Domingo, 5 de Maio de 2013

Dido: Girl Who Got Away

O SALTO

O último álbum de Dido chegou-nos há cinco anos atrás e, como já tinha dito há uns tempos atrás aqui, não nos trazia novidade que valesse a pena assinalar. 'Safe Trip Home' parecia ceder perante a pressão deixada pelos marcantes 'No Angel' (1999) e 'Life for Rent' (2003), e a se a voz costuma ser um dos principais pontos de vantagem para Dido, no seu terceiro álbum, era praticamente o único aspecto que valia a pena reter.

Há pouco mais de um mês, Dido editou o seu quarto álbum. E, mal se ouve No Freedom, a primeira faixa e primeiro single de 'Girl Who Got Away', fica-se com um certo medo de que este álbum sofra das mesmas fragilidades que o anterior. Esta canção mantém-se no registo sereno e harmonioso de Dido, com uma letra sobre a necessidade de amar; uma canção interessante mas que nada acrescentaria a momentos do passado como Here With Me ou Life for Rent. Mas a canção seguinte, Girl who got Away, já nos desengana. Aquilo que encontramos desta canção em diante condiz muitíssimo bem com a capa do álbum. Nele, Dido, vestida discretamente de preto, atravessa uma estrada onde brilham muitas luzes de carros. De facto, a sua música continua simples e serena, mas traz agora uma roupagem muitíssimo mais urbana, desliga-se um pouco das raízes clássicas e assume uma electrónica sóbria, a juntar ritmos envolventes que piscam levemente o olho ao hip-hop e a letras de uma escrita directa e bela; tudo isto aliado à voz que é aquela que já conhecemos: suave mas pesada, muito à vontade nestas canções, quase todas com um certo pendor melancólico e profundo. Exemplo perfeito disto é Let us Move On, em que participa o rapper Kendrik Lamar. Mesmo no seu tom saudoso, esta canção nunca se torna excessiva, o próprio rap é tudo menos aquilo que esperaríamos da participação de um rapper numa canção destas. Acaba por ser provavelmente o momento mais bem conseguido de 'Girl Who Got Away'.
Outras canções ainda recuperam esta atmosfera, de formas mais ritmadas ou melancólicas. Blackbird ou Day Before we Went to War, por exemplo, exploram o lado mais dramático que existe no reportório de Dido desde o princípio (Recordemos que, dos seus clássicos, muitos são canções tristes.), enquanto Go Dreaming e Sitting on the Roof of the World se mantém de um lado mais optimista, que também não soa mal _bem pelo contrário, apresenta-nos a Dido que conhecemos de Don't Leave Home ou Thank You, também elas dignas do estatuto de 'clássicos' da cantora britânica.


Apesar de se manter de um lado muito calmo e suave da pop, 'Girl Who Got Away' é verdadeiramente o álbum que esperaríamos de Dido depois de 'Life for Rent'. Dido não é uma cantora que precisa de reinvenções nem de muita produção, mas qualquer músico, pop ou não, precisa de evoluir, e é neste álbum que Dido dá o tão esperado salto, e apresenta-nos a primeira grande colecção de canções desde 2003.


Segunda-feira, 22 de Abril de 2013

Canção para o dia igual


maria pobre de corpo
não tem mãos

ainda agora nasceu
não tem mãos

maria pobre de corpo
não tem cabelos

viajam no vento as tranças
com selos de nostalgia

maria pobre de corpo
entorna os braços pelo dia

longo ritmo de sede
e vida maria

Luiza Neto Jorge
A Noite Vertebrada
1960, ed. autora, col. A Palavra
desenho de Daniela Gomes

Sábado, 20 de Abril de 2013

Quasi vas auri solidum...


Un maître dit: Si tout intermédiaire entre moi et le mur était supprimé, je serais près du mur, mais je ne serais pas dans le mur. Il n'en est pas ainsi pour les choses spirituelles car l'un est toujours dans l'autre: ce qui reçoit est [identique] à ce qui est reçu, car il ne reçoit rien que lui-même. C'est subtil. À qui le comprend, on a suffisamment prêché. Cependant, un mot sur l'image dans l'âme.
Beaucoup de maîtres prétendent que l'image est issue de la volonté et de la conaissance. Il n'en est pas ainsi. Je dis bien plutôt que cette image est une expression d'elle-même sans volonté et sans connaissance. Je vais vous en donner une comparaison. On place un miroir devant moi; que je le veuille ou ne le veuille pas, sans ma volonté et ma connaissance, je me reflète dans le miroir. Cette image ne provient pas du miroir, elle ne provient pas non plus d'elle-même, l'image provient bien plutôt de ce dont elle tient son être et sa nature. Quand le miroir qui était devant moi est enlevé, je ne me reflète pas plus dans le miroir, car je suis cette image elle-même.
Encore une autre comparaison. Quand une branche jaillit d'un arbre, elle porte le nom et l'être de l'arbre, ce qui sort est [identique] à ce qui demeure à l'intérieur et ce qui reste à l'intérieur est [identique] à ce qui sort. Ainsi la branche est une expression d'elle-même.
Je dis absolument de même pour l'image de l'âme. Ce qui sort est [identique] à ce qui reste à l'intérieur et ce qui reste à l'intérieur est [identique] à ce qui sort. Cette image est le Fils du Père et je suis moi-même cette image et cette image est [la sagesse]. Que Dieu en soit loué maintenat et toujours. Amen. Que celui qui ne comprend pas ne s'en soucie pas.

Eckhart von Hoccheim
trad. Jeanne Ancelet- Hustache
Sermons (vol.1)
2003, ed. Points (Sagesses)
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

Quarta-feira, 17 de Abril de 2013

Lamb: Hearts and Flowers


Letra de Lou Rhodes e Andy Barlow
Do álbum 'Between Darkness and Wonder' (2003)

(...)
Sometimes I'm so alone
Even in your arms
Like each of us keeps a little wall
Inside our hearts
(...)

