Terça-feira, 6 de Março de 2012

Amigo de Intelectuais


O sr. Francisco, dono do mini-mercado e do snack-bar que ficam de fronte da casa do U., disse-me que "era uma vergonha que, sendo eu amigo de intelectuais, tivesse um tão mau comportamento" (Referia-se ao U., que é seu cliente;........ "Mas sr. Francisco" respondi-lhe eu, à maneira de Júlio Dinis, "o sr. disse: os intelectuais são eles; eu sou apenas seu amigo.
Como posso comportar-me tão bem?"

Sebastião Alba
Ventos da Minha Alma
2006, ed. Quasi
desenho de Isabel de Sá

Sou Fujimoto: House O


Actualmente, a Arquitectura Japonesa contemporânea é apreciada e estudada um pouco por todo o mundo, particularmente através da obras de Kenzo Tange, Tadao Ando, Kazuyo Sejima, Ryue Nishizawa ou Sou Fujimoto, alguns dos quais inclusivamente laureados com o Prémio Pritzker. Mas será talvez justo dizer que o grande impulsionador da Arquitectura contemporânea japonesa terá sido o Terramoto de Hanshin-Awaki em 1995. A partir dele, coube aos Arquitectos trabalhar sobre determinadas necessidades sociais, que afectavam directamente a construção, e que, depois do terramoto, ficavam em aberto. É a partir daqui que se retomam alguns ideais modernistas, ligados à simplicidade, à funcionalidade, ao despojamento e a uma forte sensibilidade cultural, acrescidas da vontade dos arquitectos de pensar ou repensar as questões da habitação e do próprio conceito de Arquitectura.
Sou Fujimoto tem uma obra fortemente alicerçada sobre a vontade de pensar a habitação e a construção, como, aliás, percebemos sem dificuldades pela leitura de ''Primitive Future'', o ensaio escrito pelo próprio e que melhor aborda e analisa esta obra. Questões como a noção de público e privado, da escala, de uma relação do novo com o tradicional e do moderno com o ancestral, e ainda das possibilidades abertas pelas noções mais básicas de habitação têm sido das mais decisivas para o percurso de Sou Fujimoto, e também das que têm feito desse percurso um bastante peculiar mesmo no contexto da nova Arquitectura japonesa.


Um dos vários exemplos do cariz reflexivo e insólito do trabalho de Sou Fujimoto é a Casa O. A encomenda pedia uma casa de fim-de-semana para um casal, em Tateyama, na costa sudeste do Japão, a duas horas de Tóquio. O terreno é em frente do mar, numa formação rochosa.
Vista em planta, a solução criada por Fugimoto para esta proposta, parece ser construída através da recriação dos galhos de uma árvore, sendo vivida como um único espaço, contínuo, que se divide sem que essas divisões sejam marcadas de forma rígida ou abrupta, ou seja, em detrimento da fluidez e liberdade do espaço, Fugimoto abdica de paredes e portas no interior. As separações necessárias para a criação dos vários espaços exigidos por uma casa são então conseguidos através da própria morfologia do projecto, com as suas reentrâncias, esquinas e ramificações. A propósito desta casa, Fujimoto fala de uma 'Arquitectura de distâncias'. Este conceito torna-se visível uma vez que observemos mais atentamente a casa, e percebamos que, através da utilização do betão, por um lado, e do vidro, por outro, ao percorrer a casa somos levados a diferentes relações com o espaço exterior, como se, de acordo com os diferentes pontos da casa, dentro do mesmo espaço pudéssemos estar ora perto ora longe dos espaços que a rodeiam. Por isso nos parece efectivamente natural que o arquitecto diga que 'Criar Arquitectura não é mais que criar várias distâncias'.




O processo criativo atravessou várias fases até chegar á sua versão final, mas é também certo que a estratégia pensada por Fujimoto para a Casa O parece ter estado definida desde a primeira ideia conhecida, em que um só segmento rectangular é dobrado e torcido, de maneira a suscitar já uma variedade de espaços e já organizados de forma fluida. A ideia vai-se tornando mais complexa e mais ramificada, o que nos mostra a vontade de Fujimoto de atender às contingências do terreno. Assim, manipulando mais atentamente a forma original, o arquitecto consegue criar momentos de intimidade/ privacidade, e outros em que o habitante pode criar um contacto mais intenso com o Oceano Pacífico ou com as formações rochosas sobre as quais a casa está construída. Aliás, o terreno foi também decisivo para várias das opções de Fujimoto para a Casa O, uma vez que outra das suas preocupações foi a da integração da casa com esse terreno. Assim, sobre a formação rochosa, o que Fujimoto implanta é uma formação monolítica irregular, em que um ponto de entrada não é claro. As paredes de betão serão lisas e polidas no interior, mas no exterior mantém uma textura rugosa e quase tosca, precisamente no sentido de minimizar a diferença entre o betão e as rochas. Mas uma vez dentro da casa, os grandes painéis de vidro dão sobre o mar, funcionando como uma explosão, e, dada a colocação destes painéis no esquema da casa, encontram-se várias vistas do mesmo mar, indo assim a casa de encontro à ideia de Fujimoto de 'fazer uma casa com vários oceanos'.






No fundo, muitos dos princípios teóricos que têm definido o percurso de Sou Fujimoto são evidentes na estratégia e na concepção da Casa O. A sua preocupação com a ancestralidade, ligada à caverna ou à gruta, ajuda-nos a compreender a disposição dos materiais na casa; a alusão aos galhos das árvores reforça a relação que este arquitecto tanto tem explorado com a Natureza; e o tratamento dessa ideia representa mais uma hipótese para as novas abordagens da geometria que Fujimoto já vem operando em muitos dos seus projectos.
Mas, acima de tudo, a Casa O mostra-nos que como é, de facto, construir de uma forma absolutamente moderna recorrendo apenas aos conceitos mais primários, abrindo-se, assim, caminho para esse 'futuro primitivo' que Fujimoto tem vindo a desenvolver.






BIBLIOGRAFIA
''Parallel Nippon – Arquitetura Contemporânea Japonesa (1996-2006)'' (Catálogo da exposição), São Paulo, Dezembro de 2010
El Croquis, nº 151, 'Sou Fujimoto'
C+A Magazine, nº 12, 'Sou Fujomoto: House O'
Fujimoto, Sou: Primitive Future, 2008, Inax Publishing

Segunda-feira, 5 de Março de 2012

Promises Like Pie-Crust



Promise me no promises, 
So will I not promise you: 
Keep we both our liberties, 
Never false and never true: 
Let us hold the die uncast, 
Free to come as free to go: 
For I cannot know your past, 
And of mine what can you know? 

