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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

[Isto é o meu corpo]
























Isto é o meu corpo
isto é o meu sangue
a miséria sexual das missas
é a miséria sexual das discotecas
mas este e o melhor tempo
de sempre
ainda muito puritano
e nada pudico
é um tempo obsceno
mas dantes era muito mais obsceno
que farei eu com esta espada?
uma foice e um martelo
oulseiras anéis e gargantilhas
que farei eu com o meu eu?
bavarder bavarder bavarder
(que farei eu com este livro?
outro livro ainda o mesmo
que farei eu com este piano?
improvisos
que farei eu comigo?
ergo-me sento-me deito-me
e faço-me
que cada um tenha a sua casa
que cada um tenha o seu piano)

Adília Lopes
A Mulher-a-Dias
2002, ed. &etc
imagem de Christopher McKenney

sábado, 3 de abril de 2010

Lisboa



Cidade branca
semeada
de pedras

Cidade azul
semeada
de céu

Cidade negra
como um beco

Cidade desabitada
como um armazém

Cidade lilás
semeada
de igrejas

Cidade prateada
semeada
de Tejo

Cidade que se degrada
cidade que acaba


Adília Lopes
Ovos (Poemas Novos)
ed. &etc, 2004

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Poesia dos Anos 80

- Isabel de Sá
(1979- Esquizo Frenia, &etc)




-Fátima Maldonado
(1980- Cidades Indefesas- centelha)





-Luís Miguel Nava
(1979- Películas- moraes)



-Adília Lopes
(1985- Um Jogo Bastante Perigoso- edição da autora)




-Regina Guimarães
(1978- A Repetição- helastre)



-Rosa Alice Branco
(1981- A Mulher Amada- figuras)




-Helga Moreira
(1978- Cantos de Silêncio- edição da autora)


-Manuel Cintra
(1981- Do Lado de Dentro- ed. Presença)

Meteorológica



Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter



Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas



Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)



A vida
é livro
e o livro
não é livre



Choro
chove
mas isto é
Verlaine



Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico





Adília Lopes
Florbela Espanca Espanca
1997- Black Sun editores




imagem: Paul Klee

domingo, 17 de maio de 2009

anonimato e autobiografia: 3 poemas de Adília Lopes

1.
Um escritor de romances escabrosos
(o seu tema predilecto foi a relação incestuosa
entre três irmãos)
decidiu permanecer anónimo
não por ter vergonha de assinar romances escabrosos
mas para tornar ainda mais escabrosos os romances
assim os leitores suspeitavam que os romances eram autobiográficos
e se ele os assinasse com o seu nome
os leitores ficavam a saber que ele era um filho único
é claro que como filho único
vivia fascinado pelo incesto entre dois irmãos
que inspirou Chateaubriand
(e não podia perceber o aforismo de Joyce
é tão fácil esquecer um irmão como um guarda-chuva)
mas mesmo que se considere como eu
que a leitura de um livro pode ser tão importante
na vida de uma passoa
como ter um irmão
dois irmãos não são três irmãos

2.
Um poeta assinava os poemas com o seu nome
mas um romance por ser autobiográfico
assinou com um pseudónimo pouco banal
contava no romance (e foi isto que o levou
a decidir-se por um pseudónimo)
que comia ao pequeno-almoço
alheiras às rodelas com salada de tomate
no supermercado quando pediu à empregada
da charcutaria às 8h30 da manhã duas alheiras
a empregada perguntou-lhe se ele tinha escrito
As singularidades de Carolina (era o nome do romance)
ele ficou tão embaraçado que pediu à mãe
para ser ela a comprar as alheiras e os tomates
mas quando a mãe chegava ao lugar da hortaliça
com um saco de plástico cheio de alheiras
o indiano do lugar perguntava-lhe logo
se ela tinha escrito As singularidades de Carolina.

3.
Um terceiro escritor escreveu uma autobiografia
em que se limitou a contar
que ao pequeno almoço bebia café com leite
e comia pão com geleia de laranja
assinou a autobiografia com o seu nome
e nenhuma empregada de supermercado
o importunou
mas depois de ter o livro publicado
sempre que bebia café com leite e comia pão com geleia de laranja
ao pequeno almoço
sentia-se mal como se estivesse num palco ou num circo
a ter de beber café com leite e a ter de comer pão com geleia de laranja
diante dos olhso que a abolem a privacidade
e por se sentir assim passou a comer flocos de aveia

ADÍLIA LOPES,
"Os 5 Livros de Versos Salvaram o Tio"
edição da autora, 1991