Terça-feira, 16 de Abril de 2013

Dois poemas de Eduarda Chiote


NA MORTE ESTÁ DOENDO INCRIVELMENTE

Vontade de ter perdido a vontade,
acabei por me enfiar por um corredor à minha procura,
a enfermaria usava nesse dia chinelos azuis e bata da mesma cor,
emocionei-me com os meus passos
no céu
e desejei que as seringas me recusassem as veias: a porta do quarto 
                                                       [entreaberta sorriu-me
como se ela mesma tomada de espanto
me garantisse nada é tão terrível como imaginas,
evadiste-te.
E já nem os teus
órgãos _em tempestade. O vidro do soro balançava no vazio
como quando as minhas palavras gota
a gota.
Quero agora esquecer que há poemas com muitas receitas,
contas por pagar,
unhas que se esgotam
nos dedos; páginas separadas do livro _são as contingências,
as contingências.
Nada pode ser assim tão ruim: tive alta, mas aqui,
na morte,
está doendo incrivelmente.
«A vida corrói mesmo»,
é uma iniquidade, uma iniquidade: tornei-me tão
insuficiente
que se ninguém
aparecer
não tem importância nenhuma.
Só te peço que guardes de mim uma pequena recordação, pois nela
permaneceremos: a tua escrita e a minha
autobiografia


O POTENCIAR DO REAL

Fica em silêncio. Escuta. Ouve o que te digo.
Não duro sempre. Não duro
sempre. Hoje, vi um morto. Constatei
caber dentro dele: o cancro (observei-o do caixão)
foi o seu melhor amigo: o único que sofreu
a mesma dor.

Órgãos Epistolares
2011, ed. Afrontamento
fotografia de Peter Hujar

Naufrágio


No fundo do mar,
perdidos,
estão os sonhos,
dia a dia, inutilmente, dobados.
Carne de medusa,
lacerada pelos corais,
oculta entre as algas,
quem poderá sabê-los?
ou encontrá-los?

Luísa Dacosta
A Maresia e o Sargaço dos Dias
2002, ed. Asa
pintura de Luis Caballero

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

'Modo Mudando' de Vasco Graça Moura, 50 anos depois

A par de um percurso literário bastante intensivo, em particular na poesia, Vasco Graça Moura tem sido conhecido também, ou nalguns casos principalmente, pela sua participação na política portuguesa e pelo seu trabalho ligado a várias instituições como a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, a Gulbenkian e, mais recentemente, o CCB, entre outras.
Da sua bibliografia, poder-se-iam destacar vários títulos, mas a atenção, por norma, recai sobre livros como ‘A Furiosa Paixão Pelo Tangível’ (1987), ‘Uma Carta no Inverno’ (1997), ‘Poemas Com Pessoas’ (1997) ou ‘Laocoonte, Rimas Várias, Andamentos Graves’ (2005), livros mais recentes para um autor que publica os seus primeiros livros a partir do princípio da década de 60.
Uma leitura de livros mais recentes de Vasco Graça Moura revela-nos alguns fios condutores na poesia do autor: uma reinvenção das estruturas clássicas, a utilização simultânea de léxicos eruditos e quotidianos, o diálogo constante com as artes plásticas e a música, o rigor rítmico, a preocupação política e um jogo obsessivo com o real, que passa pela sua transformação, pela sua reinvenção e pelo processo denso e complexo que liga o real ao poético.


Em 2013 assinalam-se os 50 anos de produção literária de Vasco Graça Moura, assinalados tanto pela edição em dois volumes da sua ‘Poesia Reunida’ como pelo livro de ensaios ‘Discursos Vários Poéticos’. Será uma boa ocasião, talvez, para revisitar o primeiro livro do autor, ‘Modo Mudando’, cuja primeira edição, do autor, de 1963, é recordada num dos melhores poemas de ‘O Concerto Campestre’ (1993).
‘Modo Mudando’ é um conjunto de 40 poemas (38 dos quais estão presentes no primeiro volume da ‘Poesia Reunida’.) que abrem com uma citação de T.S. Elliot:

So here I am (…)
(…)
Trying to learn to use words (…)

ideia que é talvez tutelar neste primeiro livro. Tutelar porque, dela, se podem extrair dois conceitos básicos, ambos muito presentes nestes poemas: por um lado as palavras, enquanto elementos específicos de valor próprio, e, por outro, as experimentações com esses elementos e com os seus valores.
Os poemas, ora longos e torrenciais, ora breves e contidos, contêm imagens fortes e contundentes que se conseguem, essencialmente, pelo isolamento de certas palavras, que ficam como que suspensas num verso, ganhando significação própria e, com ela, um poder transformador sobre a imagem de que falam.

imprevista   magnética
elástica
             como novelos
surgiste com novo ser
do sábio jogo dos membros

lemos em a contorcionista. Outro exemplo deste isolamento transformador pode encontrar-se em tu, entre poemas:

refluem como alíseos    ou gaivotas
esvoaçam como folhas    ou cabelos

lisos   ovais   a seixos
se assemelham

Neste aspecto, a poesia de Graça Moura nos pareceria, em 1963, perfeitamente alinhada com as experiências do ‘Poesia 61’, bem como com as experiências que, na década de 50, surgiram com o Surrealismo e a Poesia Concreta. No soneto nova meditação sobre a palavra, encontramos esta ideia que pode confirmar essa herança

assim a palavra se prestasse
ao jade    ao jogo    ao jugo de uma toda
arte poética e nunca ripostasse
em golpes repentinos de judoka

assim nunca o poema se traísse
na trama aleatória de uma aposta
perdida    no seu hábil mecanismo
traria o juro ao artesão que o monta

                trata-se, de facto, de uma herança e não de uma filiação. Isto porque a poesia de Graça Moura, nesta altura ainda em fase inicial, parece aceitar uma certa estranheza e a justaposição de imagens e linguagens aparentemente opostas, mas sabe evitar os excessos em que muitas vezes caíram as experiências da poesia Surrealista e, talvez mais ainda, da Concreta. Ao longo de ‘Modo Mudando’ sente-se vários ecos mais eruditos, não só através da reincidência na forma do soneto, como também numa série de pequenos detalhes em que há uma espécie de piscar de olhos a um certo classicismo (Exemplo disso são poemas como para a poesia da água guardada, still life and da vinci ou mordaz mordendo.). Este conhecimento profundo da história da poesia, que haveria de proporcionar livros tão impressionantes como ‘Quatro Sextinas’ (1973), as ‘Sequências Regulares’ (1978) ou os ‘Sonetos Familiares’ (1995) só para citar os exemplos mais evidentes, é precisamente aquilo que impede Vasco Graça Moura de, nestes poemas, se deixar levar pelo erro do non-sense abstracto que votou ao fracasso as experiências de vários autores nas correntes já citadas.


