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terça-feira, 3 de março de 2015

Cinco novas bandas (parte 4)

(Parte 1: ler aqui)   (Parte 2: ler aqui)   (Parte 3: ler aqui)

Um pensador desiludido e sem esperança como E.M. Cioran pôde reconhecer com bastante acuidade que [n]ous devons la quasi-totalité de nos découvertes à nos violences, à l'exacerbation de notre déséquilibre*. Ao reconhecer a violência como móbil da actividade humana (e consequentemente, da actividade criativa), Cioran atribui-lhe um valor edificante que, em muito, não pode ser negado. Sem discórdia, não há evolução nem revolução. O rock reconhece esta violência. O que ele pressupõe é uma experiência profunda do mundo, que é depois transformada em música. Por isso as grandes canções rock se fazem a partir da agressividade, da raiva, da violência, da angústia, da luxúria: trata-se de reconhecer que vamos à descoberta do mundo através de uma experiência aprofundada da nossa violência.
As páginas do ensaio Penser contre soi podem constituir uma explicação bizarramente verosímil da estrutura básica do rock enquanto género. A expressão extrema pressupõe uma experiência extrema do mundo, uma pesquisa por aquilo que de mais elementar e incontrolável existe na natureza e na consciência humana. Ao ler certas páginas mais angustiantemente realistas de Cioran, não é difícil imaginá-lo a ouvir uma banda como as referidas acima. Aliás, estando em causa essa experiência violenta e derradeira da consciência, não seria estranho dizer que Cioran, bem como Nietzsche, Sade, Kafka, Artaud, Lovecraft, Edvard Munch, Hans Bellmer, Michelangelo ou Caravaggio, se vivessem nos dias de hoje e fossem músicos, estariam provavelmente numa banda de rock. Os seus inquéritos aos estados últimos da consciência deixam-nos estranhamente próximos do trabalho dos melhores músicos rock. Porque esse inquérito é o que o rock tem de mais elementar, e é esse também o seu maior perigo. Encontramos em Cioran: La formule de l'enfer? C'est dans cette forme de révolte et de haine qu'il faut la chercher, dans le supplice de l'orgueil renversé, dans cette sensation d'être une térrible quantité négligeable, dans les affres du «je», de ce «je» par quoi commence notre fin**.
De acordo com isto, o que fica claro é que não outra saída para a experiência realista e profunda do mundo senão a própria violência. Mas, nessa violência, esconde-se igualmente a nossa aniquilação, a possibilidade de encontrar o inferno. O rock reconhece sempre o risco da anulação do próprio «eu», que é o perigo de ir longe demais no conhecimento do mundo e de si mesmo, e de ser incapaz quer de regressar a um estado de inocência ignorante, quer de sobreviver àquilo que encontrou.
Mas nesse sentido, nenhum género tem uma valência tão filosófica e antropológica quanto o monosprezado rock. Só ouvido «de fora», ou então pela estirpe exclusivíssima e mui cultivada dos nossos intelectuais da alta cultura (altíssima até!) o rock parecer um género de 'gente a gritar com guitarras eléctricas estridentes atrás'. 
Perante qualquer canção de uma das cinco bandas de que falei, corremos o risco de ver ruir a barreira que nos separa da realidade e de perdermos a ilusão de um mundo que é ainda capaz de se equilibrar. Há algo de sagrado na ilusão que nos mantém sãos. Sãos, mesmo que iludidos: este podia ser o lema da nossa hipermodernidade (como lhe chama Lipovetsky) .
Mas, utilizando um verso de Coraline dos Ash is a Robot, we are crashing waves on sacred ground. E essa coragem não será necessariamente extensível a todos. Por outro lado, assume Cioran, [s]euls nos séduisent les espirits qui se sont détruits pour avoir voulu donner un sens à leur vie***. Porque só com esses aprendemos a procurar (mesmo que não encontremos) uma saída, ou a tentar diminuir a distância entre essa sagrada ilusão e a temível realidade.

