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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

sobre Luísa Dacosta, no seu 88º aniversário

Há seis anos, eu estava a mudar-me para Lisboa. Vivi o primeiro ano num quarto pequeno ao Bairro Alto, que não tinha grandes vantagens, mas deixava-me próximo pelo menos da Baixa, e das livrarias, que foram sempre um dos meus paraísos. Aos sábados, o que acontece ainda hoje, fazia-se na Rua Anchieta uma feira, com bancas de livros, desde os mais raros (e caros) até outros a preços de ocasião. Foi nesse primeiro ano em Lisboa e nessa feira na Rua Anchieta, que encontrei o primeiro Diário de Luísa Dacosta, a um preço bastante reduzido. Foram essas as duas razões que me levaram a comprá-lo: era barato e era um Diário, um género que aprecio bastante mas que raro é escrito (ou publicado) em Portugal. Conhecia vagamente o nome de Luísa Dacosta, é possível que de alguma antologia, mas não posso estar certo.
Devo ter demorado duas semanas a ler o livro, apesar de ser bastante extenso. Hoje, penso que nada de estranho há nisso. «Na água do tempo», assim se chama esse primeiro de dois Diários, apaixonou-me imediatamente por Luísa Dacosta. Imediatamente e sem retorno. Nos anos seguintes, de alfarrabista em alfarrabista, fui procurando os seus livros, que lia e relia, com a voracidade que só podemos dedicar aos livros em que a palavra vai além de si mesma. Mesmo nesse Diário, impressiona como o fragmento tão pequeno de texto consegue vibrar de forma tão intensa e perpetuar-se, como se lêssemos os pequenos textos de Luísa e eles fossem continuar, sozinhos, quando fechamos o livro e prosseguimos o nosso quotidiano prosaico, o mesmo quotidiano prosaico que, tantas vezes, é mesmo o tema dos textos de Luísa. 


O mesmo se passa com os restantes livros, quase sempre de géneros ditos menores: contos, crónicas, romances fragmentários, novelas curtas. O mundo de Luísa Dacosta não é realista, é real, os seus dramas, estruturalmente guiados pelas grandes tragédias, só são possíveis porque é no real que acontecem, porque cada frase é talhada a partir da matéria tosca do dia-a-dia, do confronto violentíssimo entre uma vida interior desejosa de libertação e de claridade e um lugar onde só florescem a solidão, o isolamento, a tristeza, as saudades de uma infância perdida. É assim com os seus livros sobre as grandes cidades, «Vovó Ana, Bisavó Filomena e eu» (1969) sobre Lisboa, e «Corpo Recusado» (1985) sobre o Porto. Noutro campo estão o inicial «Província» (1955) em que a cidade de Vila Real é palco de uma vida anónima e simples em que o drama encontra saída numa extrema capacidade de contentamento; ou então as crónicas de «A-Ver-o-Mar» (1980) e «Morrer a Ocidente» (1991), em que a vila piscatória de A-Ver-o-Mar, cenário tão análogo à interior Vila Real, se afirma como uma espécie de retorno ao Éden, uma libertação derradeira, um lugar de felicidade idílica que nem por isso está livre da brutalidade e da miséria.
Luísa Dacosta, dir-se-á, é uma ficcionsta. O que não é um demérito, porque muitos dos grandes escritores, por todo o mundo, são ficcionistas. No entanto, desde esse «Na água do tempo» (que inclui, também, algumas pequenas ficções), nunca consegui ver Luísa Dacosta como uma ficcionista. Nalguns momentos, pareceu-me uma arguta etnóloga, observadora e crua, olhando com dureza mas nunca com arrogância, para os pescadores de A-Ver-o-Mar e para as mulheres desses pescadores, ou para as mulheres tão sós de Lisboa no livro de 1969. Noutros momentos, Luísa pareceu-me uma eterna diarista, como não deixou de o ser a grande Irene Lisboa. Noutros momentos ainda, a densidade da experiência humana de que os seus escritos dão conta, fazem Luísa parecer uma espécie de mística laica: nela, a experiência da própria humanidade é uma forma de transcendência, de união com um mundo que pode não ser o melhor, mas é o que existe, pelo que só amando-o é possível sobreviver. A sua escrita é intensa e fulgurante por causa dessa transcendência, e é por isso que em todos os momentos, Luísa Dacosta me pareceu sempre uma poeta. A pequena edição de «A maresia e o sargaço dos dias», que, em 2002, reuniu alguns fragmentos poéticos em livro, não foi mais do que uma confirmação. A poesia era a força que soprava em todos os escritos de Luísa. A sua tendência para o fragmento, para o apontamento, para a imagem bruta e impressiva, não eram senão a intromissão da poesia naquilo que, afinal, somos precipitados ao classificar como prosa.
É raro o autor em que encontramos um mundo tão terrível como o de Luísa Dacosta. Morte, solidão, violência, perda, ausências, sofrimentos atrozes: disto nos dão conta os seus escritos. Ler Luísa Dacosta é conhecer de forma desarmante um mundo em que só é possível sofrer. A escrita parece ser, muitas vezes, uma possibilidade aberta por esse sofrimento: a possibilidade de sonhar. Luísa é uma autora da palavra, da consciência da palavra e do seu poder. De certa forma, continua a pesquisa aberta por Irene Lisboa, Agustina Bessa-Luís, Torga ou José Gomes Ferreira e continuada por Maria Velho da Costa, Regina Guimarães ou Hélia Correia: a fusão de uma linguagem popular com uma linguagem erudita e poética. Luísa é um dos casos em que essa pesquisa se torna mais relevante e mais natural. O espaço aberto pela separação entre estas duas linguagens é perceptível mas insignificante: sempre o texto parece natural, fluido, perfeito. Este apuramento da linguagem escrita é, em Luísa Dacosta, como a planificação de uma viagem, a escolha do itinerário mais agradável: só pelo sonho podemos salvar-nos do sofrimento, e só pela escrita poderemos sonhar. Não admira, então, que a escrita seja cuidadosamente trabalhada, aperfeiçoada. Aperfeiçoada ao ponto em que não é minimizada por marcas de época. Estas, como Adolf Loos tão bem viu, são quase sempre fruto do artifício. Em Luísa Dacosta, nada é artifício, tudo é incrivelmente real e necessário. O tempo não pesará muito sobre ela, o que nos diz será reconhecível por muitos e longos anos. É reconhecível agora, mesmo que nos pareça que tudo mudou tanto nos últimos cinquenta anos.



Uma das fotografias mais conhecidas de Luísa foi tirada pela fotógrafa Graça Sarsfield para a antologia «Vozes e olhares no feminino», publicada pelo Porto 2001: Capital Europeia da Cultura. Luísa sorri abertamente. Tem um riso sincero de menina. Em todas as fotografias que conheço dela tem esse riso de menina. Incluindo naquela que se encontra na contracapa de «Na água do tempo». A pergunta que me fiz, nessa altura, não foi como pode alguém que tem este sorriso escrever estes textos?, mas sim, como pode alguém que escreve estes textos ter este sorriso?
Num regresso ao Porto, em 2010, conheci Luísa Dacosta. O mesmo riso de menina, aberto e bem-disposto. Falou-me da Maria de Maria Vai, Maria Vem, Romance de mulher-a-dias, um conto de 1969. E falou-me de um terceiro Diário que pretendia publicar, o que não chegou a acontecer. Perguntei-lhe qual seria o título, e arrependi-me: poderia ser uma indiscrição. Mas não. Respondeu-me imediatamente que seria «Os dias sem amanhã». E acrescentou: Eu sei que é um título pouco optimista, mas eu acho que não se pode ser optimista neste mundo em que vivemos.
Tinha toda a razão. E tinha toda uma obra que atestava essa crença que partilhávamos. Mas Luísa sorria. Hoje, eu penso que esse sorriso vinha da escrita: de uma escrita de tal forma densa que permitiu a Luísa sonhar, sonhar sempre, mesmo quando sabia que os dias eram sem amanhã.
Emil Cioran, um dos meus filósofos predilectos, tinha a ideia de que só pensamos contra nós mesmos, de que tudo aquilo que fazemos acaba por reverter contra nós, por pesar ainda mais sobre a nossa já imensa miséria. Com Luísa Dacosta, aprende-se a abrir fendas neste ciclo destrutivo que Cioran aponta, e a preencher essas quebras com a matéria luminosa duma palavra que permita ultrapassar a realidade em direcção ao sonho: um sonho que, de resto, não pede o impossível. O sonho de Luísa Dacosta é sempre feito da versão melhor do possível.

