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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Armas brancas


11
Entre cantares (solitários, do povo)
e discursos exacerbados de políticos
a terra trabalha o seu fermento
lêveda ainda das bocas
colectivas.
Cada semana absorve-te e resolve-se
nas marés vivas dum corpo facetado.
A economia é um pilar estilístico.
Os homens de teatro imitam os tribunos
e as noções de equipamento
estendem-se à arte dos trágicos.
O sexo, dizes, não se determina.
Antes de senso
Visconti declarou
a terra toda que trabalha
treme.
Pasolini foi assassinado pelos seus próprios
mitos.
Não era tempo ainda da mão solidária
figurar entre os ciclones da Roda que desanda
inexoravelmente
sobre o campo dos mártires sem causa.
Virgens de uma razão alucinada
os seus heróis dançavam por entre uma flora
incandescente a meio termo do néon
a um passo da vida pitoresca.
As telas de cinema só se compadecem
com a maquinaria hirsuta e caricatural
dos enormes charutos do academismo
e das cosmopolitas capitais do Falo.
Esse jogo, jogava camuflado.
Nos seus trabalhos diários, a terra
continua a tremer por cima dos seus órfãos.
Proletários do sexo e de todo o mundo
uni-vos.

Armando Silva Carvalho
Armas brancas
1977, ed. Limiar
imagem: James Ensor

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

À Luz o Sangue



Tanto amor pela carne, aqui, à flor
dos ossos.
Mas nada me sacia, nem os velhos
nem os moços.
Nem a esponja da terra que vem de águas
tingidas mostrar à luz o sangue
e me arrasta os destroços.

Armando Silva Carvalho
Técnicas de Engate
1979, ed. &etc
desenhos de Brian Kenny

sexta-feira, 11 de março de 2011

Autocrítica II


Apalpa um violino
com teus dentes.
Corrige a corriqueira
soma dos acordes.
Medicamenta o mundo.Ó bruxo semanal
com teus abutres, teu mocho
dado à gula dos mistérios,
quem paga esta consulta?
quem sobe, arfando, os degraus
da febre? Teu beijo muge
a tua boca sangra
o teu pescoço azul
desponta no meu peito.A esta hora exacta
os deuses
parem
em lugares recônditos.
Seus ovos lentos
crescem
no coração dos tontos.Refreias toda a fala
sustenida
e os campos taciturnos
nem se movem.

Ó mago indolente
entre os meus dedos.Cabrito pouco astuto
em devaneios. Os animais famintos
Com seu crespo ondular
Percorrem-te os inventos,
E nós,
Os instrumentos.

A rede musicada
Das tuas mãos de merda.




Armando Silva Carvalho
Os Ovos d'Oiro
1969, ed. Dom Quixote
fotografia de Man Ray

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Armando Silva Carvalho: Anthero, Areia & Água

CONDENADO À CABEÇA

Uma vez que "Lírica Consumível" (ed. Ulisseia), livro de estreia de Armando Silva Carvalho, só em 1965 veio a lume, é frequente que o autor seja conotado com o movimento Poesia 61. Se partirmos do princípio que tal movimento representava realmente o que de mais original se fazia na poesia portuguesa; a meu ver só dois autores "exteriores" conseguem a mesma modernidade: Yvette K. Centeno e Armando Silva Carvalho.
Se recentemente o segundo voltou a reunir a obra poética, parece-me interessante pois, neste livro, sentimos que lemos algo de realmente novo.