You, so warm, may once have been 
Warmer towards another one: 
I, so cold, may once have seen 
Sunlight, once have felt the sun: 
Who shall show us if it was 
Thus indeed in time of old? 
Fades the image from the glass, 
And the fortune is not told. 

If you promised, you might grieve 
For lost liberty again: 
If I promised, I believe 
I should fret to break the chain. 
Let us be the friends we were, 
Nothing more but nothing less: 
Many thrive on frugal fare 
Who would perish of excess.



Christina Rossetti
Poetical Works
1904, ed. MacMillan

fotografia de Arthur Tress

Domingo, 4 de Março de 2012

Não posso esquecer aquele dia

A Maria Keil



Não, eu não posso esquecer aquele dia em que julguei que por uma moeda a Primavera seria toda minha.

Ia por um caminho onde a luz era clara, o ar puro, frescos os tons dos verdes: onde os aromas das mimosas e violetas se confundiam na sua doçura. Onde sobre o ribeirinho de água límpida havia a graça duma estreita ponte. Onde se não ouvia mais do que o canto dos pássaros.

Sonhava com a beleza da Primavera, respirava fundo e sentia-me feliz.

Mas de súbito o meu olhar esbarrou nuns olhos grandes e tristes; olhos que eram dum rosto miúdo e pálido, dum corpo magro doente. E o olhar fixou-se num vestidinho roto, numas mãos pequenas e infantis.

Os meus sonhos foram interrompidos. Irritada, porque aquilo cruelmente me acordou, pus uma moedas nessas mãos e bradei: «Vai com Deus!»

O corpo magro, o rosto miúdo e pálido desapareceram da paisagem primaveril.

A luz era clara, frescos os tons verdes; a água do ribeirinho, límpida. E só se ouvia o canto dos pássaros. Nada disso porém me fazia já sonhar, não bastava para eu me sentir feliz. Atrás das mimosas doiradas, das  violetas azuis, havia agora milhões de rostos miúdos e olhos tristes; torciam-se numa dor sem fim milhões de mãos pequenas e infantis.

Enganei-me quando julguei que por uma moeda a Primavera seria toda minha.

Ilse Losa
Grades Brancas
1951, ed. Centro Bibliográfico de Lisboa
desenho de Maria Keil do Amaral


Mísia e Vasco Graça Moura


O Mês de Dezembro IV




os namorados mortos não sabiam
e não queriam morrer, nunca ninguém
em verdade o quis já, mas acontece
que quase sempre morte e a amor se tocam


dos namorados mortos não se diga
que já não têm destino nem são livres
sequer de os esquecermos mesmo quando
se lhes apaga o rosto o sítio o nome


os namorados mortos não são fáceis
tu, por exemplo, evitas enredar-te
com o que sabes deles, mas que sabes
além de alguma história ou da aparência?

Vasco Graça Moura
O Mês de Dezembro e Outros Poemas
1977, ed. Inova
pintura de Mário Botas

Sábado, 3 de Março de 2012

Canção para o dia de hoje


Mastodon: The Czar (I: Usurper, II: Escape, III: Martyr, IV: Spiral) (Do álbum 'Crack the Skye', 2009)

Sexta-feira, 2 de Março de 2012

A Terceira Miséria, 23



A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.



Hélia Correia
A Terceira Miséria
2012, ed. Relógio d'Água
pintura de Frans Snijders

