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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

sobre Luísa Dacosta, no seu 88º aniversário

Há seis anos, eu estava a mudar-me para Lisboa. Vivi o primeiro ano num quarto pequeno ao Bairro Alto, que não tinha grandes vantagens, mas deixava-me próximo pelo menos da Baixa, e das livrarias, que foram sempre um dos meus paraísos. Aos sábados, o que acontece ainda hoje, fazia-se na Rua Anchieta uma feira, com bancas de livros, desde os mais raros (e caros) até outros a preços de ocasião. Foi nesse primeiro ano em Lisboa e nessa feira na Rua Anchieta, que encontrei o primeiro Diário de Luísa Dacosta, a um preço bastante reduzido. Foram essas as duas razões que me levaram a comprá-lo: era barato e era um Diário, um género que aprecio bastante mas que raro é escrito (ou publicado) em Portugal. Conhecia vagamente o nome de Luísa Dacosta, é possível que de alguma antologia, mas não posso estar certo.
Devo ter demorado duas semanas a ler o livro, apesar de ser bastante extenso. Hoje, penso que nada de estranho há nisso. «Na água do tempo», assim se chama esse primeiro de dois Diários, apaixonou-me imediatamente por Luísa Dacosta. Imediatamente e sem retorno. Nos anos seguintes, de alfarrabista em alfarrabista, fui procurando os seus livros, que lia e relia, com a voracidade que só podemos dedicar aos livros em que a palavra vai além de si mesma. Mesmo nesse Diário, impressiona como o fragmento tão pequeno de texto consegue vibrar de forma tão intensa e perpetuar-se, como se lêssemos os pequenos textos de Luísa e eles fossem continuar, sozinhos, quando fechamos o livro e prosseguimos o nosso quotidiano prosaico, o mesmo quotidiano prosaico que, tantas vezes, é mesmo o tema dos textos de Luísa. 


O mesmo se passa com os restantes livros, quase sempre de géneros ditos menores: contos, crónicas, romances fragmentários, novelas curtas. O mundo de Luísa Dacosta não é realista, é real, os seus dramas, estruturalmente guiados pelas grandes tragédias, só são possíveis porque é no real que acontecem, porque cada frase é talhada a partir da matéria tosca do dia-a-dia, do confronto violentíssimo entre uma vida interior desejosa de libertação e de claridade e um lugar onde só florescem a solidão, o isolamento, a tristeza, as saudades de uma infância perdida. É assim com os seus livros sobre as grandes cidades, «Vovó Ana, Bisavó Filomena e eu» (1969) sobre Lisboa, e «Corpo Recusado» (1985) sobre o Porto. Noutro campo estão o inicial «Província» (1955) em que a cidade de Vila Real é palco de uma vida anónima e simples em que o drama encontra saída numa extrema capacidade de contentamento; ou então as crónicas de «A-Ver-o-Mar» (1980) e «Morrer a Ocidente» (1991), em que a vila piscatória de A-Ver-o-Mar, cenário tão análogo à interior Vila Real, se afirma como uma espécie de retorno ao Éden, uma libertação derradeira, um lugar de felicidade idílica que nem por isso está livre da brutalidade e da miséria.
Luísa Dacosta, dir-se-á, é uma ficcionsta. O que não é um demérito, porque muitos dos grandes escritores, por todo o mundo, são ficcionistas. No entanto, desde esse «Na água do tempo» (que inclui, também, algumas pequenas ficções), nunca consegui ver Luísa Dacosta como uma ficcionista. Nalguns momentos, pareceu-me uma arguta etnóloga, observadora e crua, olhando com dureza mas nunca com arrogância, para os pescadores de A-Ver-o-Mar e para as mulheres desses pescadores, ou para as mulheres tão sós de Lisboa no livro de 1969. Noutros momentos, Luísa pareceu-me uma eterna diarista, como não deixou de o ser a grande Irene Lisboa. Noutros momentos ainda, a densidade da experiência humana de que os seus escritos dão conta, fazem Luísa parecer uma espécie de mística laica: nela, a experiência da própria humanidade é uma forma de transcendência, de união com um mundo que pode não ser o melhor, mas é o que existe, pelo que só amando-o é possível sobreviver. A sua escrita é intensa e fulgurante por causa dessa transcendência, e é por isso que em todos os momentos, Luísa Dacosta me pareceu sempre uma poeta. A pequena edição de «A maresia e o sargaço dos dias», que, em 2002, reuniu alguns fragmentos poéticos em livro, não foi mais do que uma confirmação. A poesia era a força que soprava em todos os escritos de Luísa. A sua tendência para o fragmento, para o apontamento, para a imagem bruta e impressiva, não eram senão a intromissão da poesia naquilo que, afinal, somos precipitados ao classificar como prosa.
É raro o autor em que encontramos um mundo tão terrível como o de Luísa Dacosta. Morte, solidão, violência, perda, ausências, sofrimentos atrozes: disto nos dão conta os seus escritos. Ler Luísa Dacosta é conhecer de forma desarmante um mundo em que só é possível sofrer. A escrita parece ser, muitas vezes, uma possibilidade aberta por esse sofrimento: a possibilidade de sonhar. Luísa é uma autora da palavra, da consciência da palavra e do seu poder. De certa forma, continua a pesquisa aberta por Irene Lisboa, Agustina Bessa-Luís, Torga ou José Gomes Ferreira e continuada por Maria Velho da Costa, Regina Guimarães ou Hélia Correia: a fusão de uma linguagem popular com uma linguagem erudita e poética. Luísa é um dos casos em que essa pesquisa se torna mais relevante e mais natural. O espaço aberto pela separação entre estas duas linguagens é perceptível mas insignificante: sempre o texto parece natural, fluido, perfeito. Este apuramento da linguagem escrita é, em Luísa Dacosta, como a planificação de uma viagem, a escolha do itinerário mais agradável: só pelo sonho podemos salvar-nos do sofrimento, e só pela escrita poderemos sonhar. Não admira, então, que a escrita seja cuidadosamente trabalhada, aperfeiçoada. Aperfeiçoada ao ponto em que não é minimizada por marcas de época. Estas, como Adolf Loos tão bem viu, são quase sempre fruto do artifício. Em Luísa Dacosta, nada é artifício, tudo é incrivelmente real e necessário. O tempo não pesará muito sobre ela, o que nos diz será reconhecível por muitos e longos anos. É reconhecível agora, mesmo que nos pareça que tudo mudou tanto nos últimos cinquenta anos.