                Anos depois deste livro, em um cão para pompeia do livro ‘A Furiosa Paixão Pelo Tangível’, diz o autor, com refrescante ironia:

«você é um cerebral», disse-me cloé, flava e enervada.
«sim», disse-lhe eu com prudência, «mas há tantos,
e o amor e a morte sempre foram pensáveis».

e é interessante constatar como, no primeiro livro, estes princípios são já notórios. Já nestes primeiros poemas, Graça Moura, ainda que por vezes apaixonado, se revela também extremamente cerebral e, diga-se, também bastante irónico por vezes. Não falta a ‘Modo Mudando’ uma carga emotiva (Leia-se um poema como substância.), mas a todo o momento ressalta dos poemas uma carga intelectualizada, muitas vezes conseguida através da aspereza das próprias palavras que tornam a leitura quase agreste, e também uma carga algo sarcástica, uma espécie de desvio em relação àquela emotividade, quando esta parece prestes a aproximar-se do sentimentalismo (O caso do poema to a murdered girl é um dos mais claros.).
Para finalizar esta nota, penso que seria interessante pensar no poema inaugural de Graça Moura, chamado precisamente poema,

silenciosamente aproximo-me do poema
circundo-o duma palavra     faço nela
uma incisão deliberada

e exponho a ferida ao ar sem protegê-la
para que infecte e frutifique

de resina   ainda com gosto a papel húmido
o poema cresce    ramifica-se
comovidamente do cerne para a casca
inteiro    liso    adstringente   sinuoso

mas
todo o poema é perfeitamente impuro

funciona como uma espécie de arte poética cujos princípios são ainda os da poesia do autor, mesmo da mais actual que, afinal, tão distante parece estar deste primeiro livro. No entanto, nestes poucos versos, está presente a ligação do real com a escrita poética, a infecção que esta sofre e que vai ampliá-la, e essa impureza que faz parte do poema e cujos sentidos parecem variar de texto para texto mas que, no geral, parece ser um símbolo de como o poema se encontra entre duas realidades: uma a do real propriamente dito e outra a do real poético. Impuro, o poema pode ser, então, o lugar entre os dois, que nos permite oscilar de um para o outro. Não nos esqueçamos que, ao infectar, a ferida que vem do poema frutifica, enriquece-nos.

Sábado, 6 de Abril de 2013

Dalida: Il Pleut Sur Bruxelles



Do álbum ''Olympia 81'' (1981)
Letra de Jeff Barnel

(...)
Et puis y a les Flamandes
Qui n'oublient rien du tout
De Vesoul à Oostende
On s'habitue, c'est tout
Seules Titine et Madeleine
Croient qu'il est encore là
Elles vont souvent l'attendre au tram 33

Mais lui il s'en fout bien
Mais lui il dort tranquille
Il n'a besoin de rien
Il a trouvé son île
Une île de soleil et de vagues de ciel
Et il pleut sur Bruxelles

(...)

Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

[ponho palavras onde vou morrer]


ponho palavras onde vou morrer
e estremeço porque a vida se dissipa
como água derramada no soalho

entre muitas outras coisas escrever
é procurar nos confins

além tempo e sucessão de espaços
a demorada nomenclatura do efémero

Miguel-Manso
Aqui Podia Viver Gente
2012, ed. Primeiro Passo
fotografia de Helena Almeida


Quarta-feira, 3 de Abril de 2013

O ministo, o empreendedor, a palestra dele e os perigos dela

Perante problemas financeiros graves num país, a maioria das pessoas reage com pessimismo e derrotismo. Há manifestações, greves, trocas mais pacíficas ou menos de opiniões, a procura de culpados que invariavelmente saem impunes (Isto, pelo menos, em Portugal.), uma camada numerosa abandona o país, havendo os que planeiam regressar e aqueles que não.
No meio de tudo isto, há sempre aqueles que se afirmam com um discurso que contraria o da maioria, argumentando contra o derrotismo, numa atitude infinitamente positiva que, bem vistas as coisas, é por demais conveniente tanto aos Governos pouco interessados em melhorar a vida das pessoas, como aos responsáveis verdadeiros dos dramas monetários que fizeram abater-se sobre a população, mas pelos quais não são assim tão prejudicados.
Hoje, no P3, Sofia Rodrigues escreve um texto intitulado Miguel Gonçalves, o ''embaixador'' que Relvas conheceu no YouTube. Como o esclarecedor título mostra, Miguel Relvas, Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, encontrou um ''embaixador'' para a iniciativa Impulso Jovem.
Miguel Gonçalves, é, segundo o artigo, ''fundador de uma empresa de criatividade especializada na criação de soluções de comunicação interna'' (Seja isso o que for.), que Relvas conheceu através de um vídeo no YouTube (Este.) filmado no TEDxYouth em Braga.
Aparentemente o discurso empreendedor e positivo de Gonçalves seduziu o ministro, que o achou adequado a ser, gratuitamente, o rosto da iniciativa que pretende combater o desemprego entre os jovens.
Que sedutor discurso é este? É um discurso proferido por uma figura um tanto caricata, com um sotaque acentuadíssimo do norte, que consiste em meia hora de power positive thinking pejado de estrangeirismos, insistindo com os jovens para que tenham uma atitude empreendedora, histriónica, destemida e que, acima de tudo, se deixem de lamúrias e de reclamações (Imitando ambas num tom bastante jocoso.). O que tem este discurso para o tornar adequado a dar a cara pelo Impulso Jovem? 
Tem tudo, evidentemente. Quando Miguel Gonçalves afirma que no admirável mundo do negócio, o que interessa é dar tudo pela empresa, chegando mais cedo e saindo mais tarde, está a negligenciar o facto de que, as mais das vezes, tratando-se ainda por cima de jovens trabalhadores, as empresas procuram essencialmente alguém a quem explorar. Assim, o discurso de Gonçalves parece, até certo ponto, incentivar os jovens trabalhadores a sentirem a alegria de serem explorados. 
Há também um certo pendor de vitimização das empresas no discurso deste ''empreendedor''. Interessa aquilo que as empresas querem, o que precisam? Concerteza que interessa, visto que são elas, aqui, que vão empregar os candidatos. No entanto, neste discurso, Miguel Gonçalves aprova o facto das empresas preferirem aqueles que, mesmo menos capacitados, têm uma atitude positiva e servil face ao empregador, o que é não só desvalorizar por inteiro a competência real de um candidato para determinado trabalho; como, por outro lado, um incentivo à falta de consciência ética e social de uma empresa. Isto, porque o facto das empresas serem detentoras de uma grande quantidade de dinheiro e, consequentemente, do poder de dar empregos, deveria significar para essas empresas uma responsabilidade dessas ordens _ética e social_, em vez de, como acontece na verdade, aumentar apenas a ganância e a prática da exploração daqueles que dependerão delas e que é uma forma de enriquecer as empresas e sugar os trabalhadores.