Quinta-feira, 1 de Março de 2012

Mísia em Castelo Branco



Desde a morte de Amália Rodrigues que o Fado passou a estar na moda. O estatuto de Património Imaterial da Humanidade é um pouco o culminar desse surto de popularidade de que, durante muitos e muitos anos, o Fado careceu. A nova geração de fadistas traz-nos boas vozes, traz-nos algumas interessantes propostas. No entanto, em 1990, Mísia lança o seu primeiro álbum, homónimo, um álbum de Fado. A escolha era arriscada, e a invulgaridade de Mísia caiu mal a muita gente. Felizmente que as críticas negativas, aliás, reaccionárias, que cedo se fizeram ouvir, não foram suficientes nem para que ela parasse nem para que sequer se inibisse. Pelo contrário, o projecto de Mísia foi-se tornando cada vez mais complexo, mais intelectualmente elaborado. E, proporcionalmente, cresceu a incompreensão portuguesa a um projecto que outros souberam acolher com a devida atenção e a devida admiração.
Essa incompreensão foi muito visível no Sábado passado, 25, no Cine-Teatro de Castelo Branco. Pela primeira vez em muitos anos, Mísia faz em Portugal uma pequena digressão, apresentando um dos seus trabalhos mais ricos e mais belos, o álbum 'Senhora da Noite', lançado no final do ano passado. É recebida por uma plateia apenas meia-cheia e que parecia ter sérias dificuldades em aplaudir com o mínimo de entusiasmo. Sinceramente, eu não podia ter ficado mais desgostoso. Felizmente, Mísia não se deixou abalar e deu um grande concerto realmente.
Entrou na sala com Senhora da Noite, acompanhada de guitarra portuguesa, viola de fado, violino e acordeão. Ao longo da noite, Mísia foi bastante comunicativa, explicando a génese deste seu mais recente álbum e falando um pouco das autoras cantadas ao longo do concerto.
Assim em Ulissipo passámos por Rosa Lobato de Faria, a poeta, escritora e actriz recentemente falecida e a quem o álbum é dedicado, mas ainda pela também fadista Aldina Duarte em Lua Mãe das Noites, por Adriana Calcanhotto que, ao que contou Mísia, venceu finalmente o medo de escrever para Fado e deu a Mísia Que o Meu Coração Se Cansou. Em Que Silêncio é Esta Voz, Mísia cantou brilhantemente versos de Natália Correia, mas nem sempre as quadras que estão na versão de estúdio, criando assim um novo poema, que, mesmo sendo novo, continuava a adequar-se perfeitamente a todo o contexto em que é cantado. Também de Agustina Bessa-Luís se falou, aquando de Garras dos Sentidos II, que, agora fica provado, continua a resistir como grande canção ao ser cantado sobre o Fado Corrido, em vez do Fado Menor, onde era cantado na sua primeira versão. De facto, este é um momento isolado na obra de Agustina que, além de não ter mais nenhum poema (Pelo menos que seja conhecido.) é famosa pelas suas opiniões mais ou menos controversas quanto a poesia. O seu poema é belíssimo e Mísia conseguiu, mais uma vez, entregá-no-lo prodigiosamente.
Seguiu-se uma guitarrada, que manteve, mesmo assim, o acordeão e o violino, criando um momento realmente intenso. Mísia voltou depois, com Simplesmente, de Amélia Muge, um dos momentos mais serenos do álbum, que ao vivo ganhou outra genica, que também lhe assentou bem.
Depois disto foi tempo de conhecermos outra senhora da noite muito concreta, a prostituta de que fala a Sombra, da actriz e letrista Manuela de Freitas. Um dos momentos mais arriscados da noite seria o seguinte, a Tarde Longa, cujo impressionante poema de Lídia Jorge é cantado, no álbum, acompanhado de piano, instrumento que não existiria no concerto. Mísia interpretou-o com os quatro músicos, e a diferença instrumental fez-se sentir, sem, no entanto, destruir a beleza da versão de estúdio e, bem pelo contrário, criando uma espécie de variação muitíssimo forte do original. O poema confirmou aí a sua fulgurância e Mísia brilhou verdadeiramente.
O primeiro regresso ao passado deu-se a seguir, quando Mísia recuperou, do álbum 'Ritual' (2000) a letra que para ele havia escrito, Cor de Lua. Foi uma escolha muitíssimo interessante, uma vez que esta canção é das mais dramáticas e mais intensas de todo o percurso de Mísia, e entrou no espírito de 'Senhora da Noite' com toda a perfeição. Mais ainda, o facto de, a seguir, termos ouvido O Manto da Rainha, também escrito por Mísia, veio mostrar-nos uma certa unidade que denuncia um interessante universo que encontramos em ambas as letras que conhecemos escritas pela fadista.
A canção que abre o álbum, Fado das Violetas, neste concerto chegou quase no final. É um dos momentos mais intensos de todo o reportório de Mísia, pelo que não deverá ter sido surpresa para quem o conheça que este tenha também sido um dos momentos mais intensos de todo o concerto. De facto, os versos de Florbela Espanca são exigentes, e, cantando-os sobre o Fado Hilário, Mísia consegue conferir-lhes toda a emotividade extrema e quase excessiva que eles exigem. Um fado assim talvez só mesmo Mísia o pudesse pensar e cantar, pois ele exige aquilo que precisamente Mísia tem e poucos mais têm: a capacidade de cantar com o corpo todo.
A terminar, a Raposódia Amália, construída com várias quadras escritas por Amália Rodrigues, que teria resultado melhor ao vivo se o público soubesse aderir -o que não foi o caso.
Profissional, claro, Mísia acabou por regressar para cantar mais duas canções, duas que podemos considerar clássicos do seu reportório. Primeiro, Formiga, outro poema de Rosa Lobato de Faria que, ficámos a saber, nos conta metaforicamente a história dos primeiros e dificultuosos anos de carreira da cantora. E, a terminar, Lágrima, mais um poema de Amália Rodrigues, e que Mísia gravara duas vezes: no álbum 'Fado' (1993) e em 'Ritual'. Sendo uma das canções mais interessantes de Amália, Mísia soube dar-lhe nova roupagem e torná-la sua e foi um final muito digno para um espectáculo brutal.
Se neste concerto houve aspectos negativos, eu só vi um: que Mísia não tenha voltado com mais frequência aos álbuns passados. Os regressos foram essencialmente a 'Ritual', mas a verdade é que seria possível ir buscar outros momentos, uma vez que Mísia desde sempre teve mulheres a escrever para ela e, de álbum em álbum, encontramos canções que teriam feito todo o sentido para esta 'Senhora da Noite'.
Em tudo o resto, Mísia brilhou, como esperaria qualquer um que lhe conheça o percurso. Pelo menos para mim, não ficam dúvidas de que Mísia, por mais que a ignorem, continua a ser a maior e a melhor. Take that Portugal!!!

Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

Muriel



Desde que deixaste a cidade, Muriel, os clubes fecharam
E há mais um candeeiro fundido na rua principal
Ali onde costumávamos passear.
Muriel, ainda assombro os mesmos velhos antros
E tu segues-me sempre onde quer que eu vá
Muriel, vejo-te num sábado à noite na casa de jogos
Com o cabelo apanhado, atrás
E aquele brilho de diamante no olhar
E a única aliança que alguma vez te comprarei Muriel.
E, Muriel, quantas vezes abandonei esta cidade
Para me esconder da tua memória
Que me persegue
Mas nunca vou além do bar mais próximo
Onde compro outro charuto barato e te encontro em cada noite
Muriel, Muriel...
Olá amigo, tem lume?

Tom Waits
Nocturnos
1989, ed. Assírio e Alvim
pintura de Edward Hopper

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Agustina tem destas coisas... (32)

Um grande amor nunca é espontâneo.



de 'Adivinhas de Pedro e Inês', 1986

The Gift: Primavera

O OUTRO LADO

Depois de uma capa com todas as cores do arco-íris numa fotografia tirada na Índia, o novo álbum dos The Gift apresenta-nos a fotografia de uma árvore muito Six Feet Under, a preto e branco, que mais simples não podia ser. Dado que este álbum surge em tempo-record, apenas um ano depois de 'Explode', não deixa de ser instintivo que, mais do que o normal, pensemos numa relação entre os dois álbuns, antes até de pensarmos uma relação com a discografia total.
'Explode' era um álbum que mostrava uns Gift redondamente diferentes daquilo que deles esperávamos, ainda que, ao longo do seu percurso, em mais que um momento eles tenham dado mostras de que facilmente poderiam trabalhar o lado mais pop-rock da sua personalidade. 'Explode' era, por isso, o álbum que vinha reiniciar o processo que 'Digital Atmosphere' viera começar em 1996. Algumas grandes canções dos Gift estavam nesse álbum, assim como algumas das canções menos interessantes deles também estavam nesse álbum. O facto é que, a partir de 'AM-FM' (2004) os Gift pareciam muito convictos em afirmar o lado pop da sua música, ainda que, se olharmos friamente a música dos primeiros três álbuns, tenhamos que convir que de pop ali temos pouco material, o que, para mim, não deixa de ser uma coisa boa. Mas, se 'Explode' nos vinha dizer alguma coisa, é que a música pop pode realmente ser boa, quando feita por bons músicos. Assim sendo, uma vez assentada a poeira, fica-nos na mão um álbum que tem muito de bom mas que, mais do que nunca, nos deixa a dúvida sobre o que se segue.


