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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Incendiário


1

Deste-me um quarto um outono
que te darei em silêncio
ilha de fogo verão         em troca
dar-te-ei que incêndio
que sucesso que prazer que
força que solução que fome satisfaremos
que fogo para ti preparo
este verão
que outro local me darás
em silêncio este verão
que solidão preparamos que
local              este verão
preparo um quarto em silêncio
e a chama da solidão



2

Utiliza-me as pernas entretanto
pode ser posição anestesia
febre ou peste ou tumulto ou festa ou cinza
temperamento anestesia     tanto importa que

o verão me inutilize
me canse o fogo as pernas e avance
na areia a meu lado    tanto cansa
o verão como tu    tanto me cansa a cinza

tanto o quarto de fogo que me deste
tanta a esperança     utiliza-me ainda
este verão      apenas um incêndio

um beijo no verão  inutiliza
o corpo            pode ser
insucesso de fogo que utilizas



Gastão Cruz
A doença
in "Órgão de luzes/ Poesia reunida
1990, ed. Imprensa Nacional / Casa da Moeda
imagem: Michele del Campo

sábado, 22 de setembro de 2012

Fluxo



















Há quanto tempo te perdi esqueci
Do coração a areia em vagas
fixas o sangue molha
como as margens frias o
rio
que da fonte escorre ainda
como um sulco de esperma
sobre a pele
do perdido desejo traça a via

Com o manto
da terra te confundo
manto da noite que
te envolve e és
como o dia submetes-te
ao abrupto
movimento da noite sobre o céu

núcleo da névoa como um nó
de cinza
labririnto da água foz do fogo
caos irreal da
vida
mais irreal
perder-te que reter
no teu interior o amor
absorto


Gastão Cruz
Órgão de Luzes
1981, ed. &etc
fotografia de Slava Mogutin

segunda-feira, 26 de março de 2012

A Rosa Doente



A rosa que adoece
é um leito e um corpo.
Penetrou nela o verme
que em segredo a destrói.


É um verme invisível
um insecto da noite.
A vida destruída:
oculto obscuro amor.

William Blake
(trad. Gastão Cruz)
Doze Canções de Blake
1980, ed. O Oiro do Dia
desenho de William Blake

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sobre a Areia


Sair do mar deitar

na areia o corpo como se o chamasse

o sonho desta noite tão exacta


na reconstituição do que era

oh alucinação da juventude

aproximar dos corpos



Gastão Cruz

in "Corrente d'Escritas 2010"


pintura de Henry Wallis

sábado, 30 de abril de 2011

Escassez (2)

Neste chão não dormimos e a
noite acelera-nos a vida tu
encostas ao incêndio
um fogo diferente

E nesta noite tanto como
na madrugada negra e clara fonte
no incêndio do chão desamparada
da amargura faz

o que diz quem
neste chão desta aridez dormiu de
dor e amparada esperança

um fogo tão diverso que dormimos
ao incêndio encostados
e vivos


Gastão Cruz

Escassez

1967, ed. autor

desenho de Rogério Ribeiro

quinta-feira, 31 de março de 2011

Cidades


Grandes cidades afogadas em fumo

e ruído exprimem

na nossa mente o seu silêncio

límpidos, edifícios

simples emanações da luz

que nos queima as retinas

fictícias Pensamos os lugares como

uma irrealidade O não visto apodera-se

da névoa que nos cega

Gastão Cruz

As Pedras Negras

1995, ed. Relógio d´Água

desenho de Paul Noble

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Corpo Sobre Corpo (1)


Dá-me a província do corpo
noite cratera sem fumo
dá-me o rumor do teu corpo
para conquistar o mundo

Dá-me a província do mundo
o fim convulso da noite
dá-me a saudade do mundo
para conquistar-te o corpo


Gastão Cruz
A Doença
1963, ed. Portugália
fotografia de Robert Mapplethorpe

quinta-feira, 10 de junho de 2010

No Sol



Irás achar que foi um erro e foi
um erro, que nada se passou
e na verdade nada acontece nunca
de verdade: a verdade seria

eterna e o acontecido pertence
aos eclipses do tempo precipícios
em que depois da morte ficam vivos
os momentos

caídos;
foi um erro porque nada existe
nem nós, já ao império das vagas
submetidos,

porém na praia oblíqua onde estivemos
permanecer no sol foi tudo o que quisemos


Gastão Cruz
A Moeda do Tempo
2006, ed. Assírio e Alvim


desenho de Graça Martins

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O Fim da Noite



A lava deixou sulcos no céu baixo
entre as nuvens do dia perseguido
como ramos da árvore
do céu batido
pelo vento visível

Os espelhos espalharam este brilho
de cinza
Sobre a zona do
ventre alastra ainda
o labirinto líquido
numa
mancha de ramos e raízes
E as lanças da luz como serpentes
erectas passam entre
as ramificações e as radículas
imprecisas
e fias do dia cor da
noite perseguidora
perseguida

Uma rede de vermes vai roendo
a barriga ferida A noite morre
com um espasmo de esperma e abre a extinta
boca de espuma e esperma e dela solta
retido e consumido um pénis hirto


Gastão Cruz
Órgão de Luzes
ed. &etc, 1981
imagem de Henri Toulouse Lautrec

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

ensaio sobre a lucidez

o (breve) texto de Gastão Cruz na edição desta semana do JL. Não tenho por hábito gostar de textos que apareçam na dita publicação, mas, de facto, Gastão Cruz acertou em cheio nos comentários que faz sobre "Caím" de José Saramago.

domingo, 2 de agosto de 2009

gastão cruz


Só a brasa das pernas despe o escuro
onde o silêncio incinerou a nua
suspensão morta do sangue e do tumulto
o limite da terra o ar a chuva

Só a vida suspende a cinza viva
que os mortos têm dentro submarina
das tábuas líquidas a pausa a dor o mito
o limite do mar o céu a vida

Só as pausas erguem os mitos no escuro
o limite da cinza o ar a morte
só os mortos têm pernas divididas

esbraseadas vivas sobre as ruas
com candeeiros amarelo forte
e campainhas rígidas de vidro

de A Morte Percutiva