Luísa Dacosta deixou-nos na noite de 15 de Fevereiro de 2015, um dia antes do seu 88º aniversário. Morre assim um dos grandes escritores ignorados da literatura portuguesa. Quando um escritor morre, o seu leitor pode sempre ser mais optimista do que aqueles que o conheceram. Conheci Luísa Dacosta, não fomos exactamente amigos, tínhamos uma relação essencialmente epistolar. Hoje, no entanto, escolho ser um leitor, para poder dizer que Luísa Dacosta não nos deixou, que os seus livros continuam na estante, que continuo a relê-los, que continuam a fazer-me interromper a sina terrível descrita por Cioran. E principalmente, que em cada texto, no meio do espectáculo trágico da vida, haverá sempre um frase que tornará possível que se sorria, sem reservas, face a tudo.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Luísa Dacosta, 1927-2015


«Que longo dia para a minha tristeza! Longe é onde há vozes, chamamentos, passos, acenos de adeus. Aqui o silêncio é um túmulo aberto que me força a olhar a inutilidade da luz.»

(Luísa Dacosta, Na água do tempo, 1991)

terça-feira, 16 de abril de 2013

Naufrágio


No fundo do mar,
perdidos,
estão os sonhos,
dia a dia, inutilmente, dobados.
Carne de medusa,
lacerada pelos corais,
oculta entre as algas,
quem poderá sabê-los?
ou encontrá-los?

Luísa Dacosta
A Maresia e o Sargaço dos Dias
2002, ed. Asa
pintura de Luis Caballero

domingo, 3 de março de 2013

Infância e Palavra



No princípio, era o Verbo _pelo menos na minha infância, toda caldeada pelo encantamento da palavra.
A palavra, lengalengada, d' a pintinha põe o ovo prà menina papar todo_ das brincadeiras com que se dava à criança a consciência do rosto e das mãos, esta barba, barbadeira, esta boca, comedeira, este nariz, narizete, estes olhos de pisquete, esta testa, de giesta, este cabelinho, que não é loiro, foge, menina, que te estoiro!, que terminavam, depois de corrido todo o rosto, com uma sapatadinha na testa. Havia também o varre, varre, vassourinha, se varreres bem, dou-te um vintém, se varreres mal, nem um real_ e, pumba!, uma palmada na mão, porque, não sei porquê, se supunha sempre que a vassourinha não varria a preceito. Muito da minha predilecção era o serrobico, bico, bico, todo feito de beliscõezinhos nas costas da mão, enquanto a lengalenga ia acabando quem te deu tamanho bico, foi a velha chocalheira, que anda lá pela ribeira a apanhar ovos de perdiz para o filho do juiz, que está preso pelo nariz_ e era o nosso que se puxava no fim.
Depois, havia a palavra mimenta, tão doce e cheia de ternura! Inspirava-se nos passarinhos e no perfume das maçãs: _Minha carricinha, inquieta! Minha maçãzinha de pardo lindo. A noite trazia a palavra musical das últimas orações:

Anjo da Guarda,
minha companhia,
guardai minha alma
de noite e de dia.

A palavra-mistério, de sons desconhecidos, que estabelecia a ligação com o divino, ouvia-se no latim da missa: Dominus Tecum! Sursum corda! E na ladainha: Turris eburnea, Stela Matutina...
Quando tínhamos de ficar na cama, por sarampo ou constipação, havia a palavra fascinante e narcisíaca dos contos de fadas_ Espelho meu, espelho meu, haverá no mundo alguém mais belo do que eu? _e que podia tornar-se maléfica: _Quem isto ouvir e o for contar, em pedra se há-de tornar! Ou a palavra viva e popular das histórias tradicionais, muito do gosto de minha mãe, cheias de mãos a abanar, sem eira nem beira, mas espertalhotes, capazes de comer as papas na cabeça dos reis e de casarem com as princesas. Ai, como me lembro delas!
A palavra dos jogos tinha duas faces: uma de perder, outra de ganhar. Ferrum-fum-fum, ferrum-funfelho, quantas abelhas há no cortelho? Aqui vai uma barquinha carregadinha de aves, de abraços, de beijos... Quando se perdia, por falta de resposta pronta, dava-se prenda e no fim recorria-se ao senhor juiz sentenciador, que sentença se há-de dar ao dono desta prenda, seja ela de quem for? Juiz que, às vezes, ordenava, romântica e comprometedoramente, que se perguntasse:
_Se o meu coração fosse um bosque, quem mandavas lá passear?
Mas menina não gosta de estar sempre quieta. Menina corropia de roda. E a palavra das cantigas era dançante e anunciava o amor:
_Machadinha, minha machadinha,
quem te pôs a mão sabendo que és minha?
Havia também a Condessa-condessinha, condessa-do-Aragão, a que não dava as filhas nem por ouro, nem por prata, nem por sangue de leão, nem por sangue de lagarta. O cavaleiro tinha de dar provas, antes de poder dizer:

_Estimo e estimarei,
sentada numa almofada,
a fiar continhas de ouro,
salta cá, minha esposada!

Na infância era fácil acreditar que Deus tinha criado o mundo pela palavra. Que a luz seja! E a luz foi. Pelo poder da palavra tinha Xerazade conseguido adiar, por mil e uma noites e depois para todo o sempre, a sentença de morte que pesava sobre ela. A palavra foi para mim uma segunda placenta, aconchegante, onde na adolescência irrompeu o deslumbramento por dois poetas: Cecília Meireles, com o seu recorte visual, e Camilo Pessanha, com a água, morrente, do tempo a esvair-se na própria água do poema. E a palavra-poética tornou-se para mim a palavra-ninho, porque é realidade e é símbolo, a mais significante, polissémica no mesmo contexto, a mais texturada de conotações, e a que não admite sinónimos, já que é insubstituível. Por ela soube que a palavra é, ao mesmo tempo, música e canto e soluço _e o milagre mais próximo do bafo e do coração humano.

Luísa Dacosta
Infânica e Palavra
2001, ed. Asa
desenho de Maria Keil

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

29 de Dezembro, Matosinhos [1998]

 
Duas? Três horas da madrugada?
A chuva tinha começado, tocada a vento. Depois, torrencial, acordara-a. Da janela, podia vê-la empoçar-se, junto dos passeios. Na paragem, o painel do reclame e o seu reflexo, vertical, tornava ilusória a profundidade do charco, como se tivesse a altura de um homem, mas que a luz dos faróis e os carros cortavam facilmente. Aquela ilusão impunha-lhe a terra, fofa, do cemitério. O que restaria dela? A linha tão pura, do nariz e das sobrancelhas? Na sua campa, nem o caixão lhe seria abrigo. A água estava a torná-la uma Ofélia de lama, os cabelos, que lhe enquadravam o rosto, como se estivesse apenas adormecido e não rígido e morto, teriam, agora, o visco de cobras.
Ouço a chuva a ensopar a terra e pesa-me no coração.
 
Luísa Dacosta
Um Olhar Naufragado (Diário II)
2008, ed. Asa
desenho de Tiago Manuel


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Diários e outras representações do eu (Prosa)