Curiosamente, não demorou muito até que a dúvida fosse esclarecida e, logo no princípio de 2012, recebemos este 'Primavera' que, na pior das hipóteses, já nos diria o que fizeram os Gift depois de 'Explode'.
O título, primeiro em português para os Gift, cria de imediato uma relação com o álbum anterior, uma vez que era também o título de uma das canções que o integravam. E, de facto, logo ao vermos o alinhamento, vemos como, de certa forma, este álbum tem, de alguma forma, o seu berço em Primavera e, portanto, em 'Explode': aqui temos três Variações sobre, e ainda uma versão acústica dessa canção. 
A abertura de 'Primavera' faz-se com Black, uma canção instrumental que efectivamente nos introduz naquilo que irá ser o álbum. É uma canção essencialmente acústica, bastante despojada, serena e bastante concisa. Por isso, já não nos surpreenderá quando começarmos a ouvir La Terraza, outra canção acústica, construída essencialmente sobre a voz de Sónia Tavares e o piano de Nuno Gonçalves. Para o bem e para o mal, a verdade é que Sónia Tavares é, senão a melhor, certamente pelo menos uma das melhores vozes da música portuguesa actual e, portanto, será sempre a sua voz uma das linhas de força da música dos Gift. La Terraza faz, portanto, o melhor uso da voz de Sónia, que, mais do que nunca, nos parece perfeitamente capaz de uma larga paleta emotiva, o que acaba por ser bastante positivo, principalmente pelo facto da letra ser bastante longa, tornando-se, assim, sempre irregular e nunca enfadonha ou monocórdica.
Open Window segue basicamente a mesma estrutura, de voz e piano, e ainda alguns arranjos discretos. A aparente serenidade da canção é depois interrompida por um coro que canta alguns versos em português e que, tão de repente quanto começa, é calada pelo retomar da voz de Sónia em inglês, desta vez também também acompanhada de uma electrónica subtil. A Variação sobre a Primavera I é outro momento instrumental, curto, bastante simples, quase a fazer lembrar os tempos de 'Vinyl' (1998), com uma certa melancolia. Senhsucht é cantada em português, confirmando a vontade que os The Gift já vêm manifestando desde há algum tempo, de dar maior ênfase à sua produção em português. A canção é construída na mesma estrutura de voz e piano, desta vez com arranjos de cordas, como costumava ser hábito dos Gift, até 'Explode'. No entanto, desta vez, os arranjos, que, além do mais, não têm exactamente protagonismo, contribuem mais para enfatizar a melodia do que propriamente para tornar a canção mais grandiosa, se assim se pode dizer. Também Variação sobre a Primavera II nos faz lembrar um pouco os Gift iniciais, com o som de uma voz no rádio à mistura com uma série de sons sintéticos num aparente efeito de cacofonia, um pouco como acontecia antes do último refrão de Changes ou no final de Real (Get Me For).
A canção que se segue é, a meu ver, não só a melhor de todo o álbum, como também a mais conclusiva. Blindness é construída com base numa letra repetitiva ao ponto da obsessão, de uma linha de piano, uma beat sintética e voz. É uma canção de construção absolutamente simples, mas que consegue, com a maior eficácia, fundir a música de dança com aquele lado mais melancólico que a música dos Gift costumava ter. Por assim dizer, esta canção é uma canção daqueles Gift que conhecíamos de Cube, de Next Town, de Wake Up, de Dream With Someone Else's Dream ou de Butterfly, mas completamente contaminada por um tipo de música aparentemente oposto, completamente próxima do downtempo ou até do house. E, de certa forma, esta canção vem mostrar-nos aquele que poderá ser um caminho para os Gift depois do díptico 'Explode'/'Primavera', uma vez que, melhor do que nunca, as duas vertentes parecem conjugar-se neste Blindness.
Meaning of Life é um regresso à canção de voz e piano, sendo os arranjos desta feita conseguidos com coros e alguns tratamentos de voz. O resultado acaba por ser invulgar e quase bizarro, mas Meaning of Life é uma canção realmente boa. A Variação sobre a Primavera 3 parece, de certa forma, retomar a primeira variação, com piano e guitarra acústica, trabalhando ambos sobre a melodia original de Primavera. Les Tulipes de Mon Jardin (The Perfect You) será, de facto, a canção menos conseguida do álbum. Apesar da música que faz pensar realmente num renascer, muito consonante com o título do álbum, a letra não deixa de parecer completamente excessiva e também cheia de lugares comuns e, por mais que, no geral, possamos ficar com a impressão que esta é uma canção esperançosa, acaba por ser uma canção que, no fundo, não faz grande falta ao álbum.
Segue-se a versão acústica de Primavera, versão que resulta tão bem quanto a versão original. De facto, apesar da letra ter dois versos um tanto mal conseguidos, a canção não deixa por isso de ser uma grande canção e, no geral, esta é uma roupagem diferente, e não uma versão mais pobre.Aliás, a voz de Sónia Tavares fulgura aqui com outra força, o que só favorece a canção.
O final de 'Primavera' é também instrumental, com Long Time, uma canção de tonalidade agridoce e quase elegíaca, em que, de certa forma, o álbum se reinicia, como se esta canção nos pedisse que voltássemos a Black e, daí, continuássemos a ouvir.


Ouvido o álbum, percebemos com facilidade a relação que 'Primavera' tece com 'Explode': no fundo, são dois lados, opostos, da mesma banda, e mostram-nos que os Gift não esqueceram as suas raízes, ainda que não estejam dispostos a repeti-las ispsis-verbis. Tal como 'Explode' nos deixava algumas grandes canções pop-rock, 'Primavera' deixa-nos algumas grandes canções acústicas e depuradas. E, em cada um dos álbuns, temos uma canção que resume aquilo que cada um tem de melhor: Always Better if you Wait For the Sunrise em 'Explode' e Blindness em 'Primavera'. Se ouvirmos estas duas canções seguidas, verificamos que, a partir daquilo que elas formam, muito pode ser feito, o que nos deixa grandes expectativas para o próximo álbum dos Gift. Além disto, 'Primavera' também nos mostra que a banda está numa fase muitíssimo criativa e também muito livre. Mais ainda, para aqueles que reagiram mal a 'Explode', 'Primavera' que, como já disse, tem com ele uma relação bastante intensa, pode muito bem ser a prova de que 'Explode' merece ser ouvido com redobrada atenção.
E uma coisa é certa: os Gift estão no bom caminho, e não numa fase pobre ou comercial, pelo que, deles, justifica-se ter a imagem que temos desde 'Vinyl': que são uma das grandes bandas portuguesas, perfeitamente capaz de ombrear com tantas bandas por esse mundo fora.

