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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Uma promessa do mundo

Urbanização*

Tudo o que vivêramos
um dia fundiu-se
com o que estava 
a ser vivido.
Não na memória
mas no puro espaço
dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso,
um campo vazio de tojo seco.

Depois, alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu,
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo,
ou a sós em silêncio
ou narrando esse meu ver.

Neste poema, pertencente à última recolha publicada em vida da autora, Fiama Hasse Pais Brandão escreve no sentido de, através do espaço, abolir o tempo, ou a passagem do tempo, no sentido em que estamos habituados a compreendê-la. Mas o que Urbanização tem de mais intenso é a forma como, logo nos primeiros versos, se recusa a fazê-lo através da colocação do poema no espaço da memória. A fusão entre o passado e o presente dá-se ''no puro espaço/ dos cinco sentidos''. Assim, ''a dupla configuração de um campo'' não é narrada como se se contasse uma história. É facto que primeiro existe ''o mundo, raso/ um campo vazio de tojo seco'' e que depois ''alguém/ urbanizou o vazio''. Mas não se trata de um exercício de memória. Neste poema, a visão é dupla, e só assim pode actuar sobre o mundo que tem diante de si, com o qual se encontra. O que aqui temos, quando o eu do poema nos narra o seu ver, é uma espécie de fenomenologia, uma imaginação sensorial do próprio espaço. A visão dupla (que Fiama reclamara já no poema Do Amor IV, do mesmo livro), é a própria imaginação, que se desenha como uma forma de consciência. É assim que o eu consegue intuir o vazio sob a urbanização, o tojo sob as casas.
Por isso, o poema de Fiama apresenta-nos não menos do que uma verdade elementar sobre o espaço construído: cidade e casa, urbanismo e arquitectura. A acção humana de alguém que urbaniza o vazio opõe-se ao que existe inicialmente. O ''campo vazio de tojo seco'' é uma imagem do deserto. Esse deserto subsiste mesmo quando é preenchido por construção. Não só porque o eu é capaz ainda de o ver, de saber que ele continua ali sob as construções, mas também porque o próprio deserto é, de certa forma, um espaço sempre de ''dupla configuração''. Sabemos disso porque o poema não se faz nem pela memória nem pela linguagem, mas pelos cinco sentidos. Isto significa que é através do corpo do eu que a fusão do passado e do presente ocorre. Nesse sentido, sempre o vazio do deserto e a vastidão do vazio serão espaços privilegiados para a imaginação do mundo. No poema de Fiama, o espaço deserto é uma matriz inicial, uma promessa do mundo, ele contém já a urbanização que nele virá a erguer-se. Essa cidade já existe ali, mas é visível só pelo olhar sensorial e ilimitado da imaginação. Reciprocamente, a urbanização erguida não pode deixar de conter o ''mundo raso'' de onde nasceu.


A linguagem do poema é simples mas enigmática, os versos curtos são fluidos mas tensos. Essa tensão justifica-se nos últimos versos, em que o eu nos diz que assiste ao crescimento da urbanização ''ou a sós em silêncio/ ou narrando esse meu ver''. O poema está assim na tangente entre silêncio e fala. Ele depende de uma imaginação, de uma experiência total que só em parte pode ser resolvida pela linguagem. Daí o tom enigmático do discurso: a experiência é sensível, quase sensual, e só parte dela é transmissível por palavras. O não-escrito, que descobrimos ao ler o poema, pode ser uma forma de acesso ao resto do que foi experienciado. Talvez este poema só possa ser entendido se repetirmos por nós mesmos o movimento que lhe dá origem: se olharmos imaginosamente para o espaço da cidade e conseguirmos sentir o vazio iniciático, que não nos levará ao início do tempo, mas criará uma espécie de experiência simultânea dos tempos. Como a que acontece neste poema.