Portugal não lhes dá grande atenção e é pena. A escrita dos diários não é rara entre escritores e artistas, a sua publicação é frequente nalguns países. Portugal, claro, não é um deles. Não só há poucos autores a publicarem os seus, como pouco se traduz dos diários publicados por autores estrangeiros.
Para mim, é de lamentar, visto que um diário, ou, pelo menos, um bom diário, pode ser uma forma de entender melhor a obra de um autor ou, mais importante ainda, de nos inteirarmos do seu pensamento, das suas motivações e da sua visão do mundo que, em última análise, é força motora de toda a obra.
Há autores portugueses cuja obra de poesia ou ficção é atravessada frequentemente por vislumbres autobiográficos mais amplos ou menos. É o caso de Irene Lisboa, na grande maioria dos seus livros, mas também de Luísa Dacosta e Maria Ondina Braga.
Na obra de Irene Lisboa é frequente que não consigamos distinguir o que é o ficcional do que é autobiográfico ou auto-representativo, partindo do princípio que Irene chegou a aceitar o ficcional como integrante da sua obra.  Depois dos '13 Contarelos' (1926) para crianças, Irene publica dois livros de poesia, 'Um Dia e Outro Dia: Diário de uma Mulher' (1936) e 'Outono Havias de Vir, Latente e Triste' (1937). A designação de diário surge, inclusivamente, no título do primeiro e é, aliás, a relação desta poesia com o real e com o quotidiano que fará dela moderna e intemporal, anos-luz à frente do seu tempo. No que à prosa diz respeito, Irene escreve três livros que podemos considerar diários, e um outro ainda que, afastando-se do registo diarístico, se aproxima do relato autobiográfico, fazendo uma espécie de narrativa que começa na família, passa com intensidade pela infância e termina no tempo, mais ou menos, em que o texto está a ser escrito. Chama-se este livro 'Começa Uma Vida', e foi editado pela primeira vez em 1940, ou seja, um ano depois da primeira edição do emblemático 'Solidão'. 'Solidão: Notas do Punho de Uma Mulher', além das datações, aproxima-se assumidamente da escrita do diário, na sua tendência para o fragmentário e para a atenção minuciosa dada a pormenores do quotidano, que ajudam um 'eu' feminino (Importa apontá-lo quando o livro é assinado com o pseudónimo de João Falco.) que se encontra frequentemente numa tremenda solidão. Continuação deste registo e, até certo ponto, continuação deste livro, é 'Solidão II', de 1966, publicado, portanto, postumamente. 'Apontamentos', de 1943, constitui também uma espécie de diário, este especificamente orientado para a observação de aspectos do quotidiano principalmente citadino, contendo ainda preciosos apontamentos sobre a relação do 'eu' com o mundo e com o tempo, elemento essencial para a estruturação de um diário.
Luísa Dacosta, a par de uma obra onde o autobiográfico tem presença tutelar, publicou dois diários, 'Na Água do Tempo' (1990) e 'Um Olhar Naufragado' (2008) e são bons exemplos do que de melhor um diário pode oferecer. Além de apontamentos pessoais que não tocam um confessionalismo de mau-gosto, estes dois diários oferecem-nos textos que podem perfeitamente ser contos ou até poemas em prosa que, por várias razões, não tenham integrado os restantes livros da autora. Mais ainda, todas as preocupações da obra de Luísa têm grande presença nos diários, e estes textos vêm aumentar as dimensões literária, humana e sociológica que encontramos nos seus livros de contos e crónicas e no seu romance 'O Planeta Desconhecido e Romance da que fui Antes de Mim' (2002). O gosto pela observação minuciosa que se constrói dentro da tendência pelo fragmentário fica no diário mais do que clarificado e o conjunto desses dois livros está longe de ocupar um lugar secundário na bibliografia de Luísa Dacosta.
O caso de Maria Ondina Braga tem contornos diferentes. Maria Ondina nunca publicou um diário propriamente dito. No entanto, vários dos seus livros -penso em 'A Personagem' (1978) ou 'A Casa Suspensa' (1981)- ficcionam a escrita de um diário, ficando nessa ficção de certa forma esfumados os limites do autobiográfico. Ou seja, projectando-se numa personagem que escreve um diário, Maria Ondina escreve subliminarmente o seu próprio diário. Da sua bibliografia, destaca-se 'Estátua de Sal' (1969), um dos livros mais importantes de Maria Ondina, reeditado duas vezes (O que é interessante no caso de uma autora cuja maioria dos livros nunca conheceu reedição.) que se apresenta como uma 'autobiografia romanceada'. Esta designação, de certa forma, faz com que este livro ocupe um lugar especial entre os livros da autora bracarense. Não sendo necessariamente um diário, 'Estátua de Sal' cumpre muitos dos aspectos que um diário por norma cumpre. Ele centra-se na vida da autora enquanto plano narrativo, mas não abdica, em nome disso, de uma atenção dada ao lado literário, à inserção do texto final no conjunto de uma obra. Talvez mais do que qualquer outro livro de Maria Ondina, 'Estátua de Sal' dá-nos a dimensão do seu mundo interior, da sua solidão e dos assuntos que pautarão a sua obra desde 'Eu Vim Para Ver a Terra' (1965) e até dos dois livrinhos de poesia publicados na juventude, 'O Meu Sentir' (1949) e 'Almas e Rimas' (1952).
Bastante diferente é o caso de José Saramago, cuja escrita sempre recusou, de vários pontos de vista, o autobiográfico. Com o primeiro romance publicado em 1947, 'Terra do Pecado', e com um ritmo de publicação que só se torna frequente a partir de 1966, com 'Os Poemas Possíveis', a edição dos 'Cadernos de Lanzarote' começa apenas em 1994 e estende-se por cinco volumes.  A perspectiva de escrita é a de que, nas palavras do próprio Saramago, um diário não passa de um modo incipiente de fazer ficção. De facto, a descrição de aspectos do quotidiano roça, nestes livros, a malha ficcional na forma como está feita; mas, quanto à parte do incipiente, permitam-nos discordar. De facto, estes 'Cadernos de Lanzarote' em muito nos dão a ver o pensamento literário e político de José Saramago, e muito do que neles é abordado de uma forma algo meditativa, está presente em vários dos romances, o que nos confirma estes diários como, eventualmente, uma maneira de, mais directamente, nos aproximarmos das motivações do autor.
O caso de Maria Gabriela Llansol apresenta-se-nos, como sempre, desafiante. Ao contrário do que acontece com José Saramago ou Luísa Dacosta (Ou outros casos aqui não referidos, como os de Vergílio Ferreira ou José Régio.), foi bastante cedo que Llansol preparou uma edição de um diário. Em 1985, data em que é editado 'Um Falcão no Punho', a escritora contava com dois livros praticamente invisíveis ('Os Pregos na Erva', 1962, e 'Depois de Os Pregos na Erva', 1973.), com a trilogia da 'Geografia de Rebeldes', e com 'Causa Amante' (1984), que seria o primeiro volume da trilogia 'O Litoral do Mundo'. À data da primeira edição do primeiro diário de Llansol, ela não era ainda uma escritora com um longo percurso. Por isso, o facto de editar um diário não deixa de constituir uma certa surpresa. Isto, até percebermos o que é, para Llansol, um diário. Nada tem a ver com a descrição do quotidiano e, por vezes, parece nem sequer ter a ver com uma representação auto-biográfica. Para entender o contexto deste diário, bem como do segundo volume, 'Finita' (1987), é preciso compreender que, em muito, os textos diarísticos não se distinguem daqueles que integram os romances, e que, quando deles divergem, se deslocam no sentido do pensamento sobre a escrita. A dissolução dos limites entre géneros de escrita pode muito bem explicar alguns aspectos da estranha natureza da escrita de Llansol, e os diários ajudam a compreender as regras, que constantemente se alteram, dessa dissolução. 'Inquérito às Quatro Confidências' (1996) ocupa, de certa forma, um lugar àparte nos diários de Llansol, uma vez que é escrito para Vergílio Ferreira, no sentido de estabelecer com ele uma espécie de diálogo, sem, no entanto se afastar da natureza reflexiva dos dois diários anteriormente publicados. Até à publicação do último romance de Maria Gabriela, 'Os Cantores de Leitura' (2007), não temos mais diários. Nos últimos meses de vida, no entanto, a escritora parece ter decidido regressar ao diário. A edição da série dos cadernos de escrita, com o título genérico de 'Livros de Horas', vai já no segundo volume, e, de certa forma, vem dar continuação àquilo que os três diários editados em vida nos mostravam: não só o pensamento constante que sempre desagua no pensamento sobre a escrita, como também a obsessão de Maria Gabriela com a vida, uma vez que o texto se torna o lugar onde tudo está num estado vivo e actuante, desde as pessoas fisicamente vivas ou mortas, às plantas, aos animais, aos objectos.
Apesar da sua actividade literária ter começado bastante antes, o polémico Luiz Pacheco só se apresenta a título individual em 1958, com a 'Carta Sincera a José Gomes Ferreira com Uma Nota do Autor por Causa da Província'. Pacheco sempre escreveu textos curtos que podem, na melhor das hipóteses, ser considerados contos. Estas curtos textos raramente se inclinam para a ficção, tendendo todos eles para uma carga, no mínimo, auto-representativa. Textos como a 'Comunidade' (1964) são exemplo de como a escrita de Pacheco reflecte uma realidade bastante concreta e que, sabemos, era a da sua atribulada vida. Em 2005 é editado o 'Diário Remendado 1971-1975', um diário propriamente dito, que acompanha Pacheco nas suas meditações sobre o desejo de ser escritor profissionalmente, e nas dificuldades que isso causa, a vários níveis. Como sempre, a escrita de Luiz Pacheco surge-nos despudorada e directa, perfeitamente adequada para o texto diarístico, a que não falta uma profundidade que os desvia da vulgaridade.
São alguns casos de diários em prosa publicados em Portugal, onde o diário é um género literário quase inexistente e ao qual não se dedicam estudos em número suficiente para deles se entender a verdadeira dimensão.
Isto afecta ainda as traduções, sendo muito raro encontrarmos em português diários traduzidos. A título de exemplo, cito 'Odeio-me e Quero Morrer', a recolha de fragmentos autobiográficos de Kurt Cobain e 'Antologia de Páginas Íntimas', que selecciona páginas do 'Diário', das 'Meditações' e da 'Carta ao Pai' de Franz Kafka.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Entretenimento





Como quem procura conchas à beira do mar
escolho as palavras para te dizer
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.


Luísa Dacosta
A Maresia e o Sargaço dos Dias
2002, ed. Asa
pintura de William Turner 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

1962, Agosto, A-Ver-o-Mar



Que longo dia para a minha tristeza! Longe é onde há vozes, chamamentos, passos, acenos de adeus. Aqui o silêncio é um túmulo aberto que me força a olhar a inutilidade da luz.