Uma das fotografias mais conhecidas de Luísa foi tirada pela fotógrafa Graça Sarsfield para a antologia «Vozes e olhares no feminino», publicada pelo Porto 2001: Capital Europeia da Cultura. Luísa sorri abertamente. Tem um riso sincero de menina. Em todas as fotografias que conheço dela tem esse riso de menina. Incluindo naquela que se encontra na contracapa de «Na água do tempo». A pergunta que me fiz, nessa altura, não foi como pode alguém que tem este sorriso escrever estes textos?, mas sim, como pode alguém que escreve estes textos ter este sorriso?
Num regresso ao Porto, em 2010, conheci Luísa Dacosta. O mesmo riso de menina, aberto e bem-disposto. Falou-me da Maria de Maria Vai, Maria Vem, Romance de mulher-a-dias, um conto de 1969. E falou-me de um terceiro Diário que pretendia publicar, o que não chegou a acontecer. Perguntei-lhe qual seria o título, e arrependi-me: poderia ser uma indiscrição. Mas não. Respondeu-me imediatamente que seria «Os dias sem amanhã». E acrescentou: Eu sei que é um título pouco optimista, mas eu acho que não se pode ser optimista neste mundo em que vivemos.
Tinha toda a razão. E tinha toda uma obra que atestava essa crença que partilhávamos. Mas Luísa sorria. Hoje, eu penso que esse sorriso vinha da escrita: de uma escrita de tal forma densa que permitiu a Luísa sonhar, sonhar sempre, mesmo quando sabia que os dias eram sem amanhã.
Emil Cioran, um dos meus filósofos predilectos, tinha a ideia de que só pensamos contra nós mesmos, de que tudo aquilo que fazemos acaba por reverter contra nós, por pesar ainda mais sobre a nossa já imensa miséria. Com Luísa Dacosta, aprende-se a abrir fendas neste ciclo destrutivo que Cioran aponta, e a preencher essas quebras com a matéria luminosa duma palavra que permita ultrapassar a realidade em direcção ao sonho: um sonho que, de resto, não pede o impossível. O sonho de Luísa Dacosta é sempre feito da versão melhor do possível.

Luísa Dacosta deixou-nos na noite de 15 de Fevereiro de 2015, um dia antes do seu 88º aniversário. Morre assim um dos grandes escritores ignorados da literatura portuguesa. Quando um escritor morre, o seu leitor pode sempre ser mais optimista do que aqueles que o conheceram. Conheci Luísa Dacosta, não fomos exactamente amigos, tínhamos uma relação essencialmente epistolar. Hoje, no entanto, escolho ser um leitor, para poder dizer que Luísa Dacosta não nos deixou, que os seus livros continuam na estante, que continuo a relê-los, que continuam a fazer-me interromper a sina terrível descrita por Cioran. E principalmente, que em cada texto, no meio do espectáculo trágico da vida, haverá sempre um frase que tornará possível que se sorria, sem reservas, face a tudo.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Luísa Dacosta, 1927-2015


«Que longo dia para a minha tristeza! Longe é onde há vozes, chamamentos, passos, acenos de adeus. Aqui o silêncio é um túmulo aberto que me força a olhar a inutilidade da luz.»