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*Cioran, E.M. (1956). La tentation d'exister. Ed. Gallimard, Paris, 2011. p.9
**Cioran, E.M. (1956). op.cit. p.22
***Cioran, E.M. (1956). op.cit. p.24
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sábado, 17 de janeiro de 2015

Sobre o vídeo de "Elastic heart"


Sia Furler, cujo percurso começa no final dos anos 90, e esteve ligada Zero7, só conheceu sucesso a sério depois de participar um tanto inesperadamente nalgumas canções de David Guetta. O álbum mais recente, "1000 forms of fear", longe de ser a sua melhor produção, é sem dúvida o mais badalado, com o primeiro single, Chandelier a tocar irritantemente em tudo o que é bar, café, loja, discoteca, etc.
Elastic Heart, o single mais recente, não é muito melhor, mas apresenta algo decurioso: o videoclip, à volta do qual se criou uma enorme polémica, com direito a acusações de incitamento à pedofilia, o que levou Sia a justificar-se e desculpar-se, o que me parece despropositado, pelo menos na segunda parte.
Não há nada de pedófilo no vídeo de Elastic Heart, realizado pela própria Sia e por Daniel Askill. Pelo contrário. Um acto de pedofilia pressupõe um mínimo de duas pessoas. E, na verdade, este vídeo tem factualmente dois corpos, mas apenas uma pessoa. Trata-se de uma das melhores peças recentes no campo do videoclip e a sua observação deve orientar-se, penso, pelo valor artístico e videográfico, e não pela paranóia excessiva dos nossos tempos tão pós-modernos, em que limpamos com lixívia pura qualquer indício de sexualidade, enquanto nos indignamos porque, durante séculos, a religião reprimiu o sexo. As contradições!
O vídeo de Elastic Heart só é erótico se o olharmos de forma muito desantenta. Pelo contrário, o impulso que anima este vídeo prende-se mais com a violência do que com o erotismo.
Maddie Ziegler e Shia LaBeouf interpretam, no fundo, a mesma personagem, vista apenas de pontos-de-vista diferentes, que não são apenas dois mas, quanto a mim, quatro.
A interpretação mais imediata do vídeo (excluindo a da pedofilia, que não tem sentido algum) é a de que LaBeouf nos apresenta o indivíduo adulto e civilizado, enquanto Ziegler é a criança, ainda livre, em estado quase selvagem. O espaço da gaiola, que se torna uma arena para o confronto entre estes dois lados de um mesmo ser humano, representaria, desse ponto de vista, a consciência do indivíduo ou, indo mais longe, o super-ego freudiano, a voz da punição que força o ego a obedecer a convenções, socializações e comportamentos normativos e que, principalmente, pune a fuga a estes. Vários momentos do vídeo sustentam esta ideia, inclusivamente a capacidade que Maddie Ziegler tem, mas Shia LaBeouf não, de passar entre as grades da gaiola e sair: só uma criança consegue atravessar as barreiras da estruturação imposta a um adulto, porque, nela, o super-ego não está formado, mas em formação. Assim, não é de admirar o contraste nas coreografias de Ryan Heffington. Enquanto a de Ziegler é animalesca e atacante, a dele é uma defesa contida e impotente apesar de pujante.
Mas o confronto pode ser outro. Representar apenas a luta entre a idade adulta e a infância de uma mesma pessoa seria até mais evidente se se procurasse uma semelhança entre os dois intérpretes, mas é exactamente isso que não acontece. O que abre espaço para uma tensão paralela: a do masculino e do feminino. A violência do confronto entre a infância e a idade adulta não é menor do que a violência que ocorre quando nos apercebemos de que a nossa energia sexual e mesmo a nossa os limites do nosso sexo/ género não são necessariamente unilaterais. O que este vídeo nos pode oferecer é um retrato da dificuldade de um homem em assumir o seu lado feminino. Isto torna-se mais pungente quando percebemos que, principalmente na figura de Shia LaBeouf, não há nenhum apontamento de androginia. O seu corpo definido, os pelos corporais, a barba, são emblemas de uma masculinidade que não é ameaçada pela existência de um lado feminino. Portanto, este não devia constituir um problema: mas constitui. Ao ponto de despertar nele a necessidade de reafirmação. Para isto, podemos atentar na sequência em que LaBeouf trepa pelas grades da gaiola e, pendurado no centro, ergue o seu próprio corpo como se fizesse musculação. A câmara muda de ponto de vista e mostra-nos que, abaixo dele, Ziegler dança como se fizesse ballet. Usando dois actos tradicionalmente conotados com o masculino e o feminino, o que Elastic Heart nos propõe é que qualquer insistência sobre um não anulará o outro: intensificá-lo-á. O espaço da gaiola recupera assim a ideia de um super-ego que não esquece as convenções: neste caso, as convenções que pesam sobre ser-se homem na sociedade, por exemplo. No entanto, o final do vídeo apresenta um certo sinal de esperança, quando ele a toma aos ombros e começa a caminhar com ela, mesmo que incapaz de sair dos limites da jaula: dos seus próprios limites, afinal.
Seja na oposição criança/adulto, seja na oposição masculino/feminino, o vídeo de Elastic Heart é uma peça de extrema sensibilidade e de uma beleza simples. Quando se desculpou pelo videoclip, Sia explicou que Shia LaBeouf e Maddie Ziegler lhe haviam parecido os dois actores apropriados para fazer este vídeo. Está correcta. De Ziegler, só conheço os vídeos de Sia, mas Shia LaBeouf, um actor estranhamente monosprezado, tem um particular à-vontade para lidar com a problematização do sexo: isso viu-se no vídeo de Fjögur Píanó dos Sigur Rós, mas mais ainda no prodigioso "Nymphomaniac" de Lars Von Trier. Porque LaBeouf já foi capaz de incorporar a androginia no primeiro e o pior drama sexual masculino (a incapacidade de satisfazer aquela/e que desejamos) no segundo, o actor parece ter uma compreensão fluida e plural da sexualidade, e só alguém assim poderia ter feito este vídeo. No resultado final, a tensão entre os dois corpos (e não duas personagens) é credível e intensa e, o que será mais interessante, consegue multiplicar os seus próprios significados e tornar Elastic Heart uma proposta complexa mas imediatamente cativante, como convém a um videoclip.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Klangkarussel feat. Tom Cane: Netzwerk (Falls like rain)