A paisagem movente, ensolarada, azul, luminosa e marinha é aquele que eu tinha decidido seria para sempre como entrar na infância e no sonho. Mas não tenho nenhum sonho para habitar a paisagem que se fere de insídias, de abandono, se lacera de ausência. Como foi possível? Não há só destinos. Há maus fados. Só nas histórias antigas é que tudo era de sempre e para sempre, porque o tempo não existe, é auroral, eterno, sem desgaste.

Vela que passaste entre as ramagens, a memória traz-me afagos, instantes, uma voz... Tudo breve, breve sombra de asas sobre as dunas.



Inocentes, as crianças dormem. A noite entra pela janela e pousa uma túnica, inconsútil de luar, na minha cama vazia. Fecho a vidraça. Pelo menos o choro soluçante da maré quedar-se-à fora. Mas não posso evitar o que em mim morre. Não sei bem o que é. Morre lenta, dolorosamente, morre, como um difícil afogar de pétalas.



Luísa Dacosta

Na Água do Tempo, diário

1992, ed. Quimera

fotografia de David Penprase

domingo, 8 de maio de 2011

7 Livros de Contos

Desde Irene Lisboa, cuja maioria da obra se encontrava no registo do diário e da novela e dos apontamentos, que percebemos que o público não aceita muito bem qualquer prosa que não seja romance.


Ainda que seja uma coisa de minorias, a poesia sempre conserva uma certa "nobreza", ao passo que os contos frequentemente são vistos como obras menores dos seus autores, e até como textos sem qualquer importância. Discordo deste ponto de vista, e aqui deixo sete propostas, entre muitas outras que poderia deixar, de livros de contos; que são tudo menos obras menores.




António Lobo Antunes: Livro de Crónicas (ed. Dom Quixote)








António Lobo Antunes já conta quatro livros de crónicas. Escolho o primeiro, apenas por ser o primeiro. Qualquer um dos outros poderia estar aqui. Apesar de se apresentarem como crónicas, estes textos, publicados quinzenalmente na "Visão", são curtas narrativas, bastante interessantes e, como todos os textos do autor, interessadas em captar o mundo interior dos seus personagens. Num registo bastante mais curto, no entanto, Lobo Antunes é perfeitamente capaz de recriar a sua voz, ao mesmo tempo que torna consistentes estas personagens, que sempre nos apresentam alguma história momentânea, nem por isso menos capaz de nos surpreender.




Lídia Jorge: Praça de Londres (ed. Dom Quixote)





Com três livros de contos publicados até agora, escolho de Lídia Jorge estes "cinco contos situados", como nos sugere o subtítulo. E escolho por razões meramente pessoais: além da exploração minuciosa e humaníssima que Lídia Jorge sempre opera na sua escrita, nestes contos as cidades têm uma importância crucial, interagindo com os personagens que por ela vagueiam. Uma certa tendência para a narrativa psicológica faz-se sentir nestes textos, anunciando um pouco aquele que viria a ser o romance mais conseguido a esse nível, "A Noite das Mulheres Cantoras". Pautados por uma certa invulgaridade e, por vezes, um certo sentido de mistério, estes contos são alguns dos melhores já escritos por Lídia Jorge.



Luísa Costa Gomes: Setembro e outros contos (ed. Dom Quixote)






Luísa Costa Gomes tem publicado vários romances e também algumas peças de teatro. No entanto, a sua estreia, em 1981, dá-se com os "Treze Contos de Sobressalto" e uma boa parte da sua melhor obra encontra-se, a meu ver, nos contos. "Setembro e outros contos" surge-nos dividido em duas partes. A primeira, "Setembro" apresenta-nos contos mais longos onde as questões da escrita, da criatividade e da introspeção têm papel principal: são contos densos, analíticos, com um olhar cru sobre a realidade. Mais dispersos a nível temático, e mais curtos, mas igualmente pautados por um olhar atento e despido sobre a realidade, os contos de "Outros Contos" completam o livro.




Luísa Dacosta: Corpo Recusado (ed. Figueirinhas)





O caso de Luísa Dacosta, de que tenho vindo a falar aqui há já algum tempo, é um caso realmente de excepção entre nós: ao contrário do habitual, grande parte da obra de Luísa Dacosta é precisamente escrita em contos e crónicas. Além destas, a publicação de dois diários é ainda assinalável; e, até agora, Luísa Dacosta publicou apenas um romance, "O Planeta Desconhecido e Romance da que Fui Antes de Mim". "Corpo Recusado", de 1985, é o mais recente de três livros de contos que a autora publicou, e escolho-o por razões pessoais, uma vez mais. É neste livro que Luísa Dacosta mais plenamente consegue abordar o tema da solidão humana e do desamparo, construídos os contos, a um tempo, por uma linguagem encantarória que nem por isso é menos realista e crua no seu olhar sobre o real e, principalmente, sobre as pessoas.



Maria Isabel Barreno: Contos Analógicos (ed. Rolim)






"Contos Analógicos" é o primeiro livro de contos de Isabel Barreno, publicado já depois de dois dos seus mais importantes romances: "Os Outros Legítimos Superiores" e "A Morte da Mãe". O seu estilo de escrita pende muito para um lado analítico profundo, que se torna quase ensaístico. No entanto, a transição para textos mais curtos (Um destes contos não chega a ocupar uma página.) não apaga essa dimensão da escrita de Maria Isabel Barreno. Pelo contrário, este livro quase cataloga alguns exemplos de estruturas sociais e humanas e aí mesmo reside a sua maior força: a capacidade que tem de, em muito poucas palavras, despertar todo um sistema filosófico.




Maria Regina Louro: Sapos Vivos e Outros Monstros (ed. Relógio d´Água)




A obra de Maria Regina Louro é, a meu ver uma das mais originais, apesar da falta de visibilidade. Desde as "Novas Bárbaras" que assina com Miguel Serras Pereira até a "À Sombra das Altas Torres do Bugio", Regina Louro confronta-nos com um universo onde todo um imaginário popular se transfigura poeticamente, através não só de uma sensibilidade que não abdica nunca da uma acutilante inteligência e de uma linguagem densa e grotesca.


"Sapos Vivos e Outros Monstros" é o livro que se segue a "Apocalipse", um livro de poemas em prosa. E, nestes contos, em que a figura ou a ideia do monstro é protagonista, nota-se muito essa inclinação para a poesia, sendo que muitos destes contos quase podiam ser poemas em prosa, narrativos. O encontro com o monstro que nos rodeia e que está também dentro de nós é a força que move a escrita destes contos, uma escrita a um tempo irónica e cruel, que por isso mesmo resulta desarmante, no que toca a expor-nos a verdadeira fragilidade de qualquer monstro.





Nuno Júdice: O Tesouro da Raínha de Sabá (ed. Rolim)





Apesar de eu não ser um apreciador da poesia de Nuno Júdice (Excluindo alguns livros que me parecem de uma muito interessante linguagem simbolista.), acho que na ficção, Júdice tem obras bastante interessantes. Este "conto pós-moderno" é um bom exemplo disso, contando com uma narrativa algo futurista, mas sempre através de uma linguagem metafórica e muito poética.



De assinalar é ainda a colecção "Fantástico", das edições Rolim, uma colecção bastante longa e constituida maioritariamente por contos (Ainda que hajam algumas novelas.), contrariando a tendência do mercado para o romance.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Luísa Dacosta: Morrer a Ocidente

NO TEMPO DA ÁGUA

"Cerrai-vos olhos, que é tarde, e longe,
e acabou-se a festa do mundo
começam as saudades hoje"

é com esta citação da "Cantata Vesperal" de Cecília Meireles que abre o segundo livro de crónicas, publicado em 1990, de Luísa Dacosta. A citação é realmente apropriada pois, de certa maneira, sintetiza o espírito deste livro.