________
*Fiama Hasse Pais Brandão. As Fábulas. ed. Quasi. Vila Nova de Famalicão, 2002. p.32

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Os Hinos à Noite 2





















Terá a manhã sempre que voltar? Não terminará jamais o poder da Terra? Agitação nenhuma consome o celeste poisar das asas da Noite. Jamais ficará a arder sem fim a secreta oferenda do amor? O tempo da Luz é mensurável; mas o império da Noite é sem tempo e sem espaço. _Perene é a duração do sono. Sagrado sono, não sejas avaro dos teus benefícios para todos os que nesta jornada terrena se consagram à Noite. Só os loucos te desconhecem, não sabendo de outro sono que a sombra que tu misericordiosamente sobre nós lanças no crepúsculo dessa vera Noite. Eles não te sentem no dourado caudal das uvas _na maravilha do óleo de amêndoas, no suco escuro da papoila. Não sabem que és tu que pairando no contorno dos seios das tenras donzelas tornas o seu regaço o Céu _não supõem que tu, vindo de histórias antiquíssimas ao nosso encontro, vens para abrires o Céu e trazeres contigo as chaves das moradas dos bem-aventurados, mensageiro silente de infindáveis segredos.
Novalis
(trad. Fiama Hasse Pais Brandão)
Os Hinos à Noite
1988, ed. Assírio e Alvim
pintura de Abraham Bloemaert

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Estradas (1)


Esta é a estrada
que me atravessa o tórax
com os seus marcos leves.
Vagarosa vida em terraplanagem,
vivo medo. Tem o cascalho,
o pó, o macadame negro
que nos esmaece. Vai cortar-nos
o som com que gritámos.
Abater a colina clara,
que percorríamos, amantes solitários.
Vai esquecer-se dos passos
de parentes e pássaros.
É a estrada que esventra.
Estivemos no começo
e no fim do seu tempo.


Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas
2000, ed. Relógio d'Água
snapshot de um filme de Nicolas Provost

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Respiração


E ao fim de tanto amor comecei a sentir pelos vivos o que sentia pelos mortos. A maneira de os ouvir ler. O sentar-me junto à mais baixa inflexão de voz, vendo a descida do som e as mãos que participam da leitura. Ficar sentada para sempre junto aos joelhos senis desses leitores entre os vivos. Conhecê-los e reconhecê-los com uma auréola de luz divina no crânio como a que tinham os mortos santos pelo seu merecimento. Aqueles de que eu fora testemunha por vezes reveladora durante quase cinco décadas. O que eu sentira elaboradamente pelos mortos sobretudo o desejo avassalador de ressurreição estava agora a ser exigido pelos vivos, a própria carnalidade. Todo o ouro que mostram as figuras aparecidas na leitura.

Fiama Hasse Pais Brandão
Visões Mínimas (1968-1974)
in 'Obra Breve'
2007, ed. Assírio e Alvim
pintura de Felix Labisse

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Epístola Para o Fogo na Memória



Revejo o imenso campo de aveia brava a arder
com uma só chama una e rasa sobre as terras.
As crianças quiseram caminhar sobre o fogo
para que caminhassem assim sobre o Sol no alto.
Pegaram-nos na mão, porém, como se a luxúria
nos levasse a desejar carnalmente as chamas.
Nós, crianças imóveis, então chorámos a olhar
tanta beleza, e nunca mais nossa e tangível.

Fiama Hasse Pais Brandão
Epístolas e Memorandos
1996, ed. Relógio d'Água
fotografia de João Gouveia

[Na cidade todas as casas são de pedra.]




Na cidade todas as casas são de pedra.
A geometria é mais que geometria. É vida. É polígonos de sombra à luz estática da lua, à luz invariável da lua a angular-se nas pedras. O movimento é a única realidade essencial.
Em cada esquina há um princípio e um fim. Mas todos passam e ninguém pára a meditar. Ninguém compreende o simbolismo tranquilo das esquinas, beleza fatalista das esquinas.
Na cidade todas as casas são de pedra.

Fiama Hasse Pais Brandão
Em Cada Pedra Um Voo Imóvel
1958, ed. autora
desenho de Adam Dant

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Sótão




Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.

Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas
2001, ed. Relógio d'Água
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

segunda-feira, 28 de março de 2011

Poetas do Amor


Senão todos algum

de nós reproduz diversos os mesmos lugares

E aquela que entra no verso para o percorrer

atrás da tua sombra serei eu.

Fiama Hasse Pais Brandão

Entre os Âmagos in Obra Breve

2007, ed. Assírio e Alvim

fotografia de Hedi Slimane

sábado, 12 de março de 2011

A Matéria Simples


Os brilhos que na noite vêm
são dos olhos dos que sonham,
viagens pelos mares de outras águas.
São os que não gostam de se elevarem
no ar sobre os antigos oceanos
e amam os pequenos riachos
e o fundo invisível dos poços.

