Mostrar mensagens com a etiqueta Jaime Rocha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jaime Rocha. Mostrar todas as mensagens

sábado, 14 de março de 2015

Ausência cinco



Tua carne sai do ventre dos guindastes que procuras,

trazes na mão as folhas que moem esta ternura
morta
e é lá que os dias se levantam
na cor que escolheste para morreres
junto ao meu corpo incinerado e calmo.

Sinto que meu cansaço é macio
como as noites de diamantes tumultuosos.

Tu encontravas pequenas caixas intercalares,
a mim nasciam-me insectos sedentos de luz,

bania-me no espaço rudimentar deste peito lateral
até que nas manhãs após teu coito

teus véus se construíam em direcção aos elementos.

Jaime Rocha
Beber a cor
1983, ed. &etc
pintura de Graça Martins

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Lacrimatória 49


Os seus braços desistem, a sua visão já não alcança
sequer a sombra que a mulher deixa fugir pelos
contornos do corpo. As lágrimas caem num vaso e
solidificam com as cinzas que ele foi guardando
ao longo dos dias. Só existe lugar para a errância,
para um hino fúnebre. Um violino atravessa-lhe o
cérebro num desafio grandioso. A mulher dança
nesse território, no lado vertiginoso da boca, como
uma concha que se fecha para o vento da noite. Há
ali um mal, um fogo incurável, uma fenda. A mulher
transforma a sua morte num terreiro, empurrando o
homem para o abismo, sozinho, perseguido por um
polvo. É o ajuste de contas. Os ciprestes movem-se
na sua direcção, indiferentes ao chamamento da carne.

Jaime Rocha
Lacrimatória
2005, ed. Relógio d'Água
desenho de John Everett Millais


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Necrophilia 12


Um grito vem de dentro de uma mata, do
círculo que se cria entre as heras
e os troncos. É o grito de um abutre a ser
engolido por outro, um desafio à
seiva derretida, à própria ausência de vida.
Não há tempo para esperar pela erosão
do vento, a não ser que o pó castanho dos
velhos dormitórios invada os campos de
batalha e cubra tudo de veneno. A
mulher aparece no caminho de urzes,
subitamente, como um pedaço de carvão
que cai de cima de um móvel, uma visão
demasiado brutal para um humano.

Jaime Rocha
Necrophilia
2010, ed. Relógio d'Água
desenho de Dante Gabriel Rossetti

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Depois de um exame, pensar em amor

gouache de Isabel de Sá



Anathema: Thin Air (2010)
letra de Vincent Cavanagh, Daniel Cavanagh e John Douglas


AUSÊNCIA SETE

Morro de te morrer diariamente,
habito no fundo destas latas.

Caminho para os bichos que me devoram
em teu incêndio
e teus joelhos sombrios,
esta neve agitada de cinzas.

São de morte meus ossos, de uma cor
dançante e muda.

São de túnicas podres
como um reino de ruas reflectidas.

São lúgubres os corpos, braços magros,
sinto o meu espectro, uma origem nua.

Cerejas que
são morte de te morrer.

Jaime Rocha, Beber a Cor
1985, ed. &etc


Natalie Merchant: My Skin (1998)
letra de Natalie Merchant



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Do Extermínio



24.
Tudo está a ser desenhado por um arquitecto.
Primeiro as casas, depois os homens. E só então
se define o leito de todas as mortes. Os pássaros
removem a palha por entre os tijolos, enquanto
o arquitecto olha para o espelho e revê a cidade
antiga. Como o reflexo acaba nas margens do vidro,
ele constrói para cima em direcção ao sol até que
os prédios ardam e as cinzas transformem o chão
numa cintura de veludo.

Jaime Rocha
Do Extermínio
1995, Black Sun editores
desenho de Frank Lloyd Wright

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Granizo Três


As planícies de fogo morrem,
são uma arte simples.

Os peixes são de dezembro
assim como as colunas que nascem da água.

Porque chove no corpo concreto.
Nas mulheres existe o vidro
e o cetim que nasce do esquecimento,
o ar é nu, sofre,
diz ao longo dos meses os teus cânticos triláteros,
é uma arte simples.

Os aluviões surgem das montanhas,
as folhas transformam-se e secam
quando se acendem as luzes das campas.

As aves e as asas das aves
têm nos teus seios um equilíbrio exacto,
lavam-se no teu corpo,

morrem,
são uma arte simples.

Jaime Rocha
Beber a Cor
1985, ed. &etc
pintura de Vanessa Chrystie

sábado, 29 de janeiro de 2011

Lacrimatória 2


Aqui começa a impossível ressurreição do corpo.
Um ácido tapa os dedos do homem como se fosse
uma luva de pedra. Cabe à mulher explicar o desenho
dos ombros, como é feita a curva das ancas no instante
da queda. O silêncio arrepia, não a morte. É preciso
descobrir de onde vem a lua cega, quem a carrega,
quem a anuncia nos dias em que os monstros das
lagoas invadem a terra. O homem arrepende-se,
não suporta a picada das aves que nascem do lodo
abraçadas aos crustáceos. Transforma o ferro em aço,
envolve-o em grandes anéis de pólvora, afugenta as
limalhas com o próprio sopro. O seu destino não
pertence ao chão que pisa, mas a ela, à luz que
transparece dos seus ossos.

Jaime Rocha
Lacrimatória
2005, ed. Relógio d´Água
desenho de Elizabeth Eleanor Siddal

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A Poesia


Era um encontro impossível. Deitados à noite
sobre uma colcha apenas conseguiram tocar-se
com o choro, mas o cavaleiro não conhecia esse
segredo, nem via que o seu beijo se assemelhava a
uma morte definitiva. Porque tudo nele era matéria
flutuante, não suportava a felicidade. Uma luz
que não morria saía dela, como um barco que
demora séculos a desfazer-se abandonado num
porto, já devorado pelas algas. Por isso, o homem
vestia de novo a armadura e esperava até que,
desaparecido o anjo, solta para a caça, ela voltasse
a ser a presa sem covil, à mercê da sua lança, onde
por suas próprias mãos havia colocado uma insígnia.


Jaime Rocha
Zona de Caça
2002, ed. Relógio d´Água
pintura de Ford Madox Brown

A beleza de Elizabeth Eleanor Siddall, pintada por Dante Gabriel Rossetti

Estou, de momento, a meio da leitura do mais recente romance de Hélia Correia. "Adoecer" é uma belíssima história de amor, entre dois seres excepcionais, o pintor Pré-Rafaelita Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal, sua companheira e modelo para as mais variadas pinturas.
Se já o poeta Jaime Rocha, companheiro de longa data de Hélia, dedicara vários livros aos Pré-Rafaelitas, entre os quais "Lacrimatória" e "Necrophilya", "Adoecer" é mais uma oportunidade de atravessarmos algumas visões apaixonantes quer dos Pré-Rafaelitas, quer da relação entre Siddall e Rossetti.