Actuação de negócio, se pegarem na palavra, só significa ''a tua acção'', a tua, não é do Governo, não é da troika nem do FMI, nem das Universidades, nem das empresas grandes ou pequenas, é tua, está em ti o locus de causalidade. Isto é o que nós estamos a perceber, cada um de nós tem o poder para actuar e agir e controlar o seu posicionamento no mercado. Há muita gente a fazer as perguntas erradas.
diz Gonçalves, a cerca de oito minutos do seu discurso. Uma ideia interessantíssima que deposita no próprio trabalhador recém-licenciado a responsabilidade e a capacidade de entrarem no mercado de trabalho e serem bem sucedidos. Mas o ponto essencial aqui, que talvez passe despercebido, é o facto de se retirar do Governo e das empresas a responsabilidade de viabilizar sequer essa entrada. Dizer que depende apenas do trabalhador assegurar um trabalho é isentar de culpa o Governo, ou os vários Governos que, de várias formas, permitiram o afundamento das finanças numa dívida cujo pagamento afecta muito mais o cidadão comum do que aqueles que causaram essa dúvida; e isentar de responsabilidades as empresas. O problema de Portugal nunca foi faltar trabalho foi, isso sim, a falta de dinheiro para pagar esse trabalho, ou a falta de vontade de gastar esse dinheiro. É um facto que, neste momento, as empresas têm sabido aproveitar as dificuldades dos jovens em encontrar emprego para os contratarem em condições miseráveis e, pior ainda, sem qualquer perspectiva de alguma vez conseguirem trabalhar noutras condições.
Isto tudo, para nem referir o facto de, para Miguel Gonçalves, serem de longe muito menos importantes a competência e a preparação do que a capacidade de um indivíduo para se vender a si mesmo.
Um sujeito como Miguel Gonçalves é a água perfeita para o Governo e as empresas lavarem as mãos da sua responsabilidade de criar emprego, de criar condições de emprego e de, de uma vez por todas, entenderem que o dinheiro deveria trazer consigo uma série de obrigações. Incentivar os jovens a terem uma atitude positiva face à exploração não diminui a exploração nem melhora a vida de ninguém.
Devíamos parar de nos queixar? Talvez. Mas de certeza que a melhor atitude para substituir a queixa não é a subserviência disfarçada de empreendedorismo. A atitude de Miguel Gonçalves pode ser a melhor para a situação em que vivemos, mas só conduz ao perpetuar dessa situação. Criticar essa situação, incitar os jovens a revoltar-se contra ela, a procurar mudá-la a todo o custo seria muito mais interessante, mas também muito mais polémico. E é provável que Relvas não o tivesse convidado a dar a cara pelo Impulso Jovem, gratuitamente, claro: para quê pagar quando se pode ter de graça?

Sábado, 23 de Março de 2013

Tori Amos: I Can't See New York



Do álbum 'Scarlet's Walk' (2002)
Letra de Tori Amos

(...)
You said you'd find me
But I can't see New York
'Cause I'm circling down
Through white clouds, falling out
And I know his lips are warm
But I can't seem to find 
My way out of this hunting ground
(...)


Sexta-feira, 22 de Março de 2013

Harmonia das Esferas


Pelas grades das persianas a lua cheia desembolsa
Em pleno no meu quarto, vómitos jorram até manchar a cama.
Nela deitado ardo como um olho que nunca mais pode fechar,
Uma pequena poça de carne, um órfão do tamanho de uma orelha.

Lá em baixo adolescentes dão estoiros nas garagens, expõem
Com gritos as partes pudendas niqueladas num regaço
De tijolo, dão cabo das janelas e matraqueiam com taipais
Para chatear a noite, mais o bairro, toda a danada da criação.

Mais tarde o torturante gotejar dos segundos
Nas goteiras de zinco. Tlipe. Tlipe. Plom. E lá ao fundo
Nos jardins carbonizados e ermos
A invisibilidade uivante dos gatos no cio.

Desde que moro aqui, mando longas cartas
Para a casa anterior. Lá, podia dormir, vigiar, silêncio
E escuridão aí reinavam, como no sedutor vazio rítmico
E opressivo de poemas por escrever.

