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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Respiração


E ao fim de tanto amor comecei a sentir pelos vivos o que sentia pelos mortos. A maneira de os ouvir ler. O sentar-me junto à mais baixa inflexão de voz, vendo a descida do som e as mãos que participam da leitura. Ficar sentada para sempre junto aos joelhos senis desses leitores entre os vivos. Conhecê-los e reconhecê-los com uma auréola de luz divina no crânio como a que tinham os mortos santos pelo seu merecimento. Aqueles de que eu fora testemunha por vezes reveladora durante quase cinco décadas. O que eu sentira elaboradamente pelos mortos sobretudo o desejo avassalador de ressurreição estava agora a ser exigido pelos vivos, a própria carnalidade. Todo o ouro que mostram as figuras aparecidas na leitura.

Fiama Hasse Pais Brandão
Visões Mínimas (1968-1974)
in 'Obra Breve'
2007, ed. Assírio e Alvim
pintura de Felix Labisse

domingo, 15 de janeiro de 2012

Anima Anceps



Till death have broken
Sweet life's love-token,
Till all be spoken
That shall be said,
What dost thou praying,
O soul, and playing
With song and saying,
Things flown and fled?
For this we know not--
That fresh springs flow not
And fresh griefs grow not
When men are dead;
When strange years cover
Lover and lover,
And joys are over
And tears are shed.

If one day's sorrow
Mar the day's morrow--
If man's life borrow
And man's death pay--
If souls once taken,
If lives once shaken,
Arise, awaken,
By night, by day--
Why with strong crying
And years of sighing,
Living and dying,
Fast ye and pray?
For all your weeping,
Waking and sleeping,
Death comes to reaping
And takes away.

Though time rend after
Roof-tree from rafter,
A little laughter
Is much more worth
Than thus to measure
The hour, the treasure,
The pain, the pleasure,
The death, the birth;
Grief, when days alter,
Like joy shall falter;
Song-book and psalter,
Mourning and mirth.
Live like the swallow;
Seek not to follow
Where earth is hollow
Under the earth.

Algernon Charles Swinburne
Poems and Ballads
1866,  ed. Edward Moxon, London
pintura de Felix Labisse

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Face au Mur dos Au Mur




Attendre sans espoir
User ses forces à résister
à la meule des jours
au laminoir des nuits
User les corps à forcer
les portes du ciel
hermétiques cadenassées
User ses ailes à échapper
à la trappe béante
affamée
de la terre
Appeler
en sachant que le ciel est muet
et la terre capitonnée
Étouffer
les cris
en travers de la gorge


Devenir son propre éteignoir

Saguenail
Il n'y a Pas des Saisons en Enfer
2007, ed. Hélastre
pintura de Felix Labisse

segunda-feira, 25 de abril de 2011

quarta-feira, 24 de março de 2010

Notícias do Bloqueio



Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
.....................e a esperança reproduz-se






Egito Gonçalves
A Viagem com o Teu Rosto
1958 edição Europa-América
imagem de Félix Labisse