Antero, aliás Anthero de Quental, figura primeira deste livro, já foi objecto de trabalhos técnicos e académicos, bem como de trabalhos literários. Destes últimos, destaco "Antero-Vila do Conde" (1978, ed. &etc) de Nuno Júdice por ser o que tenho mais presente.
No entanto, Armando Silva Carvalho apresenta-nos neste livro uma das visões mais ambiciosas, originais e certeiras alguma vez feitas sobre Quental. "Anthero, Areia & Água" é um livro de uma absoluta maturidade- que é a principal razão por que a ambição da ideia não é traída pela execução.
É pertinente, para entender a génese destes poemas, analisar o primeiro, que dá título ao livro. Nele, imediatamente conhecemos o personagem (Ou a figura?) e o vemos dividido em duas realidades diferentes. Esta divisão pauta a grande maioria dos poemas: entre água e areia, poesia e pensamento, passado e presente, vida e morte, o eu e os outros.
Mas a divisão essencial do poema introdutório, que evidentemente se estende a todos os outros, é a divisão entre Anthero de Quental e o próprio Armando Silva Carvalho:

Por mim, pois sou eu que estou aqui.
(pag.7)


ou seja, o autor assume que este livro é uma leitura estritamente pessoal da obra e da pessoa de Anthero de Quental, afastando-se assim definitivamente da intenção de recriar historicamente. Este é, na verdade, o Anthero de Armando Silva Carvalho, e eis por que a divisão que acima enunciei não vai, neste caso, no sentido de uma oposição, mas da junção de dois carácteres diversos.
No corpo do livro, uma das ideias essenciais é a do tempo. Partindo do princípio de que "Falta futuro a quem tem no presente as ambições/ Passadas" (pag.18), o autor avalia a influência de Anthero noutros poetas e a de outros poetas em Anthero, de uma perspectiva não-académica a que não falta subtileza e uma certa ironia: é um olhar analítico e não raras vezes surpreendente sobre alguns nomes que nos são familiares. Com referências mais directas e menos directas, encontramos aqui Fernando Pessoa, Herberto Helder, Jorge de Sena, Eça de Queiroz, Vitorino Nemésio, Bulhão Pato, Camilo Pessanha, João de Deus, Mário de Sá-Carneiro, Alexandre Herculano, Cesário Verde, Dostoiewski, Baudelaire e o "Sermão do Fogo".
Na justaposição de tempos que é consequentemente operada, percebemos que o tempo é outra questão essencial em "Anthero, Areia & Água". Este Anthero frequentemente ressuscita, dando-nos indicações sobre a sua obra e recebendo-as também em relação ao destino póstumo que a sua obra teve. É portanto por isto que Anthero deixa esta interessante mensagem que refere a um tempo a escrita e a morte:

Puxem por mim até que o tempo
Seja de todos, ó civis, históricos poetas.
(...)
Dizei-me, ó enfermiços, que mais quereis de mim
Senão doença que cura outra doença?
(pags. 30,31)

Parto dos últimos dois versos para outra questão que me parece muito relevante neste livro: o traçar de uma espécie de perfil pessoal de Anthero. Um perfil que frequentemente nos dá indícios de doença (Sem que nesta haja algo de necessariamente pejorativo.) e de desencontro com a vida pessoal e social. Pesam nisto referências à Ilha deixada, à família de Anthero aquando dos seus últimos dias, bem como as realidades sociais da época, de que o poema "A Liquidação Temível do Passado" é um belíssimo testemunho.
Mas não só. Para este adoecer interior contribui em muito a questão do pensamento. Ele surge como algo de complexo e decisivo para a vida e para a morte de Anthero, um verdadeiro "condenado à cabeça" (pag.65) que, no derradeiro momento dispara em si mesmo "dois tiros/ Filósofos." (pag.60).


