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sábado, 26 de setembro de 2015

Outrebleu/ Outremer (2)


Nunca mais nada
será como dantes.
Eis-nos enfim de visita
ao lugar que não havia
onde as árvores se abraçam
até à  nossa asfixia.

Regina Guimarães
Outrebleu/ Outremer
2010, ed. Hélastre
pintura de Michele del Campo

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Street song


I am too young to grow a beard
But yes man it was me you heard
In dirty denim and dark glasses.
I look through everyone who passes
But ask him clear, I do not plead,
Keys Lids acid and speed.

My grass is not oregano.
Some of it grew in Mexico.
You cannot guess the weed I hold,
Clara Green, Acapulco Gold,
Panama Red, you name it man,
Best on the street since I began.

My methedrine, my double-sun,
Will give you too lives in your one,
Five days of power before you crash.
At which time use these lumps of hash
- They burn so sweet, they smoke so smooth,
They make you sharper while they soothe.

Now here, the best I've got to show,
Made by a righteous cat I know.
Pure acid - it will scrape your brain,
And make it something else again.
Call it heaven, call it hell,
Join me and see the world I sell.

Join me, and I will take you there,
Your head will cut out from your hair
Into whichever self you choose.
With Midday Mick man you can't lose,
I'll get you anything you need.
Keys lids acid and speed.

Thom Gunn
Collected poems
ed. Farrar, Straus and Giroux, 2005

sábado, 18 de abril de 2015

Começo


Vejo-te um pouco como se já não houvesse
uma casa para nós. As grandes perguntas estão aí
por todo o lado, onde quer que se respire, dentro
dos próprios frutos. É o começo da noite
e os cinzeiros já estão cheios de meias palavras:
porque escolhemos tão pouco
aquilo que nos pertence?

Vejo-te de olhos fechados enquanto me confiavas
a tua história - à mesa da cozinha, quase um espelho,
quase uma razão. As minhas canções preferidas
pareciam convergir para ti a certa altura, dir-se-ia
que te vestias com elas. E no entanto
como se apressaram as grandes florestas a invadir
as gavetas, como misturaram as raízes
no eco que fazia o teu desejo contra mim.

Rui Pires Cabral
A Super-Realidade (1995)
in «Morada»
ed. Assírio e Alvim, 2015
fotografia de Nikos Stamatopoulos

domingo, 12 de abril de 2015

Desabafo



Quando o meu tumulto recrudesce
(tempestade de água num copo)
o meu interior tumulto,
de que me escapa a profunda causa...

Quando falo
e as minhas próprias palavras,
por inúteis,
me espantam e me cansam...

Quando a moral dos outros
me traça à frente
o ridículo sulco dos limites...

Deponho as minhas armas boas ou fracas e rio.
Rio com amargor
e como o vento torço o rumo.

Limites...
Para o coração que tumultua, bofetada.
Para a livre imaginação, queda
Cinza,
cinza atirada àquele quê,
àquele quê nada expansivo e imenso,
ardente e infinito
de um pobre espírito.

Como o vento torço o meu rumo gritando:
Ó lar, ó lar das minhas esperanças!
Ó acolhida dos sem pátria e sem destino!

Risco baço dos meus limites, galguei-te.
Sim, galguei-te.
E perco-me no meu corcel de vento,
infeliz e irritada.

Mas para calar toda esta ansiedade
e, ai!
abafar o meu desprazer,
só alcançando as estrelas,
ultrapassando-as
e desaparecer...

Meu coração inchado rebenta, rebenta!
E tu gasta-te, saudade,
desejo, desespero, paixão do que sonhei

e sempre tive de perder.

Irene Lisboa
in «Seara Nova», 1939
imagem de Miguel Leal

sábado, 14 de março de 2015

Ausência cinco



Tua carne sai do ventre dos guindastes que procuras,

trazes na mão as folhas que moem esta ternura
morta
e é lá que os dias se levantam
na cor que escolheste para morreres
junto ao meu corpo incinerado e calmo.

Sinto que meu cansaço é macio
como as noites de diamantes tumultuosos.

Tu encontravas pequenas caixas intercalares,
a mim nasciam-me insectos sedentos de luz,

bania-me no espaço rudimentar deste peito lateral
até que nas manhãs após teu coito

teus véus se construíam em direcção aos elementos.

