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domingo, 11 de janeiro de 2015

como que se constrói a solidão


como que se constrói a solidão
altissonante e invisível
nos descaminhos da inconsciência
se tranquilo te afogas no sono
não sendo ainda palpável a madrugada
indo a cidade a meio da noite
vazar seus contornos de lixo
seus estertores de vasa e lodo
a cada esquina em cada descampado
_ é cedo um círculo insolúvel de luz
persiste horas adentro
nesta mesma folha de insónia
que tão pérfida se faz silêncio

ah hão-de os meus braços tolher
a vibração dum grito amanhã todos os dias.

Wanda Ramos
Poe-mas-com-sentidos
1986, ed. Ulmeiro
imagem: Archizoom


domingo, 23 de dezembro de 2012

Poe-Mas-Com-Sentidos 11


como que se constrói a solidão
altissonante e invisível
nos descaminhos da inconsciência
se tranquilo te afogas no sono
não sendo ainda palpável a madrugada
indo a cidade a meio da noite
vazar seus contornos de lixo
seus estertores de vasa e lodo
a cada esquina em cada descampado
_e cedo um círculo isolúvel de luz
persiste horas adentro
nesta mesma folha de insónia
que tão pérfida se faz silêncio

ah! hão-de os meus braços tolher
a vibração dum grito amanhã todos os dias.

Wanda Ramos
Poe-Mas-Com-Sentidos
1986, ed. Ulmeiro
pintura de Paul Klee

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

(Monólogo a horas mortas)


Não sei o que me toma a esta hora ou, sabendo-o, ignoro-o para que não sejam cúmplices os ouvidos da cidade -queda e translúcida se pudessem deambular nela meus passos. Nenhuma coisa é já premente se bem que me construa afincadamente até me doerem as pálpebras e o gosto acre do perfil. Seremos protagonistas de uma história sem fim vislumbrado, a cidade e eu, ensimesmadas no abandono de quem laboriosamente representa o teu papel, o meu, o de tantos eus que por não se morderem se infertilizaram. Sitiados é bem verdade dentro da razão sua, ás vezes da revolta, também omissos, inoportunos na displicência instituída de cada dia. E se uivam agora os cães, que presságios acarreta o eco enquanto tantos dormem? Será versátil todo este viver connosco próprios na espera do amanhã vir. Debalda-se a expectativa na despedida de alguma luz que se apaga vista desta janela. Como se um comboio viesse mesmo sem alguém no cais.
Quem chegará a colher os meus passos? [Tempos houve em que falei de heróis de espuma, do aliciante vento da promessa. Ou, à beira de renegá-los, escrevia já poemas de raiva prevendo a desesperança -foi a confissão que alguém, podendo uma vez ter lido, nunca leu. E vinham então os arrebatamentos pueris, o espasmo por limar da decepção. E crescendo ia sempre este casulo à força de se me fatigarem as palavras.] Quem me cortará os atalhos, a fim de que chegue mais depressa? Do lado de cá, onde eu ciclicamente como que deixo de sentir-me, que apelos sobressaem dos ruídos, dos imensos múltiplos ruídos do canal da vida? Será vagarosa e interminável esta luta. Além, imobilizam-se os desatinos de eu-espectadora. Cá, deste lado, talvez o travo do cigarro como marca, algum troço mais indelével, alguma crença restabelecida que que o mundo sancione e eu esforçadamente alimente. Este o destino do que é fluido e incomestível: a passividade das paredes, o odor a esperma transviado, um simulacro de aventura. E se alguém se esvai de noite entre os lençóis, sei não ser eu a causa primeira, nem final.

Wanda Ramos
Intimidade da Fala
1983, ed. &etc
desenho de Dante Gabriel Rossetti

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Poe-Mas-Com-Sentidos 13


como é fácil esquecer as coisas
ou ignorá-las após terem passado
o dia de ontem por exemplo ou de amanhã
emaranhada na memória o primeiro
se atolados no hoje não chegamos a dar por nós
feito de um nadinha de ansiedade o segundo
de que só saberemos depois de amanhã
ainda que hoje se vislumbre como será

tarde embora a clarividência do acaso.

Wanda Ramos
Poe-Mas-Com-Sentidos
1986, ed. Ulmeiro
pintura de Salvador Dalí

domingo, 14 de novembro de 2010

Wanda Ramos: Que Rio Vem Forçar a Entrada Desta Casa

O TEMPO, O CORPO E A FALA

Eis-me de novo aqui a exprimir a minha opinião sobre um livro de Wanda Ramos. Aparentemente, o acesso à sua poesia tem-me sido estranhamente simplificado. Neste caso, a “Que Rio Vem Forçar a Entrada Desta Casa?”, publicado no mesmo volume de “A Jovem Poesia Portuguesa” (ed. Limiar) que “Estilhaços” de Eduarda Chiote e “Ruído Fino” de João Camilo em 1979.
A publicação desta sequência surge apenas dois meses depois da plaquete “E Contudo Cantar Sempre” (ed. Inova), a estreia, se não considerarmos a edição de autor “Nas Coxas do Tempo


