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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Tame Impala: Lonerism

O PRAZER DA CONFUSÃO

Se houve banda que, a meu ver, mudou o rock irreversivelmente, essa banda foram os Nine Inch Nails (Talvez não devesse falar no plural, uma vez que se trata de uma one-man-band.). O lançamento, em 1989, de 'Pretty Hate Machine' é um acontecimento muito mais importante do que muitas vezes nos lembramos. Antes de Marilyn Manson, que traria também algo de muito novo ao género, Trent Reznor conseguiu, sozinho, assimilar toda a história do rock e subvertê-la de uma forma que o deixou, por assim dizer, orgulhosamente só num lugar cujo impacto está ainda por apurar. As experiências de bandas que, goste-se ou não, fizeram a história deste género e dos mais próximos (Penso nos Joy Division, nos Guns'n'Roses, nos Slayer, nos The Doors, nos Faith No More, etc.) parecem ter sido condensadas por Reznor que, por um lado, as continua e, por outro, se recusa a continuá-las. A adição da electrónica e do ritmo quase dançável , vindos de tendências aparentemente opostas ao rock, às canções brutas, agressivas e pesadas como que colocava em cena dois actores incapazes de contracenar. Se isto parecia um dramedy improvável, Reznor conseguiu produzir um álbum que, mais do que ficar na história da música, a mudou e, depois de 'Pretty Hate Machine' tem conseguido outros momentos de impressionante arrebatamento, como 'The Fragile' (1999), 'With Teeth' (2005) ou 'The Slip' (2008).
Muitas experiências que, entenda-se, são verdadeiramente originais, não teriam tido, possivelmente, espaço para essa originalidade, se os caminhos não tivessem sido já abertos por Reznor (E por alguns outros depois dele.). 

Ocorre isto para falar dos Tame Impala, especificamente do álbum 'Lonerism', lançado no final de 2012. O álbum anterior, 'Innerspeaker' (2010) mostrava-nos a tendência algo psicadélica da música da banda australiana e o uso da electrónica remontava discretamente aos NIN, sem no entanto a glosar. 
Em 'Lonerism', a inclinação para a electrónica desconcertante a soar no meio das guitarras não desaparece. Pelo contrário, intensifica-se e acontece de uma forma muito mais equilibrada e inteligente.
Be Above It, que abre o novo álbum, tem algo de ensurdecedor e de confuso, que perpassará para as outras canções. No seu todo, 'Lonerism' leva à letra a palavra psicadélico, tem momentos obsessivos e excessivos, vemos isso em Apocalypse Dreams e em Elephant principalmente, e outros que, sendo mais relaxados, continuam a ter, estranhamente, algo de descosido, de interrompido, como acontece com a canção final, Sun's Coming Up. A estranheza que causa, a início, um álbum dos Tame Impala (Mais ou menos o mesmo acontecia com o anterior.) prende-se com o facto da música dar a impressão de ser construída não com instrumentos nem com voz, mas com uma espécie de patchwork de energias contraditórias que, apesar do seu desequilíbrio intrínseco, combinadas formam canções muito perfeitas. 
A própria fragilidade da voz de Kevin Parker, espécie de eco longínquo em que as palavras se vão perdendo e metamorfoseando, parece apontar para a constante desconstrução das canções. Mind Mischief ou Why Won't They Talk To Me? são exemplos dessa desconstrução, uma vez que a própria voz parece vir quase de uma canção diferente
Ao longo de 'Lonerism', as faixas dão a impressão de aparecer e desaparecer umas nas outras. O resultado é que o álbum, longe de parecer a partir de certo ponto mais do mesmo, nos soa como um todo, efectivamente. 
Instrumentalmente, esta música vive da bizarra comunicação entre as guitarras estridentes e dos sintetizadores frenéticos, com a bateria e a voz a firmarem ou a fragilizarem essa comunicação. Feels Like We Only Go Backwords será talvez a canção onde esse jogo de atracção/repulsão fica mais à vista.
Todo o álbum parece ser feito não necessariamente de contradições, mas de antagonismos. A própria atmosfera do álbum é melancólica (As próprias letras, escritas pelo vocalista, para isso nos orientam.), mas descontraída. Why Won't They Talk to Me, Keep on Lying ou She Just Won't Believe Me, por exemplo, tratam de assuntos um tanto tristes, mas são tocados com uma sonoridade vaga e relaxada, com longos solos instrumentais que derivam da letra para outras zonas mais delirantes, por assim dizer.
Se em certos momentos nos parece ouvir na música dos Tame Impala alguns ecos longínquos _penso nos Doors, em David Bowie, nos Pink Floyd, nos Faith no More e até, em Elephant (Uma das melhores canções do álbum.) nos Goldfrapp_  a verdade é que, acima de tudo, esta música tem qualquer coisa de inqualificável e de novo.
Em 1989, 'Pretty Hate Machine' foi realmente um acontecimento e, se abriu o caminho aos Nine Inch Nails, abriu também uma série de outros para outros projectos. Os NIN não serão a referência que mais imediatamente nos ocorre, mas o trabalho de articulação entre a electrónica e o rock puro e duro, que os Tame Impala herdam directamente, foi desenvolvido em pleno por Trent Reznor (Uma vez que o glam rock não foi verdadeiramente capaz de levar essa junção ao extremo.).
Mas se 'Lonerism' mostra alguma coisa, é que os Tame Impala podem ter herdado o groundbreaking dos Nine Inch Nails, mas souberam fazer a sua própria música. E fazê-la bem, claro.




sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Mumford and Sons: Babel

O TEMPO DA OUTRA SENHORA
Chegamos a um ponto, mais ou menos em todas as áreas cultuais, onde não é conveniente ser-se claramente seja o que for. O híbrido conhece agora a sua idade do ouro, e isto trouxe-nos resultados bons quanto os trouxe maus também. Ou muito maus mesmo.
Depois de três EPs, os Mumford and Sons lançaram o seu primeiro álbum, 'Sigh No More' em 2009, em plena era do híbrido. E o seu som era híbrido. Num registo nitidamente rock intrometiam-se muitas sonoridades country e folk, cujo resultado não era, definitivamente, aquele que seria de esperar. Outros tentaram juntar precisamente as mesmas coisas. E se os resultados conseguidos por uma Lou Rhodes, uma Joanna Newsom, um Patrick Wolf ou uns Bon Iver nos mostram que a junção não é impossível, outros nomes como os Fun. ou os Kings of Leon deixam um tanto a desejar.
'Babel', lançado há alguns dias, se por um lado confirma que o berço dos Mumford and Sons está mais no folk do que em qualquer outro género, por outro pode bem explicar-nos por que eles conseguem fazer bom álbum através das fusões que operam, enquanto outros não conseguem. Porque, efectivamente, a música dos Mumford and Sons é antiquada, verdadeiramente antiquada. Logo à primeira faixa, Babel, percebemos que não há aqui uma tentativa de modernizar género algum e que, se algumas contaminações se sentem, elas se prendem essencialmente com uma procura da pessoalidade, mais que com a vontade de demarcação.
De facto, esse sabor um tanto antiquado, que nos faria pensar no tempo da outra senhora, digamos; acaba por ser o ponto forte deste álbum e os Mumford and Sons parecem aqui, mais do que em 'Sigh no More', convictos em assumir essa tendência.
'Babel' acaba por, em muitos dos seus momentos, parecer natural, intenso, apaixonado e triste, sem no entanto resvalar para o depressivo. É um álbum feito essencialmente de baladas, algumas delas, como I Will Wait ou Lover of the Light soam realmente como declarações de amor perfeitamente assumidas, em que o que se perde em lamechice é ganho em energia.
O esquema das canções, um pouco como acontecia no álbum anterior, é irregular, pelo que na maioria dos casos, há sempre algo de surpreendente. Por exemplo em Lover's Eyes, de uma tonalidade perfeitamente melancólica, que aliás a letra em muito reforça, começam a surgir ritmos e o som da harmónica, que acabam por conferir à canção um final feliz. Ou feliz, dentro do possível.
As letras são outro dos aspectos que interessa referir a propósito dos Mumford and Sons. Marcus Mumford escreve de uma forma um tanto descarnada, com uma total ausência de subterfúgios, que só não se torna excessivamente reveladora por causa do domínio que o vocalista tem das técnicas líricas mais eficazes. Se no álbum anterior encontrávamos letras desarmantes como a de I Gave You All, aqui não menos as encontramos. Além das letras mais dramáticas, como a de Lover's Eyes ou a de Ghosts that we Knew, em que é a facilidade que Mumford encontra em a um tempo rimar e fazer sentido que ressalta, noutras como Remindless ou Hopeless Wanderer ou Borken Crown Mumford acaba por demonstrar também um certo conhecimento das letras do rock clássico americano, e nomes como Bob Dylan, Burce Springsteen e, estranhamente, Eric Clapton, de alguma forma parecem, fantasmáticamente, ter passado pela sua escrita. De uma forma ou de outra, independentemente de se gostar da música dos Mumford and Sons, eu diria que as letras de Marcus Mumford são, por si só, uma boa razão para os ouvir.
Evidentemente, não se esgota aqui. 'Babel' parece ter nas suas primeiras canções uma espécie de abertura mais inofensiva, mas, mais ou menos a partir da quinta faixa, começamos a encontrar canções cuja atmosfera, sendo mais negra, encontra outra coesão. Como disse acima, no entanto, não se trata de um álbum depressivo: aliás, essa palavra não lhe serve. Pelo contrário, os Mumford and Sons são bizarramente capazes de, na treva, encontrar uma energia profunda e, quando ouvimos bem canções como Broken Crown, Below My Feet ou Not With Waste, percebemos que estas canções vibram e, verdadeiramente, fulguram, mesmo dentro da sua atmosfera de desistência e de quase-queixa. E esta capacidade de ser feliz no escuro é, realmente, a área mais favorável a esta banda.
Aspecto que ainda interessa referir é o da voz. Marcus Mumford está longe de ter aquilo que se pudesse chamar uma voz poderosa. Pelo contrário, é uma voz grave e não muito flexível. No entanto, a sua expressividade impressiona e, em vários casos, acaba por ser precisamente a textura e a força da voz a conferir às canções essa fulgurância de que já falei.
Regresso perfeitamente à altura de 'Sigh No More', 'Babel' mostra-nos que os Mumford and Sons atingiram aqui um ponto de coesão que seria aquilo que não estava completamente conseguido no primeiro álbum. Assim, tocando um tipo de música simples e cru, a banda consegue, de facto, manter-nos interessados, também porque continuamente despertam em nós aquele sentimento de que, aquela música já exisitia, de alguma forma, na nossa memória longínqua. E pode soar como se fosse do tempo da outra senhora, mas 'Babel' é um álbum muitíssimo actual e, mais importante que isso, um álbum perfeitamente conseguido.