Relembremos que o primeiro livro de crónicas, editado dez anos antes, tinha por título "A-Ver-o-Mar", o nome da localidade, em Vila do Conde, sobre que estas crónicas se debruçam. "Morrer a Ocidente" (ed. Figueirinhas, 2a ed. Asa 2002), vem recuperar esse lugar e essas pessoas, mas num registo diferente.
Penso que seria pertinente referir a questão da tipologia destes textos para melhor definir a sua organização. Porque, se esquecermos a noção "estrita" de romance, não seria difícil vermos neste livro um. Para começar, há uma personagem que atravessa 30 destes 31 textos- que será a narradora, personagem que não interfere no desenrolar dos acontecimentos senão para ouvir e contar o que ouve, e que podemos deduzir tratar-se da própria Luísa Dacosta- bem como vários personagens que vão passando de crónica em crónica, e há ainda uma sinopse geral, ainda que cada texto seja uma entidade individual, autónoma.
É um facto que cada uma destas crónicas é auto-suficiente: se as lêssemos isoladas não perderiam o seu sentido. Mas é também facto que, na sequência, elas contribuem para a construção de uma ideia. Essa ideia é a de uma realidade a morrer. O título poderia apontar para isso: trata-se de uma referência ao pôr-do-sol- "E é quando o sol começa a sua lição, tentando ensinar-me a morrer a ocidente" (pag.18)- mas não deixa de ser uma morte. E neste livro há várias.
Na dedicatória que Luísa escreveu no meu exemplar de "Morrer a Ocidente", refere-se a este livro como "um morrer da praia e um morrer interior", e parece-me que esta será a definição mais sintética e adequada das mortes deste livro.
A citação de Cecília Meireles para outra coisa não aponta, senão para esse terminar, a que se seguem as saudades. De facto, se em "A-Ver-o-Mar" econtrávamos a descrição de um modo de vida especial, complexo nas suas estruturas social e laboral; este segundo livro recolhe crónicas em que vemos o lento desaparecer de muitos dos elementos que sustentavam essas estruturas. A leitura dos dois livros, em díptico, é, parece-me, não só um valioso testemunho literário, como poderia muito bem ser analisado como uma espécie de estudo sociológico.
Voltando, então, ás linhas-de-força descritas na dedicatória que acima citei, comecemos pelo morrer da praia. A praia, em Luísa Dacosta, tem duas frentes: a da introspecção que provoca e a da vida que nela se desenrola- constituida em grande parte pela pesca e pelo empaledar do sargaço. É esta vida da praia que vemos morrer neste livro.

"Ninguém quer ir, já se sabe, quem troca chão conhecido e luz do sol por cova e escuridão?!"
(pag.107)

"_Ai, o tempo do pilado, foi chão que deu uvas."
(pag.151)

vamos lendo. Há um sem-número de fragmentos que poderia citar para evidenciar esta ideia. O mar representa, para a comunidade piscatória, uma força perigosa e incerta, mas ao mesmo tempo necessária: necessária enquanto "local de trabalho". Mas ao passo que os mais velhos mantêm ainda os mesmos métodos, frequentemente nos demonstram que os mais novos se interessam cada vez menos pelos trabalhos do mar, preferindo uma vida mais segura e confortável. Seria interessante -mas é acima de tudo impossível para mim fazê-lo completamente- somatizar todas as "visões" possíveis do mar que colhemos nestes livros de Luísa Dacosta. Ele pode ser utilizado dos mais variados pontos de vista: pode definir diferenças entre gerações; mas também de sexo, uma vez que, mesmo sendo o mesmo mar, há nele os trabalhos dos homens e os das mulheres. E aqui, de novo, poderíamos retirar uma leitura sociológica, como, no fundo, acontece com toda a grande literatura: vale por si só, mas não perde validade quando a tentamos analisar de outros prismas.



O outro "morrer" deste livro é, então, o "morrer interior". A leitura dos livros de Luísa Dacosta vai-nos sempre denotando uma postura onde sempre há um travo de angústia. É essa a força que incita as passagens mais poéticas e belas ao longo de todos os livros, desde o longínqiuo "Província" (ed. Minerva, 1955, 2a ed. Figueirinhas, 1984) até aos diários publicados recentemente. Estas crónicas não abdicam da paleta que a angústia permite.
Este é, portanto, um lado mais pessoal e intimista da escrita de Luísa Dacosta, e também o lado em que esse personagem comum -a narradora- intervém de uma forma mais activa.
Como todos os livros, "Morrer a Ocidente" abre com um prefácio, momento de pungência extrema, mais semelhante a um poema em prosa do que propriamente a um conto ou uma crónica. Nestes fragmentos denotamos um certo sentimento de solidão, que se resolve pela contemplação: essa contemplação se é, inicialmente, uma espécie de "fuga", de "distração", cedo se transforma numa forma de encontro do eu, uma vez que, olhando para o exterior, e através da descrição das imagens, o eu se torna mais nítido.
Para tudo isto, contribui em muito a mestria no uso da palavra que foi sempre uma das principais características de Luísa Dacosta. Esse cuidado minucioso com a escolha das palavras, com a criação de ritmos, não só torna as crónicas bem mais densas e fortes, como introduz como que pausas no discurso que, mormente, se debruça sobre as pessoas de A-Ver-o-Mar.
E se, por um lado, esta situação resulta numa espécie de cisão entre a narradora e os narrados, por outro, cria também uma aproximação pois, observando o lento falecer do quotidiano de A-Ver-o-Mar, a narradora encontra esse falecer interior, pessoal.
Caso a referir àparte neste livro é a primeira crónica. Hesito um pouco se devo referir-me a ela como crónica ou como conto. Este texto havia sido editado nove anos antes, numa plaquette especial, com ilustrações originais de Jorge Pinheiro, com o título "Nos Jardins do Mar" (ed. Figueirinhas). Trata-se num conto que parte da imagem da sereia da Igreja de Rates, na Póvoa de Varzim. Significativamente, este texto abre o volume. Há nele algo de muito lírico, de fantástico, o que talvez nos remeta um pouco para a escrita para crianças de Luísa Dacosta. Mas mesmos esse texto termina com uma ideia de morte, uma morte que não é simples, mas que nos deixa uma interessante mensagem: a de que, mesmo depois da morte, há forma de perpetuar a vida, nomeadamente através da memória (Que pode, de certa forma, ser uma outra forma de olhar este livro.).
A fechar o volume, o tema da morte volta a ser central: a última crónica centra-se no Ritual da Passagem das Almas. Além de uma crónica belíssima, carregada de sentidos e de uma escrita densa, acaba por retomar a ideia de uma "vida depois da morte" não no sentido da reencarnação, mas num sentido bem mais complexo, que é, se quisermos, algo semelhante à ideia da morte da sereia no primeiro texto.
Obra em que a capacidade de observação e a capacidade de escrita estão perfeitamente fundidas, "Morrer a Ocidente" é, sem dúvida, um dos melhores livros de Luísa Dacosta. Ao longo da nota que agora termino, fui observando este trabalho da autora de vários pontos de vista, e penso que também isso corrobora a ideia de estarmos perante uma obra importantíssima, já que, seja qual fôr o nosso ponto de vista, é sempre capaz de nos responder, de nos levar a pensar e, talvez, a chegar a conclusões.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um Poema


Com bússola
rosa dos ventos
astrolábio
cartografia
.......................navegamos

Em busca do continente perdido
nossa pátria lembrada
aguilhão de futuro e mais além
na esperança de asas............ilhas
angras propícias
contra ventos..........................tempestades
seguimos rumos de estrelas
...........................navegamos

E a nossa navegação
o mar navegado
o continente perdido e desejado
são um oceano de morte.


Luísa Dacosta
Morrer a Ocidente
1990, ed. Figueirinhas
pintura de Armando Alves

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Luísa Dacosta: Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu

MOVIMENTOS SOBRE UM RETRATO

Não menos do que quarenta e um anos nos separam de “Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu”, segunda incursão de Luísa Dacosta no domínio do conto, que, em 1969 sucede a “Província”, a estreia em 1955. Editado pela Portugália, e reeditado pela Figueirinhas em 1983, este volume poderá muito bem ser um elo decisivo no percurso da autora. Acima de tudo porque é ele quem mais toma a génese de “Província” e a transporta para outros espaços e outras temáticas, sendo portanto uma espécie de charneira.
“Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu” abre com “Para Um Retrato”, um pequeno texto de carácter intimista pouco ou nada divergente do poema em prosa, que introduz a leitura:

Não foste tu a lançar a aliança de oiro, rito que deveria garantir-me a felicidade para todo o sempre, na água do meu primeiro banho. Já então estavas morta.
(pag.9, 2ª ed.)

É de um luto, mas principalmente de uma ausência que estamos a tratar, então. E a forma de chegar a um discurso sobre a ausência parece, neste livro, ser o retrato. Não necessariamente um retrato fotográfico- ainda que encontremos alguns- mas o retrato construido com palavras.
O prefácio é imediatamente uma boa síntese da ideia do tipo de retrato que iremos encontrar neste livro. Como tem vindo a acontecer com todos os livros de Luísa Dacosta, este prefácio demonstra uma enorme carga poética, pela linguagem e pela situação descrita; mas faz mais do que isso: dá-nos uma espécie de localização da sua narradora em termos espaciais e emocionais e dá-nos uma forte noção do movimento que esta escrita assume: ela faz uma espécie de travelling pela paisagem geral e, em certos momentos, detém-se; pára numa espécie de close-up para observar alguém: acima de tudo alguém, pois ainda que Luísa Dacosta não deixe de criar ambientes e paisagens, é acima de tudo nas pessoas que se fixa.
Portanto, além de nos mostrar uma espécie de viagem pela cidade, onde, se olhássemos com atenção, poderíamos encontrar estas pessoas- os “retratados” nos contos- o Prefácio mostra-nos também qual o movimento que a autora faz sobre os retratos: a primeira observação, geral e mais vaga; e um olhar depois mais atento e penetrante.
A maioria destes contos coloca-nos na cidade de Lisboa, a ser vivida não pelo seu lado turístico ou monumental, mas do lado do habitante: um habitante que não raras vezes dá por si mesmo “perdido” e atolado de dificuldades que o sufocam e o fazem enfrentar a grande solidão que é além de dolorosa, irresolúvel e, de certa forma, fatal.