“Que Rio Vem Forçar a Entrada Desta Casa?” revela-se, no entanto, um conjunto muito coeso e muito denso, mais até do que os seus predecessores. E também mais consciente no que toca às difíceis relações entre o sentimento e a criação ou, de outra forma, entre o sujeito biográfico e o sujeito poético.
Em epígrafe, Wanda Ramos escreve “desminto a tua forma e o teu fundo, tornando tu embora razão próxima desta fala.” (pag.61). Uma frase esclarecedora no que toca a este assunto.
De facto, ao longo deste livro, vamos percebendo como a fala se torna uma forma de perpetuar os sentimentos e anular o tempo. São estas duas vertentes muito claras do curto percurso poético da autora. Por um lado, a fala, as palavras, que surgiriam mais à frente até em título, “Intimidade da Fala” (1983, ed &etc), a necessidade de encontrar uma maneira de não deixar escapar o que fica atrás no tempo, “Nas Coxas do Tempo” (É um título péssimo, mas tudo bem.), o tempo, essa constante que nos empurra para o esquecimento do passado.
Relativamente ao livro anterior, este mantém ainda uma atmosfera de depressão e de tristeza. Por assim dizer, a poesia de Wanda Ramos não procura a “alegria do passado” (Luís de Camões), não tenta relembrar a luminosidade da vida. Antes se depara com uma necessidade de falar mormente do lado sombrio dos sentimentos, como aliás, lemos logo no primeiro poema, “Inaptidão”, mais precisamente na sua quarta secção: “E esta fermentação no percurso de mim/ que o dia impõe à noite e a noite à manhã./ Oponho-lhe o ritmo. Prossegue ainda./ Mas tão raramente me fala de alegria.” (pag.65)

A escrita surge, então, como uma necessidade biográfica, mesmo que tão raramente fale de alegria, ela é uma imposição da própria vida, independentemente do tempo. Porque “Incompletas são as horas em que atento” (…) “E prevejo o nevoeiro oblíquo/ das mãos que escrevem e o desperdício/ do meu corpo em tanto papel incólume.” (pag.66)
Surge também neste conjunto uma presença do corpo mais forte e mais cortante do que em “E Contudo Cantar Sempre”. Uma noção de corpo enquanto elemento efémero e perecível, que, acima de tudo, é um recipiente de todas as experiências da vida. É de referir que, entre os finais dos anos 70 e durante os anos 80, uma série de poetas, entre os quais podemos citar Isabel de Sá, Luís Miguel Nava, Fátima Maldonado, Paulo da Costa Domingos, Rosa Alice Branco, Joaquim Manuel Magalhães ou Helga Moreira, contrariam a tendência mais “espiritualista” de um certo tipo de poesia que era apreciada até então, e enveredam por um caminho em que este “espírito” assume o corpo como sua casa, numa vertente mais característica, uma vez mais por exemplo, de Maria Teresa Horta, Luiza Neto Jorge, Natália Correia ou Gastão Cruz. Wanda Ramos não escapa a esta tendência, e escapa ainda menos neste volume do que nos anteriores. Não é isto um defeito, pelo contrário.
Mas, assim sendo, o corpo vem dar uma espécie de dimensão física ao que é vivido. Na própria frase “Tão sem mácula esta imobilidade/ à espera de que a mágoa em mim estilhace.” (pag.67) evidencia um tratamento mais físico da própria tristeza, essa que advinha e se revelava na fala, e que agora se torna também corpórea. Corpórea como se tornará a própria fala, mais à frente. No poema que dá título ao livro (pag.80), lemos “monólogo que necessariamente em mim recai/ com a língua árdua”. Não só a fala e o discurso assumem um corpo, uma personificação, como também se assumem dolorosos, “árduos” ou até mesmo forçados porque “enquanto a memória não cede. enquanto se projecta.// digo: que rio vem forçar a entrada desta casa?”. Parece-me, então, que este será o aspecto maior e mais marcante na poesia de Wanda Ramos: a fala e a escrita (Que podem ser um só.) como única forma de subsistência a uma vida que tem mais de deprimente do que de feliz ou eufórico; ainda que mesmo assim sejam, por vezes, insuficientes, porque “não servem as palavras este desafio”. Talvez por isso nunca lemos aqui um tom de queixume, antes um relato interiorizado e interior, de alguém a quem “nem já nada agora me urge senão o despedir dos dias” (pag.90).

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Memória Transitória



I
Esqueceste-te de que já uma vez te fizeste comigo
a água irreprimível que sobe do fundo nosso.
Era tão outro o tempo da alegria raramente
derramada como riso de espuma. Quem virá
colher-me o que de ontem já não tenho?
Guardo o silêncio porém. Em mim e na cidade
soa a hora de uma solidão que se interrompe.

