Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens

sábado, 3 de janeiro de 2015

Memorial temporário #7


Alguns apontamentos, meus, sobre o último livro de José Saramago, que podem ler aqui.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Passo num gesto


























Passo num gesto que eu sei
Deste mundo agoniado para o espaço
Onde sou quanto serei
No tempo que sobra escasso

No outro mundo sou rei
E o meu rosto de cristal e puro aço
É o espelho que forjei
Com suor pena e cansaço

E se o mundo que deixei
Tem as marcas desenhadas do meu passo
São baralhas que enredei
São teias e vidro baço

Tantas provas cá terei
Tantas vezes do pescoço solto o laço
Se me sangraram em rei
Aceitem a lei que eu faço

Vem a ser que o homem novo
Está na verdade que movo

José Saramago
Provavelmente Alegria
4a edição, Caminho, 1998
imagem de Miguel Leal

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

José Saramago: Claraboia

APENAS UM HOMEM QUE PENSA

Que entre a 'Terra do Pecado' (1947) e 'Os Poemas Possíveis' (1966) existia um outro livro de José Saramago foi coisa que, estando desde há algum tempo dito pelo próprio autor, só recentemente voltou a ser falado. 
Estamos no início de 1953 quando Saramago termina a redacção do seu segundo romance. 'Claraboia' é enviado à Editorial Notícias que só responderá ao autor já nos anos 90, quando o autor já não desejava ver o romance publicado. Deixou, no entanto, a Pilar del Rio, a decisão de, postumamente, editar ou não o livro.

Chegados a 2011, o romance é editado, e dificilmente poderíamos louvar mais a decisão de Pilar. Isto porque, e desde já o afirmo, 'Claraboia' é um grande romance. Escrito aos 31 anos, de imaturidade só poderemos falar de compararmos este romance com os que viriam, principalmente a partir de 'Levantado do Chão' (1980), e apenas de um ponto de vista estilístico. Se 'Claraboia' fica a dever alguma coisa aos romances que Saramago viria a escrever, é apenas no que toca a questões formais, questões de escrita. No resto, e que, a mim, me parece mais importante, este livro é plenamente conseguido e, se lhe faltam aqueles ritmos e aquelas marcas escritas que chegariam depois, 'Claraboia' é escrito com uma simplicidade desarmante, que em muito poderá ser uma excelente introdução a uma obra magnífica, que inclui romances tão importantes como 'Memorial do Convento' (1982), 'O Evangelho Segundo Jesus Cristo' (1991), 'Ensaio sobre a Cegueira' (1995) ou 'Ensaio sobre a Lucidez' (2005).
'Claraboia' abre com a seguinte citação de Raul Brandão

Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um interior escondido.