Fiama Hasse Pais Brandão
A Matéria Simples*
in Obra Breve
2007, ed. Assírio e Alvim
desenho de Henri Michaux
*conjunto dos últimos três poemas escritos pela autora

sexta-feira, 11 de março de 2011

Estoi


Havia passado a tempestade e deixara
no chão, nas bermas, covas e resíduos.
Derrubara o baixo muro de pedra
e cavara o leito da excessiva ribeira
na borda do laranjal. Do laranjal
me falava a voz agricultora, do
..................................furor
de água, da solidão daquele
..................................campo,
distância de courela a courela.
Esperava depois uma colheita
farta e tranquila, merecer
que a divina força fértil o revisitasse.
Oiço-o rasgar uma laranja salva
e úbere, e dizer-me que o tempo
é inseguro e a nossa vida curta.

Fiama Hasse Pais Brandão
Eremitério
in Obra Breve
2007, ed. Assírio e Alvim
fotografia de Lourdes Castro

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O Nome Lírico


Esta manhã
hoje
é um nome.

Nem mesmo amanheceu
nem o sol
a evoca.

Uma palavra
palavra só
a ergue.

Como um nome
amanhece
clareia.

Não do sol
mas de quem
a nomeia.

Fiama Hasse Pais Brandão
Barcas Novas
1967, ed. Ulisseia

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Epístola Para os Meus Medos


Sois: os sons roucos, a espera vã, uma perdida imagem.
O coração suspende o seu hálito e os lábios tremem
sinto-vos, vindes ao rés da terra, como ventos baixos,
poisais no peitoril. Sois muito antigos e jovens,
da infância em que por vós chorava encostada a um rosto.
Que saudade eu tenho, ó escuridão no poço,
ó rastejar de víboras nos caniços, ó vespa
que, como eu, degustaste o figo úbere.
Depois, mundo maior foi a presença e a ausência,
a alegria e as dores de outros que não eu.
E um dia, no alto da catedral de Gaudí,
chorei de horror da Queda, como os caídos anjos.


Fiama Hasse Pais Brandão
Epístolas e Memorandos
1996, ed. Relógio d'Água
fotografia de Ralph Eugene Meatyard

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Na Insónia Vivem

Dormia nos séculos, na obra (o azulejo),
e hoje vivo a vigília, reparto
os detritos do ouvido (nesses pátios chamam), a poeira urbana.
Se no sono mortal, entre frutos, pensava
na ciência, se os fenos, no exterior,
murmuram; que não recebi dos cereais o
seu dom; nada senti (as úlceras) entre arbustos velhos, portas de sombra
de um só solar; dançam, no peristilo, em pedra, e no entanto
assim dormem (o seu estado: a cerâmica). Só agora me exaltam;
arte, memória, as páginas, na insónia vivem,
lembro, como adormecem os mortos (silêncio vital) no seu tempo.


Fiama Hasse Pais Brandão
(Este) Rosto (1970)
in "Obra Breve"
2007, ed. Assírio e Alvim
imagem de Eduardo Luiz

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Estrada de Fogo


Pedra a pedra a estrada antiga
sobe a colina, passa diante
de musgosos muros e desce
para nenhum sopé;

encurva, na abstracta encruzilhada;
apaga-se, na realidade. Morre
como o rastilho do fogo,
que de campo em campo aberto

seguia, e ao bater na mágica cancela
dobrava a chama, para uma respiração,
e deixava o caminho do portal
incólume e iniciado.

Fiama Hasse Pais Brandão
"Três Rostos" (Arómatas e Ecos)
1989, ed. Assírio e Alvim
pintura de Mário Cesriny de Vasconcelos

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Fiama Hasse Pais Brandão: Âmago 1, Nova Arte

SER UM COM O MUNDO


Logo no primeiro poemas de “Âmago 1: Nova Arte”, publicado na Limiar em 1985, Fiama Hasse Pais Brandão fala n’ “um espelho para reproduzir/ as mutações da vida.” E, no poema seguinte, “Gota de Água”, o sujeito poético experiencia uma gota de água a cair numa corola. Mas experiencia esta queda não como observadora:

A gota de água cai na corola. Essa
queda também me movimenta. Assisto a
um condão estranho. Ser gota e ser
figura. (…)


A palavra “figura” vai ser essencial para atravessar este livro e tirar dele o seu “âmago” primeiro, a “nova arte” que o título anuncia. É de figuras, efectivamente, que este universo parece construir-se. No poema “O Gamão” encontramos uma possível definição da “figura”:

(…) O meio corpo na meia realida
de. Anda compassadamente pelo seu li
toral. Mesmo quando é comparsa das
figuras do gamão, a minha silhueta
diferencia-se.
(…)
Sou eu que ainda
estou presa à minha figura.