II
Esqueceste-te de quanto premente era sermos.
E se hoje escrevo é na raiva de não ter gestos
nem mãos. Quem veio assediar-me o último ponto
intacto da minha pele? Pressinto que inerte
se fecha em mim o desalento. Liquidadas é como
se eu a cidade paríssemos no descontentamento
um ser de névoa geográficamente situado.

III
Esqueceste-te de que nem só as multidões respiram.
Celebrava-se o 14 de Julho na rue mouffetard
e comia-se crepes. Terás então desencadeado este
presságio que me revela o espaço prematuro em branco.
Era talvez meia-noite há vários anos paris fechava-se.
Hoje decisivo será o salto que vou formando.

IV
Esqueceste-te de que era ainda há pouco essa cumplicidade.
Ter-lhe-ás recusado o fogo e também o gelo
e o meu ser intermediária nesse tão breve atalho.
Que de mitos nem longes me propus a alimentar-me
por ser de ferro a matéria que me circula.

V
Esqueceste-te de que estou onde nunca terei estado
por ser só artifício essa imagem que forjei
e ser certa e necessária a fadiga insustentável
quando à epopeia se recusa um só rasto de vinho.
Esqueceste-te (vais apenas vivendo) de que é difícil respirar.

Wanda Ramos
E Contudo Cantar Sempre
1979, edições O Oiro do Dia
imagem de Edward Hooper

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Wanda Ramos: Poe-Mas-Com-Sentidos

SENTIDOS CONSENTIDOS



Falar de Wanda Ramos (O que já não faço há quantos meses…) implica sempre falar de questões de aceitação por parte do público, da crítica e dos restantes escritores. E se é verdade que, em última análise, tudo isto são questões paralelas ao livro, também é verdade que em muito definem o destino deste.
O caso de Wanda Ramos, no entanto, acrescenta a estas questões paralelas uma mais: a relação da própria autora com os livros, e, concrectamente, com a sua poesia.
Precocemente desaparecida em 1998, em 1999 veio a lume o seu último romance, “Crónica com Estuário ao Fundo” (Caminho). Mas o seu último livro de poesia surgira já em 1986, este “Poe-Mas-Com-Sentidos” (1986, Ulmeiro).


Nesta edição é visível, nomeadamente através da nota final, a vontade da autora de realmente terminar ali a sua poesia. Isto porque “Poe-Mas-Com-Sentidos” repõe “Nas Coxas do Tempo”, que tivera edição autónoma em 1970, numa restrita plaquette onde se inseriam ainda desenhos de António Ferra; recolhe todos os poemas dispersos em jornais e revistas literárias, bem como vários poemas em prosa, provavelmente os posteriores a “Intimidade da Fala” (1983, &etc) que era consituído apenas por poemas em prosa.
Por outro lado, percebe-se que este é um final precoce, efectivamente:
Colocando Wanda Ramos no seu contexto, ela surge em 1970 com todos os entraves que uma edição de autor implica, e apresenta-nos uma poesia onde dois ecos são visíveis: o romantismo exacerbado de Florbela Espanca e o erotismo assumido de Maria Teresa Horta. Não sendo “Nas Coxas do Tempo” um mau livro (É, alias, do meu ponto de vista, um dos melhores momentos da autora.), perde um pouco do seu impacto pela imediata associação a estes nomes. Posteriormente, em particular em “E Contudo Cantar Sempre” (1979, Inova), estes ecos tornam-se mais diluidos numa voz que efectivamente começa a definir-se.
Ainda nos anos 70, recebemos os sururus de Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge, que os próprios mais tarde haveriam de reconhecer como idiotices, mas que, para todos os efeitos, sempre causam determinado impacto num meio que tem pavor a não se renovar (Nem que seja pelo non-sense.); a poesia violenta de Al Berto que haveria de se tornar numa das mais originais da nossa literatura; e ainda alguns outros nomes, entre os quais o de Eduarda Chiote, que, passados estes anos, se percebe estarem mais relacionados, ainda que de forma ténue, com a poesia de 80 do que propriamente com a de 70, ainda que nela tenham surgido.
No meio disto, um livro em que há referências que demasiadamente se fazem sentir é para marcar uma pessoa.
Wanda Ramos terá chegado a esta conclusão. O facto de entretanto ter inciado o seu percurso como romancista, com “Percursos (Do Luachimo ao Luena)” (1981, Presença) e de neste se ter demonstrado realmente mais original do que na poesia (“Percursos” é, a meu ver, o melhor romance sobre um outro lado, o da mulher, da Guerra Colonial, depois de “A Costa dos Murmúrios” de Lídia Jorge.) também terá contribuído para que Wanda Ramos tenha decidido em definitivo dedicar-se a um projecto em que podia realmente ser boa, e que, aliás, a conduziu à História da Literatura Portuguesa.
“Poe-Mas-Com-Sentidos” é, portanto, a colecção última de poesia da autora. E uma boa colecção, mesmo assim.