(...)
I look up to the sky above
Full of sweet release
From the dreams that I chase
Trying to find some space
In a world that I don't believe

I won't run when the storm clouds come
I won't turn away
'Cause if your eye's on the ground
When the night comes down
You only see the stars when they fall like rain
(...)

sábado, 20 de setembro de 2014

''Anything could happen'': Ellie Goulding/ Floria Sigismondi




Um videoclip de Ellie Goulding, realizado por Floria Sigismondi, fotógrafa e artista plástica que admiro bastante. O feliz encontro entre estas duas mulheres dá origem a um vídeo em que convergem a mitologia clássica (Penélope e Ulisses) e o imaginário cristão (a figura de Goulding a lembrar uma santa). 
O que admiro essencialmente no trabalho de Sigismondi, como fotógrafa e como realizadora de videoclips, é a sua capacidade de, atrás do que parecem meras imagens de inspiração surrealista e simbolista, convocar vários momentos da história cultural europeia, e de reintegrá-las no contexto actual, trabalhando igualmente com a ruptura e com a continuidade. Neste caso, Ulisses e Penélope transformam-se num casal urbano destroçado por um acidente de automóvel junto ao mar onde ela o espera. Por outro lado, Goulding aparece convertida numa andrajosa figura mítica, que não assenta sobre uma nuvem (como no imaginário comum católico), mas que é arrastada sobre o mar por essa nuvem.
A produção visual que acompanha o trabalho de Ellie Goulding já várias vezes invocou estéticas semelhantes, por exemplo no vídeo de Figure 8, realizado por W.I.Z., ou então no vídeo, já mais antigo, de Guns and horses, realizado por Petro.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Mumford & sons: The Cave



Do álbum 'Sigh no More' (2008)
Letra de Marcus Mumford

(...)
So tie me to a post and block my ears
I can see widows and orphans through my tears
I know my call despite my faults
And despite my growing fears