Leonard Nolens
trad. do neerlandês flamengo por Catherine Barel
Uma Migalha na Saia do Universo (Antologia de Poesia Neerlandesa  do Século Vinte)
ed. Assírio e Alvim
pintura de Isabel de Sá

Quarta-feira, 20 de Março de 2013

Um 'Apontamento'


Muitas vezes me pergunto a mim mesma o que é um livro.
O mesmo que as pessoas! apetecia-me responder. Ou: são tão diversos os livros como elas... Mas estabelecendo uma comparação destas eu daria grandes âmbitos à obra escrita, dar-lhe-ia foros de extraordinária variedade. E não me sinto com esse direito.
Eu penso nos livros, lembro-os, distingo-os, com a maior calma. Um livro é sempre uma mensagem entregue, por mais banal que seja o dito. E uma pessoa, qualquer que seja, é uma verdadeira incógnita... É um ser incompleto, defendido e misterioso, sempre apto a desdobrar-se, a confundir-nos.
Um livro tem uma conclusão e uma única alma, aquela que lhe deu existência numa dada época. E as pessoas são eternamente variáveis! Complicadas e irregulares. Não vamos nós tantas vezes com bondade ao seu encontro, para lhes oferecermos o que temos acumulado no coração; doçura ou virilidade? E não voltamos desiludidos? A alma alheia é uma perfeita antagonista da nossa.
Podemos fazer dela a ideia que se faz de um livro, julgá-la definida e característica... mas enganamo-nos. Um livro deixa-nos umas tantas impressões, que se guardam ou que lentamente se dissolvem. E as pessoas têm mil pequenas almas, todas elas vivas e contraditórias. Constantemente inquietas, vaidosas, reprimidas e prontas a saltar.
As pessoas são infinitamente desanimadoras e diversas. E os livros não; são simples. São uns produtos artificiais e ocasionais dos nossos estados; passaram a viver fora de nós, tornam-nos apenas lembrados.

Irene Lisboa
Apontamentos
1943, ed. da autora
desenho de Dante Gabriel Rossetti

Sábado, 16 de Março de 2013

O Convento dos Capuchos (Sintra)




Convento de Santa Cruz, conhecido popularmente como Convento dos Capuchos é uma invulgar construção nos confins da Serra de Sintra, fundada em 1560 para uma pequena comunidade de ordem Franciscana. Inicialmente, a comunidade contava com oito monges investidos em fazer uma vida meditativa, pobre e de renúncia ao mundo. Ainda hoje este lugar está isolado em relação à cidade de Sintra. ficando de fora mesmo dos percursos turísticos que, infelizmente, ocupam o centro das preocupações políticas e urbanísticas dessa cidade.
O estudo da História da Arquitectura ensina-nos a procurar traços comuns a edifícios da mesma época. Em Portugal, a Arquitectura atravessa uma fase, de vários aspectos, difícil de definir. Por um lado, os modelos medievais, especialmente o Românico tinham-se prolongado enquanto o resto da Europa já os abandonara. O classicismo entra tarde em Portugal, e é difícil destrinçar os traços Renascentistas dos Maneiristas. Mas, apesar de servir um extenso programa (Dois terreiros, um alpende, três capelas, uma igreja, um coro, um claustro, uma enfermaria, trinta celas, quarto-de-banho, refeitório, cozinha, sala do capítulo e biblioteca.), não há no Convento dos Capuchos muito que nos indique o século XVI. 



















Se há alguma referência na concepção deste edifício, ela tem mais a ver com os princípios teológicos de Francisco de Assis e com a forma de vida, extremamente pobre e austera, da Ordem respectiva. Os corredores estreitos, baixos e escuros dão acesso a celas exíguas por portas baixas que incitam a genuflexão, ou então para compartimentos de utilização colectiva que, apesar disso, são igualmente contidos. Em todos os espaços é visível o despojamento que causaria certamente um tremendo desconforto físico a quem habitasse aquele lugar. A iluminação natural existe apenas através de pequenas e toscas janelas com acesso para o exterior, sendo o resultado que, mesmo assim, grande parte dos espaços, mesmo durante o dia, estão mergulhados numa penumbra que parece fechar os homens sobre si mesmos, retirando-os do mundo que, ali, existe apenas na imagem de um pequeno quadrado da paisagem da Serra de Sintra. É talvez uma forma de provocar essa ''elevação'' que conduz a um contacto mais directo com deus e, nesse sentido, a Arquitectura funciona aqui, mais do que como uma concepção espacial, como forma de viabilizar essa comunicação entre entidades. Ou seja, e por estranho que pareça, o espaço actua sobre o Homem para o tirar do próprio espaço e levá-lo a um outro, que não é físico. Este é um espaço capaz de se anular a si mesmo, e talvez por isso, mesmo agora que está já desocupado, continua a transpirar o ambiente religioso que, podemos supor, não será eventualmente muito diferente daquele que existia entre o século XVI e o século XIX, quando foram extintas as ordens religiosas masculinas. Mais ainda, esta capacidade do espaço de fechar o Homem sobre si mesmo para o abrir ao divino, confere também ao Convento dos Capuchos uma espécie de vinculação ideológica com o que conhecemos da cultura arquitectónica do Antigo Egipto. Desta civilização, conhecemos essencialmente os túmulos, as cidades dos mortos, porque a dos vivos era irrelevante. Essa despreocupação perante a vida terrena, que se compensa numa concentração na vida espiritual definiu toda a primeira Arquitectura egípcia, e é também o cânone que parece orientar a concepção do Convento dos Capuchos.

Outro aspecto a assinalar, e que é igualmente decisivo para a eficácia do Convento, é a sua relação com a natureza, com o espaço natural onde é construído. As dependências do Convento distribuem-se tirando partido tanto das cotas irregulares da serra, como das formações rochosas que não raro integram as paredes, as coberturas ou o chão dos espaços. O edificado propriamente dito abre-se para um terreiro, por um dos lados, e para o pequeno claustro com a capela, mais elevado. A integração do Convento na natureza simboliza, por um lado, a não-interferência com a obra directa de deus, por outro, é uma forma de recusar o luxo ou a grandeza da própria concepção espacial que, para se adaptar ao terreno, perde uma série de possibilidades de organização.