A inclusão do primeiro texto da autora, que dista vários anos dos restantes (Segundo a nota final, este livro cobre um espaço de tempo entre 1968 e 1986.), funciona bem por tornar realmente clara a mudança de tonalidade nesta poesia: se inicialmente ela se nos apresenta simbólica e, por vezes, quase surrealizante, com imagens sucessivas onde o erotismo se torna uma espécie de mundo pairando sobre o mundo; na segunda secção, que dá título ao livro, é como se este mundo simbólico se tivesse infiltrado no real, sendo que as referências simbólicas encontram uma conexão com o real através do indivíduo, do sujeito poético. A cidade, a rua, a casa, são descritas e entrecortadas por “entradas em cena” de elementos que simbolizam invariavelmente o desejo. Por outras palavras: a percepção da realidade é filtrada pelo corpo, e apenas daí se pode tornar objecto de desejo ou contentor de um objecto de desejo.
Noutros poemas, a mesma situação acontece sem que o seu resultado seja o desejo, e, nesse caso, é por norma a tristeza e a solidão, também elas experienciadas fisicamente.
Este capítulo, “Poe-Mas-Com-Sentidos”, é também uma espécie de biografia da autora, contendo, além dos poemas mais emotivos ou descritivos de situações que o são, referências à “África (Também) Minha”, e todas as questões de aculturação e distância que uma mudança tão radical implica; e também a própria escrita, enquanto elemento constituinte do quotidiano, a necessidade das palavras para fixar “tantos destes itinerários perdidos nos anos/ achados a cada hora de entrar em casa” (pag.35).
Por fim, o último capítulo, “Brumas”, engloba seis poemas em prosa. A maior diferença em relação aos poemas em verso será provavelmente a densidade narrativa: esta torna-se mais definida a partir do segundo livro da autora, mas, nos poemas em prosa, surge definitivamente mais forte, como se se tratasse de uma “página de diário entreaberto” (título de uma sequência de “Intimidade da Fala”).
Uma questão importa ainda referir: a linguagem. Em Wanda Ramos dificilmente se encontram palavras para procurar no dicionário. Encontram-se, no entanto, palavras que por vezes parecem já ter caído em desuso, algumas abordagens mais distantes de uma erudição que a maioria dos autores procura. Para isto, tanto as suas raízes africanas, como uma leitura dos seus romances que a isto mesmo aludem, ajudam a entender que a linguagem, a “fala” de Wanda Ramos é mesmo profundamente “íntima”, precisamente por isto: é uma fala, um vocabulário, profundamente ligado às suas origens, numa relação quase umbilical, e que à escritora dificilmente passaria despercebida, uma vez que tinha o curso de Letras. Esta assumpção da origem da fala pessoal é, portanto, um dos elementos de maior interesse na poesia de Wanda Ramos, e poderá ter sido, para os delicados ouvidos do meio literário português, uma das razões para a considerar “vulgar”.
Se é certo que a autora atinge uma grande maturidade nestes poemas, e a presença do primeiro texto é, como se disse, um elemento que reforça esta ideia, a verdade é que se entende que houve alguns aspectos que claramente poderiam ter sido mais desenvolvidos. Provavelmente, a poesia de Wanda Ramos teria atingido um outro grau de qualidade ou de completude se tivesse sido continuada.
Enfim… pelo menos seguiram-se romances como “Litoral (Ara Solis)”…

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

um poema



nasci um dia
da raça mais triste da terra
do sexo perfumado

na quietude dos canaviais
à hora erma da copulação
do amor efémero dos seres

sou da geração mais perdida
mais infinitamente solitária
da geração vivida um dia
à margem dos desertos
com esplendores de sóis no ventre
a tatuagens irisadas nas mãos
fiquei pelas dunas
nostálgica e estática
soletrando amor
sensualmente dizendo um nome
de homem quase-divino sensível
um nome de ecos na paisagem


Wanda Ramos
"Nas Coxas do Tempo"
1970- edição da autora
ilustração de António Ferra

quarta-feira, 15 de abril de 2009

um poema


Como rebuscar na memória
esse nomear das coisas uma a uma
tão distantes já passado nostalgia
a carne doendo se persisto agonia?



As dores as sofridas solidões os amores
a inefável pertinácia da floresta
rés de angústia meu olhar desassombrado
de animal perdido a coberto do silêncio.



Cerce a chana doente ardendo
tão longe longínqua a cidade dos acasos
das inconsúteis planuras desse país
vergastadas de medo no mapa-mundi da infância.


Deste lado agora definitivamente
como calar os embondeiros rasgados a sangue
nas veias traços minuciosos nas margens
do papel por desfastio? gangrena farpas.