Daqui, retiramos já algumas conclusões: a de que a figura compreende meio corpo na meia realidade. É portanto um corpo dividido ou, de outra forma, incompleto. Nos últimos dois versos citados, o sujeito poético assume-se preso à sua figura. Uma figura, portanto, de corpo dividido e cuja silheta se diferencia de outras figuras. Regressando ao poema já citado “Gota de Água”, já vimos que o sujeito poético é também movimentado pela queda da gota de água. E fala-nos de um “condão estranho. Ser gota e ser/ figura”. Assume-se, portanto, desde o início como figura. E, retomando ainda o momento que esse poema, um dos melhores do livro de 1985, descreve, podemos assumir que, de certa forma, a corola em que a gota cai faz parte da figura do sujeito poético, porque essa queda também o movimenta. Se retomarmos a ideia da figura com meio corpo na meia realidade, talvez não só o corpo de uma figura esteja dividido, mas também o real: um real dividido entre os elementos e a percepção sensitiva, psíquica, que o sujeito poético tem deles.

Neste livro, tudo se transforma em figura, tudo tem o seu lado visível, como em “Morte no Plano”: O siêncio em fios.
Esta anulação das distinções “ser humano”, “ser vivo”, “ser não vivo”, que todos passam à categoria de “figura” tem evidentemente o seu peso. Peso que é explicado ainda no poema “Gota de Água”:

(…) An

do afastada das coisas. Mas sou visí
vel para elas. Aquela pápebra vê
-me. Tem os signos incrustados no arb
usto e mais simples é a brancu
ra. Ainda sou arguta. Incito a escri

ta a porvir das palavras. Como é
pungente manter-me no ardor
das figuras. (…)


Aqui, como vemos, as “coisas”, classificação vulgarmente atribuido ao que não tem vida, ou então “aquela pálpebra” vêm o sujeito poético, que vulgarmente seria “ser humano”. A redução de tudo a “figuras” é, por isso, um nivelamento entre o Homem e os restantes elementos da natureza, as plantas, os animais (Em cima a silhueta da figura do sujeito poético é comparada à de um gamão.), etc.
Não deixa, depois deste ponto da “figura”, de ser importante destacar um verso do poema “Flamingos” onde Fiama escreve “Nenhuma metáfora me assassine.” Tem este verso particular interesse porque, se podíamos ter, por exemplo, a queda da gota na corola sentida pelo ser humano como metáfora, fica aqui esclarecido que disso não se trata. Pelo contrário. Quanto mais entramos no universo deste livro, mais percebemos que não é de metáforas que se fala, mas de uma postura perante a natureza, a de ser um com ela. Será essa a “Nova Arte” anunciada pelo título, experienciar a natureza sendo parte intrínseca dela, tornando-nos mais uma das suas figuras. Mais à frente, no poema “Arte” esta recusa da metáfora é levada ainda mais longe: “Mas nada/ por efeito da metáfora me/ arrebata para dentro.”
No poema “Lince” encontramos ainda uma interessante abordagem da morte, outro dos assuntos essenciais de “Âmago 1: Nova Arte”.

Aprendendo a mímica do lince podes
amar a morte. Uma aprendizagem exa
cta. Seguir o contorno parado, ponteagudo,
das pequenas orelhas.
(…)
Não
temas o fim como os outros seres
vivos que amam a própria morte.
A sua silhueta articula-se como um o
bjecto artificial.
(…)
Aprender um desenho
mais profundo do que o prateado
do vulto. O que nos fulmina é
belo como a última queda depois
de um salto livre entre as montanhas.