A segunda questão, ligada intrinsecamente com a primeira, é a da construção do Convento. Apesar da sua recusa ao ornamento e ao luxo, o Convento é um edifício de construção sofisticada. Por mais que o seu aspecto seja tosco e quase bruto, a sua construção não poderia ser mais meticulosa e mais inteligente (A prova disso é que cinco séculos depois, o Convento continua erguido.). A forma como as formações rochosas que integram na estrutura é impressionante e o efeito poético do conjunto dos espaços em muito contraria a ideia inicial de pobreza e de imediatismo que o edificado pode dar.



Dificilmente, portanto, se encontraria um edifício mais complexo do que este. É frequente que a Arquitectura se imponha a si mesma a necessidade de perguntar como encontrar as soluções mais simples e menos artificiosas de conceber espaços habitáveis. O Convento dos Capuchos fornece-nos uma resposta a um tempo assombrosa e perturbadora a esta pergunta. Porque, por mais que nos possamos sentir asfixiados pelos espaços severos e claustrofóbicos, somos também obrigados a reconhecer que nos seria possível satisfazer ali todas as nossas necessidades mais básicas. Somos, assim, obrigados a confrontar-nos com a resposta mais pura à simplicidade que a Arquitectura procura, sem qualquer contaminação do mais diminuto vício burguês, por assim dizer, que nos leva a construir de outras formas.

(Uma versão resumida deste texto foi publicada em http://coisas-gerais.tumblr.com/)

Convento dos Capuchos (Sintra): Plantas

1. Terreiro das Cruzes   2. Portão do Convento    3. Terreiro da Fonte   4. Alpendre da Portaria   5. Capela do Senhor dos Passos   6. Igreja   7. Coro   8. Corredor    9. Claustro   10. Enfermaria   11. Cela


12. Quartos-de-Banho    13. Celas    14. Corredor    15. Refeitório   16. Cozinha    17. Sala do Capítulo   18. Cela de Noviços

19. Cela escura   20. Celas da enfermaria e de visitas   21. Biblioteca/ Escritório   22. Cela   23. Capela do Senhor no Horto    24. Varanda    25. Capela do Senhor Crucificado    26. Cova de Frei Honório


Plantas retiradas daqui

Domingo, 10 de Março de 2013

10 de Março

é o meu aniversário e, pelos vistos, também o de Boris Vian e Carrie Underwood. Portanto, ficam aí hoje os dois, em fotografia e em música.





Terça-feira, 5 de Março de 2013

Sextina


Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
Se por caso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de ante os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo.
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!
Pois nunca uma hora viu tão longa vida
Em que possa do mal mover-se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Para que choro? Enfim, para que falo?
Se lograr-me não pude de meus olhos?

Ó fermosos, gentis e claros olhos,
Cuja ausência me move a tanta pena
Quanta se não compreende enquanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
De vós me inda inflamasse o raio vivo,
Por bem teria tudo quanto passo.

Mas bem sei que primeiro o extremo passo
Me há de vir a cerrar os tristes olhos,
Que Amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena,
Que escreverão de tão molesta vida
O menos que passei, e o mais que falo.

Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento noutro passo,
Vejo tão triste género de vida
Que, se lhe não valerem tanto os olhos,
Não posso imaginar qual seja a pena
Que traslade esta pena com que vivo.

Na alma tenho um contínuo fogo vivo,
Que, se não respirasse no que falo,
Estaria já feita cinza a pena;
Mas, sobre a maior dor que sofro e passo,
Me temperam as lágrimas dos olhos;
Com que, fugindo, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos, e sem língua falo;
E juntamente passo glória e pena.


Luís de Camões
pintura de Michele del Campo

Segunda-feira, 4 de Março de 2013

Portishead: Magic Doors



Do álbum 'Third' (2010)
Letra de Beth Gibbons, Geoffrey Barrow, John Baggot

(...)

Often I've dreamt that I don't wait
Enjoy the gift of my mistake
Like then again I'm wrong and I confess
(...)

Regina Guimarães/ Ana Deus: Roupa Anterior

Justamente a dimensão de letrista de Regina Guimarães parece ser o seu lado mais divulgado. Desde as primeiras experiências nos Três Tristes Tigres, Regina já escreveu letras para os Clã, os Osso Vaidoso, os Nadadores de Inverno, entre outros projectos, muitos deles a par com Ana Deus
Tendo a publicação em livro da poesia de Regina conhecido uma publicação mais regular nos últimos anos (O que, de resto, é de louvar, uma vez que se trata de uma das vozes mais originais da poesia portuguesa surgida nos anos 80.), é interessante o trabalho mais recente da escritora, este também a par com Ana Deus.

'Roupa Anterior' é um pequeno livro manufacturado, que reúne algumas letras de Regina Guimarães interpretadas em vários projectos por Ana Deus. Mais do que compilar trabalhos musicais, esta pequena mixtape escrita e gravada junta uma série de canções feitas para filmes e espectáculos, sendo, portanto, trabalhos eventualmente mais difíceis de encontrar. Lançado no Porto e em Lisboa, o livro/CD é montado pelas autoras, com imagens de Paulo Anciães Monteiro à mistura, sendo, portanto, cada exemplar único e manuscrito.





Domingo, 3 de Março de 2013

Infância e Palavra



No princípio, era o Verbo _pelo menos na minha infância, toda caldeada pelo encantamento da palavra.
A palavra, lengalengada, d' a pintinha põe o ovo prà menina papar todo_ das brincadeiras com que se dava à criança a consciência do rosto e das mãos, esta barba, barbadeira, esta boca, comedeira, este nariz, narizete, estes olhos de pisquete, esta testa, de giesta, este cabelinho, que não é loiro, foge, menina, que te estoiro!, que terminavam, depois de corrido todo o rosto, com uma sapatadinha na testa. Havia também o varre, varre, vassourinha, se varreres bem, dou-te um vintém, se varreres mal, nem um real_ e, pumba!, uma palmada na mão, porque, não sei porquê, se supunha sempre que a vassourinha não varria a preceito. Muito da minha predilecção era o serrobico, bico, bico, todo feito de beliscõezinhos nas costas da mão, enquanto a lengalenga ia acabando quem te deu tamanho bico, foi a velha chocalheira, que anda lá pela ribeira a apanhar ovos de perdiz para o filho do juiz, que está preso pelo nariz_ e era o nosso que se puxava no fim.
Depois, havia a palavra mimenta, tão doce e cheia de ternura! Inspirava-se nos passarinhos e no perfume das maçãs: _Minha carricinha, inquieta! Minha maçãzinha de pardo lindo. A noite trazia a palavra musical das últimas orações:

Anjo da Guarda,
minha companhia,
guardai minha alma
de noite e de dia.

