Mostrar mensagens com a etiqueta David Penprase. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta David Penprase. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

[podes levar os dias que trouxeste]


podes levar os dias que trouxeste

os pássaros soterraram agosto
e sem lugar um homem cega pela janela
o mar que jura ter tocado com o sangue

podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois

daqui onde o grito surdo incendeia
a refutação da madrugada
donde o crânio esmaga o coração
um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido

não    é tarde demais para uma manhã
que foi a enterrar em tantas noites

as escadas morreram de sede
a terra caiu em nunca

podes levar os dias que trouxeste

Pedro Sena-Lino
Zona de Perda/ Livro de Albas
2006, ed. Objecto Cardíaco
imagem de David Penprase

segunda-feira, 18 de julho de 2011

1962, Agosto, A-Ver-o-Mar



Que longo dia para a minha tristeza! Longe é onde há vozes, chamamentos, passos, acenos de adeus. Aqui o silêncio é um túmulo aberto que me força a olhar a inutilidade da luz.

A paisagem movente, ensolarada, azul, luminosa e marinha é aquele que eu tinha decidido seria para sempre como entrar na infância e no sonho. Mas não tenho nenhum sonho para habitar a paisagem que se fere de insídias, de abandono, se lacera de ausência. Como foi possível? Não há só destinos. Há maus fados. Só nas histórias antigas é que tudo era de sempre e para sempre, porque o tempo não existe, é auroral, eterno, sem desgaste.

Vela que passaste entre as ramagens, a memória traz-me afagos, instantes, uma voz... Tudo breve, breve sombra de asas sobre as dunas.



Inocentes, as crianças dormem. A noite entra pela janela e pousa uma túnica, inconsútil de luar, na minha cama vazia. Fecho a vidraça. Pelo menos o choro soluçante da maré quedar-se-à fora. Mas não posso evitar o que em mim morre. Não sei bem o que é. Morre lenta, dolorosamente, morre, como um difícil afogar de pétalas.



Luísa Dacosta

Na Água do Tempo, diário

1992, ed. Quimera

fotografia de David Penprase

sábado, 12 de março de 2011

O Poema I


Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontando ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme

Luiza Neto Jorge
Terra Imóvel
1964, ed. Portugália
fotografia de David Penprase