Repare-se que o desenho não é necessariamente um desenho no sentido em que é um aglomerado de linhas e manchas sobre o papel. Pelo contrário, o desenho parece ser feito como que para incorporar a própria figura, numa espécie de fagia: fagia no sentido em que a “figura” que tomamos por uma figura humana deve assimilar o “desenho” do tigre para aprender a amar a morte. É preciso não esquecer que esta poesia, a de Fiama, desde sempre teve como maior objecto a natureza, livro após livro, a obra de Fiama parte e chega à natureza. Mais ainda, na bibliografia da autora, aquando da publicação de “Âmago 1: Nova Arte”, é anunciado um próximo livro “Âmago 2: Nova Natureza”, que acabaria por ser publicado no volume que reunia três livros de Fiama, “Três Rostos”, publicado pela Assírio e Alvim em 1989.
Voltando ao assunto da morte, é também de referir o poema “Morte no Plano” de que transcrevo a primeira estrofe:

Chuva tão firme como a mor
te num plano. Árvores turvas.
O silêncio dividido em fios.
Corte na cadeia dos desejos. A ca
sa acidulada. O açúcar sem
boca. Nada ou zero. Morrer atrás
das sombras. Ir e vir. Miserável
morte.


O funcionamento entre a morte e a natureza é aqui bastante mais subtil do que no outro exemplo, porque o poema incia com uma comparação entre a chuva e a morte. E, as imagens que de seguida fornece, abrem possibilidades tanto a uma como a outra. O siêncio interrompido ou dividido, as árvores que parecem desfocadas, o corte no desejo, a casa acidulada, o açúcar que ninguém come, etc. Neste poema parece-me, portanto, estar mais do que provada a ideia da figura humana, que pode ser o sujeito poético, se funde completamente no elemento natural. O mesmo se poderia dizer, acerca desta fusão, a respeito do poema “Erez”, onde lemos nos primeiros versos que “A praia sobe até aos dedos/ mínimos.”
Parece-me relevante referir o poema “O Começo da Obra”, que encontramos mais à frente:

Na manhã tão densa como a noite
encontrei o amanhecer perdido. Dedo
a dedo encho-o com música. Som
sobre som vejo-a.
(…)
Reencontro o mundo que pulsa. E o
meu passo conduz-se pelo compasso.
A sombra dos sons que há na musicali
dade da sombra. A noite para construir
a manhã.
(…)
Esta obra está em ruína. Um silêncio
entre-dentes. Calaram-se. As ferramen
tas não gemem. Dormi e não estou.
Morro mas vivo. Os materiais
transcendem-me e o tempo bebe
-me.

Ao longo do poema é descrita uma fusão na natureza, como uma forma de vida, o indivíduo existe nela e em função dela. O título do poema, bem como a última estrofe citada dão o indício de se tratar de um elemento iniciático da escrita. Pode ser, efectivamente, uma arte poética, e, em última análise é esta a “nova arte” proposta no título, uma arte poética mas também uma espécie de “arte de vida”, uma vez que, recusada a metáfora, a obra obrigatóriamente coincide com a vida.
Outro aspecto que importa sempre referir é a presença da poesia. Uma vez mais porque, a poesia de Fiama Brandão teve sempre como uma das suas principais linhas de força a análise e por vezes a completa subversão do acto de escrever, e procurando, aliás, formas insólitas de construir a poesia, em projectos algo conceptuais ou experimentais, mas bem explicados.
Nesse aspecto, a presença da poesia ao longo do livro é particularmente explorada em “As Cartas”:

Esperas os sinais da minha existência.
Eu transcrevo-te mas não vivo no poema.
Morro na mancha do papel. Uma carta cai
no matagal como um pássaro.
(…)


