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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Armas brancas


11
Entre cantares (solitários, do povo)
e discursos exacerbados de políticos
a terra trabalha o seu fermento
lêveda ainda das bocas
colectivas.
Cada semana absorve-te e resolve-se
nas marés vivas dum corpo facetado.
A economia é um pilar estilístico.
Os homens de teatro imitam os tribunos
e as noções de equipamento
estendem-se à arte dos trágicos.
O sexo, dizes, não se determina.
Antes de senso
Visconti declarou
a terra toda que trabalha
treme.
Pasolini foi assassinado pelos seus próprios
mitos.
Não era tempo ainda da mão solidária
figurar entre os ciclones da Roda que desanda
inexoravelmente
sobre o campo dos mártires sem causa.
Virgens de uma razão alucinada
os seus heróis dançavam por entre uma flora
incandescente a meio termo do néon
a um passo da vida pitoresca.
As telas de cinema só se compadecem
com a maquinaria hirsuta e caricatural
dos enormes charutos do academismo
e das cosmopolitas capitais do Falo.
Esse jogo, jogava camuflado.
Nos seus trabalhos diários, a terra
continua a tremer por cima dos seus órfãos.
Proletários do sexo e de todo o mundo
uni-vos.

Armando Silva Carvalho
Armas brancas
1977, ed. Limiar
imagem: James Ensor

sábado, 6 de julho de 2013

Pequenos Poemas Mentais


I
Quem não sai da sua casa,
não atravessa povos, montes, vales,
não vê as cenas bíblicas das eiras,
nem mulheres de infusa, equilibradas,
nem carros lentos chiadores,
nem homens suados,
quem vive como o insecto cativo no seu redondel,
cria mil olhos para nada...
Mil olhos implacáveis!
E um dia diz: odeio o que ontem amava,
sentindo indómitos ódio.
E diz depois: ó tempo vazio, vazio, vazio...
sem amor nem ódio, terrivelmente pobre.
E ainda volta a dizer: mas eu que sei, que sou?
Não sei nem sou, não me reconheço...
Nunca ninguém, sequer, me deteve, me falou, me interrogou.
Sou uma sombra, ou menos.

E o insecto,
ou o quer que é como o insecto no seu redondel, pára.
Pára circunvagando os mil olhos desgostosos
pela païsagem pobre, irrenovada.


IV
Ó luxúria brutal, perversa e felina,
dos outros, alheia,
sem pensamentos nem repouso!
retira-me da frente o venenoso cálice,
a tua peçonha adocicada.
Que a morte, o nirvana, a indiferença
dos longuíssimos anos sem sobressaltos, me retome.

Abro os braços e meço: cá, lá... cá, lá...
solidão, infinita solidão!
E, neste momento, neste balouço, adormeço.
Cá, lá... morte, vida... morte, vida...
Tôdas as ausências, tôdas as negações.

Irene Lisboa
'Pequenos Poemas Mentais'
Revista de Portugal, nº 3, Abril de 1938
pintura de James Ensor

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Eléctrico


XI


(Que vontade de esbofetear estes palermas
a meu lado nos cafés e nos eléctricos, a
fingirem Vida Acesa!)


Antes os mortos hirtos, de pé, por dentro dos ciprestes
a beijarem a caveira da lua,
do que estes, do que estes
a nosso lado na rua.

São mortos sem cemitério,
mortos da Morte Arrefecida
_a quem tiraram todo o mistério
para lhe chamarem vida.

José Gomes Ferreira
Eléctrico
1956, Iniciativas editoriais
pintura de James Ensor

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Indignação


 
O horror calou tudo, declararam.
Depois de Auschwitz
Continuámos a falar, porém – sem ambição.
Reconhecendo o inalcançável,
Baixando o olhar.
Pois o que pode a fala? Por que dizem
Que, cantada, faz de arma?
Se com ela não nos municiamos.
Se, com a morte de uma Grécia antiga,
Perdemos o condão de nomear
Deuses e sentimentos e até
As pequenas moléculas, enfim, nomear o real
Que, naquele caso, incluía o tremendo e a maravilha?

 
Esses, os que levavam para a praça  
Quezílias, sim, projectos e também,
E, sobretudo, uma noção de polis
E de uma paridade vigiada,
Severamente vigiada.
Os Gregos, esses
Que narravam o medo para que o medo
Se tornasse visível, prisioneiro
Na teia do poema,
Se não compreensível, pelo menos
Transformado em espectáculo – essa Grécia,
Essa Atenas perfeita, mais perfeita
Que qualquer utopia, a rapariga
Inesperadamente transformada
Numa ruína,
Esses – que não existem

 
E nos deixaram assustados, sós,
Sob o sem-rosto, sós,
Sem as ferramentas adequadas,
Sem pensamento,
Sem esses deuses temperamentais
Que tomavam partido nos combates,
Nós, os abandonados, os que não
Sabem sequer como aplacar
E a quem,
Nós, os emudecidos,
Irmanados com os sem-terra, nós,
Os futuramente esfomeados,
Bárbaros com os pés no alcatrão,
Bebedores de petróleo, como pode

 
De novo a praça,
A Ágora, juntar-nos?
 
Transformados em porcos, por feitiço,
Pela malevolência,
Exactamente
Como na Odisseia,
Não sabemos
- e os Gregos esqueceram –
Como é que tal feitiço
Se desfaz?

Hélia Correia
poema editado no 'Público' aquando da Manifestação de 22 de Janeiro de 2012, que me parece importante relembrar hoje, dia de reunião de Conselho de Estado; juntamente com este desenho do pintor flamengo James Ensor, que, para nós, terá muito sentido

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Vésperas de Valer


Agora vale tudo mesmo os sintomas
tudo se desprende duma árvore colossal
apenas um espírito felino ameaça não descer.
A copa encantada esconde
um poente de ovos de ouro.
Os cimos afugentam.
Os valores geminados já não trepam
E nas falsas alturas acasala-se o medo.
Uma cruzada de aves descansa num tapete
Um descuido de asas, uma paciência de cartas extremas.

As redondezas entreolham-se com um rigor
Inusitado.

Regina Guimarães
O Extra-Celeste
1991, ed. Hélastre/ AEFLUP
pintura de James Ensor