(Luísa Dacosta, Na água do tempo, 1991)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Sobre o rosto da terra (fragmentos)























Sobe da nossa condição uma vontade de brancura. Até ao interior das casas, até à evidência dos rostos. A brancura iguala a liberdade do dia ao ascendermos à planura onde se respira de pé, rosto a rosto, na facilidade do vento.


*
Entre fios luminosos, rasteiros. Perpassa o vento baixo (o solo tem essa rugosidade amorosa que o dedo declina). As narinas respiram a paz na memória longínqua dum galo, fonte de eternidade. Estar, estar assim sobre o rosto da terra.

*
As evidências comovem-se. No acompanhamento do mar, animados pelo sussurro unânime. Os poucos que somos constelamo-nos estrela do mar. Em cada bico geramos um irmão futuro que canta a nossa liberdade.

*
De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.

*
Escolho a vaga breve, a súbita, que emerge na planura fatigante. A aridez da luz irisa os arabescos móveis. Estendo a rede de sombra, onde os sonhos afluem. O breve tempo de construir a casa de vento onde circula a paz viva entre as clareiras de espaço e corpos libertos.

António Ramos Rosa
Sobre o Rosto da Terra
1961, col. Pedras Brancas
pintura de Howard Hodgkin

domingo, 27 de abril de 2014

mudinha e quieta




















pé ante pé há-de chegar a morte:
alminha vagabunda, enquanto ofegas
são as gotas da vida cabras cegas
na hora escapulida que te exporte.

alguém dirá que ao criador te entregas,
terás um atavio em lenho forte
e um necrológio do melhor recorte:
azar, lampejos, erros teus, refregas.

se da outra vida algum contacto póstumo
acaso se consente então a sós tu mo
dirás depois e se gostaste ou não.

mas se não for assim não ficas mal
mudinha e quieta, por sinal,
há gente bem pior no panteão.


Vasco Graça Moura
3 de Janeiro de 1942 - 27 de Abril de 2014

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

«I Am Christina Rossetti»



Hoje comemorar-se-ia o aniversário da escritora britânica Virginia Woolf, autora conhecida por romances como 'Mrs. Dalloway', 'Orlando' ou 'Os Anos'. Ainda que tenha sido reconhecida essencialmente como romancista, a vários títulos revolucionária, Woolf foi também autora de vários contos, ensaios e reflexões.
Um pouco para celebrar esta sua data, pensei em transcrever um texto do livro 'The Common Reader', escrito em 1930, quando precisamente se celebravam os 100 anos sobre o nascimento da minha poeta preferida, Christina Rossetti [1830-1896], sobre quem Virginia fala com uma actualidade impressionante para a época, e a quem se dirige directamente.


