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sábado, 17 de janeiro de 2015

Sobre o vídeo de "Elastic heart"


Sia Furler, cujo percurso começa no final dos anos 90, e esteve ligada Zero7, só conheceu sucesso a sério depois de participar um tanto inesperadamente nalgumas canções de David Guetta. O álbum mais recente, "1000 forms of fear", longe de ser a sua melhor produção, é sem dúvida o mais badalado, com o primeiro single, Chandelier a tocar irritantemente em tudo o que é bar, café, loja, discoteca, etc.
Elastic Heart, o single mais recente, não é muito melhor, mas apresenta algo decurioso: o videoclip, à volta do qual se criou uma enorme polémica, com direito a acusações de incitamento à pedofilia, o que levou Sia a justificar-se e desculpar-se, o que me parece despropositado, pelo menos na segunda parte.
Não há nada de pedófilo no vídeo de Elastic Heart, realizado pela própria Sia e por Daniel Askill. Pelo contrário. Um acto de pedofilia pressupõe um mínimo de duas pessoas. E, na verdade, este vídeo tem factualmente dois corpos, mas apenas uma pessoa. Trata-se de uma das melhores peças recentes no campo do videoclip e a sua observação deve orientar-se, penso, pelo valor artístico e videográfico, e não pela paranóia excessiva dos nossos tempos tão pós-modernos, em que limpamos com lixívia pura qualquer indício de sexualidade, enquanto nos indignamos porque, durante séculos, a religião reprimiu o sexo. As contradições!
O vídeo de Elastic Heart só é erótico se o olharmos de forma muito desantenta. Pelo contrário, o impulso que anima este vídeo prende-se mais com a violência do que com o erotismo.
Maddie Ziegler e Shia LaBeouf interpretam, no fundo, a mesma personagem, vista apenas de pontos-de-vista diferentes, que não são apenas dois mas, quanto a mim, quatro.
A interpretação mais imediata do vídeo (excluindo a da pedofilia, que não tem sentido algum) é a de que LaBeouf nos apresenta o indivíduo adulto e civilizado, enquanto Ziegler é a criança, ainda livre, em estado quase selvagem. O espaço da gaiola, que se torna uma arena para o confronto entre estes dois lados de um mesmo ser humano, representaria, desse ponto de vista, a consciência do indivíduo ou, indo mais longe, o super-ego freudiano, a voz da punição que força o ego a obedecer a convenções, socializações e comportamentos normativos e que, principalmente, pune a fuga a estes. Vários momentos do vídeo sustentam esta ideia, inclusivamente a capacidade que Maddie Ziegler tem, mas Shia LaBeouf não, de passar entre as grades da gaiola e sair: só uma criança consegue atravessar as barreiras da estruturação imposta a um adulto, porque, nela, o super-ego não está formado, mas em formação. Assim, não é de admirar o contraste nas coreografias de Ryan Heffington. Enquanto a de Ziegler é animalesca e atacante, a dele é uma defesa contida e impotente apesar de pujante.
Mas o confronto pode ser outro. Representar apenas a luta entre a idade adulta e a infância de uma mesma pessoa seria até mais evidente se se procurasse uma semelhança entre os dois intérpretes, mas é exactamente isso que não acontece. O que abre espaço para uma tensão paralela: a do masculino e do feminino. A violência do confronto entre a infância e a idade adulta não é menor do que a violência que ocorre quando nos apercebemos de que a nossa energia sexual e mesmo a nossa os limites do nosso sexo/ género não são necessariamente unilaterais. O que este vídeo nos pode oferecer é um retrato da dificuldade de um homem em assumir o seu lado feminino. Isto torna-se mais pungente quando percebemos que, principalmente na figura de Shia LaBeouf, não há nenhum apontamento de androginia. O seu corpo definido, os pelos corporais, a barba, são emblemas de uma masculinidade que não é ameaçada pela existência de um lado feminino. Portanto, este não devia constituir um problema: mas constitui. Ao ponto de despertar nele a necessidade de reafirmação. Para isto, podemos atentar na sequência em que LaBeouf trepa pelas grades da gaiola e, pendurado no centro, ergue o seu próprio corpo como se fizesse musculação. A câmara muda de ponto de vista e mostra-nos que, abaixo dele, Ziegler dança como se fizesse ballet. Usando dois actos tradicionalmente conotados com o masculino e o feminino, o que Elastic Heart nos propõe é que qualquer insistência sobre um não anulará o outro: intensificá-lo-á. O espaço da gaiola recupera assim a ideia de um super-ego que não esquece as convenções: neste caso, as convenções que pesam sobre ser-se homem na sociedade, por exemplo. No entanto, o final do vídeo apresenta um certo sinal de esperança, quando ele a toma aos ombros e começa a caminhar com ela, mesmo que incapaz de sair dos limites da jaula: dos seus próprios limites, afinal.
Seja na oposição criança/adulto, seja na oposição masculino/feminino, o vídeo de Elastic Heart é uma peça de extrema sensibilidade e de uma beleza simples. Quando se desculpou pelo videoclip, Sia explicou que Shia LaBeouf e Maddie Ziegler lhe haviam parecido os dois actores apropriados para fazer este vídeo. Está correcta. De Ziegler, só conheço os vídeos de Sia, mas Shia LaBeouf, um actor estranhamente monosprezado, tem um particular à-vontade para lidar com a problematização do sexo: isso viu-se no vídeo de Fjögur Píanó dos Sigur Rós, mas mais ainda no prodigioso "Nymphomaniac" de Lars Von Trier. Porque LaBeouf já foi capaz de incorporar a androginia no primeiro e o pior drama sexual masculino (a incapacidade de satisfazer aquela/e que desejamos) no segundo, o actor parece ter uma compreensão fluida e plural da sexualidade, e só alguém assim poderia ter feito este vídeo. No resultado final, a tensão entre os dois corpos (e não duas personagens) é credível e intensa e, o que será mais interessante, consegue multiplicar os seus próprios significados e tornar Elastic Heart uma proposta complexa mas imediatamente cativante, como convém a um videoclip.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sia: We Are Born