e este aforismo, de certa forma, é a génese deste livro. José Saramago apresenta-nos um prédio modesto em Lisboa, com seis apartamentos, e, como se operasse um corte no edifício, mostra-nos aquilo que acontece dentro de cada apartamento, e as relações que se tecem, mais intensas ou menos, no espaço comum, ou seja, entre os vários inquilinos. Um sapateiro e a sua mulher, um casal conflituoso constituído por um caixeiro e a sua mulher espanhola, mais o filho de seis anos, uma viúva velha que vive com as suas duas filhas e a irmã, uma bela mulher, amante por conta de um empresário rico, um casal que se odeia e se despreza, marcado pela morte da única filha e um último casal mais aparentemente funcional, que vive com a filha de dezanove anos, os três algo perdidos numa série de delírios pretensiosos.
Um dos aspectos que mais impressiona neste 'Claraboia' é o seu extraordinário arranque. O primeiro capítulo deste romance funciona como uma espécie de curta-metragem, em que Saramago parece seguir, com uma câmara, desde o rés-do-chão, o começar do dia de cada um dos apartamentos, fazendo as transições sempre a partir do espaço comum das escadas, não inserindo, portanto, um corte abrupto de um apartamento para o outro. Este efeito é fortíssimo e, num movimento contínuo, dá-nos uma primeira visão do que se passa naquele prédio.
O que se segue serão vários capítulos, centrando-se cada um, alternadamente, sobre o que sucede dentro de cada um dos apartamentos. Com uma lucidez que não pode deixar de ser notada, Saramago analisa problemas que, começando numa dimensão familiar, se estendem a uma análise que se prende com uma série de questões sociais, tornando-se o livro, discretamente, uma profunda reflexão sobre a vida daquelas pessoas, e o que, nelas, é símbolo de um grupo maior. Assim nos parece tão pungente o ódio entre Justina e  Caetano, gerado possivelmente pela incapacidade de fazer um luto saudável por Matilde, a filha morta, cujo retrato sorridente parece observar a casa e de alguma forma comprometer o que nela se vive; ou então os conflitos entre Emílio e Carmen, ele inerte e indefinido, e ela irascível ao ponto da histeria, junção que só pode confundir o pequeno Henrique, que não parece capaz de compreender a natureza real dos afectos que o ligam aos pais ou ou a sensação de que dentro da casa de Amélia, Cândida, Adriana e Isaura, o tempo pára, como se a casa fosse uma espécie de organismo fechado e autónomo em relação ao mundo.
No entanto, a narrativa é praticamente iniciada quando Silvestre, o sapateiro, e Mariana, a sua mulher, decidem alugar um quarto que têm vazio. Abel é o jovem que se muda, e que, com Silvestre, estabelece um diálogo sobre a utilidade e a finalidade da vida. Estas discussões que os dois mantém parecem ser como fulcros, à volta dos quais irradiam os efeitos práticos dessa vida que ali é discutida.
Os personagens surgem sempre dentro das suas casas, existindo o exterior apenas em conversas ou memórias dos seus habitantes. No entanto, nada em 'Claraboia' é claustrofóbico. Se assim é, é porque o que Saramago criou neste prédio é uma espécie de mundo, a que nada mais faz falta do que, neste caso, o que existe dentro das suas paredes, talvez porque mais importante de tudo seja esse interior escondido de que falava Raul Brandão e que Saramago aqui expõe. O facto de este prédio não ser nunca especificado, ou seja, de nada sabermos quanto à sua localização precisa -sabemos apenas que é na grande Lisboa- nem das suas características arquitectónicas, só vem reforçar essa ideia de que este prédio é um mundo, é um exemplo do mundo, que poderia ser qualquer prédio em qualquer lugar. Afirmar isto sobre um romance que, apesar de só agora vir a lume, foi escrito em 1953, significa ainda dizer que este romance não envelheceu e que nada, nem nos seus assuntos, nem na sua escrita, realmente envelheceu até aos dias de hoje. Bem pelo contrário, neste romance ressoam uma série de dificuldades económicas que se fazem sentir precisamente nos dias de hoje. O essencial, mesmo assim, de 'Claraboia' são os aspectos das relações humanas e Saramago escreve decididamente sobre elas, sem distracções. Ora, se as relações humanas, como sabemos, se vão mantendo sempre, é o facto de Saramago escrever sem distracções que garante ao romance o seu não envelhecimento, pois o que envelhece, nas melhores obras, são os ornamentos e as distracções que essas, já se sabe, vão e vêm. Mas não podem envelhecer coisas como os sentimentos contraditórios entre as pessoas, a sensação de que se vive sem saber porquê, a procura do nosso lugar no mundo, o despertar da sexualidade, as aspirações que temos para a vida, as pretensões de ascender de determinado estrato social, a noção de que não nos inserimos na maioria, ou as formas de dependência que temos pelos outros.


As vidas de cada um dos inquilinos vão seguindo o seu curso e, discretamente, vão-se criando condições para que alguns deles se vejam enredados numa espécie de intriga, que culmina no final do livro, e que vem abalar, de certa forma, o estado em que, no início, encontramos o prédio. Esta intriga, no entanto, parece também ela ser secundária àquilo que é o mais importante do romance, é que é o revelar daquilo que está escondido, e que nos mostra como, efectivamente, as casas são um prolongamento das próprias pessoas. De facto, em parte nenhuma nos é dito sequer que o prédio tem uma claraboia, mas essa claraboia, seja como for, existe, e ela é a escrita, pois é no exercício da escrita que o autor revela aquilo que são estas personagens.
No diálogo do último capítulo, Silvestre, que parece ocupar nesta narrativa um lugar algo central, aquele que observa a vida e lhe destrinça os sentidos, descreve-se como apenas um homem que pensa (p.394). Se não noutros aspectos, pelo menos neste, Silvestre é uma projecção do próprio José Saramago, já aos 31 anos. E isso lhe bastou para escrever um romance que, apesar do estranho destino que teve, é um romance maduro, nítido e edificante. Como uma casa, de resto.