Como o pasmo de sempre correr à frente do tempo
laboriosa busca dos sintagmas perdidos
tão longe tão remota eu em distante país.






Wanda Ramos
Poe-Mas-Com-Sentidos
ulmeiro, 1986
imagem: Floria Sigismondi

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Wanda Ramos: Litoal (Ara Solis)

OUTROS PERCURSOS

A poucas páginas do final do seu quarto romance, Wanda Ramos descreve um texto inédito e inacabado do personagem que origina a teia de toda esta história como “uma história de traição imposta a uma matriz de engajamento político-ideológico, porém sendo frouxos os dois movimento de fundo de enredo e mostrando-se pobremente definida a protagonista” (pag.208). Ainda que o enredo de “Litoral (Ara Solis)” pudesse facilmente originar uma narrativa consonante com o romance escrito por um dos seus personagens, a descrição acima transcrita é uma descrição do oposto desta. Não que tal surpreenda.
Aquando da publicação deste livro, em 1991, Wanda Ramos escrevera já a sua obra completa em poesia que, apesar de não ser propriamente assinalável, se revela de extrema solidez e coerência; bem como o essencial da sua obra como romancista, onde obras como “As Incontáveis Vésperas” são exemplares da força da escrita da autora de origem angolana.
Assim sendo, “Litoral (Ara Solis)” não desaponta em aspecto algum.
Revela-se, logo à vista desarmada, um romance muito bem estruturado, com uma separação por capítulos que promete (E cumpre.) um estilo de composição pouco dado a barroquismos ou desvios. Depois, a leitura do resumo na contracapa do livro, juntamente com a dos primeiros capítulos é suficiente para entender também que o texto é reflexo de um pensamento bem organizado e sem equívocos:
Miguel Cê é encontrado morto na sua casa no Cabo Finisterra, no litoral galego, sendo todos os seus pertences legados à única familiar viva, uma prima que reside em Lisboa, e que será a narradora. Após alguma hesitação inicial, que se faz acompanhar do resgate de certas memórias de infância, a Narradora decide-se a ir para Finisterra, a fim de inventariar a vida de Miguel Cê, e esclarecer a causa da sua morte. É nos resultados destes objectivos, bem como nos relatos das viagens, num registo que roça o diarístico, que consiste “Litoral (Ara Solis)”.
Este enredo é desde logo sinuoso e pouco óbvio no que toca a resoluções. É-o primeiramente porque a tendência mais lógica seria a de fazer o relato cronológico da vida de Miguel Cê. Fraca solução me parece, por duas razões: além de traír a promessa de um romance escorregando no sentido da biografia, seria sempre pantanoso recriar plenamente a vida de uma pessoa com quem o contacto foi tão escasso como neste caso.
Assim sendo, Wanda Ramos mostra-se à altura destas exigências e clarifica as soluções encontradas logo desde o início da história: assume Miguel Cê como um personagem ausente da própria história, apresentando-nos apenas os elementos do seu espólio e as histórias contadas pelos amigos ou conhecidos com quem a Narradora se vai cruzando e, mais importante ainda, assume esta última como protagonista, o que faz todo o sentido uma vez que a história vive essencialmente da investigação que esta leva a cabo.
Outro aspecto que me parece relevante em “Litoral (Ara Solis)” é a sua intertextualidade. A autora assume e encorpora no seu texto citações de outros autores ou dos diários de Miguel Cê, fornecendo assim um relato mais denso e mais complexo das situações que desvenda na vida do primo, e fornecendo dados para uma recriação consistente do ambiente em que esta se desenrolara, aceitando com a mesma seriedade textos dos Canterburry Tales e lendas folclóricas da Galiza, ilustrando assim os percursos da Narradora pela costa, desde Finisterra à Praça Ara Solis, até a La Coruña, etc.
Por último, “Litoral (Ara Solis)” surpreende por fugir do cliché de procurar um final absolutamente chocante, dando preferência a um desenlace que prima pela naturalidade e pela ideia de que seria perfeitamente possível.
Lamentavelmente, a morte levou Wanda Ramos precocemente. Caso contrário, parece-me que a produção de mais alguns romances como este acabaria por lhe dar o reconhecimento que merece e que, mesmo assim, não deixou de lhe ser dado a seu tempo, tendo, por exemplo, este texto vencido o Prémio Literário Cidade de Almada para Romances Inéditos de 1991.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Wanda Ramos: E Contudo Cantar Sempre

RUPTURA E CATARSE

Já recentemente falei da escritora de origem angolana Wanda Ramos, mas a propósito da sua prosa, em concrecto, do seu segundo romance.
No entanto, na minha odisseia em busca de certas raridades que me interessam, por mais recônditas que possam ser, nem tudo é mau.