O poema enquanto forma de comunicação seria a ideia mais rápida que à primeira vista se poderia retirar daqui, no entanto, parece-me claro que essa ideia é algo ténue. Ainda que no primeiro verso haja um “eu” que se dirige a um “tu” dizendo-lhe que esse “tu” aguarda sinais da sua existência, note-se que no segundo verso, o verbo utilizado é “transcrevo-te”, e não “escrevo-te”. Poderemos olhar este “desvio” da seguinte maneira: é o próprio poema ou a própria poesia esse “tu”, e o sujeito poético, o “eu” admite transcrever o poema, mas não vive nele, mais ainda, acrescenta que morre “na mancha do papel”, e por mancha podemos interpretar um borrão, uma escrita mal sucedida, e, quando o papel cai, nele não vai um poema mas “uma carta” que “cai/ no matagal como um pássaro.”
No entanto, não é de desprezar a ideia de que a autora se estivesse a escrever a si mesma, ou a outra pessoa. Mais ainda porque a transformação em “figura” não elimina elementos biográficos e até muito concrectos da biografia. Exemplo directo disso é o poema “Estuário de um Tejo”, cujo título será suficiente para que se entenda que a “natureza” com a qual estes poemas se fundem, ou com a qual estes poemas fundem o seu sujeito poético, não é uma natureza, como poderia pensar-se, em estado selvagem: muitas vezes nem o é campestre, é pontualmente urbano com reminiscências à cidade de Lisboa, por exemplo. E, ainda sobre os elementos biográficos, não faltam referências literárias (Junqueiro e Eugénio de Castro são citados em “Oaristos IV”.), inclusivamente aos livros anteriores da autora (“Era” é evocado em “A Criança Antiga”.)
Outra questão interessante no que toca a falar sobre poesia, é sempre a diferenciação entre “sujeito poético” e “sujeito biográfico”. E, um pouco instintivamente, diríamos da poesia de Fiama Hasse Pais Brandão que ela compreende um sujeito poético mas não um sujeito biográfico. No entanto, um olhar mais incisivo sobre “Âmago 1: Nova Arte” (E até sobre outros livros, mas esta nota de leitura é sobre este livro específico.) seria suficiente para se perceber que nesta poesia existe um, e bem demarcado, sujeito biográfico. O que se não pode dizer é que se lhe notem momentos confessionais ou de revelações íntimas. No entanto, é sabido que a biografia compreende bem mais do que confissões e intimidade. No caso de Fiama, o indicador de biografismo nos seus livros acabam por ser outros livros, referências, citações, glosas (Não esqueçamos que estamos perante uma poesia que nunca recusou a intertextualidade e que foi, talvez a mais original na forma de o fazer entre a nossa poesia.). Assim sendo, não é ao acaso que em “Graficolíquido” Fiama escreva “Tudo na minha biografia/ a todo o momento se repete.” e no poema segunte, “Oaristos IV” diga “Eu disse-o já/ quando escrevi sobre o prestígio/ estético em oitocentos.”, mais à frente, em “A Criança Antiga” fará referência ao poema “Pomba”, pertencente ao livro “Era” (in “O Texto de João Zorro”, Inova, 1974) e “Vem Noite” não pode deixar de nos relembrar que a autora viria a traduzir os “Hinos à Noite”, podendo este título ser uma espécie de alusão com a obra de Novalis.
Penso que é importante referir todos estes aspectos para que se entenda que a comunhão com a natureza não representa, na poesia de Fiama Hasse Pais Brandão, um exílio forçado nem nada semelhante. Pelo contrário, é um acto quotidiano, quotidianamente repetido, tanto numa quinta (Que poderia ser a quinta da autora em Carcavelos.) como na cidade de Lisboa, que muitas vezes sentimos presente.
Ainda sobre a relação com a natureza, essa comunhão ou fusão, parece-me pertinente acrescentar que nem sempre ela é pacífica ou agradável. Por exemplo em “Prosódia do Texto e Música” lemos no final:

(…) Depois mergulhámos na frial
dade do mundo trazida pelo vento.
O palácio estranho ficou no
horizonte. Nenhuma pedra é

tão lenta como a dos sons.


em que vemos como o mergulho na natureza que constitui esta “nova arte” inclui mergulhar nela quando as condições são as menos favoráveis. É, por isso, uma vivência em pleno da natureza, e não uma assimilação apenas do que esta possa ter de positivo. E mesmo num poema anterior, “Tapada de Mafra II” já líamos uma enorme inércia, um quase abandono, neste excertos

(…)
Quando a deambulação pára
toco na extremidade do real.
(…)
A imobilidade de tudo e a desapa
rição aniquilam-me dia adiante.
(…)

Como podemos ver nestes exemplos, ou numa passagem de “O Começo da Obra” onde lemos “Gota a gota agonizo. O sol chegou en/ tre construtores insensíveis.”, nem sempre a união à natureza é uma sensação de vida. Por vezes é um verdadeiro “ofício de paciência”, Eugénio de Andrade empresta, e até, no segundo caso, de aproximação ao mundo irreal. Mas a poesia de Fiama procura um abraço pleno com a natureza, pleno e portanto, que aceite os males que daí possam ressurgir.
Por outro lado, e agora talvez a palavra subversão venha fazer algum sentido, repare-se que a situação-limite que leva este sujeito poético a tocar a extremidade do real (Onde principia o irreal.) não tem a ver com a “frialdade do mundo”, mas sim com o seu abandono, a sua solidão, a sua “imobilidade”. Mas quando falei de “subversão” foi apenas nas formas inovadoras que Fiama Brandão foi tentando encontrar para a sua poesia. No entanto, os próprios símbolos, nela, são subvertidos. Repare-se no poema “Tâmega” onde a figura do morcego, classicamente associada ao mal, passa a ser um sinal de vida:

Um morcego abençoa-me na escuridão
desenhada. Rebenta como a lâmpada que
ele bebe. Um ente sem lucidez.