domingo, 22 de janeiro de 2012

24 de Julho [de 1993]


O prazer profundo, inefável, que é andar por estes campos desertos e varridos pela ventania, subir uma encosta difícil e olhar lá de cima a paisagem negra, escalvada, despir a camisa para sentir directamente na pele a agitação furiosa do ar, e depois compreender que não se pode fazer mais nada, as ervas secas, rente ao chão, estremecem, as nuvens roçam por um instante os cumes dos montes e afastam-se em direcção ao mar, e o espírito entra numa espécie de transe, cresce, dilata-se, não tarda que estale de felicidade. Que mais resta, então, senão chorar?

José Saramago
Cadernos de Lanzarote- Diário I
1994, ed. Caminho


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Diários e outras representações do eu (Prosa)

Portugal não lhes dá grande atenção e é pena. A escrita dos diários não é rara entre escritores e artistas, a sua publicação é frequente nalguns países. Portugal, claro, não é um deles. Não só há poucos autores a publicarem os seus, como pouco se traduz dos diários publicados por autores estrangeiros.
Para mim, é de lamentar, visto que um diário, ou, pelo menos, um bom diário, pode ser uma forma de entender melhor a obra de um autor ou, mais importante ainda, de nos inteirarmos do seu pensamento, das suas motivações e da sua visão do mundo que, em última análise, é força motora de toda a obra.
Há autores portugueses cuja obra de poesia ou ficção é atravessada frequentemente por vislumbres autobiográficos mais amplos ou menos. É o caso de Irene Lisboa, na grande maioria dos seus livros, mas também de Luísa Dacosta e Maria Ondina Braga.
Na obra de Irene Lisboa é frequente que não consigamos distinguir o que é o ficcional do que é autobiográfico ou auto-representativo, partindo do princípio que Irene chegou a aceitar o ficcional como integrante da sua obra.  Depois dos '13 Contarelos' (1926) para crianças, Irene publica dois livros de poesia, 'Um Dia e Outro Dia: Diário de uma Mulher' (1936) e 'Outono Havias de Vir, Latente e Triste' (1937). A designação de diário surge, inclusivamente, no título do primeiro e é, aliás, a relação desta poesia com o real e com o quotidiano que fará dela moderna e intemporal, anos-luz à frente do seu tempo. No que à prosa diz respeito, Irene escreve três livros que podemos considerar diários, e um outro ainda que, afastando-se do registo diarístico, se aproxima do relato autobiográfico, fazendo uma espécie de narrativa que começa na família, passa com intensidade pela infância e termina no tempo, mais ou menos, em que o texto está a ser escrito. Chama-se este livro 'Começa Uma Vida', e foi editado pela primeira vez em 1940, ou seja, um ano depois da primeira edição do emblemático 'Solidão'. 'Solidão: Notas do Punho de Uma Mulher', além das datações, aproxima-se assumidamente da escrita do diário, na sua tendência para o fragmentário e para a atenção minuciosa dada a pormenores do quotidano, que ajudam um 'eu' feminino (Importa apontá-lo quando o livro é assinado com o pseudónimo de João Falco.) que se encontra frequentemente numa tremenda solidão. Continuação deste registo e, até certo ponto, continuação deste livro, é 'Solidão II', de 1966, publicado, portanto, postumamente. 'Apontamentos', de 1943, constitui também uma espécie de diário, este especificamente orientado para a observação de aspectos do quotidiano principalmente citadino, contendo ainda preciosos apontamentos sobre a relação do 'eu' com o mundo e com o tempo, elemento essencial para a estruturação de um diário.
