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quarta-feira, 2 de abril de 2014

[Quem fala]


























Quem fala
não sou eu
é o outro o que me expulsou
da concha do meu sol


É ele que caminha nos meus passos

e eu olho-o e esqueço-o
Quem pode suportar um reflexo?
Quem pode viver contra o seu duplo?


Eu digo eu ainda

mas sou eu que declino
sou eu que caio
com a ferida do sol que ele me arrancou

António Ramos Rosa
Numa folha, leve e livre
2013, ed. Lua de Marfim
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

sábado, 20 de abril de 2013

Quasi vas auri solidum...


Un maître dit: Si tout intermédiaire entre moi et le mur était supprimé, je serais près du mur, mais je ne serais pas dans le mur. Il n'en est pas ainsi pour les choses spirituelles car l'un est toujours dans l'autre: ce qui reçoit est [identique] à ce qui est reçu, car il ne reçoit rien que lui-même. C'est subtil. À qui le comprend, on a suffisamment prêché. Cependant, un mot sur l'image dans l'âme.
Beaucoup de maîtres prétendent que l'image est issue de la volonté et de la conaissance. Il n'en est pas ainsi. Je dis bien plutôt que cette image est une expression d'elle-même sans volonté et sans connaissance. Je vais vous en donner une comparaison. On place un miroir devant moi; que je le veuille ou ne le veuille pas, sans ma volonté et ma connaissance, je me reflète dans le miroir. Cette image ne provient pas du miroir, elle ne provient pas non plus d'elle-même, l'image provient bien plutôt de ce dont elle tient son être et sa nature. Quand le miroir qui était devant moi est enlevé, je ne me reflète pas plus dans le miroir, car je suis cette image elle-même.
Encore une autre comparaison. Quand une branche jaillit d'un arbre, elle porte le nom et l'être de l'arbre, ce qui sort est [identique] à ce qui demeure à l'intérieur et ce qui reste à l'intérieur est [identique] à ce qui sort. Ainsi la branche est une expression d'elle-même.
Je dis absolument de même pour l'image de l'âme. Ce qui sort est [identique] à ce qui reste à l'intérieur et ce qui reste à l'intérieur est [identique] à ce qui sort. Cette image est le Fils du Père et je suis moi-même cette image et cette image est [la sagesse]. Que Dieu en soit loué maintenat et toujours. Amen. Que celui qui ne comprend pas ne s'en soucie pas.

Eckhart von Hoccheim
trad. Jeanne Ancelet- Hustache
Sermons (vol.1)
2003, ed. Points (Sagesses)
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

terça-feira, 10 de abril de 2012

Primavera na Schildersstraat (Lente In De Schildersstraat)



Via-te lá do outro lado
como se de um abrigo subterrâneo
saísses: cauteloso e espantado
com a luz que brilhava sobre os telhados
ainda trazias o casaco comprido de inverno
podia ter feito um sinal
podia-te ter feito perguntas
havia entre nós a rua como água
atrás de mim estavam mães sentadas no parque
em redor do museu, os filhos
levavam bofetadas até chorarem
a mim salvou-me o tempo,
a distância, este poema


Miriam Van Hee
trad. Lina Hofkens Cortesão
Uma Migalha na Saia do Universo (Antologia da Poesia Neerlandesa do Século Vinte)
1997, ed. Assírio e Alvim
fotografia de Ralph Eugene Meatyard




ik zag je aan de overkant 
als was je uit een schuilkelder 

gekomen: voorzichtig en verbaasd 

over het licht dat op de huizen scheen 
je had je lange winterjas nog aan 
ik had een teken kunnen geven 
ik had je vragen kunnen stellen 
de straat lag tussen ons als water

achter mij zaten moeders in het park 
rond het museum, hun kinderen 

kregen klappen tot ze huilden 

mij heeft de tijd gered, 
de afstand, dit gedicht


Miriam Van Hee
Het verband tussen de dagen. Gedichten 1978-1996
1998, ed. De Bezige Bij, Amsterdam

domingo, 23 de outubro de 2011

Bem-vindo ao Ano Zero



Deram-me a riqueza,
mas não me disseram o que fazer com ela.


Iegueni Ievtuchenko

Com a minha idade, o meu pai já era um homem honrado,
o meu avô trabalhava na marinha mercante,
disparava ocasionalmente um ou dois foguetes
em direcção a terra seca, em homenagem ao amor de uma mulher
que conheceu antes da minha avó e que me teria dado
olhos azuis e muito menos problemas.


Aos dezoito anos os meus pais participaram na Revolução.
O meu avô também. Tinha quarenta e cinco.
Depois os meus pais casaram, desculparam-se com o ciclo da vida,
o país parecia estar no bom caminho, a casa ainda não.
Quis ser actor o meu avô, depois de ter passado
cinco dias e quatro noites a traduzir uma peça de Brecht
num quarto da pensão Rosa com vista para o rio Sado.

Então nasceu o meu irmão com os olhos que – toda a gente
confirmava – eram iguaizinhos aos da minha mãe.
Depois nasci eu e depois a minha irmã, com olhos de Varsóvia,
não tão honrados quanto belos.
Eu ainda nasci em Portugal, a minha irmã já não, nasceu na CEE,
que entretanto tinha ensinado a minha mãe e o meu pai a serem
ainda mais perfeccionistas nisso de serem honrados.
O meu avô continuava a traduzir Brecht e desconfiava
da PAC e de tudo aquilo que pudesse ser formulado
apenas em três letras.
Para ele, no mínimo, eram necessárias quatro.

Foderam-me a vida, o meu pai e a minha mãe,
e o pior é que o fizeram para que eu pudesse chegar
aos vinte e três anos e dizer que já sou um homem honrado,
tal como o meu pai tem sido, ao contrário do meu avô,
que prefere Brecht à linear organização comercial
do novíssimo amor português.