Jaime Rocha
Beber a cor
1983, ed. &etc
pintura de Graça Martins

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Tene me (fragmento)


Aconteceu-me ver matéria aflita,
Águas de um rio levando os afogados
Compadecidamente.
Com as mãos nos seus fundos, oscilando,
Passando os corpos umas para as outras,
Desfolhando-os aos poucos,
De maneira
Que aquilo que atinge finalmente o mar
Nada recorda já. Águas que
Despem a dor aos mortos,
Que passeiam
A sua lividez como uma flor.
Vi, com meus olhos, os desfiladeiros
onde despenham os executados,
abrirem gentilmente a sua cova
de areia e de erva,
para que nele repousem
a estoirada cabeça. O chão ondula,
e a sua piedade
tão desumana
acolhe-os como um berço.
Vi, que sei eu? a lâmina afastar-se
do pequeno cabrito.
Crias houve
que mamaram das pedras, separadas
que se acharam das mães por caçadores.

Hélia Correia
Apodera-te de mim
2002, ed. Black Sun
fotografia de Polly Borland

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Encontro


Não sou uma metáfora
de silêncio
mas sim a voz do nosso encontro:
o falo
impiedoso
cujo timbre,
como o de todos os mansos,
quase todos os ternos,
me excita
até ao crime.
Talvez esteja aí a tua submissão e o meu
despotismo,
escrita minha!
Não nos censuro.
Pelo contrário, acho que nos completamos.
Belo encontro!
Belo encontro! _ O magnetismo,
a pele, o meu gingar
de marinheiro e caravela masculina
e a tua vulva cega
e discursiva!
Onde aprendi as calças metálicas,
justas nas coxas,
os seios cortantes?
Pois. Num verso. Numa métrica sem rima.
Porquê, então, o espanto?
Todos os poetas são radicais e orgânicos,
sobretudo se interessados
no sexo.
Por isso não te quero obediente,
meiga
e desvitalizada,
tagarela
e insípida,
folheando uma revista inócua
e não te passando sequer pela cabeça o não seres
capaz de tomar uma resolução importante,
tal como a de, por exemplo, mudar uma torneira
ou viajar sozinha em busca
de um harém
suave.
Porque deveria, então, sentir-me
desapontada contigo?
Somos tão parecidos! _ dizes.
Claro: o mesmo arrojo, o mesmo minucioso
cuidado no penetrar
e sem traição
e sem perfídia,
a portuguesa
língua.

Eduarda Chiote
Não me morras
2004, ed. &etc
imagem: Marlene Dumas

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Armas brancas


11
Entre cantares (solitários, do povo)
e discursos exacerbados de políticos
a terra trabalha o seu fermento
lêveda ainda das bocas
colectivas.
Cada semana absorve-te e resolve-se
nas marés vivas dum corpo facetado.
A economia é um pilar estilístico.
Os homens de teatro imitam os tribunos
e as noções de equipamento
estendem-se à arte dos trágicos.
O sexo, dizes, não se determina.
Antes de senso
Visconti declarou
a terra toda que trabalha
treme.
Pasolini foi assassinado pelos seus próprios
mitos.
Não era tempo ainda da mão solidária
figurar entre os ciclones da Roda que desanda
inexoravelmente
sobre o campo dos mártires sem causa.
Virgens de uma razão alucinada
os seus heróis dançavam por entre uma flora
incandescente a meio termo do néon
a um passo da vida pitoresca.
As telas de cinema só se compadecem
com a maquinaria hirsuta e caricatural
dos enormes charutos do academismo
e das cosmopolitas capitais do Falo.
Esse jogo, jogava camuflado.
Nos seus trabalhos diários, a terra
continua a tremer por cima dos seus órfãos.
Proletários do sexo e de todo o mundo
uni-vos.

Armando Silva Carvalho
Armas brancas
1977, ed. Limiar
imagem: James Ensor

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Suor


Agora choveu.
Não sei onde estou. Conheço este ligar como se de mim falasse, mas não encontro a saída para dentro de mim. Queria muito dar um berro, o um beijo, mas não há ninguém. As lajes deste chão escorregam, as paredes também escorregam, não sei não, acho que este frio me vai derreter.