Estando a falar de um livro editado em 1969 e com as características que aponto no parágrafo anterior, será talvez oportuno fazer um pequeno parêntesis para reflectir sobre se se pode ou não falar de neo-realismo a propósito de Luísa Dacosta. Se é sabido que, historicamente, o neo-realismo era “a arte ao serviço do povo”, está visto que tal ideologia várias vezes serviu de móbil a projectos que eram mais partidários do que literários- o rebentar do 25 de Abril, após alguns anos de entusiasmo, não foi parco em mostrar-nos o desaparecimento de muitos “escritores”, bem como o envelhecimento precoce de muitos livros. É interessante constatar que Luísa Dacosta publica o primeiro livro em 1955, sete anos depois da estreia de dois dos mais pertinentes percursos da literatura portuguesa, curiosamente de duas mulheres: refiro-me a Agustina Bessa-Luís e a Ilse Losa, ambas iniciadas em 1948, com “Mundo Fechado” e “O Mundo em Que Vivi”, respectivamente. Com ambas e com Luísa Dacosta passa-se algo de muito parecido (Ainda que as respectivas obras se distingam consideravelmente.): há nelas um olhar profundamente desencantado e por vezes até miserabilista que poderia aproximá-las do neo-realismo. Mas acontece que o desencanto nestas mulheres nada tem de panfletário: debruçam-se sobre problemas humanos, intemporais e imutáveis- ou quase imutáveis-, não sendo, portanto, discursos de defesa e elogio de classes desfavorecidas –podem contê-los, mas não fazem disso motivação- mas sim sinais de uma sociedade em urgência de reformulação.
Estamos, portanto, perante um olhar que é mais político do que partidário, como víamos acontecer com outro caso, também de uma mulher: o de Irene Lisboa. Para que fique registado, não estou aqui a tentar criar algum tipo de manifesto de girl-power, mas a expor um ponto de vista que é o meu –que até sou homem- e que considero, para todos os efeitos, isento que preconceitos sexistas.
Quis explicitar esse lado –o social –da obra de Luísa Dacosta, para que não pareça estranho que, neste livro (Bem como noutros da autora que não tenho agora sob o microscópio.), encontremos relatos quer de pessoas que vivem numa quase miséria, quer pessoas da alta burguesia. Não se trata, reafirmo, de querer evidenciar diferenças de vida entre classes sociais. Pelo contrário, Luísa Dacosta mostra-nos como todas estas pessoas, independentemente de tudo, partilham revoltas e frustrações, arrastando-se por uma Lisboa que sorri aos turistas mas afoga o seu habitante. Se neste aspecto quisermos encontrar antepassados próximos, refiro dois, desta vez e por acaso, homens: Cesário Verde e Fernando Pessoa.
Separações, zangas, solidão, ausência, traições, destinos tristes e, acima de tudo, a impossibilidade de controlar a vida, pautam estes contos. A resignação e o silenciar dos dramas pessoais são, por isso, a situação mais frequentes. Estas pessoas vivem na tristeza de serem capazes de comunicar totalmente consigo mesmas e de perceberem que os que lhes são mais próximos não conseguem entrar completamente nos seus sentimentos e muitas vezes nem com isso se interessam, havendo um irreversível silêncio entre as pessoas.
É neste ambiente que, na maioria das vezes, surge o retrato. Por exemplo no conto “Burguesia”:

“Pegou na moldurinha clara e sorriu ao seu retrato de adolescente. (…) Mas de repente ficou presa nos olhos mortiços do seu rosto anguloso, actual (…)”
(pags. 93-94, 2ª ed.)

Interessa este caso em particular para explicitar outra ideia que me parece essencial sobre este volume: se o título nos aponta para a ideia de retrato, quase nos parecendo legenda de um; “Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu” é também testemunho da passagem do tempo, através da passagem de gerações. Neste livro, e particularmente no conto “Burguesia”, o tempo fica fixo na superfície da fotografia, mas observá-la é comprovar a dolorosa passagem desse tempo. E se, nesse conto, encontramos a dor de uma personagem que verifica que envelheceu, o último conto “Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu” vai definitivamente mais longe, criando um jogo em que o tempo ora se anula pela observação dos retratos, ora se faz sentir evidenciando o desaparecimento de duas das retratadas, culminando o conto num pungente e inesperado final.
Se houve “grupo” mais defendido por Luísa Dacosta foram as mulheres. São elas as personagens centrais da maioria dos contos, e aqui as encontramos como figuras brutalizadas física e/ou psicologicamente, mas também como seres de uma outra capacidade de expressão de sentimentos, possivelmente mais sincera. “Maria Vai, Maria Vem, Romance de Mulher-a-Dias” é um excelente exemplo disso, bem como um conto perturbador- que algo tem de crónica- e que é um dos mais pungentes textos da obra de Luísa Dacosta.
Que nestes contos há frequentes incursões da poesia e da crónica, parece-me evidente. Mas acima de tudo parece-me evidente que a leitura de “Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu” confirma a capacidade singular de Luísa Dacosta de nos contar histórias que sempre parecem tão cruelmente reais, mas de as contar de uma forma bela e arrebatadora, muito capaz de nos marcar e de nos maravilhar.

domingo, 17 de outubro de 2010

Luísa Dacosta: Corpo Recusado

EXERCÍCIOS DA (CRUEL) REALIDADE




Ao longo dos últimos cinquenta e cinco anos, a escrita de Luísa Dacosta tem-nos dado conta de um imaginário original e coeso que soube fazer o melhor uso dos ensinamentos da prosa na linha de Eça e Aquilino e de uma linguagem a um tempo simples, densa e apaixonante.




Corpo Recusado” (ed. Figueirinhas), volume de contos que surge em 1985 e até hoje nunca conheceu reedição, surge trinta anos depois da estreia literária da autora, em 1955 com um outro volume de contos, “Província” (ed. Minerva, reed. Figueirinhas, 1984). A bibliografia que preenche estes trinta anos de diferença inclui notas de leitura, antologias literárias, livros infantis, ensaios e um livro de poemas. Na área da ficção, que adopta maioritariamente a crónica e o conto, dera apenas à estampa mais dois livros: “Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu” (ed. Portugália, 1969, reed. Figueirinhas, 1983) e “A-Ver-o-Mar” (ed. Figueirinhas, 1981).
Se ao fim de trinta anos Luísa Dacosta publicara apenas quatro livros de ficção, talvez tenha interesse pensar o porquê desse espaçamento tão grande, qual a necessidade que leva os seus livros a demorarem tanto.
“Corpo Recusado” pode muito bem explicar porquê. Neste livro é muito evidente todo um cuidado de construção, de organização: não só temática mas também de linguagem, obedecendo o conjunto a uma espécie de fio condutor. Por isso mesmo “Corpo Recusado” nos parece ter uma respiração tão evidente e, apesar de este ser um livro de contos- textos em si auto-suficientes e com estrutura autónoma- a sua sequência está longe de ser gratuita, seguindo ela mesma um percurso lógico, que algo tem a ver com a ordem da vida.
Visto no contexto da bibliografia, este livro consegue facilmente mostrar-nos que tudo o que é humano é eterno. E as preocupações de Luísa Dacosta sempre foram acima de tudo humanas: no sentido em que o ser humano, com os seus complexos esquemas psíquicos, emocionais e políticos, foi sempre o assunto central desta obra. E um assunto inesgotável, portanto.
Assim sendo, não deve causar estranheza que, ao lermos nestes contos sobre a mudança da província para a cidade, sobre a traição, sobre a solidão, sobre a memória, ainda descubramos algo de realmente novo.