Luísa Dacosta, a par de uma obra onde o autobiográfico tem presença tutelar, publicou dois diários, 'Na Água do Tempo' (1990) e 'Um Olhar Naufragado' (2008) e são bons exemplos do que de melhor um diário pode oferecer. Além de apontamentos pessoais que não tocam um confessionalismo de mau-gosto, estes dois diários oferecem-nos textos que podem perfeitamente ser contos ou até poemas em prosa que, por várias razões, não tenham integrado os restantes livros da autora. Mais ainda, todas as preocupações da obra de Luísa têm grande presença nos diários, e estes textos vêm aumentar as dimensões literária, humana e sociológica que encontramos nos seus livros de contos e crónicas e no seu romance 'O Planeta Desconhecido e Romance da que fui Antes de Mim' (2002). O gosto pela observação minuciosa que se constrói dentro da tendência pelo fragmentário fica no diário mais do que clarificado e o conjunto desses dois livros está longe de ocupar um lugar secundário na bibliografia de Luísa Dacosta.
O caso de Maria Ondina Braga tem contornos diferentes. Maria Ondina nunca publicou um diário propriamente dito. No entanto, vários dos seus livros -penso em 'A Personagem' (1978) ou 'A Casa Suspensa' (1981)- ficcionam a escrita de um diário, ficando nessa ficção de certa forma esfumados os limites do autobiográfico. Ou seja, projectando-se numa personagem que escreve um diário, Maria Ondina escreve subliminarmente o seu próprio diário. Da sua bibliografia, destaca-se 'Estátua de Sal' (1969), um dos livros mais importantes de Maria Ondina, reeditado duas vezes (O que é interessante no caso de uma autora cuja maioria dos livros nunca conheceu reedição.) que se apresenta como uma 'autobiografia romanceada'. Esta designação, de certa forma, faz com que este livro ocupe um lugar especial entre os livros da autora bracarense. Não sendo necessariamente um diário, 'Estátua de Sal' cumpre muitos dos aspectos que um diário por norma cumpre. Ele centra-se na vida da autora enquanto plano narrativo, mas não abdica, em nome disso, de uma atenção dada ao lado literário, à inserção do texto final no conjunto de uma obra. Talvez mais do que qualquer outro livro de Maria Ondina, 'Estátua de Sal' dá-nos a dimensão do seu mundo interior, da sua solidão e dos assuntos que pautarão a sua obra desde 'Eu Vim Para Ver a Terra' (1965) e até dos dois livrinhos de poesia publicados na juventude, 'O Meu Sentir' (1949) e 'Almas e Rimas' (1952).
Bastante diferente é o caso de José Saramago, cuja escrita sempre recusou, de vários pontos de vista, o autobiográfico. Com o primeiro romance publicado em 1947, 'Terra do Pecado', e com um ritmo de publicação que só se torna frequente a partir de 1966, com 'Os Poemas Possíveis', a edição dos 'Cadernos de Lanzarote' começa apenas em 1994 e estende-se por cinco volumes.  A perspectiva de escrita é a de que, nas palavras do próprio Saramago, um diário não passa de um modo incipiente de fazer ficção. De facto, a descrição de aspectos do quotidiano roça, nestes livros, a malha ficcional na forma como está feita; mas, quanto à parte do incipiente, permitam-nos discordar. De facto, estes 'Cadernos de Lanzarote' em muito nos dão a ver o pensamento literário e político de José Saramago, e muito do que neles é abordado de uma forma algo meditativa, está presente em vários dos romances, o que nos confirma estes diários como, eventualmente, uma maneira de, mais directamente, nos aproximarmos das motivações do autor.
O caso de Maria Gabriela Llansol apresenta-se-nos, como sempre, desafiante. Ao contrário do que acontece com José Saramago ou Luísa Dacosta (Ou outros casos aqui não referidos, como os de Vergílio Ferreira ou José Régio.), foi bastante cedo que Llansol preparou uma edição de um diário. Em 1985, data em que é editado 'Um Falcão no Punho', a escritora contava com dois livros praticamente invisíveis ('Os Pregos na Erva', 1962, e 'Depois de Os Pregos na Erva', 1973.), com a trilogia da 'Geografia de Rebeldes', e com 'Causa Amante' (1984), que seria o primeiro volume da trilogia 'O Litoral do Mundo'. À data da primeira edição do primeiro diário de Llansol, ela não era ainda uma escritora com um longo percurso. Por isso, o facto de editar um diário não deixa de constituir uma certa surpresa. Isto, até percebermos o que é, para Llansol, um diário. Nada tem a ver com a descrição do quotidiano e, por vezes, parece nem sequer ter a ver com uma representação auto-biográfica. Para entender o contexto deste diário, bem como do segundo volume, 'Finita' (1987), é preciso compreender que, em muito, os textos diarísticos não se distinguem daqueles que integram os romances, e que, quando deles divergem, se deslocam no sentido do pensamento sobre a escrita. A dissolução dos limites entre géneros de escrita pode muito bem explicar alguns aspectos da estranha natureza da escrita de Llansol, e os diários ajudam a compreender as regras, que constantemente se alteram, dessa dissolução. 