On the fifth of this December Christina Rossetti will celebrate her centenary, or, more properly speaking, we shall celebrate it for her, and perhaps not a little to her distress, for she was one of the shyest of women, and to be spoken of, as we shall certainly speak of her, would have caused her acute discomfort. Nevertheless, it is inevitable; centenaries are inexorable; talk of her we must. We shall read her life; we shall read her letters; we shall study her portraits, speculate about her diseases — of which she had a great variety; and rattle the drawers of her writing-table, which are for the most part empty. Let us begin with the biography — for what could be more amusing? As everybody knows, the fascination of reading biographies is irresistible. No sooner have we opened the pages of Miss Sandars’s careful and competent book (Life of Christina Rossetti, by Mary F. Sandars. (Hutchinson)) than the old illusion comes over us. Here is the past and all its inhabitants miraculously sealed as in a magic tank; all we have to do is to look and to listen and to listen and to look and soon the little figures — for they are rather under life size — will begin to move and to speak, and as they move we shall arrange them in all sorts of patterns of which they were ignorant, for they thought when they were alive that they could go where they liked; and as they speak we shall read into their sayings all kinds of meanings which never struck them, for they believed when they were alive that they said straight off whatever came into their heads. But once you are in a biography all is different.
Here, then, is Hallam Street, Portland Place, about the year 1830; and here are the Rossettis, an Italian family consisting of father and mother and four small children. The street was unfashionable and the home rather poverty-stricken; but the poverty did not matter, for, being foreigners, the Rossettis did not care much about the customs and conventions of the usual middle-class British family. They kept themselves to themselves, dressed as they liked, entertained Italian exiles, among them organ-grinders and other distressed compatriots, and made ends meet by teaching and writing and other odd jobs. By degrees Christina detached herself from the family group. It is plain that she was a quiet and observant child, with her own way of life already fixed in her head — she was to write — but all the more did she admire the superior competence of her elders. Soon we begin to surround her with a few friends and to endow her with a few characteristics. She detested parties. She dressed anyhow. She liked her brother’s friends and little gatherings of young artists and poets who were to reform the world, rather to her amusement, for although so sedate, she was also whimsical and freakish, and liked making fun of people who took themselves with egotistic solemnity. And though she meant to be a poet she had very little of the vanity and stress of young poets; her verses seem to have formed themselves whole and entire in her head, and she did not worry very much what was said of them because in her own mind she knew that they were good. She had also immense powers of admiration — for her mother, for example, who was so quiet, and so sagacious, so simple and so sincere; and for her elder sister Maria, who had no taste for painting or for poetry, but was, for that very reason, perhaps more vigorous and effective in daily life. For example, Maria always refused to visit the Mummy Room at the British Museum because, she said, the Day of Resurrection might suddenly dawn and it would be very unseemly if the corpses had to put on immortality under the gaze of mere sight-seers — a reflection which had not struck Christina, but seemed to her admirable. Here, of course, we, who are outside the tank, enjoy a hearty laugh, but Christina, who is inside the tank and exposed to all its heats and currents, thought her sister’s conduct worthy of the highest respect. Indeed, if we look at her a little more closely we shall see that something dark and hard, like a kernel, had already formed in the centre of Christina Rossetti’s being.
It was religion, of course. Even when she was quite a girl her lifelong absorption in the relation of the soul with God had taken possession of her. Her sixty-four years might seem outwardly spent in Hallam Street and Endsleigh Gardens and Torrington Square, but in reality she dwelt in some curious region where the spirit strives towards an unseen God — in her case, a dark God, a harsh God — a God who decreed that all the pleasures of the world were hateful to Him. The theatre was hateful, the opera was hateful, nakedness was hateful — when her friend Miss Thompson painted naked figures in her pictures she had to tell Christina that they were fairies, but Christina saw through the imposture — everything in Christina’s life radiated from that knot of agony and intensity in the centre. Her belief regulated her life in the smallest particulars. It taught her that chess was wrong, but that whist and cribbage did not matter. But also it interfered in the most tremendous questions of her heart. There was a young painter called James Collinson, and she loved James Collinson and he loved her, but he was a Roman Catholic and so she refused him. Obligingly he became a member of the Church of England, and she accepted him. Vacillating, however, for he was a slippery man, he wobbled back to Rome, and Christina, though it broke her heart and for ever shadowed her life, cancelled the engagement. Years afterwards another, and it seems better founded, prospect of happiness presented itself. Charles Cayley proposed to her. But alas, this abstract and erudite man who shuffled about the world in a state of absent-minded dishabille, and translated the gospel into Iroquois, and asked smart ladies at a party “whether they were interested in the Gulf Stream”, and for a present gave Christina a sea mouse preserved in spirits, was, not unnaturally, a free thinker. Him, too, Christina put from her. Though “no woman ever loved a man more deeply”, she would not be the wife of a sceptic. She who loved the “obtuse and furry”— the wombats, toads, and mice of the earth — and called Charles Cayley “my blindest buzzard, my special mole”, admitted no moles, wombats, buzzards, or Cayleys to her heaven.
So one might go on looking and listening for ever. There is no limit to the strangeness, amusement, and oddity of the past sealed in a tank. But just as we are wondering which cranny of this extraordinary territory to explore next, the principal figure intervenes. It is as if a fish, whose unconscious gyrations we had been watching in and out of reeds, round and round rocks, suddenly dashed at the glass and broke it. A tea-party is the occasion. For some reason Christina went to a party given by Mrs. Virtue Tebbs. What happened there is unknown — perhaps something was said in a casual, frivolous, tea-party way about poetry. At any rate,
suddenly there uprose from a chair and paced forward into the centre of the room a little woman dressed in black, who announced solemnly, “I am Christina Rossetti!” and having so said, returned to her chair.
