell, who thirst alway?
I do not see them here; but after death God knows I know the faces I shall see, Each one a murdered self, with low last breath.
‘I am thyself, — what hast thou done to me?’ ‘And I—and I—thyself,’ (lo! each one saith,) ‘And thou thyself to all eternity!’
Uma vez mais, incitado pela leitura do romance "Adoecer" de Hélia Correia, que concluí há uns dias, lembrei-me de assinalar aqui uma questão que me parece interessante na história de Elizabeth Eleanor Siddal e de Dante Gabriel Rossetti.
Elizabeth é mais conhecida por ter sido obsessivamente desenhada por Rossetti e, eventualmente, mais ainda por ter sido ela a modelo da "Ophelia" de Millais.
Aquilo que é menos conhecido é que Elizabeth era, ela mesma, pintora e poeta. Os seus trabalhos plásticos chegaram, inclusivamente, a ser incluidos em exposições dos Pré-Rafaelitas, sendo ela a única mulher do grupo.
Mais ainda, o romance de Hélia Correia vem suscitar uma dúvida interessante: a de que Elizabeth terá alguma presença autoral na pintura do próprio Rossetti. Fez-me pensar num muitíssimo interessante texto de Rosa Montero sobre a relação de Camille Claudel com Rodin, em que nos explica que a influência de Rodin na obra de Camille é muitíssimo analisada, ao passo que a influência de Camille na obra de Rodin é descurada.
Para o bem e para o mal, aqui ficam, entre desenhos e pinturas, dez trabalhos de Elizabeth Eleanor.