Corri tanto para chegar aqui. A luz está verde, e vermelha, que nunca vi em inglaterra, nem em frança, nem na holanda onde a torre de utrecht me dizia tudo o que eu não fui... Corri tanto para chegar aqui, eu que já aqui estava, eu que sempre aqui estive, eu que folheio livros de arte à procura de mim quando afinal o espelho basta, estou lá eu, estão lá todos, e é lá que todos são tão diferentes que os posso finalmente roubar, e esconder nos meus livros brancos, mas minhas casinhas brancas, nos dedos brancos dos que morrem nas estrelas amareladas das paredes, e nos pássaros de giz que eu não queria apagar e por isso não apaguei, porque eram o pouco que indica tudo, um pássaro voa mais de fiz, aqui não.

Cheguei a um transporte rápido. Lisboa ensurdeceu-me de soslaio e agora, com o ruído do martelo e do berbequim, já estou viva outra vez. Estes pregos são meus. Foram eles que os pagaram mas são meus. Eu sou fértil. Eu sou fértil. Já pari milhões de crianças às escuras, e os projectores foram parteiros, e o fórceps é que me fode sempre, eu nunca digo palavrões. Estou a suar. Vão saber. Pari, pari, pari e estou a suar. Aqui não gosto de tomar duche. É só um canto seco onde não quero socos. Tirei tudo o que pude, porque preciso de espaço. Não sou dona de mais nada, mas o espaço é sempre meu. Aqui, posso convidar anónimos.

Anónimos? Anónimos? Ah, fazer filhos com anónimos. Aqui, sobre as paredes, no chão: cada vez que aparecêssemos no espelho, seríamos filhos outra vez.

O que eu corri. O outro buzinava, aqui só se ouve o ar condicionado e uma lágrima a secar. Foi aquele anónimo que vinha triste. Eu não sei, não estava cá, contaram-me. Porquê? Querem saber porquê. Ah, mas é bom. É bom o tronco que fala dos troncos e a porta que conduz às portas e eu às vezes estou apaixonada por mim e às vezes fujo e digo que não tenho tempo e às vezes eu minto porque estou comigo e há melhor pessoa?

Pessoa. Neste espaço vazio uma pessoa cheia. Eu.

Manuel Cintra
Alçapão
2009, ed. &etc
imagem: Yona Friedman

domingo, 11 de janeiro de 2015

como que se constrói a solidão


como que se constrói a solidão
altissonante e invisível
nos descaminhos da inconsciência
se tranquilo te afogas no sono
não sendo ainda palpável a madrugada
indo a cidade a meio da noite
vazar seus contornos de lixo
seus estertores de vasa e lodo
a cada esquina em cada descampado
_ é cedo um círculo insolúvel de luz
persiste horas adentro
nesta mesma folha de insónia
que tão pérfida se faz silêncio

ah hão-de os meus braços tolher
a vibração dum grito amanhã todos os dias.

Wanda Ramos
Poe-mas-com-sentidos
1986, ed. Ulmeiro
imagem: Archizoom


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

salmo I (no dia 25 de abril)


a solidão é a única coisa que continuamos a partilhar
a solidão...
tudo mais é procura inútil
nós não procuramos nada
nós somos o panfleto vivo
contra a descoberta

reivindico perante o deus uma culpa que é só minha...

não _ berrou Luciano, o jogral.
depois disto vociferou uma série de monossílabos irrecuperáveis
mas quem acredita na tua bochecha linda
que está no transístor, na capa, na cassete
e na enseada verde onde o sol lambe as águas

Luciano, meu arroto cor-de-rosa,
podes parar os teus guinchos de esquilo.
podes parar.
reivindico perante o deus uma culpa que é só minha
a culpa que não cegou os meus múltiplos olhos azuis
apesar dos eclipses

onde está a tua consciência cósmica?
não ouves pulsar o coração da terra?
e o arfar da erva?
e o vento que mais uma vez te esculpe?

o teu espaço é limitado pela barriga de uma mãe ciosa
que não ousa parir-te

                                    (II)
bonjour, Monsieur Chloroforme
elle a dit d'un air agacé

Regina Guimarães
Ritos de eterna posse
1974, ed. autor
imagem: Emil Nolde

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Tão orgânico tão


Tão orgânico   tão
capazmente morto
este cansaço    lentidão

uma só noite a sobrevoar
todos os tectos   ó quietude!