Não será por acaso que os primeiros dois contos deste livro se referem à relação entre duas pessoas: se em “Antecipação de Outono” sentimos uma certa tensão entre os personagens, “Exercícios de Imaginação”, escrito inteiramente em diálogo, termina com a seguinte ideia

_Ambos temos o poder da destruição, um de nós o fará nascer.
_Tu?
_Tu.
(pag.33)

Após este final premonitório e desencantado, em “Reflexos na Água” encontramos a solidão, para no conto que dá título à recolha encontrarmos já um frio abandono. “Corpo Recusado”, o conto, será dos textos mais desoladores e pungentes da prosa portuguesa. O que lemos nele é um retrato implacável da solidão de uma mulher, recolhida às suas memórias, único e ténue fio que ainda a une à vida e ao mundo, um mundo onde não há "Nem mais ninguém nem mais nada" (pag.45).
Os restantes contos, oscilando entre relatos mais íntimos, onde um pendor profundamente estético serve, no fundo, a descrição dos sentimentos, e registos do real e do quotidiano onde percebemos esse olhar atento e incisivo que é o de Luísa Dacosta, há algo de comum: a ideia da solidão. E esta ideia surge-nos não da forma mais imediatista, que seria a de nos apresentar personagens isoladas: pelo contrário, Luísa Dacosta prefere mostrar-nos pessoas que frequentemente estão rodeadas de outras: é nessas pessoas que a escritora opera uma espécie de arqueologia íntima, mostrando-nos como é na intimidade que uma pessoa realmente tem uma dimensão do quão sozinha está na vida.
É a esta arqueologia que devemos contos com o sarcasmo impiedoso de “Infidelidades, Pulseiras e Agências de Viagens” ou “O Bom Nome das Famílias”; bem como outros, cuja sinceridade, tão drástica e tão bela, nos fere, como “Na Biblioteca, Com Rosto Desconhecido”, “Notícia no Jornal de Amanhã” ou “_Até Segunda! Bom Fim-de-Semana”.
Mais ainda, em termos de organização, penso ser de referir uma característica que me parece presente em todos os livros de Luísa Dacosta: a questão da linguagem. Ela é um dos elementos que mais decisivo se torna na respiração dos livros da autora: note-se que encontramos aqui tanto contos de registo mais ligado ao real quotidiano e outras de um maior relevo para a exploração do mundo interior das personagens. Isso define muito a estrutura deste livro. Ele nunca se torna aborrecido porque sabe intercalar esses dois tipos de linguagens.
Mas esses momentos, como “Angústia” ou “Oceanos Interiores”, bem como o prefácio, “Palavras e Mito”, fazem mais do que alterar o ritmo do livro. Eles relembram-nos que Luísa Dacosta não abdica de uma linguagem poética e densa e que esta linguagem é precisamente aquilo que a demarca da prosa vulgarizada.
Falta-me ainda referir a questão da mulher. “Corpo Recusado” vem confirmar que as preocupações feministas não passaram ao lado de Luísa Dacosta. Não lemos nestas crónicas qualquer tipo de benevolência, mas sim uma incisiva denúncia das diferenças que ainda existem entre homens e mulheres.
O maior defeito de “Corpo Recusado” será provavelmente nunca ter sido reeditado, desde há 25 anos. Mas isso diz mais do mercado livreiro português do que da escrita de Luísa Dacosta.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Luísa Dacosta: Na Água do Tempo

DA POEIRA DOS DIAS

Depois do diário mais recentemente lançado de Maria Gabriela Llansol, regresso ao tema dos diários, com Luísa Dacosta. Para evitar repetir tudo o que disse sobre o conceito de um diário publicado, prefiro situar este livro na bibliografia da autora.
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Para todos os efeitos, Luísa Dacosta nunca foi propriamente uma ficcionista, no sentido mais comum do termo: Luísa Dacosta não se interessa por criar enredos; os seus livros incluem crónicas, retratos, observações do real, tal como acontecia com, por exemplo, Irene Lisboa, mas, e aí difere já de Irene, interessando-se muito pelo imaginário e pelo dia-a-dia do interior, da província (Como se chamou o seu primeiro livro, em 1955.), em particular a cidade de Vila Real, onde nasceu, e a vila de A-Ver-o-Mar. Questões feministas não lhe passaram ao lado, portanto encontramos frequentemente os problemas da mulher, vistos de uma forma implacável, que não é crueldade mas denúncia. Além de numerosos livros de contos ou de crónicas, contam-se ainda três pequenos livros de poesia, um de notas de leitura, e vários livros infantis. Interessa inventariar tudo isto porque "Na Água do Tempo" (ed. Quimera, 1992, reed. Asa, 2002), primeiro de dois diários publicados não funciona como o tal diário que nos mostra o dia-a-dia da pessoa, mas precisamente abarca todos os géneros que Luísa Dacosta percorreu desde a sua estreia. Inclusivamente, se pesquisarmos um pouco, veremos que muitas destas entradas haviam já sido publicadas, sob forma de crónicas principalmente, em dispersas publicações, nomeadamente a "Colóquio/ Letras".
Estamos perante um diário bastante extenso, que começa em 1948 (Sete anos, portanto, antes da publicação de "Província".), tinha a autora 21, e termina em 1987, aos 60 anos. Este diário, como explica o prefácio, texto verdadeiramente poético, mostra-nos o que Luísa Dacosta guardou da poeira dos dias (pag.11).
Podemos encarar este livro como mais um da bibliografia de Dacosta. "Na Água do Tempo" tem essa particularidade de se inserir perfeitamente no contexto de outras obras como "Corpo Recusado" (1985) ou "Morrer a Ocidente" (1990), na maioria das suas páginas. São textos de uma pungente beleza, e de uma incisiva observação do real, no mesmo registo simples e certeiro que encontramos noutros escritores de uma certa tradição realista (Diferente de neo-realista.), como a já referida Irene Lisboa, ou Ilse Losa, e, de certa maneira, às vezes não nos parece errado lembrar Agustina Bessa-Luís, em páginas de uma certa sagacidade e ironia. Luísa Dacosta é verdadeiramente dotada de um olhar atento a todos os detalhes, recriando com toda a desenvoltura longos diálogos com pessoas encontradas ou observadas na rua. Não estamos a ler uma autora que viva dentro de uma espécie de mundo interior, mas de uma observadora que fixa o exterior através de uma visão própria do real. Estas páginas encerram assim várias localidades (Vila Real, Porto, Matosinhos, Lisboa, Estoril, Régua, Rio de Janeiro, Londes, Díli, Vila do Conde, A-Ver-o-Mar, etc.) abordadas sumariamente na sua construção, mas densamente no seu lado vivido, e então encontramos surpreendentes análises sociais, tanto do ponto de vista da autora como do ponto de vista das pessoas, em particular o lado popular, mais do que o erudito, onde Luísa Dacosta encontra tantas vezes esses aforismos que, despidos que qualquer inquinação erudita, acabam por resumir a vida perfeitamente. Daí que certas passagens nos pareçam tão susceptíveis de ser incluidas entre os restantes livros da autora, os de crónicas.


Mas também a leitura e os livros encontramos em "Na Água do Tempo". Recorde-se que em 1960, Luísa Dacosta publicara "Notas de Crítica Literária" (ed. Divulgação), tendo entretanto alterado o título para "Notas de Leitura". No seu diário, cruzamo-nos com verdadeiros ensaios, sobre Camilo Pessanha, Irene Lisboa, José Régio, Cecília Meireles ou Aquilino Ribeiro. Estes textos têm a particularidade de se centrarem essencialmente numa perspectiva de leitor, em vez da tonalidade cada vez mais comum e mais aborrecida da análise da faculdade (Apesar de Luísa Dacosta ser realmente formada em Historico-Filosóficas.), e portanto, encontramos nestas páginas uma leitura apaixonada dos escritores em questão, em que os versos se abrem a novos sentidos. A paixão pelos escritores dar-nos-á também pungentes entradas, por exemplo, aquando da morte de Irene Lisboa ou da visita de Luísa Dacosta à casa onde vivera Cecília Meireles.
Além da literatura, também a pintura mereceu à autora algumas páginas de análise, uma vez mais uma análise que se pretende (E se consegue.) pessoal, mais do que técnica. Os pintores que aqui encontramos são aqueles que, afinal, foram próximos da escritora, participando com ilustrações em vários dos seus livros: Armando Alves, José Rodrigues, Jorge Pinheiro. Mais surpreendentes ainda são os comentários que Luísa Dacosta escreve, quando, em Março de 1984, visita com uma amiga uma exposição de arte naif: Que me dizem? Infância antes de tudo. (...) Infância, não apagada, mesmo naqueles que tiveram uma vida de luta (...) (pag.322).
A infância acaba por ser outro dos assuntos recorrentes nos livros de Luísa Dacosta, pois, como lemos na nota biográfica da badana, alguma coisa deve aos alunos: o ter ficado do lado do sonho. E portanto, essa procura do olhar infantil, impoluto, pauta também algumas destas páginas. Mais ainda, encontramos entre 1971 e 1972 os textos que integraram o Exame de Estado de Luísa Dacosta. Neles nos cruzamos frequentemente com esse contacto com os alunos, com os problemas da infância, mas também com o olhar simples sobre o mundo com que a autora, na sua sensibilidade, se cruza profundamente. E encontramos mesmo as dificuldades de uma mulher de pensamento moderno e culto tentando transmitir essa cultura aos alunos, e o sistema recusando essa renovação.