De facto, não há muito tempo, deparei-me com a plaquete “E Contudo Cantar Sempre”. E se a estreia da autora se deu em 1970, com “Nas Coxas do Tempo”, esta era uma edição de autor, pelo que a referida plaquete é, para todos os efeitos, a sua estreia nos circuitos comerciais.
O percurso de Wanda Ramos pela poesia é curto. Depois de em 70 ter feito a sua edição de autor, em Fevereiro de 1979 chega “E Contudo Cantar Sempre” nas edições O Oiro do Dia, aqui mesmo na minha cidade, e, um mês depois “Que Rio Vem Forçar a Entrada Desta Casa” surge na colectânea “A Jovem Poesia Portuguesa- volume 1”, na Limiar, também aqui no Porto. Passa pela prosa poética em “Intimidade da Fala”, folheto em três capítulos publicado na &etc em 1983 e termina com “Poe-Mas-Com-Sentidos” (Que repõe sob a forma de capítulo “Nas Coxas do Tempo”.) em 1986 na Ulmeiro. Cinco livros, portanto.


Concrectamente, “E Contudo Cantar Sempre” entende uma série de 11 poemas com um belíssimo desenho de Armando Alves, os quais me aventuro, aqui, a analisar.
Numa primeira leitura, há um conceito que parece patente na escrita de Wanda Ramos: o tempo. É de considerar que, nestes 31 anos que tinha até à publicação deste livro, Wanda atravessou o 25 de Abril e todas as mudanças sociais e culturais que isso implica. Ou seja, é uma época de mudanças e de conturbação que, claramente, atinge a psique das pessoas nela envolvidas. É este um dos tempos de “E Contudo Cantar Sempre”. O outro, é mesmo o tempo cronológico que “mede” a vida de cada um de nós que, para todos os efeitos, é a força que mormente move a poesia.
O primeiro poema chama-se “Autobiografia” (pág.3), e começa, num tom eventualmente irónico por dizer “é verdade que não vem a propósito”. De qualquer maneira prossegue “contar quantas águas em mim pude prender”, ou seja, após duas linhas, já este livro nos introduz a esta viagem no tempo interior da autora, da sua biografia. Mais, diz-nos “e tenho a pele por fim dissecada/ por poemas de pensar urdir solos(…)”, ou seja, depois de contadas as águas que se prenderam, resta a pele dissecada pelas palavras. Daqui, podemos retirar como que uma génese daquilo que é a poesia de Wanda Ramos: uma retrospectiva, o poema em consequência da passagem do tempo sobre os acontecimentos; são relatos que surgem quando a poeta está “ausente hoje de vento” (itálico meu).
Continuando a ler, encontramos “Memória Transitória” (pag.4), o segundo poema, dividido em cinco secções, cada uma começando com “Esqueceste-te”: é o abandono interior, a noção de que a partilha do amor foi olvidada, sofreu a erosão do tempo: “Esqueceste-te de que já uma vez te fizeste comigo”; “Esqueceste-te do quanto premente era sermos.”; “Esqueceste-te de que era ainda há pouco essa cumplicidade.”, “Esqueceste-te de que estou onde nunca terei estado” (itálicos meus).
Mais à frente, em “Contradição” (pag.8), Wanda Ramos diz “Cresce-me do ventre este travo/ do que perdi. Esta memória/ do que não tenho ainda e não sonhei.” Serve esta passagem, simultaneamente, para evidenciar uma vez mais a noção da passagem do tempo sobre o ser humano e as relações humanas, mas também para introduzir outro aspecto que me parece pungente na poesia de Wanda Ramos: a melancolia ou, digamos mesmo, uma certa depressividade.


Um pouco mais atrás, em “Memória Transitória”, é a própria quem diz “se hoje escrevo é na raiva de não ter gestos/ nem mãos.” e também “que é difícil respirar.” Em “Poema Sem Fôlego” (pags.9 e 10), admite mesmo que tem “a inércia do meu lado de combate”.
De facto, ao longo de “E Contudo Cantar Sempre”, há uma enorme tendência para um certo pesar em relação ao passado, que se reflecte no presente. Não esqueçamos, para isto, a teoria do fingimento poético de Fernando Pessoa. Depois de passadas as tormentas surgirá o poema, só quando a pele estiver dissecada, nas palavras de Wanda.
A estrutura do livro demonstra que, provavelmente, a própria autora terá tido percepção deste facto, uma vez que as memórias do passado vão, poema a poema, dando lugar às memórias mais recentes e também a referida “depressão” vai arrastando, até ao poema “Cantar Nunca. E Contudo Cantar Sempre” (pags.12 e 13), onde se nota uma tentativa de fuga a este estado de alma, que depois prossegue em “Entrega” e “Pensamento da Madrugada”, décimo e décimo primeiro poemas, respectivamente.
Se em “Autobiografia”, primeiro poema, Wanda Ramos nos diz brutalmente “defeco primeiro meu eu tão antigo/ e chego ao fim.”, em “Pensamento da Madrugada” (pag.15), o último, diz-nos “Não são ocas as horas nem tresloucadas” É portanto, uma (r)evolução interior que “E Contudo Cantar Sempre” representa.
O poema que em parte dá título ao livro é, aliás, muito claro nesse aspecto, dizendo-nos “Cantar Nunca. E contudo cantar sempre:/ despeitada não nos marcará a solidão”.
A um nível menos (psic)analítico, digo que “E Contudo Cantar Sempre” é um livro que, inserido no seu contexto, não representa nenhum tipo de revolução ou quebra com o que estava a ser feito simultâneamente na poesia, mas é, certamente, um livro a ser lido como testemunho de uma época, claro, mas também como um bom relato de um estado de alma em tudo confuso, preso entre a tristeza e o desejo de fuga, estado que, aliás, já encontrei na prosa de Wanda Ramos.
Alguns poemas ficam certamente a perder em comparação a outros, nomeadamente “Talvez Prefira”, “O Tempo Que Colhíamos” e “Ainda Que Te Espere”, por utilizarem alguns clichés de linguagem desnecessários. Quanto aos restantes, nada a apontar.
Certamente mais para quem está disposto a suar por encontrar livros cujo formato condena ao esquecimento nas mais remotas prateleiras de certos alfarrabistas ou livrarias mais antigas, mas certamente é bom, portanto, valerá a pena o esforço.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Wanda Ramos: As Incontáveis Vésperas