assumir é do verbo forma
de dizer em quantos braços

sempre os teus
emoldurados de sementes
me renovo     ou talvez

nem sempre    a manhã
se derrame


Helga Moreira
Fogo Suspenso
1980, ed. O Oiro do Dia
imagem: Adriana Molder

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Incendiário


1

Deste-me um quarto um outono
que te darei em silêncio
ilha de fogo verão         em troca
dar-te-ei que incêndio
que sucesso que prazer que
força que solução que fome satisfaremos
que fogo para ti preparo
este verão
que outro local me darás
em silêncio este verão
que solidão preparamos que
local              este verão
preparo um quarto em silêncio
e a chama da solidão



2

Utiliza-me as pernas entretanto
pode ser posição anestesia
febre ou peste ou tumulto ou festa ou cinza
temperamento anestesia     tanto importa que

o verão me inutilize
me canse o fogo as pernas e avance
na areia a meu lado    tanto cansa
o verão como tu    tanto me cansa a cinza

tanto o quarto de fogo que me deste
tanta a esperança     utiliza-me ainda
este verão      apenas um incêndio

um beijo no verão  inutiliza
o corpo            pode ser
insucesso de fogo que utilizas



Gastão Cruz
A doença
in "Órgão de luzes/ Poesia reunida
1990, ed. Imprensa Nacional / Casa da Moeda
imagem: Michele del Campo

sábado, 15 de novembro de 2014

Dois poemas de Eduarda Chiote



Altas voam pombas (fragmento)

Todavia, penso que nada tem de temerário a ponte inscrita em corporal silêncio. As horas são uma galáxia branca; enevoada. Participamos da rotação do tempo. Estamos perante o mistério: o insondável.

Nesta evanescência, tudo pode não acontecer. Desventrar, do quotidiano, o rumor: despenharmo-nos pelos passos, a ratoeira do passeio onde negras pombas de luto na calçada agonizam; nada pode comparar-se a esta pegada no infinito.

Estamos no limiar do encontro. O numinoso. O secreto e o segredo. Cúmplices. Espectantes e frágeis. Nus. E violentamente vivos. Que nenhuma fábula pode comparar-se à migração da escrita. Nela, o silêncio é grande medalhão de vidro.

Altas voam pombas
1983, ed. &etc


Fiat Lux 9

A generosidade é má conselheira e péssima
economista. Jesus encarava tanto os filósofos da felicidade
quanto os desencantados eruditos
com muita reserva: uma vez que nem uns nem outros
tinham previsto, no Seu inflacionar os peixes,
ser, da natureza dos peixes, «o devorarem-se uns aos outros».
Tal como da natureza dos vírus o reproduzirem-se
e da natureza da dívida termos estado sempre em dívida
e até mesmo para com a dívida.
E da natureza do homem crescer e multiplicar-se: e da natureza
do bobo o riso, e da natureza do outro, o assombro
do facto _ farto de psicologias, dizes, quero factos.
Curioso, pois, ter sido O que nada entendia
de redução da carga tributária, precisamente quem apelou
para o não pagamento dos impostos, pelo que o modelo de um
paedocypris capaz de engolir
um tubarão ou o inverso,
não importa.
_Queres, então, fazer sexo comigo, tu? Tão disléxico
que nem sequer consegues arrastar-te pelo sono
desfeito das areias _ diria das palavras _ quanto mais por mares
desempregados
e lassas redes móveis?
Deixa para lá! Não te preocupes, que nunca
houve pandemia sem morte.

Fiat Lux
in "DiVersos - Poesia e tradução"
nº20, ed. Sempre em pé, Junho de 2014

imagem: Archigram

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Sobre o rosto da terra (fragmentos)























Sobe da nossa condição uma vontade de brancura. Até ao interior das casas, até à evidência dos rostos. A brancura iguala a liberdade do dia ao ascendermos à planura onde se respira de pé, rosto a rosto, na facilidade do vento.


*
Entre fios luminosos, rasteiros. Perpassa o vento baixo (o solo tem essa rugosidade amorosa que o dedo declina). As narinas respiram a paz na memória longínqua dum galo, fonte de eternidade. Estar, estar assim sobre o rosto da terra.

*
As evidências comovem-se. No acompanhamento do mar, animados pelo sussurro unânime. Os poucos que somos constelamo-nos estrela do mar. Em cada bico geramos um irmão futuro que canta a nossa liberdade.

*
De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.

*
Escolho a vaga breve, a súbita, que emerge na planura fatigante. A aridez da luz irisa os arabescos móveis. Estendo a rede de sombra, onde os sonhos afluem. O breve tempo de construir a casa de vento onde circula a paz viva entre as clareiras de espaço e corpos libertos.