E pior ainda é que tenho vinte e três anos
e corro o risco de já ser um homem honrado.



David Teles Pereira
in 'Criatura', nº 4

fotografia de Ralph Eugene Meatyard

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Sótão




Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.

Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas
2001, ed. Relógio d'Água
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

segunda-feira, 25 de abril de 2011

quinta-feira, 21 de abril de 2011

domingo, 13 de março de 2011

Excerto da Sensualética Llansoliana


O que aprendi com Teresa? Que a ressurreição não é um acto de potência divina, mas a suprema manifestação de amor. Dar a vida não chega, não é um acorde consonante com a substância. Ressuscitar, sim, é o acorde perfeito.
Mais adiante, o texto falar-nos-á de uma rapariga.
Ela entra e diz-me
_Sim -diz-me ela, pousando as mãos nos meus joelhos: _Desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e que seja um homem.
_Alguém que queira ressuscitar para ti?
_Sim, alguém que tenha para comigo essa memória.

Maria Gabriela Llansol
O Jogo da Liberdade da Alma
2003, ed. Relógio d' Água
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

sábado, 12 de março de 2011

Assim se Vive


Anda uma pessoa fechada consigo.
Assim se vive.
Se vive, se finge que vive.

Lindos dias.
Atravessam-se jardins, vê-se gente.
E a paz e o movimento e fora e dentro de casa
um vácuo, um vácuo!

Não dei aquele beijo...
Não o podia dar.
Mas senti que mo pediram.
Aquela mansidão!
Não era bondade, era só desejo.

Não dei aquele beijo que devia ter dado e acei-
tado se fosse mais hábil.
Dado e aceitado sem amor profundo.
Amor profundo!...
Dado e aceitado por gosto, gosto de beijar.
Tão raro, tão imprevisto, tão mal praticado!
Gosto do amor? Talvez.
Desespero, desespero apaixonado.

Irene Lisboa
Outono Havias de Vir
1937, ed. Seara Nova
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

quinta-feira, 10 de março de 2011

Aniversário


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


15/10/1929

Fernando Pessoa
Poemas de Álvaro de Campos
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Epístola Para os Meus Medos


Sois: os sons roucos, a espera vã, uma perdida imagem.
O coração suspende o seu hálito e os lábios tremem
sinto-vos, vindes ao rés da terra, como ventos baixos,
poisais no peitoril. Sois muito antigos e jovens,
da infância em que por vós chorava encostada a um rosto.
Que saudade eu tenho, ó escuridão no poço,
ó rastejar de víboras nos caniços, ó vespa
que, como eu, degustaste o figo úbere.
Depois, mundo maior foi a presença e a ausência,
a alegria e as dores de outros que não eu.
E um dia, no alto da catedral de Gaudí,
chorei de horror da Queda, como os caídos anjos.


Fiama Hasse Pais Brandão
Epístolas e Memorandos
1996, ed. Relógio d'Água
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Difícil Poema de Amor


Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes. Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras onde as ruas são os pontos únicos do furor erótico e onde todos os pontos únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas
que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.

Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.
Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.
Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste maléfico como um pássaro sem bico.

Num silêncio breve vestiu-se a cidade. Muito bom-dia querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas da manhã de hoje.

Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição.

Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os olhos vasados. Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?

Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu? Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.

Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a cálculos. Amas-me demais.
Confesso: não sei se sou amada por ti.

Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então
virás
vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.

E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos benignos que faremos?

Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes. Conheces-me. Não me tens amor.

Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me afundar.

Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.
Ah a cratera o abismo eléctrico!

Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que este imaculado com mais visco de amor cópula mortal.

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.

Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te espero coalhou. Haverá outro verbo?
Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo eu. Existirão tais palavras?

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim de ti.

Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento. Ou antes: separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separámos.

Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao mesmo tempo será impossível enquanto não houver relógios que meçam este tempo e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.

Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava por paixão por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço

nunca por pretender dizer o que quer que fosse.

Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.

O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclusos beijos nos dentes.

A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e morremos.

Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras. Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me adormecias devagar.

Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um animal estrangulado acordei-te.

Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.
Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.


Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu nome profissão morada telefone.

Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.

Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!

Luiza Neto Jorge
Os Sítios Sitiados
1973, ed. Plátano
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sermos Nós e Sós


Vi-te rastejante e repulsiva, depois de uma cena
(de puro masoquismo),
implorares-me
por amor de Deus
não me deixes.
Se tu soubesses o quanto me foi constangedora
a tua humilhação.
Como tive de conter-me para não te esbofetear.
Oferecias-te (Judas!)
quando tudo quanto eu desejava era que te enforcasses
perante o meu silêncio -dignamente.
Mentes quando evocas lealdade -"Esse feliz rigor"
Nunca existiu: clareza. Entre nós. Apenas manipulação.
Entendes agora
por que a minha poesia se torna cada vez mais
crua; por que prescindo, nela, de ternas
efusões? -Cara lavada: rugas à mostra: e o tempo
nosso -a idade dos órgãos.
Sem transplantes
cirúrgicos.
Não digas que falo deste modo por nada termos a perder.
Temos -um amor sem retorno.
Indiferente à esperança e ao desespero.
Não há mais nele, como outrora, palavras endurecidas
como um pedaço de ti
na minha boca: só saliva. Sida -gritos de morte.
Envelhecemos
e nem as pequenas e brancas florescências dos nossos
sexos nos redimem: acredita e de uma vez
por todas: "A eternidade
abandonou-nos".


Eduarda Chiote
Órgãos Epistolares
2011, ed. Afrontamento
fotografia de Ralph Eugene Meatyard