But I will hold on hope
And I won't let you choke
On the noose around your neck
And I'll find strenght in pain
And I will change my ways
I'll know my name as it's called again
(...)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Lana del Rey feat. Cedric Gervais: Summertime Sadness




Letra de Lana del Rey e Rick Nowels
Do álbum 'Born to Die' (a versão original)


(...)
Oh, my God, I feel it in the air
Telephone wires above are sizzling like a snare
Honey, I'm on fire, I feel it everywhere
Nothing scares me anymore

Kiss me hard before you go
Summertime sadness
I just wanted you to know
That, baby, you're the best
(...)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A matter of pop (alguns videoclips)


Ke$ha: Take it Off (Do álbum 'Animal', 2010)



Ke$ha: Blow (do EP 'Cannibal', 2010)


Christina Aguilera: Fighter (do álbum 'Stripped', 2002)


Christina Aguilera: Your Body (do álbum 'Lotus', 2012)



Adele: Rolling in the Deep (do álbum '21', 2011)


Adele: Set Fire to the Rain (do álbum '21', 2011)



Shakira: Whenever Wherever (do álbum 'Laudry Service', 2001)


Shakira: Rabiosa (do álbum 'Sale el Sol', 2010)


Rihanna: Man Down (do álbum 'Loud', 2010)



Rihanna: We Found Love (do álbum 'Talk That Talk', 2011)


Justin Timberlake: Sexyback (do álbum 'Futuresex/ Lovesounds', 2006)


Justin Timberlake: Mirrors (do álbum 'The 20/20 Experience', 2013)


Nicki Minaj: Automatic (do álbum 'Pink Friday', 2010)


Nicki Minaj: Stupid Hoe (do álbum 'Pink Friday: Roman Reloaded', 2012)


Lana del Rey: Born to Die (do álbum 'Born to Die', 2012)


Lana del Rey vs. Cedric Gervais: Summertime Sadness (do álbum 'Born to Die', 2012)


Lady Gaga: Poker Face (do álbum 'The Fame', 2008)


Lady Gaga: Judas (do álbum 'Born This Way', 2011)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Nine Inch Nails: Came Back Haunted



Letra de Trent Reznor
Do álbum 'Hesitation Marks' (2013)
Vídeo de David Lynch






(...)
Now I've got something you have to see
They put something inside of me
The smile is red and its eyes are black
I don't think I'll be coming back

I don't believe it, I had to see it,
I came back, I came back haunted
(...)







terça-feira, 6 de agosto de 2013

Katatonia: Leathen



Do álbum 'Dead End Kings' (2012)
Letra de Jonas Renski

(...)

To run along the freeway
To weigh one's heart against the oncoming dark
You left me with the pills
We had plans but you couldn't make it
Through the trees
What took you so long
The high grass
What took you so long

(...)

sábado, 20 de julho de 2013

Tom Vek: Aroused



Do álbum 'Leisure Seizure' (2011)
Letra de Tom Vek

You said only a back page
Will get as read as the first page
Now you're observing the corners
Are showing the first signs of ageing
(...)

quinta-feira, 27 de junho de 2013

The Cranberries: Animal Instinct



Letra de Dolores O'Riorden
Do álbum 'Bury the Hatchet' (1999)

(...)
And the thing that gets to me
Is you'll never really see
And the thing that freaks me out
Is I'll always be in doubt

It's just a lovely thing that we have,
It's just a lovely thing that we...
It's just a lovely thing
The animal, the animal instinct
(...)

segunda-feira, 4 de março de 2013

Portishead: Magic Doors



Do álbum 'Third' (2010)
Letra de Beth Gibbons, Geoffrey Barrow, John Baggot

(...)

Often I've dreamt that I don't wait
Enjoy the gift of my mistake
Like then again I'm wrong and I confess
(...)