A palavra-mistério, de sons desconhecidos, que estabelecia a ligação com o divino, ouvia-se no latim da missa: Dominus Tecum! Sursum corda! E na ladainha: Turris eburnea, Stela Matutina...
Quando tínhamos de ficar na cama, por sarampo ou constipação, havia a palavra fascinante e narcisíaca dos contos de fadas_ Espelho meu, espelho meu, haverá no mundo alguém mais belo do que eu? _e que podia tornar-se maléfica: _Quem isto ouvir e o for contar, em pedra se há-de tornar! Ou a palavra viva e popular das histórias tradicionais, muito do gosto de minha mãe, cheias de mãos a abanar, sem eira nem beira, mas espertalhotes, capazes de comer as papas na cabeça dos reis e de casarem com as princesas. Ai, como me lembro delas!
A palavra dos jogos tinha duas faces: uma de perder, outra de ganhar. Ferrum-fum-fum, ferrum-funfelho, quantas abelhas há no cortelho? Aqui vai uma barquinha carregadinha de aves, de abraços, de beijos... Quando se perdia, por falta de resposta pronta, dava-se prenda e no fim recorria-se ao senhor juiz sentenciador, que sentença se há-de dar ao dono desta prenda, seja ela de quem for? Juiz que, às vezes, ordenava, romântica e comprometedoramente, que se perguntasse:
_Se o meu coração fosse um bosque, quem mandavas lá passear?
Mas menina não gosta de estar sempre quieta. Menina corropia de roda. E a palavra das cantigas era dançante e anunciava o amor:
_Machadinha, minha machadinha,
quem te pôs a mão sabendo que és minha?
Havia também a Condessa-condessinha, condessa-do-Aragão, a que não dava as filhas nem por ouro, nem por prata, nem por sangue de leão, nem por sangue de lagarta. O cavaleiro tinha de dar provas, antes de poder dizer:

_Estimo e estimarei,
sentada numa almofada,
a fiar continhas de ouro,
salta cá, minha esposada!

Na infância era fácil acreditar que Deus tinha criado o mundo pela palavra. Que a luz seja! E a luz foi. Pelo poder da palavra tinha Xerazade conseguido adiar, por mil e uma noites e depois para todo o sempre, a sentença de morte que pesava sobre ela. A palavra foi para mim uma segunda placenta, aconchegante, onde na adolescência irrompeu o deslumbramento por dois poetas: Cecília Meireles, com o seu recorte visual, e Camilo Pessanha, com a água, morrente, do tempo a esvair-se na própria água do poema. E a palavra-poética tornou-se para mim a palavra-ninho, porque é realidade e é símbolo, a mais significante, polissémica no mesmo contexto, a mais texturada de conotações, e a que não admite sinónimos, já que é insubstituível. Por ela soube que a palavra é, ao mesmo tempo, música e canto e soluço _e o milagre mais próximo do bafo e do coração humano.

Luísa Dacosta
Infânica e Palavra
2001, ed. Asa
desenho de Maria Keil

Sábado, 2 de Março de 2013

2M

A Terceira Miséria


32.
                                      Estão as praças,
Como ágoras de outrora, estonteadas
Pela concentração dos organismos,
Pelo uso da palavra, a fervilhante
Palavra própria da democracia,
Essa que dá a volta e ilumina
O que, por um instante, a empunhou.
Oh, os amigos, os abandonados,
Esses, os desatinados ao extermínio,
Esses os belos despojados, nus,
Os que, mesmo nascendo no Inverno,
Pouco sabem do frio, gente que dorme
Na sombra do meio-dia, ouvindo o canto
Das cigarras, o canto sobre o qual
Hesíodo escreveu. Gente do Sul
Gente que um dia se desnorteou.


33.
De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Hélia Correia
A Terceira Miséria
2012, ed. Relógio d'Água
pintura de Paula Rego

Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2013

Florbela Espanca (algumas fotografias)


 
Florbela e o primeiro marido, Alberto Moutinho. Foram casados entre 1913 e 1921

António Guimarães, o segundo marido, com quem Florbela esteve casada entre 1921 e 1925

O terceiro marido, Mário Lage. O casamento durou de 1925 até 1930, ano em que Florbela se suicida.

Apeles Espanca, o irmão mais novo de Florbela, a quem é dedicado o ''Livro de Mágoas'' (1919). Apeles morre em 1927. Florbela escreve, em sua memória, o livro de contos ''As Máscaras do Destino'', editado postumamente em 1931.

Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013

Quando os dias se movem


usamos nalgumas coisas uma violência simples
isso é romper os símbolos que envidraçam o resto
mas parte quem amamos quando os dias se movem
e se escolheu os limites para a pele aderir

no fundo de nós mesmos omitem-se tais coisas
e criam-se ficções, defesas, crueldades
dos jogos da aparêcia (à vista nos perdemos)
e movem-se nos dias seus múltiplos contrários

e contudo se movem se quem amamos fere
e o faz de razão fria ou esquecidamente
e a alegria se torna um torpe imaginário
quem muito amamos mata: vai-nos desinventando

Vasco Graça Moura
Instrumentos para a Melancolia
1980, ed. O Oiro do Dia
pintura de Mário Botas

Sábado, 9 de Fevereiro de 2013

[de cima, de antes, de mais fundo]


de cima, de antes, de mais fundo
me suspendo, de um jardim, de um espelho
em reflexão, de um automóvel em corrida,
de mais fundo me suspendo, internamente,
de antes, de cima, do mais fundo estado,
como um dente a entrar no alimento,
como um rio a entrar no estado sólido,
recônditamente entro, reconcentro
os vários sítios no meu centro,
em reflexão.