Dos géneros publicados pela autora, falta referir ainda a poesia. Os três volumes de poesia publicados, "Nos Jardins do Mar" (ed. Figueirinhas, 1981), "À Sombra do Mar" (ed. Câmara da Póvoa de Varzim, 1999) e "A Maresia e o Sargaço dos Dias" (ed. Asa, 2002) dão-nos conta de uma sensibilidade apurada, despida de quaisquer formalismos, e que traça uma ponte em relação à restante obra. Mais ainda, estes três livrinhos de poesia confirmam-nos que a linguagem de Luísa Dacosta, nos seus outros livros, nunca abdicou de uma sensibilidade extremamente poética. Quando, neste diário, lemos determinadas passagens, não é difícil concebê-las como poemas em prosa. Mais ainda, em Novembro de 1970, encontramos apenas a seguinte frase:
.
Todo o ouro do outono e a tua ausência.
(pag.172)

é difícil não a conceber como poema, sendo uma frase tão sintética, tão valiosa pelo pouco que diz o muito que fica não-dito. É essa relação entre o que é escrito e o que é intuído que vale a "Na Água do Tempo" muitos dos seus mais belos momentos.
Ainda de referir são os relatos da estadia da autora em Díli, após o 25 de Abril de 74, em que o falhanço do projecto de educação conduz a autora não só ao relato impiedoso das condições de vida e da fuga do local, como também a analisar, à margem de qualquer histeria, as dificuldades com que a democracia se debatia nos seus primeiros tempos.
Sobre os livros, vamos encontrando uma ou outra referência, por vezes a questões de edição, comentários às artes gráficas, às ilustrações, e uma ou outra vez refere o processo de escrita ou de organização dos livros. Mas não encontramos aqui detalhes sobre essa construção, essencialmente por dois motivos: o primeiro, e já referido, é que este livro, apesar de responder perante a especificidade de "diário", pode perfeitamente ser entendido como mais um livro de Luísa Dacosta, com a diferença de que cruza vários géneros e intercala com eles alguns detalhes quotidianos; o segundo porque esses livros de Luísa Dacosta seguem esta mesma construção, não precisando, portanto, de complexas explicações ou justificações.
"Na Água do Tempo" é, portanto, um exemplar belíssimo de um livro, diário ou não, onde encontramos, mais do que histórias, uma série de textos que nos revelam, isso sim, de forma mais directa ainda todo o pensamento do projecto de escrita de Luísa Dacosta, a sua sensibilidade e as suas ideias. É certo que essas ideias fizeram dela uma escritora de certa forma "marginal", ou pelo menos exterior aos circuitos mais imediatos, o que aconteceu com outros autores que não quiseram inserir-se na esfera dos géneros comuns, caso uma vez mais de Irene Lisboa. Mesmo assim, este livro não deixa de ser uma boa oportunidade de entender plenamente esse projecto que, a meu ver, permanece numa espécie de sombra há tempo demais. Porque Luísa Dacosta tem essa capacidade de nos levar a descobrir um outro lado, sensível essencialmente, dos lugares que conhecemos: sejam ele a cidade ou a nós mesmos, de certa forma. É esse o seu eco principal.



(Nota: a primeira edição, da Quimera, tem em hors-texte o desenho a pastel de Maria Mendes reproduzido acima; a segunda, da Asa, inserida na colecção das Obras Completas de Luísa Dacosta inclui uma sobrecapa com uma pintura de Armando Alves.)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Uma Citação

E é quando o sol começa a sua lição, tentando ensinar-me a morrer a ocidente.

Luísa Dacosta

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Apelo



Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.






Luísa Dacosta
A Maresia e o Sargaço dos Dias
2002, ed. Asa
imagem de Júlio Resende

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Paula Morão sobre Luísa Dacosta

Paula Morão, que considero uma ensaista de grande inteligência e especial sensibilidade escreveu, a propósito de "Morrer A Ocidente" um texto, do qual transcrevo um excerto, acerca da escrita de Luísa Dacosta, com o qual concordo inteiramente:


A hiperconsciência que aqui se lê, desmontando ela mesma o mito de que se alimenta, conduz a um final elegíaco, sob o signo da despedida (como, aliás, acontecia no livro ["A-Ver-O-Mar] de 1980). Depois da confirmação do nome A-Ver-O-Mar, que "dura há séculos e continuará depois de mim. Sem mim" (p.125), encontra-se a despedida, retomando primeiro à descrição simbólica da casa-corpo, "ovo e berço" agora, "concha vazia" como há-de ficar um dia, e estendendo-se depois à luz sobre o mar, operando a fusão entre o "eu" e a paisagem marítima ("sou a gaivota [...] sou a pedra, p.218). O fim do livro coincide com o descrever da encomendação das almas tal como se pratica na região de A-Ver-O-Mar, ritual de lembrança e do entrelaçar da vida e da morte: "Ali as práticas dos vivos sobrepunham-se à encomendação das almas. Ali a vida triunfava da morte" (p.221). Assim se unem duas metades, mundo e escrita dele, através da palavra mágica [...]
Lendo este livro apuradíssimo, secreto e intenso, penso em António Nobre, em Raul Brandão, em Irene Lisboa: como (me) acontece com as deles, a escrita de Luísa Dacosta fica ecoando, no espaço mais íntimo dos dias.

terça-feira, 27 de julho de 2010

1959, Janeiro, Porto



No salão de cima (era todo envidraçado e a rua penetrava-o) havia sempre muita gente. Mas na cave, que os espelhos tornavam de uma solidão maior, as mais das vezes um dos criados encostava-se ao balcão, enquanto o outro servia, sem pressa, os poucos frequentadores. Só ali vinham alguns estudantes decorar, entre fumaças, estafada sebenta, bichanando teoremas e fórmulas, sorvendo golpes, curtos, de líquido fumegante, os que tinham encontros, mais ou menos clandestinos, e dali partiam para uma aventura de amor à hora, em quarto alugado, ou pequenos burgueses sem requintes que discutiam a bola e o avançado centro- "bestial!"- para provarem que estavam vivos e neste mundo. A gerência podia permitir-se aquela tolerância de o deixar dormitar diante da mesa vazia, naquele ambiente aquecido a bafo humano e vapores de café, ao abrigo do nevoeiro que lá fora engolia tudo ou da geada que embaciava as montras e arrefecia os relfexos nos paralelepípedos da rua. Cosido com um canto do café "reservado a senhoras e suas famílias", segundo rezava o letreiro suspenso, parecia um trapo enrodilhado. A gabardina de uma cor indecisa e asfiapada pingava-lhe sobre os sapatos, demasiado grandes, acharlotados. O chapéu cobria-lhe o rosto até ao bigode, murcho, caído, quase a tapar a ranhura dos lábios, fechados, sem desejos. De perto viam-se-lhe à volta dos olhos trémulos, vivos, das veias, vermes saindo do ninho das órbitas e passeando-lhe a cor funérea, onde a barba grisalha, de véspera, punha uma poeira de cinza, que parecia alastrar naquele meio silêncio, raro, cortado.

_Um carioca de limão.
_Café e bagaço.
_Um maço de Porto.
E era tudo. As ondas de sossego, escorraçado, voltavam e espraiavam-se pelas cadeiras vazias. Recomeçavam a conversa entre o criado e o homem do bar, sobre aquele atraso de vida da doença da mulher que tinha de ser operada, do desarranjo do filho mais novo ter de ir para a casa dos avós e ser preciso ir levá-lo, pois não se podia meter uma criança daquela idade sozinha num comboio. O outro ouvia-o distraído, já sonolento, a pensar na vida dele, nos problemas dele, nos pés dele, enganando o cansaço, despertando-se com aquele passeio enjaulado e maquinal, que o gesto da limpeza do balcão acompanhava. Os ruídos do andar de cima chegavam distantes, amortecidos, e era já menor o ruído, tinido, de louça e talheres. O relógio marcava onze e vinte. O homem cosido com o canto do sofá tinha adormecido e o cachecol de lã preta e ensebada guilhotinava-lhe a cabeça que as cordas dos tendões quase não sustinham. Os espelhos multiplicavam a satisfação, estomacal, dos poucos que tomavam café. O colorido dos painéis, o brilho, o mel e o conforto, das luzes. O dourado, sereno, da estatueta. O homem. O homem. O homem. O homem. Como eco. Ou nódoa que tivesse alastrado.

Luísa Dacosta
Na Água do Tempo, diário
1992, ed. Quimera
imagem de Toulouse-Lautrec

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Outubro, 1949



As ruas dormem ainda. As luzes dos candeeiros, porém, já se apagaram. A casa em frente tem o ar solene e misterioso das casas desabitadas. Talvez por isso o seu jardim de palmeiras hirtas consegue um certo encanto. Ao fundo a gravata, ainda cinzenta, do rio. Passam vendedores de jornais com a sacola vazia, acompanhados de uma tossezinha seca. E velhas, vergadas de devoção, para a primeira missa. Uma mão ensonada arredou uma cortina na casa rosa, de um rosa recente de bolo de aniversário. O movimento aumenta. O camião do gelo parou em frente da leitaria.
Luísa Dacosta
Na Água do Tempo, Diário
1992, ed. Quimera
pintura de Edward Hopper