De facto, o morcego é, no poema, aceite como figura antagonista à luz e, no entanto, é ele quem abençoa esta figura, mesmo rebentando com a lâmpada e não tendo lucidez. Este acto de rebentar a lâmpada dá-nos também acesso ao outro lado, o da escuridão, que, afinal, parece ser a bênção que o morcego dá à figura humana. Mas como se disse, este abraço à natureza quer-se pleno, cheio.
Por último, e porque esta nota já vai longa, gostaria apenas de realçar a extrema importância que tem ler este livro integrado na “Obra Breve”. É um livro que já li o ano passado e, no entanto, só agora me apeteceu redigir esta nota de leitura. Penso que, integrado no volume da obra completa, são muito mais perceptíveis certas características, principalmente formais, mas não só, que “Âmago 1: Nova Arte” apresenta. É possível agora perceber porque Fiama diz, na sua “Gota de Água”, “Possa a arte gráfica ilu/ minar-me no sofrimento da criação” quando temos, como comparação, a pequena plaquette “Melómana” (1977, Inova), onde Fiama afirma que “mais do que nunca preocup[ou]-se com os fonemas. Por isso ao ter consciência de que assinalam manchas visuais, [teve] de os fraccionar, o que [a] levou a alterações gráficas, de modo a que, entre a forma visual panorâmica, a forma sonora e a forma visual gráfica, houvesse uma correspondência. (…)”, e isto explica as palavras subitamente interrompidas que continuam no verso, e às vezes na estrofe, seguinte, que não é apenas uma questão rítmica. Em termos temáticos, os três separadores anteriores são “13 Poemas de Amor Pelos Livros” inédito até à reunião da “Obra Breve”, “Cântico Maior” atribuído a Salomão, uma versão publicada erm 1985 pela Assírio e Alvim, e os “14 Polissílabos sobre Anjos”, também inédito até à colectânea. No entanto, é precisamente com os livros “Melómana” e “Área Branca” (1978, Arcádia) que “Âmago 1: Nova Arte” parece mais enquadrado, ainda que se sintam também algumas reminiscências daquela que foi, para mim, a fase menos interessante da poesia da autora, que vai das “Novas Visões do Passado” (1974, Assírio e Alvim) à “Homenagemàliteratura” (1976, Limiar) onde a barreira entre a poesia e o ensaio era possivelmente, demasiado ténue.
“Âmago 1: Nova Arte” foi, portanto, um regresso às melhores raízes da poeta de “Em Cada Pedra Um Voo Imóvel” ou “Área Branca”

Sinais de Vida, 49



Passa no coração uma agulha
o que é uma elipse antiga.
Algo que poisasse os pés junto
a mim. Túmulo que se fechasse.
Os trinados no fim do canto.

Um choro mais terrível
do que a morte. Corre em espiral.
Cai como um tampo. Não é líquido.
São torrões de terra. Um após

o outro. Não suporto esta imagem
transposta. Quero ser real.
Molhar os olhos em vez de
os transformar. Desconhecer
para sempre o pensamento.

Ignorar as pedras que me fazem
assemelhar a si lágrimas.
Passam as esporas das aves
à superfície. Linhas
de que não tolero a dor.

Estar a ser algo no chão.
Pisar-me. Não saber quem
é o sujeito. Destruição breve.
Dou as palavras que conheço.






Fiama Hasse Pais Brandão
Àrea Branca
1978, ed. Arcádia

imagem de Marc Chagall

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

hoje isto está muito à vista

Na névoa, a cidade, ébria
oscila, tomba.
Informes, as casas
perdem o lugar e o dia.
Cravadas no nada,
as paredes são menires,
pedras antigas vagas
sem princípio, sem fim.