Necrophilia 12


Um grito vem de dentro de uma mata, do
círculo que se cria entre as heras
e os troncos. É o grito de um abutre a ser
engolido por outro, um desafio à
seiva derretida, à própria ausência de vida.
Não há tempo para esperar pela erosão
do vento, a não ser que o pó castanho dos
velhos dormitórios invada os campos de
batalha e cubra tudo de veneno. A
mulher aparece no caminho de urzes,
subitamente, como um pedaço de carvão
que cai de cima de um móvel, uma visão
demasiado brutal para um humano.

Jaime Rocha
Necrophilia
2010, ed. Relógio d'Água
desenho de Dante Gabriel Rossetti

Fauvisme



Les villes s'imprègnent des couleurs
que les campagnes ont perdues
ou libérées
-pollens et duvets,
rouilles et argiles
cendres et poussières d'étoiles.


Les villes refoulent des orages
et roulent sur la pente du couchant
cherchant la foudre de leurs dents
telles des oranges sanguines
consanguines.


Les villes déchirent de leurs dents
le chevalet du peintre en promenade
pour offrir aux figures qui les hantent
un paysage à dévorer
d'un seul trait.


Elles font d'une pierre deux coups
et marchandent leur lumière
dans un lexique
haut
en
couleur,
comme on dit.


Cependant,
au coeur immédiat des villes,
toutes les couleurs aspire à l'azur.
D'où cette grisaille
qui les dévêt
souvent sans uns parole.


Un jour
la nuit tombera des arbres
fleur après fleur
feuille après feuille
moineau après moineau.


Alors
nous manquerons de rigueur
mais le temps sera au rendez-vous.


Ta fenêtre, ma fenêtre
sera ouverte
toute la nuit durant
sur des langues inconnues
merveilleusement parlées
par des passants
merveilleusement inconnus.

Corbe (Regina Guimarães )
Lieux Dits
2011, ed. Hèlastre
pintura de Henri Matisse

Leonorana: Variação XI


PROGRAMA: 3º desenvolvimento. Circunscrição absoluta aos elementos do tema. Des-semantização por alteração sintáctica.

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura
Vai formosa e não segura

CAMÕES
descalça vai para a fonte. leonor pela verdura.
para a fonte vai segura. leonor e não formosa.
vai descalça. vai verdura. e não vai para a fonte.
vai leonor. e vai descalça. pela fonte.
para a descalça verdura. a fonte vai. descalça.
pela leonor verdura. pela segura. pela formosa.
para a descalça. pela e não vai. para a leonor.
vai e não para. pela formosa. não para a.
fonte e leonor. vai não verdura. pela descalça.
para a segura. e não para vai. não para a fonte.
leonor para. segura vai. para a não descalça.


Ana Hatherly
Anagramático
1970, ed. Moraes
pintura de Edward Burne-Jones

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

A Violação de Lucrécia



Há muito que as flores ficaram esquecidas. Sentimos chegar de novo o seu odor
que existe apenas junto das nossas mãos. Esperamos assim a noite. Poderiam
nascer no interior de qualquer sala as mesmas sombras, o que para ti era
semelhante ao leve rumor de quaisquer passos que vinham atravessar um caminho
que a ninguém pertencia. «Fiquei mais envelhecida; quantos instantes
passaram, como se fosse a água que desde sobre o peito ao despertarmos, -tranquilo
sinal que nos fica do amor. Talvez seja o seu brilho que vem ao nosso encontro, sereno
como a resposta do sangue; era só um murmúrio que se aproxima devagar, ao esperarmos
o mesmo voo que nos procura inutilmente.» Que outras palavras
aqui ficaram repetidas? As aves afastaram-se, elas que tinham apenas
a forma das nossas pálpebras. Tornara-se mais leve o sofrimento, e sobre cada rosto
distingue-se o que talvez fosse uma nova carícia: alguém havia de trazer consigo a luz
necessária, a que ilumina os corpos. «Fecha os teus olhos», disse. «Assim principia
a afastar-se de nós um gesto quase inútil. Entregaste-me esse movimento destinado
a ser uma promessa que vinha para nos magoar; por isso, me venceste.» Nada mais te 
                                                                                                        [queria dizer;
tranquila era esta maneira de olhar na curva de qualquer caminho não para
alguém, mas apenas o lugar onde já não estávamos. Existe a ternura como se fosse
ainda um aceno; era o que recordavas só para que de novo nos pertencesse.
Compreendemos que muitas coisas ficaram esquecidas no interior dos nossos olhos
e foi em sua direcção que caminhaste. «Um amor como o meu é demasiado grande
para que o possas perdoar. Mas o que te venho dizer é simples; espero há muito
que adormeças, como se dentro de ti se perdesse agora a minha voz. O sono
traz consigo um pouco da nossa morta, e a dor há-de existir como se víssemos as margens
do mesmo rio.» Tudo tem um fim; porque começava nele a tua pureza?

Fernando Guimarães
Tratado da Harmonia
1988, ed. Justiça e Paz
pintura de Dante Gabriel Rossetti

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Agustina tem destas coisas... (31)

_Se queres que te diga, faz falta um cálice de licor. Mas a viscondessa não mandou os licores.
_Como é ela? -indagou, pressuroso, Albino. _Claro que me refiro ao aspecto ético.
_Oh, é uma mulher gorda, mas emagrecida. Daí extrai toda a ética que tu quiseres.




de 'Contos Impopulares' (1953)

[Gregor transformou-se em barata gigante.]



Gregor transformou-se em barata gigante.
Eu não: fiz-me aranhiço,
tão leve que uma leve brisa o faz
oscilar no seu fio de baba lisa.
Até que, contra a lei da natureza,
creio que tenho peso negativo,
e me elevo no ar se me não prendo
ao canto mais escuro desta ilha.
Quando descer à teia derradeira
não se verá no mundo alteração, ou só
talvez alguma mosca mais contente.
Em noites de luar, na alta esquina,
ficará a brilhar, mas sem ser vista,
a estrela que tracei como armadilha.


António Franco Alexandre
Aracne
2004, ed. Assírio e Alvim
desenho de Louise Bourgeois

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

Mísia: Senhora da Noite

GRITO DE BACANTE

Depois do lançamento de 'Ruas' (2009), aquela que, para mim, é a fadista mais original e de trabalho mais complexo desde Amália, anunciou a sua retirada. O argumento era o de que tudo o que tinha a fazer em termos de fado estava já feito. Para felicidade de quem, como eu, admira profundamente o trabalho insólito de Mísia, tais promessas não redundaram em factos, e, já no final de 2011, é lançado o novo álbum.