RENASCER, OUTRA VEZ
Sia Furler, ou só Sia, começou por ser conhecida como uma das vocalistas dos Zero7: era ela que dava voz a canções belíssimas como "Distractions" e ao lado de Sophie Barker em "Destiny", ambas de "Simple Things", o álbum de estreia em 2001 do duo de electrónica. O álbum "Healing Is Difficult", que saíra uns meses antes do álbum dos Zero7, é hoje pouco lembrado, mesmo pela própria Sia. Era um álbum de pop-pastilha-elástica com muito pouco de memorável, além da realmente boa voz e de escassas canções de qualidade, que seriam talvez "Blow It All Away" e "Fear". O problema de Sia é que estava a fazer um álbum que não parecia nada convicto. Faltava ali um conhecimento dos mecanismos que por norma gerem música desse estilo, nomeadamente a imagem de Sia, que não correspondia à entertainer que conhecemos noutras cantoras ou "cantoras" do género.
Demorou três anos até que Sia voltasse a aparecer em nome próprio. O álbum, "Colour The Small One" apresentava-nos uma nova Sia, focada na sua voz e nas canções harmoniosas e requintadas, com arranjos grandiosos e de grande intimismo, que parecia mais de acordo com a personalidade musical dela. Mesmo assim, foi a inclusão de "Breathe Me" no encerramento da série "Sete Palmos de Terra" que trouxe alguma atenção ao álbum. Nele encontrávamos outras canções de igual qualidade, como "Numb", "Don´t Bring Me Down", "Rewrite", "Where I Belong" ou "Sunday".
Em 2004 voltava a colaborar com os Zero7 em "When It Falls", e em 2006 grava a voz de seis canções de "The Garden". Em 2007 lança um pequeno EP ao vivo, "Lady Croissant" (Falei dele aqui.).
2008 marca o regresso em nome próprio para "Some People Have Real Problems" (Aqui), que continuava a partir de "Colour The Small One" um percurso singular e de muita qualidade, num registo rock-semi-acústico. Era, na verdade, um muito bom álbum, onde se assumiam todas as decisões.