TROVA DO TEMPO QUE (NÃO) PASSA

De justiças e injustiças se faz a História. E a da Literatura, como História que é, também.
Wanda Ramos é um belo exemplo de uma injustiça, arrisco (Digo “arrisco” porque não lhe conheço a obra completa.). Quer-me parecer que, onze anos que passaram sobre a sua morte terão sido suficientes para que o seu nome se perdesse. Injusto.




A escritora nasceu no Dundo, Angola, em 1948, e morreu de surpresa em 1998 em Lisboa. Em 1970 publica em edição de autor o livro de poesia “Nas Coxas do Tempo”. Apesar de ter sido incluida em antologias como “Experiência da Liberdade” em 1975, a sua estreia comercial só acontece em 1979, na editora Oiro do Dia, com a plaquete “E Contudo Cantar Sempre”. No mesmo ano, “Que Rio Vem Forçar a Entrada Desta Casa?” é incluido na “Jovem Poesia Portuguesa- volume 1” da Limiar, ao lado de Eduarda Chiote e João Camilo. Em 1983 publica um volume de prosas poéticas na &etc, “Intimidade da Fala” e a sua obra poética termina três anos depois com “Poe-Mas-Com-Sentidos”.
Estreou-se na prosa com “Percursos (Do Luachimo Ao Luena)” em 1981 (Com o qual venceu o Grande Prémio da APE.), e publicaria ainda em prosa, quer romance quer contos, “As Incontáveis Vésperas” (1983), “Os Dias, Depois” (1990), “Litoral (Ara Solis)” (1991) e o póstumo “Crónica com Estuário ao Fundo” (1999), além de dispersos como “Um Homem de Cabeça de Pedra” (1988) na Colóquio Letras.
Acabo o ano de 2008 precisamente a acabar o seu segundo romance, “As Incontáveis Vésperas”. Foi um livro no qual tropecei por acaso, numa feira no Mercado Ferreira Borges, e que me venderam pelo brutal preço de 1 euro. Conhecia o nome do catálogo da &etc, e de alguns poemas com os quais já me cruzara.
A minha experiência com a sua prosa é esta: li e quero mais. Recomendo.


“As Incontáveis Vésperas” não é um romance único e absolutamente insólito. É, no entanto, um romance importante. Trata-se do romance muito em voga no pós-25 de Abril, em que a emancipação da mulher é o assunto central. No entanto, o que diferenciará o que é escrito por estar em voga do que é escrito porque tem que ser escrito e porque tem algo a dizer é precisamente o tempo que passa sobre a época: neste caso, parece-me que Wanda Ramos produziu aqui um retrato implacável de uma sociedade e dos seus costumes, e de uma forma muito particular. Não foi a única. Cito, a título de exemplo, “Notícia da Cidade Silvestre” de Lídia Jorge, publicado no mesmo ano, ou “A Madona” de Natália Correia.
O romance coloca-nos perante um antagonismo claro, logo de início: Augusta Rosa e a sua “saleta sem novidade” e a sua neta, Sara, heroína da história. Por um lado uma tradicionalista avó, ridícula nas suas tentativas de mascarar a sua velhice e a sua vida sensaborona (Maquilhando-se, dando-se a interesses repentinos por mobílias ou animais.), ao mesmo tempo que as vive em pleno, e com comportamento de mártir (Queixando-se à empregada ou fazendo da neta alvo do seu rancor.). Por outro lado, uma adolescente a enfrentar as alterações do corpo, e a renegar todos os códigos sociais e comportamentais que lhe são impostos. Mas, estamos nos anos sessenta, numa época da mais evidente e rígida opressão, onde todas as ideias rebeldes devem ser experienciadas na mais remota intimidade. Uma época em que se vive de incontáveis vésperas de uma mudança que nunca chega a ser consumada.