'Senhora da Noite', diga-se desde já, prova uma coisa: que 'Ruas' não esgotava todas as possibilidades de Mísia. Não que isto possa surpreender quem tem acompanhado o seu percurso. Se há coisa que a fadista nos tem mostrado é que a sua versatilidade está enraizada numa acentuada criatividade, espicaçada, parece-me, por uma proporcional inquietude, que tem levado a fadista a não só não repetir aquilo que já foi feito no fado (E convenhamos que era fácil que assim fosse.) como a não repetir-se a si mesma, reinventando-se a si mesma, renovando as nossas concepções de fado que, como Mísia diz numa entrevista ao programa 'Inferno', é uma canção urbana.
O conceito de 'Senhora da Noite' está de alguma forma próximo do conceito de 'Garras dos Sentidos' (1998). No álbum de 98, Mísia cantava poemas de poetas e escritores sobre fados tradicionais. Em 'Senhora da Noite', Mísia regressa ao fado tradicional, cantado sobre ele escritoras e letristas do sexo feminino apenas. A ideia resulta bem, no sentido de mostrar a mulher como elemento criativo, e excluindo aquilo que encontramos normalmente no fado, que são a da mulher apenas como intérprete ou então como inspiração.
'Senhora da Noite' abre com Fados das Violetas, cuja letra é conseguida através da junção de algumas quadras dos poemas As Quadras Dele e Poetas, de Florbela Espanca, junção essa perfeitamente conseguida, principalmente dado que ambos os poemas partilham a ideia das violetas, que Mísia isola como título para a letra da sua canção. O poema é cantado sobre o Fado Hilário, a que Mísia consegue conferir várias tonalidades, começando de uma forma quase serena e terminando, acompanhada pelo violino, nas últimas duas quadras cantadas de uma forma dramática e extrema, que são quase uma segunda canção dentro da canção. A abertura é forte, e acaba por, na sua dualidade, introduzir-nos nas duas tonalidades essenciais entre as quais oscilará o resto do álbum.
Segue-se Ulissipo, poema da recentemente falecida Rosa Lobato de Faria cantado sobre o Fado Alberto. De certa forma, esta canção faz uma ponte com o álbum anterior, onde era Lisboa que se cantava. É uma das canções mais interessantes e inesperadas, onde, numa transformação mitológica metafórica, Rosa Lobato de Faria nos dá uma ideia diferente da 'saudade', fazendo de Lisboa uma Penélope que espera que Ulisses volte de viagem. A voz acompanha com vigor o acordeão, que parece, de alguma forma, aproximar-se de alguma música francesa, o que talvez nos aponte para o período em que Mísia viveu em Paris, antes de regressar à Penélope/Lisboa.
'Senhora da Noite' traz-nos também, apenas pela segunda vez em dez álbuns, uma letra de Mísia, e a primeira assinada com o nome artístico (A outra, Cor de Lua, do álbum de 2000, 'Ritual', era assinada com o nome Susana Aguiar.). O Manto da Rainha, cantado sobre o Fado Menor, foi escolhido para apresentar o álbum, com o belíssimo videoclip realizado por John Turturro, e a escolha parece-me bastante acertada. Além da importância de ser um dos raros poemas escritos e cantados por Mísia, o poema em si parece sintetizar uma série de ideias que vamos encontrando de canção em canção. Enquanto autora, Mísia revela não só um grande à-vontade em expressar o seu mundo, (Que, de resto, fica claro nas escolhas de poemas de outros autores.) como também grande destreza em criar quer uma série de imagens interessantes e de subtilezas linguísticas, a começar pelo próprio título ('Manto da Rainha' é na verdade uma das linhas da palma da mão.).
Outro momento central é Senhora da Noite, um belíssimo poema de Hélia Correia (este) com música de Armandinho. A canção está estruturada de forma a acompanhar um pouco os momentos do poema: numa primeira estrofe em que esta senhora de noite nos explica a sua origem, é acompanhada por violino e piano, criando uma atmosfera mais pacífica e intimista e, à medida que começa a falar-nos da sua vida presente, vão entrando as guitarras que acrescentam um certo ritmo, bastante adequado a um poema a que não falta um delicado erotismo e também um delicioso 'grito de bacante', em que esta mulher é livre apenas a cantar, o que resume, de resto, muitíssimo bem o conceito deste álbum: nele, a personagem que canta e que escolhe as palavras é necessariamente uma mulher que, nessas palavras e nesse canto encontra a liberdade. Mais ainda, assinale-se como o poema se insere perfeitamente quer no universo de Mísia como no deste álbum em específico, sem por isso abdicar de certos traços que qualquer leitor de Hélia Correia facilmente reconhecerá.
Lua Mãe das Noites traz-nos um poema de Aldina Duarte, também ela fadista, que Mísia canta sobre o Fado Varela. Aldina parece sondar as letras mais tradicionais do fado de modo a construir a sua, e, ao fazê-lo, consegue vários momentos de impressionante originalidade ('Paixão que foste sempre maré vaza', por exemplo.), e Mísia parece reforçar esta ideia, já que é a primeira vez no álbum que grava com a estrutura instrumental de guitarra acústica/ guitarra portuguesa/ baixo.
Praticamente desde o princípio da sua carreira que Mísia mais nos tem mostrado que o fado não é uma música portuguesa, mas, de certo ponto de vista, uma expressão portuguesa de sentimentos universais. Se o lado 'Tourists' de 'Ruas' nos provava isto quando a fadista grava canções de, entre outros, os Joy Division, os Nine Inch Nails ou Camaron de la Isla; em 'Senhora da Noite', a colaboração de Adriana Calcanhotto, como autora da letra de Que o Meu Coração se Cansou vem, mais uma vez mostrar-nos a universalidade do fado. Adriana, sem abandonar certos maneirismos da sua escrita, dá a Mísia um refinado poema a que Mísia, acompanhada por uma guitarra de dez cordas e violino, consegue dar a roupagem mais adequada, em que um tom acusatório e dramático não cede de forma alguma ao sentimentalismo lamechas.
Se há momento que, mais do que surpreendente, se torna mesmo desconcertante, é Garras dos Sentidos II. Mísia recupera aqui, e isso tem todo o sentido, o poema que Agustina Bessa-Luís já havia escrito para a sua voz, no álbum que, aliás, a este poema vinha buscar o título. Em 1998, Mísia cantara-o sobre o Fado Menor, que parecia assentar perfeitamente ao tom lúcido mas trágico do poema. O poema ressurge agora sobre o Fado Corrido e, numa primeira audição, parece-nos quase estranha a junção da linguagem altiva e árdua de Agustina com a melodia animada do Fado Corrido, ainda por cima interpretado com violino e acordeão, e com Mísia, no meio, falando, como que dando-nos ideia de que canta ao vivo numa taverna daquelas em que o Fado terá nascido. Mas, ouvindo com mais atenção, percebemos que esta junção poderá ter, na verdade, um interessante sentido: o de que, por mais que agora no Fado se procurem por vezes as palavras dos eruditos, já quando o Fado era música de tavernas populares cantava os mesmos sentimentos que hoje ainda canta, quer sejam eruditos ou populares os seus letristas.
'Senhora da Noite' marca também um regresso que muito tardou. Tarde Longa traz-nos um divinal poema de Lídia Jorge (este), cantado também sobre o Fado Menor. Trata-se de um texto sucinto e límpido, mas a sua beleza, a sua profunda comoção e a sensibilidade intensa das suas imagens, certamente nos recordarão que Lídia Jorge já havia escrito dois poemas igualmente belíssimos para Mísia no álbum de 1998 (Fado do Retorno e Sou de Vidro.) e, tal como acontece com o poema de Hélia Correia, a adequação deste poema ao universo de Mísia não é incompatível com certas características que nitidamente pertencem ao universo de Lídia Jorge, por isso, esta nova colaboração da escritora é outra das boas notícias deste álbum. Tarde Longa é interpretado com apenas voz e piano, o que em muito favorece a atmosfera íntima do encontro descrito, e Mísia, que sempre compreendeu o valor das palavras, sabe encontrar a intensidade de versos tão belos como