With those words the glass is broken. Yes [she seems to say], I am a poet. You who pretend to honour my centenary are no better than the idle people at Mrs. Tebb’s tea-party. Here you are rambling among unimportant trifles, rattling my writing-table drawers, making fun of the Mummies and Maria and my love affairs when all I care for you to know is here. Behold this green volume. It is a copy of my collected works. It costs four shillings and sixpence. Read that. And so she returns to her chair.
How absolute and unaccommodating these poets are! Poetry, they say, has nothing to do with life. Mummies and wombats, Hallam Street and omnibuses, James Collinson and Charles Cayley, sea mice and Mrs. Virtue Tebbs, Torrington Square and Endsleigh Gardens, even the vagaries of religious belief, are irrelevant, extraneous, superfluous, unreal. It is poetry that matters. The only question of any interest is whether that poetry is good or bad. But this question of poetry, one might point out if only to gain time, is one of the greatest difficulty. Very little of value has been said about poetry since the world began. The judgment of contemporaries is almost always wrong. For example, most of the poems which figure in Christina Rossetti’s complete works were rejected by editors. Her annual income from her poetry was for many years about ten pounds. On the other hand, the works of Jean Ingelow, as she noted sardonically, went into eight editions. There were, of course, among her contemporaries one or two poets and one or two critics whose judgment must be respectfully consulted. But what very different impressions they seem to gather from the same works — by what different standards they judge! For instance, when Swinburne read her poetry he exclaimed: “I have always thought that nothing more glorious in poetry has ever been written”, and went on to say of her New Year Hymn that it was
touched as with the fire and bathed as in the light of sunbeams, tuned as to chords and cadences of refluent sea-music beyond reach of harp and organ, large echoes of the serene and sonorous tides of heaven
Then Professor Saintsbury comes with his vast learning, and examines Goblin Market, and reports that
The metre of the principal poem [“Goblin Market”] may be best described as a dedoggerelised Skeltonic, with the gathered music of the various metrical progress since Spenser, utilised in the place of the wooden rattling of the followers of Chaucer. There may be discerned in it the same inclination towards line irregularity which has broken out, at different times, in the Pindaric of the late seventeenth and earlier eighteenth centuries, and in the rhymelessness of Sayers earlier and of Mr. Arnold later.
And then there is Sir Walter Raleigh:
I think she is the best poet alive. . . . The worst of it is you cannot lecture on really pure poetry any more than you can talk about the ingredients of pure water — it is adulterated, methylated, sanded poetry that makes the best lectures. The only thing that Christina makes me want to do, is cry, not lecture.
It would appear, then, that there are at least three schools of criticism: the refluent sea-music school; the line-irregularity school, and the school that bids one not criticise but cry. This is confusing; if we follow them all we shall only come to grief. Better perhaps read for oneself, expose the mind bare to the poem, and transcribe in all its haste and imperfection whatever may be the result of the impact. In this case it might run something as follows: O Christina Rossetti, I have humbly to confess that though I know many of your poems by heart, I have not read your works from cover to cover. I have not followed your course and traced your development. I doubt indeed that you developed very much. You were an instinctive poet. You saw the world from the same angle always. Years and the traffic of the mind with men and books did not affect you in the least. You carefully ignored any book that could shake your faith or any human being who could trouble your instincts. You were wise perhaps. Your instinct was so sure, so direct, so intense that it produced poems that sing like music in one’s ears — like a melody by Mozart or an air by Gluck. Yet for all its symmetry, yours was a complex song. When you struck your harp many strings sounded together. Like all instinctives you had a keen sense of the visual beauty of the world. Your poems are full of gold dust and “sweet geraniums’ varied brightness”; your eye noted incessantly how rushes are “velvet-headed”, and lizards have a “strange metallic mail”— your eye, indeed, observed with a sensual pre-Raphaelite intensity that must have surprised Christina the Anglo-Catholic. But to her you owed perhaps the fixity and sadness of your muse. The pressure of a tremendous faith circles and clamps together these little songs. Perhaps they owe to it their solidity. Certainly they owe to it their sadness — your God was a harsh God, your heavenly crown was set with thorns. No sooner have you feasted on beauty with your eyes than your mind tells you that beauty is vain and beauty passes. Death, oblivion, and rest lap round your songs with their dark wave. And then, incongruously, a sound of scurrying and laughter is heard. There is the patter of animals’ feet and the odd guttural notes of rooks and the snufflings of obtuse furry animals grunting and nosing. For you were not a pure saint by any means. You pulled legs; you tweaked noses. You were at war with all humbug and pretence. Modest as you were, still you were drastic, sure of your gift, convinced of your vision. A firm hand pruned your lines; a sharp ear tested their music. Nothing soft, otiose, irrelevant cumbered your pages. In a word, you were an artist. And thus was kept open, even when you wrote idly, tinkling bells for your own diversion, a pathway for the descent of that fiery visitant who came now and then and fused your lines into that indissoluble connection which no hand can put asunder:
But bring me poppies brimmed with sleepy death
And ivy choking what it garlandeth
And primroses that open to the moon.
Indeed so strange is the constitution of things, and so great the miracle of poetry, that some of the poems you wrote in your little back room will be found adhering in perfect symmetry when the Albert Memorial is dust and tinsel. Our remote posterity will be singing:
When I am dead, my dearest,
or:
My heart is like a singing bird,
when Torrington Square is a reef of coral perhaps and the fishes shoot in and out where your bedroom window used to be; or perhaps the forest will have reclaimed those pavements and the wombat and the ratel will be shuffling on soft, uncertain feet among the green undergrowth that will then tangle the area railings. In view of all this, and to return to your biography, had I been present when Mrs. Virtue Tebbs gave her party, and had a short elderly woman in black risen to her feet and advanced to the middle of the room, I should certainly have committed some indiscretion — have broken a paper-knife or smashed a tea-cup in the awkward ardour of my admiration when she said, “I am Christina Rossetti”.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Manuel António Pina