António Ramos Rosa
Sobre o Rosto da Terra
1961, col. Pedras Brancas
pintura de Howard Hodgkin

domingo, 27 de abril de 2014

mudinha e quieta




















pé ante pé há-de chegar a morte:
alminha vagabunda, enquanto ofegas
são as gotas da vida cabras cegas
na hora escapulida que te exporte.

alguém dirá que ao criador te entregas,
terás um atavio em lenho forte
e um necrológio do melhor recorte:
azar, lampejos, erros teus, refregas.

se da outra vida algum contacto póstumo
acaso se consente então a sós tu mo
dirás depois e se gostaste ou não.

mas se não for assim não ficas mal
mudinha e quieta, por sinal,
há gente bem pior no panteão.


Vasco Graça Moura
3 de Janeiro de 1942 - 27 de Abril de 2014

quarta-feira, 2 de abril de 2014

[Quem fala]


























Quem fala
não sou eu
é o outro o que me expulsou
da concha do meu sol


É ele que caminha nos meus passos

e eu olho-o e esqueço-o
Quem pode suportar um reflexo?
Quem pode viver contra o seu duplo?


Eu digo eu ainda

mas sou eu que declino
sou eu que caio
com a ferida do sol que ele me arrancou

António Ramos Rosa
Numa folha, leve e livre
2013, ed. Lua de Marfim
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

terça-feira, 1 de abril de 2014

um cão para pompeia
























aos amantes enlaçados contraponho
um cão de pompeia, decerto ele andaria
a brincar junto ao forum, à cata de algum osso,
quando o vesúvio o caçou, mais lesto,

para moldá-lo em pedra-pomes.
insisto em vê-lo como um bicho magro e descuidado,
de penúria diuturna. passou de leve
pelos peristilos, alheio ao luxo, à corrupção,

à astrologia, e nunca dos triclínios
lhe caiu um naco envenenado, nunca se tornou
nem animal simbólico, nem mito que ganisse.
nunca foi encontrado nas escavações, mas é para aqui chamado.

era um cão, just a dog, com pulgas e
que alçava a perna como todos os cães
e ladrava e mordia quando era preciso.
fazia pela vida e, fauno das esquinas, pelas cadelas no cio.

alguma tabuleta diria cave canem em tésseras minúsculas,
sem alaridos da história, e só sobreviveu
nos livros de latim expurgados, misturada
com a guerra das gálias e alguns nomes de deuses.

eu canto um cão sem fábula nem pedigree, que não fugiu aos fados,
um rafeiro vulgar, digamos, de plínio
o velho que, a propósito, morreu perto dali,
talvez uivando, uns dias depois dele.

“você é um cerebral”, disse-me cloé, flava e enervada.
“sim”, disse-lhe eu com prudência, “mas há tantos.
e o amor e a morte sempre foram pensáveis”.
e acrescentei “e depois? que mal faz isso ao cão?”


Vasco Graça Moura
A Furiosa paixão pelo tangível
1987, ed. Quetzal
pintura de Paul Klee

quarta-feira, 26 de março de 2014

Peeping Tom





















Ojos de solitario, muchachito atónito
que sorprendí mirándonos
en aquel pinarcillo, junto a la Facultad de Letras,
hace más de once años,

al ir a separarme,
todavía atontado de saliva y de arena,
después de revolcarnos los dos medio vestidos,
felices como bestias.

Te recuerdo, es curioso
con qué reconcentrada intensidad de símbolo,
va unido a aquella historia,
mi primera experiencia de amor correspondido.

A veces me pregunto qué habrá sido de ti.
Y si ahora en tus noches junto a un cuerpo
vuelve la vieja escena
y todavía espías nuestros besos.

Así me vuelve a mí desde el pasado,
como un grito inconexo,
la imagen de tus ojos. Expresión
de mi propio deseo.

Jaime Gil de Biedma
Moralidades
Antologia Poética
1992, ed. Cotovia
imagem de Christopher McKenney

terça-feira, 25 de março de 2014

Face uma da outra





















De uma para a outra
em cada tapeçaria
o rosto da Dama difere

Numa lenta
mutação
de belezas corrompidas

Conforme o olhar
do Unicórnio

e dos pequenos animais
em torno delas

Tal como o Pintor as criara
diversas uma e outra
tecidas, entretecidas

Lianas de mãe e filha

Maria Teresa Horta
A Dama e o Unicórnio
2013, ed. Dom Quixote