Ficaremos abraçados
Estendidos como num lenço

Por tudo isto, a meu ver, Tarde Longa é certamente outro dos momentos fulcrais de 'Senhora da Noite'.
Segue-se Simplesmente, um poema de Amélia Muge, também cantora e uma das mais interessantes autoras a escrever música em Portugal. Esta letra vem lembrar-nos a mestria que Amélia Muge sempre teve em lidar com a língua portuguesa, com a força das suas expressões e das suas inexactidões (Como falar de 'coisas'.), aspecto que poucos letristas souberam trabalhar de forma tão intensa (Entre esses poucos contem-se, por exemplo, Regina Guimarães e Sérgio Godinho.). Mísia potencia ainda esta letra com a sua capacidade de teatralização, que é de resto uma das linhas de força de todo o seu trabalho, fazendo da voz um instrumento de representação, com corpo, expressão e pose.
Neste álbum, Mísia também recupera, pela terceira vez na verdade, uma das maiores poetas portuguesas de sempre: Natália Correia. Já em 'Drama Box' (2005) Mísia fizera uma letra colando quadras de diferentes poemas de Natália, que resultaram em E Se a Morte Me Despisse. Em 'Senhora da Noite', Mísia repete essa estrutura, para criar Que Silêncio é Esta Voz, sendo que o resultado, tal como já acontece com os poemas de Florbela Espanca, na abertura, nos dá um poema bastante conciso, que parece confrontar-nos com alguém que desenha a sua vida entre a dualidade silêncio/voz, chegando a uma interessante conclusão, com duas quadras de diferentes poemas

Quando me derem por morta
Lágrimas nem uma pinga
Um trevo de quatro folhas
Tenho debaixo da língua


Vou pelos campos de linho
Do poeta D. Dinis
Atirar a flor de pinho
Que onde cai é um País

como se, mesmo depois de morta, esta pessoa prosseguisse o seu caminho e assim não perdesse a voz, pelo que, de certo ponto de vista, este poema me parece uma verdadeira e digna homenagem a Natália que, de facto, mesmo depois da morte, não perdeu a voz.
Fogo Posto apresenta-nos um belo poema de Maria do Rosário Pedreira. Ainda que alguns dos livros desta autora me pareçam de qualidade menor, ao escrever esta letra para o Fado Britinho, Rosário Pedreira parece encontrar a intensidade que encontramos nalguns dos seus poemas. De facto, Fogo Posto é um momento muito interessante de 'Senhora da Noite', uma vez que ele recupera muitos dos temas essenciais do Fado (A traição, o ciúme, o desespero.) escritos de uma forma inesperada e Mísia, uma vez mais, prefere uma pose digna do que uma pose suplicante que é reforçada pelo acompanhamento que, além das guitarras, conta com o acordeão e o piano, resultando na canção, uma vez mais, um certo travo a chanson.
E se já a propósito de Lídia Jorge falei de regressos, Sombra também marca um regresso, o da actriz Manuela de Freitas, que já havia escrito Decisão, um dos poemas mais fortes do álbum 'Ritual'. Sombra é também um poema dramático, sobre uma prostituta numa esquina, apresentando-nos, por isso, uma certa angústia ligada à cidade. É uma das canções mais tristes e Mísia sabe como fazer com que nessa tristeza exista ainda uma certa compaixão que em muito intensifica as palavras.
A terminar, encontramos a Raposódia Amália, onde Mísia volta a utilizar a técnica da manta de retalhos que já usa com Florbela e Natália, sendo que desta vez não usa apenas quadras de poemas diferentes de Amália Rodrigues, mas também, para cada, uma música diferente, revelando, por isso, nas constantes mudanças de melodia, a extrema versatilidade quer da sua voz, quer da ambiência dessa voz. O poema que resulta desta raposódia é também ele bastante coerente e acaba por este ser um dos momentos mais invulgares de 'Senhora da Noite', que nos mantém, até ao fim, num estado expectante.


No fundo, aquilo que 'Senhora da Noite' nos mostra é aquilo que já há muito tem sido mostrado nos álbuns de Mísia: que ela não é apenas uma intérprete de Fado, mas também uma das maiores pensadoras e questionadoras dessa canção urbana que é o Fado, e que a dimensão experimental do seu trabalho sempre chega a conclusões insólitas mas nada inusitadas. Portanto, tanto a versatilidade, como a criatividade como a inquietude de Mísia sempre resultam em trabalhos complexos mas ricos e densos, que, estes sim, abrem verdadeiramente caminho à renovação do Fado, crédito que muitas vezes injustamente é retirado a Mísia. Porque ela tem esse dom raro que é a insatisfação, que origina a necessidade de procurar e encontrar, continuamente, o dom que tem, por exemplo, Björk. Por essas e outras razões, convém não deixar escapar 'Senhora da Noite'.