Luiza Neto Jorge
O Seu a Seu Tempo
1966, ed. Ulisseia
gravura de Francisco Goya y Luycientes

Tame Impala: Lonerism

O PRAZER DA CONFUSÃO

Se houve banda que, a meu ver, mudou o rock irreversivelmente, essa banda foram os Nine Inch Nails (Talvez não devesse falar no plural, uma vez que se trata de uma one-man-band.). O lançamento, em 1989, de 'Pretty Hate Machine' é um acontecimento muito mais importante do que muitas vezes nos lembramos. Antes de Marilyn Manson, que traria também algo de muito novo ao género, Trent Reznor conseguiu, sozinho, assimilar toda a história do rock e subvertê-la de uma forma que o deixou, por assim dizer, orgulhosamente só num lugar cujo impacto está ainda por apurar. As experiências de bandas que, goste-se ou não, fizeram a história deste género e dos mais próximos (Penso nos Joy Division, nos Guns'n'Roses, nos Slayer, nos The Doors, nos Faith No More, etc.) parecem ter sido condensadas por Reznor que, por um lado, as continua e, por outro, se recusa a continuá-las. A adição da electrónica e do ritmo quase dançável , vindos de tendências aparentemente opostas ao rock, às canções brutas, agressivas e pesadas como que colocava em cena dois actores incapazes de contracenar. Se isto parecia um dramedy improvável, Reznor conseguiu produzir um álbum que, mais do que ficar na história da música, a mudou e, depois de 'Pretty Hate Machine' tem conseguido outros momentos de impressionante arrebatamento, como 'The Fragile' (1999), 'With Teeth' (2005) ou 'The Slip' (2008).
Muitas experiências que, entenda-se, são verdadeiramente originais, não teriam tido, possivelmente, espaço para essa originalidade, se os caminhos não tivessem sido já abertos por Reznor (E por alguns outros depois dele.). 

Ocorre isto para falar dos Tame Impala, especificamente do álbum 'Lonerism', lançado no final de 2012. O álbum anterior, 'Innerspeaker' (2010) mostrava-nos a tendência algo psicadélica da música da banda australiana e o uso da electrónica remontava discretamente aos NIN, sem no entanto a glosar. 
Em 'Lonerism', a inclinação para a electrónica desconcertante a soar no meio das guitarras não desaparece. Pelo contrário, intensifica-se e acontece de uma forma muito mais equilibrada e inteligente.
Be Above It, que abre o novo álbum, tem algo de ensurdecedor e de confuso, que perpassará para as outras canções. No seu todo, 'Lonerism' leva à letra a palavra psicadélico, tem momentos obsessivos e excessivos, vemos isso em Apocalypse Dreams e em Elephant principalmente, e outros que, sendo mais relaxados, continuam a ter, estranhamente, algo de descosido, de interrompido, como acontece com a canção final, Sun's Coming Up. A estranheza que causa, a início, um álbum dos Tame Impala (Mais ou menos o mesmo acontecia com o anterior.) prende-se com o facto da música dar a impressão de ser construída não com instrumentos nem com voz, mas com uma espécie de patchwork de energias contraditórias que, apesar do seu desequilíbrio intrínseco, combinadas formam canções muito perfeitas. 
A própria fragilidade da voz de Kevin Parker, espécie de eco longínquo em que as palavras se vão perdendo e metamorfoseando, parece apontar para a constante desconstrução das canções. Mind Mischief ou Why Won't They Talk To Me? são exemplos dessa desconstrução, uma vez que a própria voz parece vir quase de uma canção diferente
Ao longo de 'Lonerism', as faixas dão a impressão de aparecer e desaparecer umas nas outras. O resultado é que o álbum, longe de parecer a partir de certo ponto mais do mesmo, nos soa como um todo, efectivamente. 
Instrumentalmente, esta música vive da bizarra comunicação entre as guitarras estridentes e dos sintetizadores frenéticos, com a bateria e a voz a firmarem ou a fragilizarem essa comunicação. Feels Like We Only Go Backwords será talvez a canção onde esse jogo de atracção/repulsão fica mais à vista.
Todo o álbum parece ser feito não necessariamente de contradições, mas de antagonismos. A própria atmosfera do álbum é melancólica (As próprias letras, escritas pelo vocalista, para isso nos orientam.), mas descontraída. Why Won't They Talk to Me, Keep on Lying ou She Just Won't Believe Me, por exemplo, tratam de assuntos um tanto tristes, mas são tocados com uma sonoridade vaga e relaxada, com longos solos instrumentais que derivam da letra para outras zonas mais delirantes, por assim dizer.
Se em certos momentos nos parece ouvir na música dos Tame Impala alguns ecos longínquos _penso nos Doors, em David Bowie, nos Pink Floyd, nos Faith no More e até, em Elephant (Uma das melhores canções do álbum.) nos Goldfrapp_  a verdade é que, acima de tudo, esta música tem qualquer coisa de inqualificável e de novo.
Em 1989, 'Pretty Hate Machine' foi realmente um acontecimento e, se abriu o caminho aos Nine Inch Nails, abriu também uma série de outros para outros projectos. Os NIN não serão a referência que mais imediatamente nos ocorre, mas o trabalho de articulação entre a electrónica e o rock puro e duro, que os Tame Impala herdam directamente, foi desenvolvido em pleno por Trent Reznor (Uma vez que o glam rock não foi verdadeiramente capaz de levar essa junção ao extremo.).
Mas se 'Lonerism' mostra alguma coisa, é que os Tame Impala podem ter herdado o groundbreaking dos Nine Inch Nails, mas souberam fazer a sua própria música. E fazê-la bem, claro.