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Tame Impala: Lonerism

O PRAZER DA CONFUSÃO

Se houve banda que, a meu ver, mudou o rock irreversivelmente, essa banda foram os Nine Inch Nails (Talvez não devesse falar no plural, uma vez que se trata de uma one-man-band.). O lançamento, em 1989, de 'Pretty Hate Machine' é um acontecimento muito mais importante do que muitas vezes nos lembramos. Antes de Marilyn Manson, que traria também algo de muito novo ao género, Trent Reznor conseguiu, sozinho, assimilar toda a história do rock e subvertê-la de uma forma que o deixou, por assim dizer, orgulhosamente só num lugar cujo impacto está ainda por apurar. As experiências de bandas que, goste-se ou não, fizeram a história deste género e dos mais próximos (Penso nos Joy Division, nos Guns'n'Roses, nos Slayer, nos The Doors, nos Faith No More, etc.) parecem ter sido condensadas por Reznor que, por um lado, as continua e, por outro, se recusa a continuá-las. A adição da electrónica e do ritmo quase dançável , vindos de tendências aparentemente opostas ao rock, às canções brutas, agressivas e pesadas como que colocava em cena dois actores incapazes de contracenar. Se isto parecia um dramedy improvável, Reznor conseguiu produzir um álbum que, mais do que ficar na história da música, a mudou e, depois de 'Pretty Hate Machine' tem conseguido outros momentos de impressionante arrebatamento, como 'The Fragile' (1999), 'With Teeth' (2005) ou 'The Slip' (2008).
Muitas experiências que, entenda-se, são verdadeiramente originais, não teriam tido, possivelmente, espaço para essa originalidade, se os caminhos não tivessem sido já abertos por Reznor (E por alguns outros depois dele.). 

Ocorre isto para falar dos Tame Impala, especificamente do álbum 'Lonerism', lançado no final de 2012. O álbum anterior, 'Innerspeaker' (2010) mostrava-nos a tendência algo psicadélica da música da banda australiana e o uso da electrónica remontava discretamente aos NIN, sem no entanto a glosar. 
Em 'Lonerism', a inclinação para a electrónica desconcertante a soar no meio das guitarras não desaparece. Pelo contrário, intensifica-se e acontece de uma forma muito mais equilibrada e inteligente.
Be Above It, que abre o novo álbum, tem algo de ensurdecedor e de confuso, que perpassará para as outras canções. No seu todo, 'Lonerism' leva à letra a palavra psicadélico, tem momentos obsessivos e excessivos, vemos isso em Apocalypse Dreams e em Elephant principalmente, e outros que, sendo mais relaxados, continuam a ter, estranhamente, algo de descosido, de interrompido, como acontece com a canção final, Sun's Coming Up. A estranheza que causa, a início, um álbum dos Tame Impala (Mais ou menos o mesmo acontecia com o anterior.) prende-se com o facto da música dar a impressão de ser construída não com instrumentos nem com voz, mas com uma espécie de patchwork de energias contraditórias que, apesar do seu desequilíbrio intrínseco, combinadas formam canções muito perfeitas. 
A própria fragilidade da voz de Kevin Parker, espécie de eco longínquo em que as palavras se vão perdendo e metamorfoseando, parece apontar para a constante desconstrução das canções. Mind Mischief ou Why Won't They Talk To Me? são exemplos dessa desconstrução, uma vez que a própria voz parece vir quase de uma canção diferente
Ao longo de 'Lonerism', as faixas dão a impressão de aparecer e desaparecer umas nas outras. O resultado é que o álbum, longe de parecer a partir de certo ponto mais do mesmo, nos soa como um todo, efectivamente. 
Instrumentalmente, esta música vive da bizarra comunicação entre as guitarras estridentes e dos sintetizadores frenéticos, com a bateria e a voz a firmarem ou a fragilizarem essa comunicação. Feels Like We Only Go Backwords será talvez a canção onde esse jogo de atracção/repulsão fica mais à vista.
Todo o álbum parece ser feito não necessariamente de contradições, mas de antagonismos. A própria atmosfera do álbum é melancólica (As próprias letras, escritas pelo vocalista, para isso nos orientam.), mas descontraída. Why Won't They Talk to Me, Keep on Lying ou She Just Won't Believe Me, por exemplo, tratam de assuntos um tanto tristes, mas são tocados com uma sonoridade vaga e relaxada, com longos solos instrumentais que derivam da letra para outras zonas mais delirantes, por assim dizer.
Se em certos momentos nos parece ouvir na música dos Tame Impala alguns ecos longínquos _penso nos Doors, em David Bowie, nos Pink Floyd, nos Faith no More e até, em Elephant (Uma das melhores canções do álbum.) nos Goldfrapp_  a verdade é que, acima de tudo, esta música tem qualquer coisa de inqualificável e de novo.
Em 1989, 'Pretty Hate Machine' foi realmente um acontecimento e, se abriu o caminho aos Nine Inch Nails, abriu também uma série de outros para outros projectos. Os NIN não serão a referência que mais imediatamente nos ocorre, mas o trabalho de articulação entre a electrónica e o rock puro e duro, que os Tame Impala herdam directamente, foi desenvolvido em pleno por Trent Reznor (Uma vez que o glam rock não foi verdadeiramente capaz de levar essa junção ao extremo.).
Mas se 'Lonerism' mostra alguma coisa, é que os Tame Impala podem ter herdado o groundbreaking dos Nine Inch Nails, mas souberam fazer a sua própria música. E fazê-la bem, claro.




quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Tori Amos: Gold Dust

RAÍZES

Quando em 2011 Tori Amos lançou o seu décimo álbum de originais, 'Night of Hunters' era dificilmente aquilo que se esperaria após 'Abnormally Attracted to Sin' (2009). 'Night of Hunters' consistia numa recriação de várias peças de compositores eruditos, contava uma história com recurso a várias metáforas que existem dentro da música erudita e realçava a cultura de Amos não só enquanto cantora, mas também enquanto compositora e, essencialmente, enquanto artista.
Pouco depois do lançamento desse álbum, Myra Ellen anunciou que, no seguinte, iria gravar canções dos seus trabalhos anteriores em versões sinfónicas. Não pareceu, de todo, pouco natural esta ideia, depois de 'Night of Hunters'.


No final de 2012, chega-nos então 'Gold Dust', que vai buscar o título a uma das mais belas canções de Amos, do álbum 'Scarlet's Walk' (2002), uma canção que, já na sua versão original, era gravada apenas com piano e orquestra.
O álbum é gravado quase inteiramente da mesma forma, contando com a Metropole Orchestra conduzida por Jules Buckley e com os arranjos de John Phillip Shenale e o alinhamento conta com canções de todos os trabalhos de Amos, incluindo o álbum de natal 'Midwinter Graces' (2009), mas não 'The Beekeeper' (2005).
O alinhamento será, para aqueles que conhecem bem o percurso de Amos, talvez aquilo que nos deixa mais reticentes em relação a 'Gold Dust'. Se a música de Tori sempre teve assumidamente uma herança da música erudita, particularmente a barroca, a verdade é que nalgumas canções isso era mais notório do que noutras. O que acontece é que a maioria destas canções são precisamente aquelas onde a presença erudita e a vertente sinfónica eram mais claras, como é o caso de Jackie's Stenght, Cloud on My Tongue, Gold Dust, Winter, Marianne, Girl Disappearing ou de Flavour que, aliás, foi escolhida para apresentar o álbum. São mais raras as canções em que essa presença era menos nítida, como Precious Things, Flying Dutchman ou Programmable Soda. Por um lado, podemos achar talvez demasiado imediatista a escolha que Amos faz, dentro do seu trabalho. Gravar canções como Professional Widow, Raspberry Swirl, Teenage Hustling, You Can Bring Your Dog ou Give teria sido muito mais ousado e, provavelmente, teria causado em nós uma efeito muito mais exacerbado.
No entanto, logo que começamos a ouvir o álbum, percebemos que talvez não seja exactamente assim. As canções, apesar de já conhecidas, tem uma aspereza e uma atmosfera pesada que não teríamos, possivelmente, ouvido tão imediatamente nas versões originais. O facto é que estas versões sinfónicas realçam as emoções mais negras das canções, elas tornam-se grandiosas e angustiadas. Dessa perspectiva, entende-se melhor a selecção que Amos fez do seu trabalho: se imaginarmos as canções que usei como exemplo acima, ou outras dentro do mesmo género, refeitas desta forma, elas perdem o sentido original para ganharem outro sentido que não faz, por assim dizer, muito sentido.
Exemplo máximo disto será talvez a versão de Gold Dust, em que o esquema instrumental quase não é alterado, mas que soa, aqui, como um lamento fortíssimo que nos deixa derrotados. Imagine-se o efeito que uma roupagem destas teria, por exemplo, em You Can Bring Your Dog, e percebe-se como, efectivamente, o que motivou a escolha de Amos foi a inteligência mais do que o desejo de surpreender.