As mulheres de 'Senhora da Noite'

Florbela Espanca

Rosa Lobato de Faria

Mísia

Hélia Correia

Aldina Duarte

Adriana Calcanhotto

Agustina Bessa-Luís

Lídia Jorge

Amélia Muge

Natália Correia

Maria do Rosário Pedreira

Manuela de Freitas

Amália Rodrigues


Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

(Monólogo a horas mortas)


Não sei o que me toma a esta hora ou, sabendo-o, ignoro-o para que não sejam cúmplices os ouvidos da cidade -queda e translúcida se pudessem deambular nela meus passos. Nenhuma coisa é já premente se bem que me construa afincadamente até me doerem as pálpebras e o gosto acre do perfil. Seremos protagonistas de uma história sem fim vislumbrado, a cidade e eu, ensimesmadas no abandono de quem laboriosamente representa o teu papel, o meu, o de tantos eus que por não se morderem se infertilizaram. Sitiados é bem verdade dentro da razão sua, ás vezes da revolta, também omissos, inoportunos na displicência instituída de cada dia. E se uivam agora os cães, que presságios acarreta o eco enquanto tantos dormem? Será versátil todo este viver connosco próprios na espera do amanhã vir. Debalda-se a expectativa na despedida de alguma luz que se apaga vista desta janela. Como se um comboio viesse mesmo sem alguém no cais.
Quem chegará a colher os meus passos? [Tempos houve em que falei de heróis de espuma, do aliciante vento da promessa. Ou, à beira de renegá-los, escrevia já poemas de raiva prevendo a desesperança -foi a confissão que alguém, podendo uma vez ter lido, nunca leu. E vinham então os arrebatamentos pueris, o espasmo por limar da decepção. E crescendo ia sempre este casulo à força de se me fatigarem as palavras.] Quem me cortará os atalhos, a fim de que chegue mais depressa? Do lado de cá, onde eu ciclicamente como que deixo de sentir-me, que apelos sobressaem dos ruídos, dos imensos múltiplos ruídos do canal da vida? Será vagarosa e interminável esta luta. Além, imobilizam-se os desatinos de eu-espectadora. Cá, deste lado, talvez o travo do cigarro como marca, algum troço mais indelével, alguma crença restabelecida que que o mundo sancione e eu esforçadamente alimente. Este o destino do que é fluido e incomestível: a passividade das paredes, o odor a esperma transviado, um simulacro de aventura. E se alguém se esvai de noite entre os lençóis, sei não ser eu a causa primeira, nem final.

Wanda Ramos
Intimidade da Fala
1983, ed. &etc
desenho de Dante Gabriel Rossetti

Primeira canção de 'Weather Systems'



Antes do lançamento de 'Falling Deeper', no ano passado, os Anathema disponibilizaram, através do download gratuito pelo site da KScope, Kingdom.
À semelhança, então, do que acontecia no álbum anterior, chega-nos esta semana The Beggining and The End, uma simpática previsão do álbum 'Weather Systems', que será lançado a 16 de Abril deste ano.
Numa linha melódica, que não dispensa o acústico, e bastante límpida, esta canção deixa de facto boas expectativas para o álbum que em breve teremos em mãos.

Podem fazer o download aqui.

Respiração


E ao fim de tanto amor comecei a sentir pelos vivos o que sentia pelos mortos. A maneira de os ouvir ler. O sentar-me junto à mais baixa inflexão de voz, vendo a descida do som e as mãos que participam da leitura. Ficar sentada para sempre junto aos joelhos senis desses leitores entre os vivos. Conhecê-los e reconhecê-los com uma auréola de luz divina no crânio como a que tinham os mortos santos pelo seu merecimento. Aqueles de que eu fora testemunha por vezes reveladora durante quase cinco décadas. O que eu sentira elaboradamente pelos mortos sobretudo o desejo avassalador de ressurreição estava agora a ser exigido pelos vivos, a própria carnalidade. Todo o ouro que mostram as figuras aparecidas na leitura.

Fiama Hasse Pais Brandão
Visões Mínimas (1968-1974)
in 'Obra Breve'
2007, ed. Assírio e Alvim
pintura de Felix Labisse

À espera do primeiro eléctrico



Outros que critiquem
o planeamento do território,
os crimes urbanos, a droga
que pacifica os estados
aparando sedições virtuais.
Apetecia-me comer, agora,
mas os poemas só têm valor real
(isto é, monetário) na lua
de Bergerac. No Martim Moniz,
em perpétua demolição, nem cheques
aceitam -quanto mais versos
que não rimam com nada.


Tenho à minha frente o futuro,
um futuro de três cervejas
e talvez de um charro,
se encontrar alguém. Um futuro breve
(a redimir ou não nas ruas mais altas),
nenhuma vontade de amor
e os pés acentuadamente azuis
-fétidos, sem dúvida alguma.


Já me propus, em dias de tédio maior,
escrever um poema vário, curar-me
destas ladainhas pouco edificantes.
Não deu, paciência. Consola-me ao menos
a irrefutável pobreza do quotidiano.
Estamos bem um para o outro
(mas uns trocos davam-me jeito, com real ou sem
ele -e eu não sei arrumar carros).


A noite lá faz o que pode.


De sarjeta em sarjeta
isto podia tornar-se interminável,
se a paciência me quisesse
honrar, tísica como uma musa.
Mas acabo na Cachupa,
corpo & poema num enxovalho mesmo,
à espera da manhã que sinistra
avança e vomita de luz
o primeiro eléctrico
rumo ao desespero.

Manuel de Freitas
Os Infernos Artificiais
2001, ed. Frenesi
fotografia de Arthur Tress

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

Canção para a noite (E, desta banda, a única canção que não me faz sangrar os ouvidos.)



Maroon 5 feat. Christina Aguilera: Moves Like Jagger (Do álbum 'Hands All Over', 2011)

Sobre a Nudez


Quoi! Tout nu! dira-t-on, n'avait-il pas de honte?
...................................................................
Tout est nu sur la terre, hormis l'hypocrisie.

MUSSET, Namouna




Nus nascemos, nus
nos inspecciona o médico,
a tropa, o professor de ginástica.


Nus, na mesa de operações,
na cama de hospital,
no dia da morte.


Nus no amor para nos vermos,
sentirmos a pele dos outros corpos e
para mais que penetrarmos


termos o choque e o roçar
que nos dizem do quanto penetramos.
Nus sempre, menos no que não importa.


Porque há então quem tema tanto
a nudez dos outros? Será
que teme, menos que o feio


de muitos, a beleza de
alguns, ou o fascínio das
esplêndidas partes


de uns raros? E que, paralisados
(de inveja), deixemos que o mundo e a vida
se soltem à deriva


para a nua liberdade?


1968-69

Jorge de Sena
Peregrinatio ad Loca Infecta
1969, ed. Portugália
pintura de Michael Leonard