(1943-2012)

O seu primeiro poema começava assim
 
Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
 
isto, em 1974. Em 2012 não estamos, os vivos, muito melhores. Manuel António Pina escreveu sobre isso, tanto na sua poesia, como nas suas crónicas. O seu olhar, arguto, melancólico, lúcido e até saudoso deixa-nos algumas páginas (Poéticas e não só.) que muito terão a dizer sobre estes tempos, que não estão bons para nós, estejamos mortos ou vivos, páginas que inclusivamente lhe mereceram, no ano passado, o Prémio Camões.
Hoje, Manuel António Pina junta-se a esses de quem falava no seu primeiro poema. A obra fica-nos e, esperar-se-ia, talvez nos ajude a melhorar os tempos.




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A Mãe de um Rio


Em 1981, a Contexto editora publicava, com fotografias de Jorge Molder, um conto de Agustina Bessa-Luís, cujo sugestivo título era 'A Mãe de um Rio'. Três anos depois, reeditar-se-ia o segundo volume de contos de Agustina, 'A Brusca' (1971), numa versão aumentada, que contaria com 'A Mãe de um Rio'. Este conto, escrito de certa forma sob uma certa influência da literatura fantástica, fala-nos de uma mulher de vocação algo ancestral, de contornos religiosos, que vive desde o princípio do mundo numa pequena casa junto a um rio. Essa figura algo divina será visitada por Fisalina, uma rapariga invulgar da comunidade mais próxima do rio, que acabará por suceder à mãe original.
Agustina escreveu muito menos contos do que romances, mas os contos que escreve são de uma suprema força, comparável de certeza à dos romances. 'A Mãe de um Rio' é um exemplo de como, em poucas páginas, Agustina consegue criar uma história densa, que arrasta consigo uma subtil carga política, social e religiosa, cuja lucidez e invulgaridade se farão sentir ainda no leitor de hoje.
Aliás, como praticamente tudo aquilo que Agustina tem vindo a escrever desde 'Mundo Fechado', a novela com que se estreou em 1948. Apesar de obras como 'A Sibila' (1954), 'A Muralha' (1957), 'O Concerto dos Flamengos' (1994) ou a trilogia 'O Princípio da Incerteza' (2001-2003), Agustina foi sempre, como ela mesma dizia, mais conhecida do que lida, o que não se perdoa. A sua obra, intensa, árdua, irónica, é uma eterna tragicomédia cujo centro é o mais óbvio e também o mais difícil: o ser humano. E por isso a obra de Agustina, profundamente portuguesa, torna-se universal: porque universal é o génio que a move.
Já no seu último romance, 'A Ronda da Noite' (2006), Agustina fala-nos dum mutante, um estranho homem cuja inteligência aparta do resto da humanidade. Esse homem, contemplando uma reprodução da pintura de Rembrandt vai descobrindo, definindo e redifinindo o mundo, entretido na tentativa de compreender a eternidade, ou aquilo que, no mundo, se pode chamar eterno _maravilhado nessa tentativa que engloba por vezes o erro, mais do que obcecado por encontrar respostas certas, atitude própria de quem se recusa a estar numa situação de inferioridade perante a vida, e portanto não se leva muito a sério. Melhor retrato de Agustina dificilmente se faria.
Dessa contemplação, não de Rembrandt, mas do mundo, nasce a obra, que corre em direcção a um lugar mais vasto, mas sem se preocupar excessivamente em acelerar a chegada ao seu destino, como um rio. E portanto, hoje que Agustina completa 90 anos, que me seja permitido usar o título desse conto, e chamar à escritora a mãe de um rio, um rio que é a obra, que, creio eu, perfeitamente poderá correr enquanto durar o mundo.