Em Junho deste ano, Sia lança "We Are Born", quarto álbum. Desta vez, não podemos ignorar "Healing Is Difficult". E se anteriormente o usássemos como ponto de comparação para os dois seguintes, e percebíamos que eram redondamente diferentes, desta vez há que reconhecer que os tempos de "Healing Is Difficult" têm aqui presença. E não é leve.
Mal ouvimos "The Fight", a primeira canção, percebemos que esta Sia não é a mesma cantora serena de "Don´t Bring Me Down", que por vezes sussurrava mais do que cantava. Nada disso. Se há avanço que logo pela primeira faixa se percebe, é que Sia agora é menos tímida. Esse tom sussurrante desapareceu por completo, Sia agora canta, muitas vezes em plenos pulmões.
Se por um lado essa atitude mais desenvolta se manifesta numa sonoridade mais polida, mais forte, não podemos negar que essa inclinação empurra Sia não raras vezes para um registo mais pop (Agora que penso nisso, tem acontecido a vários álbuns que tenho ouvido ultimamente...), uma pop que nos faz pensar em Cyndi Lauper, Suzanne Vega ou até nalgumas canções de Kate Bush, afastando-se consideravelmente das influências que me pareciam mais evidentes no segundo e terceiro álbum, que seriam Aimee Mann, Dido, alguma Tori Amos, alguma Alanis Morissette, e o primeiro álbum de Jewel.
Participam neste álbum Dan Carey (Conhecido pelas suas colaborações com Kylie Minogue, Lilly Allen ou os La Roux.), Samuel Dixon (Christina Aguilera, Corinne Bailey-Ray ou Duffy.), Greg Kurstin (Gabriela Climi, Sophie Ellis-Bextor ou Britney Spears.), entre outros; mas destaco estes por serem já colaborações antigas. No entanto, se antes se notava que, maioritariamente, eles haviam aderido a Sia, parece que em "We Are Born" é Sia quem se molda mais às tendências pop com que os seus co-autores/produtores habitualmente trabalham.
Uma vez mais, a grande questão sobre este álbum é perceber que o registo pop acenta bem a Sia. Acenta. Este não é o registo pop cheio de pretensões que era "Healing Is Difficult". É um álbum completo, em que não se fica com a sensação de que falta alguma coisa. E a verdade é que, como em tudo, há boa pop e má pop. E Sia consegue filtrar o que a pop possa ter de melhor.
Canções como "Be Good To Me", "Cloud", "You´ve Changed" ou "Stop Trying" aí estão para o provar.




Não encontramos aqui o registo íntimo a que nos habituámos, e talvez se possa sentir falta dele. Mas isso não significa que esta versão de Sia não resulte bem. Nalguns aspectos, até parece funcionar perfeitamente. Ela consegue manter o seu registo de voz, onde é importante o prolongamento das palavras (De que por vezes abusa ao ponto de se tornar incompreensível o que diz.), mostra ter grande capacidade vocal e flexibilidade, e isso, de certa forma, equilibra as canções, porque não parece que haja aqui um excesso de rigidez. As antigas canções "calmas" estão ainda aí, mas parecem diferentes, mais firmes, como acontece em "I´m In Here" que se destaca do conjunto por ser a única "balada".
Por isso, a conclusão mais evidente é mesmo que Sia encontrou a sua identidade, e agora procura as várias maneiras de se mover nela. Não me parece, como acima disse, que recue aos tempos do primeiro álbum, antes toma toda a experiência dos outros dois e a assimila num trabalho mais "leve". Por isso mesmo, "We Are Born" é um (re)nascimento, uma espécie de "começar de novo", sempre partindo do princípio que já se esteve aqui antes, mas que se precisa de mudar.
Essa ideia de "leveza" é o que mais me ocorre sobre "We Are Born". É, talvez, o que mais mudou em Sia, há nela algo de alegria, de luminosidade, ouçam-se "The Co-Dependent" ou "Clap Your Hands" (Lembro "Little Black Sandals" ou "The Girl You Lost To Cocain".). E mesmo assim, há aqui algo que se reconhece, principalmente do álbum anterior: como Sia por vezes fala de situações desagradáveis, mas consegue cantá-las de uma forma liberta, quase alegre e nada depressiva. Sia deslocou-se das canções tão tristes como eram "Breathe Me"
De referir é também a coerência tão evidente de "We Are Born". As canções conseguem gerar uma certa homogeneidade, sem por isso se tornarem meras repetições umas das outras. Há, por isso mesmo, algumas canções que se destacam. "The Co-Dependent" parece-me a mais conseguida, mas pode-se falar também de "The Fight", "I´m In Here", "Stop Trynig" ou "You´ve Changed".
Com tudo isto, parece-me que, no seu renascimento, "We Are Born" está a milhas de ser um mau álbum. Pelo contrário, é um corajoso passo em frente na discografia de Sia.



o vídeo de "You´ve Changed"