Um parêntesis para uma nota sobre o título: a formação de Wanda Ramos em Letras não deixa de se notar na atenção que dá às palavras: por “incontáveis vésperas” podemos entender que são vésperas inúmeras, ou seja, antecipações de algo que nunca chega a concrectizar-se; mas por outro lado podemos entender que são vésperas incontáveis, impossíveis de relatar: a ideia do tempo e da sua adulteração dos factos não é estranha à obra da escritora, e, ao longo do romance, é notória a dificuldade que a personagem Sara revela em expressar o seu ódio e o seu desejo de fuga para algo maior.
Ainda a propósito da atenção às palavras, é de notar a reconstituição de linguagem mais recuada que a autora consegue fazer, de uma forma natural ou não, mas que ajuda, de facto, o leitor a inserir a história no seu tempo, sem necessidade de indicação de datas unívocas (Ainda que estas surjam ocasionalmente.).

Nisto encontramos Sara, enclausurada numa família onde o parecer se sobrepõe ao ser e numa cidade onde nunca há nada de novo a fazer e onde não existe a mínima vontade de mudar, com “Os estores do mundo descidos, podadas em suas casas as poucas rebeldias…” (pag.153)
Estamos, pois, perante uma heroína sem meios para vencer, sem que isso a torne menos heroína, pois “…se se diz que dos fracos não reza a história, eu antes diria que é de certos mortos (…), dos mortos idos representando o seu papel de amputação dos filhotes, transmitido esse à geração seguinte, levado como facho de vitória pelos descaminhos vários, que afinal nunca são as coisas que se teriam previsto(…)” (pag. 39)
São questões destas que o livro coloca em causa- As tentativas de Sara para se soltar do seu facho, quer seja nos braços de Paulo ou nos delírios com Amador, quer ao escrever nas páginas do seu diário ou nas suas cartas, revelam-se sempre insuficientes, por serem falsas soluções- Paulo representa a típica mentalidade machista, querendo “desflorá-la para que ficasse guardada para ele”, Amador é um personagem cujo aspecto e a conduta eram impensaveis para a época (Por acaso, em tudo condiz comigo, menos no nome, foi estranho…) pelo que acaba por desaparecer misteriosamente; as páginas do diário nunca saírão da sua intimidade, e as cartas serão endereçadas a uma amiga com quem cortará. Ou seja, é uma contra todos, e ela perde. Perde porque, por vezes, se encontra contra si própria. Este texto é prodigioso em descobrir os pontos onde a influência dos outros, ainda que reconhecidamente reprovada, consegue fazer-se sentir e não ser contornada.

Também é preciso ter em atenção que este é um relato claramente de uma mulher, inacessível ao homem mais objectivo. A sensibilidade e as sensações partem de um corpo que se auto-descreve. E, nessa auto-descrição (Diferente de auto-biografia.) não se perde, de todo, a linguagem que Wanda Ramos terá herdado dos seus livros de poesia que, no seu grosso, já estavam escritos nesta altura.
Por fim, Wanda chega ao fulcro das dúvidas humanas patentes neste livro- Porque será que as ideias repressoras e conservadoras se afirmam sempre conta o corpo? Contra o sexo e a experiência do corpo? Afinal, porque não poderia uma mulher ir ao café? Ou que mal tinha que se masturbasse? Ou porque não lhe explicavam o que era a menstruação? Assim nos podemos perguntar: qual o peso nocivo do corpo para que se renegue tão frequentemente?
São perguntas cujas respostas variarão conforme quem as faz.
Mas, numa época em que parecemos (Enquanto sociedade.) estar a voltar a um certo conservadorismo, faz este romance todo o sentido, acho eu. Wanda Ramos é, onze anos depois, um nome a reter para quem, como eu, não a conhecia.

Antes do fim, gostava de agradecer ao João e à Conceição que no dia 1 de Maio de 1985 compraram este livro, e depois o venderam. Só assim o pude comprar numa feira por 1 euro, vinte e três anos depois.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

13



um corpo é certo: o teu......... sem dúvida
prudentemente decorado na esteira da saliva
como em tempos se refazia de memória o mapa da europa
seus rios e vales feericas montanhas planícies
nomes de lugares como contos de fadas sítios de batalhas
os ilustres heróis os mares o oceano flanqueando-a
mil vezes assoladas outras tantas ou mais
do caos recuperada........ lúbrico jogo de vontades e poderes
-o teu corpo assim mesmo apaixonadamente
decorado para que nunca o perca.





WANDA RAMOS
"Poe-Mas-Com-Sentidos"
1986- ulmeiro (esgotado)




imagem:
GRAÇA MARTINS
"O Segredo"