domingo, 7 de outubro de 2012

Dra. Hildegard

Talvez um dia possamos viver num mundo em que a cultura flua mais livre do que agora e em que o conhecimento seja uma prioridade para toda a gente, que o procurará incansávelmente. Claro que esse dia não é para agora, nem eu creio que durante o meu tempo de vida, que não estimo que vá para além da média, consiga ver chegar esse dia. Assim sendo, para os poucos interessados em conhecer, no sentido mais amplo do termo, há muitas contingências que, não raro, se tornam difíceis de contornar. E não nos podemos queixar muito. A internet, com tudo o que de mau trouxe (Ironia grande, esta de eu me queixar da internet.), trouxe, verdade se diga, uma grande facilidade. A música circula livremente, e mesmo os livros, circulam mais livremente, pois aquele que os procura, pode ter acesso a uma lista mais alargada das obras que procura e, não podendo, muitas vezes, por causa da língua, ter acesso aos textos originais, poderá ao menos encontrar uma ou outra tradução que lhe permita aceder ao que procura.
 
Esta introdução serve apenas para referir uma iniciativa que realmente é louvável. Os textos místicos e/ou de teologia interessam-me apenas enquanto textos. Desde criança que sou completamente esvaziado de fé, como tal, ler S. João da Cruz ou Santa Teresa de Ávila ou Santo Agostinho é, para mim, mais uma experiência literária. Nesse campo, deveria ser indiferente para mim que, hoje, dia 7 de Outubro, Bento XVI eleve ao estatuto de Doutora da Igreja a alemã Hildegard Von Bingen.
Hildegard nasceu em Bingen no final do século XI e faleceu em 1179. Esta freira beneditina legou-nos uma obra impressionante, que passa pela poesia, pela prosa, pela filosofia, pela composição musical, pela botânica e até pela criação de um alfabeto. Apesar duma obra desta amplitude, Hildegard tem sofrido, até agora, de uma indiferença que recaiu sobre outros nomes da mística, como Jan van Ruysbroek ou Hadewijch de Antuérpia, que escreveram igualmente obras importantes e extensas, mas que ficaram votados a um esquecimento que não se compreende bem. O facto de ser mulher também terá contribuído para isto. Na lista de Doutores da Igreja encontrávamos, até agora, trinta homens e três mulheres, sendo elas Catarina de Siena, Teresa de Ávila e Therese de Lisieux. A partir de hoje, temos 31 homens (Sendo somado João de Ávila.) e 4 mulheres.
O facto de Hildegard von Bingen ser elevada a Doutora da Igreja, em si, não me diz nada. Sou ateu e as religiões organizadas causam-me uma impressão e uma desconfiança difíceis de ultrapassar. Mas, evidentemente, este estatuto terá consequências: uma delas será, provavelmente, uma maior divulgação da obra, incluindo traduções das obras escritas de Hildegard, que, até hoje, são completamente desconhecidas em português.
E para que, finalmente, possamos apreciar a beleza dos seus textos, eu diria que é de louvar a elevação de Hildegard.
 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Indignação


 
O horror calou tudo, declararam.
Depois de Auschwitz
Continuámos a falar, porém – sem ambição.
Reconhecendo o inalcançável,
Baixando o olhar.
Pois o que pode a fala? Por que dizem
Que, cantada, faz de arma?
Se com ela não nos municiamos.
Se, com a morte de uma Grécia antiga,
Perdemos o condão de nomear
Deuses e sentimentos e até
As pequenas moléculas, enfim, nomear o real
Que, naquele caso, incluía o tremendo e a maravilha?

 
Esses, os que levavam para a praça  
Quezílias, sim, projectos e também,
E, sobretudo, uma noção de polis
E de uma paridade vigiada,
Severamente vigiada.
Os Gregos, esses
Que narravam o medo para que o medo
Se tornasse visível, prisioneiro
Na teia do poema,
Se não compreensível, pelo menos
Transformado em espectáculo – essa Grécia,
Essa Atenas perfeita, mais perfeita
Que qualquer utopia, a rapariga
Inesperadamente transformada
Numa ruína,
Esses – que não existem

 
E nos deixaram assustados, sós,
Sob o sem-rosto, sós,
Sem as ferramentas adequadas,
Sem pensamento,
Sem esses deuses temperamentais
Que tomavam partido nos combates,
Nós, os abandonados, os que não
Sabem sequer como aplacar
E a quem,
Nós, os emudecidos,
Irmanados com os sem-terra, nós,
Os futuramente esfomeados,
Bárbaros com os pés no alcatrão,
Bebedores de petróleo, como pode

 
De novo a praça,
A Ágora, juntar-nos?
 