Fiama Hasse Pais Brandão
As Fábulas
2002, edições quasi

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

As "Barcas Novas" de Fiama



O livro “Barcas Novas” de Fiama Hasse Pais Brandão (Editora Ulisseia, 1967) é um curioso livro cuja temática incide sobre episódios bem conhecidos da nossa história, não para constituir mais uma perspectiva sobre os mesmos mas para problematizar a história moderna e nessa conjectura é um livro engagé aparecendo como alternativa ao que então faziam os poetas que se reivindicavam do movimento neo-realista (ou cujas opções estéticas se enquadravam no neo-realismo; ou se não era uma alternativa, apontava pelo menos uma saída possível para alguns dos impasses com que se debatia o movimento.
O livro passa em revista o início da nossa arte de navegar a partir de um conhecido poema de Joam Zorro, poema que dá o nome ao livro, mas também à batalha de Aljubarrota, o drama de Alcácer-Quibir, a memória dos nossos mortos, o assassinato de Inês de Castro, o cerco de Lisboa.
São alusões a episódios que marcaram de algum modo o nosso viver colectivo e que servem de contraponto aos desastres que uma política suicida nos havia de conduzir nos anos 60 com o envio de milhares de soldados para a guerra colonial (em termos literários, Fiama usa-os para reflectir o momento presente; de algum modo, poder-se-á dizer que os poemas que constituem este livro funcionam, na sua globalidade, como uma metonímia).
O poema de Joam Zorro é feito, como era comum ao tempo, na base de tercetos com repetição do 3º verso de cada estrofe e era endereçado à mia Senhor velida; o poema de Fiama utiliza um ritmo ainda mais simples na base de dípticos com uso da anáfora e da rima toante e dirige-se ao leitor e não já a uma criatura especial (é um convite à reflexão; tem, portanto, funções didácticas).


[...]


Lisboa, mar e barcas aparecem nos dois poemas como pano de fundo que é comum às duas situações: a partida das primeiras naus (séc. XII-XIII) e a partida dos militares para as colónias (1960-1974).
Mas, ainda a nível de substantivos, aparecem no poema de Fiama outros vocábulos: armas, homens, guerra e terra, necessários para caracterizar uma situação que é completamente diferente daquela a que alude Zorro e até contraditória. Em Zorro fala-se de um início e em Fiama de um final (ou, pelo menos, do início de um final).





Luís Serrano (a crítica completa pode ser lida aqui.)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

um poema



Distingo que no corpo do teu corpo há a pérola
do século dezassete que contemplo entre os dentes
dos corpos móveis das visões. Aquilo que no serão brilha
entre sombras mantidas.

Eles cintilam por estarem a ser objectos perante o sujeito,
há um vórtice na garganta. Sorves a água, quem beber
sacia-se, dizia-me o emissário, pois apenas sou ouvinte.





Fiama Hasse Pais Brandão
Homenagemàliteratura
1976- edições limiar

imagem: Gustav Klimt

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

um poema



Quando eu vir vaguear por dentro da casa
o abeto que cresceu no bosque, hei-de
ajoelhar no soalho. Todas as coisas
comunicam entre si a totalidade das suas formas.
A mão que vai surgir do abeto apontará para mim.

Tenho de despir as tiras de brocado que envolvem as veias,
as cadeias de ouro dos rins. Deixar
que as unhas longas da árvore passem
entre mim e o imo dos quartos interiores da casa.

Se essa figura imponente, a árvore, me reconhecer,
vou interromper o que escrevo, esperar ansiosa
atracção que a insónia desse vulto
há - de exercer sobre mim. Rodo
até à tontura da morte.
Torturo-me
até à alegria. Encontro na casa
o tema da despossuição e a agonia.

A pobreza antiga com que o corpo cai
para uma vala. Preso apenas às pérolas
que tinem nas orelhas. Dante deixou-nos resvalar,
com os cânones clássicos, como se o poema
fosse uma escada. É-o, quando as figuras austeras
da Natureza perseguem os mortais. Querem confirmar
a sua configuração. Querem ser
reais, quando se aproximam.
Vai para diante da minha face, ao fundo.
Vem dos recantos, onde já não é a silhueta volúvel
enovelada pelo vento, à janela. Com lentidão
arrasta a forma táctil até à passagem do poema.

Sou eu que me vergo ao domínio.
Que me poise a marca incandescente na testa.
Tocará na meninge como num cofre.
Aceito coroas para depor sobre mim.
Deixo os pés do abeto empurrar
com a biqueira violetas. A fragrância
delas leva-me a imaginar poemas
em branco. Depois de percorrer um longo encadeamento
de sílabas sou outra. Vejo assomar a natureza nua.



Fiama Hasse Pais Brandão
Área Branca
1970- arcádia


imagem: Odilon Redon