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sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Triunfo da Morte



Por entre tristes ramos
nos vamos, mesmo assim, encaminhando.
Há tigres e leões que se extraviam
em cidades cobertas por opróbio
e mortos são por balas nas ruelas.
Os faunos sobrevivem mendigando,
prédios progridem e devastam a raça,
monopólios acolhem multidões
envenenem ao abrigo da capa
e desviam os olhos.
Os doadores do mundo
ajoelham junto ao círio,
aos pés têm chacinas açaimadas.
Dame Mhahut, em tempos anteriores,
mandou atear fogo
a míseros reunidos na igreja.
Prolongava a sua clemência
abatendo a ave da pobreza.
Os inúmeros pobres actuais
que têm carro mas não têm casa,
se por casa tomarmos
o que mãos da terra perfizeram,
milhões de deserdados
(Santa Luzia lhes proteja os olhos)
recebem por tv princípios homicidas,
chorrilhos de palavras, aluviões, discursos,
não destroem Gomorra.
Os pobres já não são o sal da Terra
porque não há terra
recua harmonia e ardem florestas
e vão os madeireiros conhecer afinal
Palma de Maiorca e Torre de Molinos
ver já realizado o sonho combustível
em suas vidas néscias.
As Parcas reunidas revolvem os destroços,
o mar inaltera imagens da gaivota
que desconhece ao planá-lo cerce
quanto o abandonou a vívida torrente,
essencial fonte, imputrescível fronte
a trança despregando na corrida.

Fátima Maldonado
A Urna no Deserto
1989, ed. Frenesi
fotografia de Arthur Tress

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Cerimónia Funesta


O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estremece ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.

FÁTIMA MALDONADO
Vida Extenuada
2008, ed. &etc

pintura de LUCIEN FREUD

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A Rave dos Pobres


Antes a floresta engastava na casa
agora surgem eliminando espécies
à toa na gente quase bêbeda
as garras cortam o impedir da marcha,
por causa dos incêndios replicam
os que dizem velar tanta harmonia
cedendo terra aos palmos
conforme rasam cunhas ou quantias.
A casa, as ruínas da casa foram resistindo
por vezes coito de ladrões,
à volta pastores ucranianos
ovelhas mutiladas seguem trôpegas
rotas de quem conhece pouco a região
imitam o tempo que lhes pertenceu
guiando tristes réplicas
à fidelidade inútil dos vencidos.
Aos pobres dão vestígios
a televisão falara de raves
e eles viam ricos, camisas marcadas
a música altíssima, pastilhas no sangue
escorrendo alegria por quanto era poro.
Não havia caminho senão o da terra
à frente da casa nos carros vetustos
jornais acabados perfaziam restos
garrafas partidas juncavam mortalhas
e apenas tocava um altifalante
a música exausta
zurzia ao acaso a mesma canção.
Despojos do tecto
o toldo riscado
deixara escapar culturas já gastas:
as praias da Foz há mais de cem anos
as divas nas rochas
colhiam o dedo os aristocratas
ainda mais cedo, Veneza no auge,
ídolos pintavam cabelos ao sol
as caras à sombra de certos lavrados
brocando na face as sedas exímias
simulam presença na tenda fendida.
Cortando à navalha aqueles destroços
a casca do tempo despiu a beleza
num bosque de perigos
flores mais caninas
prendiam nos estames
os pobres de rastos
perdidas na casa
sobravam nas teias
aranhas rendidas
a sonhos catárticos.

Fátima Maldonado
Vida Extenuada
2008, ed. &etc
fotografia de Slava Mogutin

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Um Fado



Quem viu barcos
ir ao fundo
tem nos olhos a certeza
aposta firme na boca
rude descrença na reza

Quem viu barcos trazer escravos
munições e artifícios
figueira brava na costa
açoite preso no riso

Quem viu barcos
magoá-lo,
ferros, lavas e palmeiras
descrê santos e novenas
nega laços, destrói cercos,
toma ventos por lareiras.




Fátima Maldonado
A Urna no Deserto
1989- frenesi
imaegem: Nan Goldin

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Poesia dos Anos 80

- Isabel de Sá
(1979- Esquizo Frenia, &etc)




-Fátima Maldonado
(1980- Cidades Indefesas- centelha)





-Luís Miguel Nava
(1979- Películas- moraes)



-Adília Lopes
(1985- Um Jogo Bastante Perigoso- edição da autora)




-Regina Guimarães
(1978- A Repetição- helastre)



-Rosa Alice Branco
(1981- A Mulher Amada- figuras)




-Helga Moreira
(1978- Cantos de Silêncio- edição da autora)


-Manuel Cintra
(1981- Do Lado de Dentro- ed. Presença)

A Urna no Deserto



Já não páras ao som das laranjeiras,
o silvo da paixão amorteceu,
o lacerar dos grifos
agita devagar a romãzeira,
horizonte vivaz anoiteceu.
Ardem sevícias nos pálios das comédias,
ruem gonzos nos pátios das contritas,
repúdios acontecem em vésperas de concílios,
impedem-se os quebrantos nas rotinas,
fere-se a uva no copo de cristal,
o bago não ateia contusões
nem cega a fruta o gume do cilício
e vibra o pulso ao impedir a dança.
Círios amortinados não acendem,
o leito não acolhe favoritas.
À sombra da cintura a magnólia
urge pavões,
cisma na voz ausente desespero,
range areia no triângulo da pata.
O trípode da morte encosta-se à coluna
e o vento não abriga, da roseira, a urna no deserto.



Fátima Maldonado
"A Urna no Deserto"
1989- edições frenesi (esgotado)




imagem: Graça Martins, "Ofélia"

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A Adoração dos Magos

Aquela noite a três
foi como desenhar a maçarico
numa chapa de ferro
um vento fóssil, um vítreo monograma,
o rasto ao exceder o voo de uma carriça
cativo flutua no vidro de uma jarra.
Suspensos percorriam na polpa da vertigem
léguas sobre o abismo.
Pendentes do zinco da manhã
à espera do início
do seguinte espectáculo
dispersaram o sémen
nas chaminés da noite leprosa.
Nos terraços da luta percorreram
as danças mais funestas da ternura.
Num combinar astuto de referências
abriram-se os portais
e despediram galopes penitentes
os animais libertos
das tecidas mansões.

O unicórnio branco depôs sua cabeça
nos braços da senhora,
compadecida dama,
e lhe tocou fiando suas lãs
entre as unhas crivadas por metralha.
Sinto-lhes o assédio,
em cada joelho poisam
um queixo armadilhado,
a barba já cresceu desde o jantar.
«É a adoração dos magos» - murmuras tu –
fincando na ravina os dedos imanados
enquanto o tronco investe
a pele percorrida por venosas nascentes.
Olho por sobre um ombro
e surpreendo a treva
ofendida esgueirar-se
entre os dedos da porta.
O noctívago galgo
devora a escuridão às cegas no recinto.
Em breve a luz envolve
de opalinas unções as cabeleiras.
Iminentes desenham-se as saídas,
o croissant no prato, o garoto no copo,
o revestir a pele doutros fatos
a tragédia jazente nos horários.
Aquela noite a três foi sem remédio.



Fátima Maldonado
Os Presságios
Editorial Presença, 1983