Transformados em porcos, por feitiço,
Pela malevolência,
Exactamente
Como na Odisseia,
Não sabemos
- e os Gregos esqueceram –
Como é que tal feitiço
Se desfaz?

Hélia Correia
poema editado no 'Público' aquando da Manifestação de 22 de Janeiro de 2012, que me parece importante relembrar hoje, dia de reunião de Conselho de Estado; juntamente com este desenho do pintor flamengo James Ensor, que, para nós, terá muito sentido

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Were You There?

Estão marcados, finalmente, dois concertos dos Anathema em Portugal, para 2012.
O primeiro, no Hard Rock do Porto, a 19 de Outubro, o segundo a 20 de Outubro no Paradise Garage de Lisboa. Em apresentação ficam os dois álbuns mais recentes, 'Falling Deeper' (2011, de que falei aqui.) e 'Weather Systems' (2012, de que falei aqui.).
Abaixo fica, completo, o concerto na Polónia, de apresentação do álbum 'A Natural Disaster' (2003) editado em DVD em 2004, com o título 'Were You There?'

quarta-feira, 14 de março de 2012

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Indispensável


Elementos Naturais e Outros Figurantes
pintura e assemblage da pintora e poeta Isabel de Sá
inaugura na Galeira Porto Oriental, amanhã

sábado, 23 de julho de 2011

Amy, a artista

A morte, hoje, de Amy Winehouse não surpreende, mas não deixa de ser triste.
Dois álbuns de excelente qualidade, infelizmente, não lhe deram tanta fama quanto os problemas com o álcool e as drogas. Provável e lamentavelmente, será essa condição de deprimida não tratada a construir a lenda à volta de Amy.
É pena. O destaque deveria ser dado a canções como "In My Bed", "Me and Mr. Jones" ou "Back to Black".
Porque colocar a tónica no álcool e nas drogas fará dela uma estrela, mas não uma artista, agora que, depois da morte, a recordamos. E isso, a meu ver, torná-la-à indigna, porque a estrela facilmente se torna vulgar, substituível, dispensável. Mas a Amy era uma artista, por isso mesmo invulgar e irrepetível. Eu prefiro lembrá-la assim. Haja mais alguns que a lembrem assim!
E, para assinalar o seu triste desaparecimento, aqui fica a minha música favorita das suas, "Back to Black".



Amy Winehouse

1983-2011

sexta-feira, 10 de junho de 2011

É já amanhã



Lamb: Wise Enough (do álbum "5", 2011)

15:00 showcase na Fnac do CC Colombo
21:00 concerto no Grande Auditório do CCB (primeira parte: Jay Leighton)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Hoje



às 18:30 no Palácio do Marquês de Fronteira (Monsanto), acontece o lançamento de "As Luzes de Leonor", o novo romance de Maria Teresa Horta. Partindo da personagem de Leonor de Almeida Portugal, quarta Marquesa de Alorna, Maria Teresa Horta escreve um longo romance a que não escapam uma formação poética por inteiro, e também feminista.


segunda-feira, 25 de abril de 2011



A propósito do dia de hoje: "Só Assim Será Poema"

Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.

Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.

Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.



Hélia Correia

quarta-feira, 30 de março de 2011

Ângelo de Sousa, 1938-2011


Sempre riscaste brancuras

te manchaste de marfins

pois sem ferida ...a cor não fora.

E o resto se lavava e deslavava

em manhã de barrela e nódoa

dessa luz do que não há

na tela a toda a trama ensaboando

buscando o timbre de outras primárias

luz sobre luz sobre luz sobre sombra.


Agora que rompeste a convenção do negro

e nos deixaste sem geometria de amar

estou certa de que acharás

a mão de mil dedos

o quadrado da rosa

o pássaro em seu infinito trapézio

o rio onde não falta a terceira margem

o triângulo manco de torso em osso

a fonte que é eterna

por se beber a si mesma.


Mas será que encontrarás a nossa sombra

e a resgatarás de ser anã

por entre ramos gigantes

tornando-a furta-cores

e ladra de luz

canina

agarrada às canelas do mendigo

ao cu do rico

ao caudal da multidão

como uma fotografia

instantaneamente perpétua.

Eu te imagino oscilante

como sorriso que não quer apagar-se

porque ainda morde

e lembro

a tua beleza incorrigível

de vermelho e recém-nascido

Regina Guimarães,

O Pintor Morreu