Tal como acontecia com 'Night of Hunters', este álbum funciona mais como um todo do que como um conjunto de peças individuais. Já desde 'American Doll Posse' (2007) que Tori começou a fazer uso das capacidades teatrais que teve sempre, e nos últimos dois álbum, isso é tanto mais importante. A verdade é que nunca canções como Cloud on my Tongue, Precious Things ou Winter tiveram tanta corpulência quanto têm nestas novas versões. Se estes momentos mais melancólicos são ocasionalmente interrompidos, a verdade é que canções como Flying Dutchman, Programmable Soda ou Snow Cherries From France, parecendo momentos mais cómicos, funcionam mais como forma de balanço e não se pode dizer que 'Gold Dust' tenha propriamente um lado mais animado. Nada contra, entenda-se. Este é um álbum triste e depressivo, e o que interessa verdadeiramente é se o é com qualidade. Parece ser o caso. 'Gold Dust' é, em quase todos os seus momentos, arrebatador e resplandecente. Por exemplo Star of Wonder, que à partida não seria mais do que uma canção de natal, acaba resultando perfeitamente, ao ponto em que nos esquecemos que é uma canção de natal e passa a ser mais um capítulo da história que aqui é contada.
A voz de Amos continua perfeita, muito à vontade nas canções mais pesadas precisamente e as suas capacidades como pianista estão, agora, mais claras, até pelas características da música que está a fazer. Aliás, ao ouvir 'Gold Dust', parece ocorrer-nos que é até estranho que Tori Amos nunca tenha gravado antes um álbum deste género, uma vez que parece tão à vontade e tão favorecida pelo estilo deste trabalho.


O envolvimento da pianista com uma série de projectos mais ligados ao teatro e a espectáculos de música erudita parecem, de certa forma, tê-la afastado um pouco da composição de novos originais dentro do estilo que, por agora, termina em 'Abnormally Attracted to Sin'. Por outro lado, a sua música, ao intelectualizar-se, parece estar agora a explorar as próprias raízes (É um exercício interessante ouvir este álbum em face do primeirinho 'Little Earthquakes'.) e não se pode dizer que os resultados não estejam à altura. Pelo contrário, 'Gold Dust' causa o efeito que causam sempre os álbum de Amos, que é a vontade de ouvir repetidamente.


domingo, 13 de janeiro de 2013

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Sarah McLachlan: Fallen


Letra de Sarah McLachlan
Do álbum 'Afterglow' (2004)

(...)
But we carry on our back the burden
Time always reveals
In the lonely light of morning,
In the wound that yould not heal
It's bitter taste of losin' everything that I've held
So dear I'm

Fallen, I have
Sunk so low, I messed up,
Better I should know
So don't come 'round here
Tell me «I told you so»
(...)

domingo, 23 de dezembro de 2012

Carrie Underwood: Blown Away


Letra de Chris Tompkins e Josh Kear
Do álbum 'Blown Away' (2012)

(...)
Shatter every window 'till it's all blown away
Every brick, every board, every slammin' door blown away,
Till there's nothing left standing, nothing left of yesterday
(...)

Kate Walsh: It's Never Over


Letra de Kate Walsh
Do álbum 'Clocktower Park' (2003)

(...)
But a memory of distant diesel nights
You put a crown in my head
But I'm wishin' you never had
'Cause now I have less than I ever had
(...)