O pensamento de Anthero parece ser um foco de grande interesse para Armando Silva Carvalho- é, parece-me, um dos elementos mais essenciais a esta construção-, tanto como a poesia. Não ao acaso, lemos no final do livro que estes poemas foram escritos a partir da leitura das cartas de Anthero. Esta visão do pensamento não hesita em assumi-lo drástico, forte e por vezes contraditório. Relembro a peça de teatro de Nuno Júdice, que analisa também as cartas de Anthero, mas de uma perspectiva excessivamente fria, demasiado empenhada emm tornar o pensamento do poeta claro e organizado.
Este Anthero parece-me mais humano. Perturba-se, engana-se, mas nunca pára de pensar. Nesta continuidade alucinante, interessa falar da escrita de Armando Silva Carvalho. Sabemos que ele nunca prescindiu de um certo lirismo, e o realismo dos seus versos surgiu sempre a par com uma linguagem densa e pungente. Neste livro, tudo isso é retomado. Mas, de certa maneira, o poeta parece ter atingido um pico de capacidade lírica. E, portanto, "Anthero, Areia & Água" nunca nos parece nem frio nem imediato, conseguindo fazer com extrema eficácia a carga analítica com uma comunicação forte, de imagens belas e inesperadas. A ironia, sempre apontada como uma das mais importantes características desta escrita, parece tornar-se agora mais incisiva ainda, e Anthero evidencia-nos uma constante crítica à sociedade, a do seu tempo e a do nosso e, mais importante, mostra-nos que a sua obra resistiu ao tempo e às mudanças.
Esse é um dos mais assinaláveis logros deste livro: impede a todo o momento a cristalização da obra de Anthero, tornando-a um organismo vivo.
E há, claro, uma rebeldia muitíssimo saudável neste Anthero. A certa altura, Anthero deixa de ser personagem ou poeta. Torna-se ele mesmo o próprio poema, com tudo o que este deve conter de sentimentos, pensamentos e sentidos políticos.
E se, então, "Anthero, Areia & Água" é evidentemente um grande livro, parece-me que é também um dos pontos mais altos da obra de Armando Silva Carvalho.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Estrada da Luz



Fica o arroubo e cinza dos pombos,
a luz rosa caída no teu peito,
filtrada pelas casas
pelos ninhos de muitas vidas.
Só a pele da tua língua pede um verso.
Talvez ele se decida a descer as colinas
pitorescas, num correr de criança
ou num tropeço de velho
na mais frugal viagem das palavras.

Quem promete mais luz?
Repara nos andaimes, como eles se ergueram
na calada beleza
de um domingo sem missa.

Dois meninos de Deus ao fundo da rua
parecem querer subir à eterna glória.
Eu fico aqui parado, realmente parado,
à espera do teu corpo,
debaixo dos martelos desse piano gigante
em que puseste as mãos
como quem pega pela primeira vez
num talher de prata.

É sempre melhor voltar a casa
voar dentro da sala no vento da tua boca.

O azul não cansa a vista e a mata de Monsanto,
outrora um crime inesquecível,
é feita para nela me deitares
com todos os teus insectos e anjos.

Comiam caracóis, calados, jovens, bebiam coca-cola.
O teu marido, eu sei, é um vencedor.
Aos vinte e cinco anos- na era de sessenta-
tornou-se milionário com alma de budista
se é que um budista tem alma.
De pé, o empregado aguarda que percorras
as tábuas da nossa lei
e esgotes numa palavra o sentido
da vida.

Num domingo sem danças, os andaimes
sem gente, e Deus sem hóstia,
há amigos intocáveis,
mas a língua
retoca-os
à sombra da nossa voz.

Só um sorriso borrado de grenat
destoa
na boca desta tarde e da cidade.


Armando Silva Carvalho
Lisboas
ed. Quetzal, Janeiro de 2000

terça-feira, 14 de abril de 2009

Eu Era Dessa Areia I



Pouso estas mãos descalças
areia de músculos
som precário
e os dedos param
divagam
depois seguem precisos
como se fossem telecomandados.


Como fazer sorrir este papel
com o teu sorriso?
Abrir nesta palavra
a tua boca?
Colocar nesta brancura
os teus cabelos?


As tuas pernas longas
raciocinam.
Erguidas sobre a cama
meditantes
ensombram de silêncio
um sexo adulto.


Armando Silva Carvalho
"Eu Era Dessa Areia"
1977, edições o oiro do dia
(esgotado)
imagem: auto-retrato de Robert Mapplethorpe (1976)