'Inquérito às Quatro Confidências' (1996) ocupa, de certa forma, um lugar àparte nos diários de Llansol, uma vez que é escrito para Vergílio Ferreira, no sentido de estabelecer com ele uma espécie de diálogo, sem, no entanto se afastar da natureza reflexiva dos dois diários anteriormente publicados. Até à publicação do último romance de Maria Gabriela, 'Os Cantores de Leitura' (2007), não temos mais diários. Nos últimos meses de vida, no entanto, a escritora parece ter decidido regressar ao diário. A edição da série dos cadernos de escrita, com o título genérico de 'Livros de Horas', vai já no segundo volume, e, de certa forma, vem dar continuação àquilo que os três diários editados em vida nos mostravam: não só o pensamento constante que sempre desagua no pensamento sobre a escrita, como também a obsessão de Maria Gabriela com a vida, uma vez que o texto se torna o lugar onde tudo está num estado vivo e actuante, desde as pessoas fisicamente vivas ou mortas, às plantas, aos animais, aos objectos.
Apesar da sua actividade literária ter começado bastante antes, o polémico Luiz Pacheco só se apresenta a título individual em 1958, com a 'Carta Sincera a José Gomes Ferreira com Uma Nota do Autor por Causa da Província'. Pacheco sempre escreveu textos curtos que podem, na melhor das hipóteses, ser considerados contos. Estas curtos textos raramente se inclinam para a ficção, tendendo todos eles para uma carga, no mínimo, auto-representativa. Textos como a 'Comunidade' (1964) são exemplo de como a escrita de Pacheco reflecte uma realidade bastante concreta e que, sabemos, era a da sua atribulada vida. Em 2005 é editado o 'Diário Remendado 1971-1975', um diário propriamente dito, que acompanha Pacheco nas suas meditações sobre o desejo de ser escritor profissionalmente, e nas dificuldades que isso causa, a vários níveis. Como sempre, a escrita de Luiz Pacheco surge-nos despudorada e directa, perfeitamente adequada para o texto diarístico, a que não falta uma profundidade que os desvia da vulgaridade.
São alguns casos de diários em prosa publicados em Portugal, onde o diário é um género literário quase inexistente e ao qual não se dedicam estudos em número suficiente para deles se entender a verdadeira dimensão.
Isto afecta ainda as traduções, sendo muito raro encontrarmos em português diários traduzidos. A título de exemplo, cito 'Odeio-me e Quero Morrer', a recolha de fragmentos autobiográficos de Kurt Cobain e 'Antologia de Páginas Íntimas', que selecciona páginas do 'Diário', das 'Meditações' e da 'Carta ao Pai' de Franz Kafka.

domingo, 13 de novembro de 2011

Um regresso ao passado de José Saramago


Recentemente, foi editado o romance 'Claraboia' de José Saramago. Pouco mais de um ano passado sobre a sua morte, a Fundação José Saramago, presidida pela viúva, Pilar del Rio, tem sido particularmente activa e cuidadosa tanto no trabalho de reedição de muitos títulos que já estavam indisponíveis ou quase, bem como na edição de alguns textos de ou sobre Saramago que muito interessa que tenhamos ao nosso dispor, para conhecer melhor a obra do escritor.
Como lemos numa pequena nota inicial, 'Clarabóia' é um romance cuja redacção terminou a 5 de janeiro de 1953, contava Saramago 31 anos de idade e um romance publicado, a 'Terra do Pecado' (1947) que durante tantos anos permaneceu na obscuridade. A questão da publicação póstuma de obras deixadas inéditas pelos seus autores é sempre controversa, de certo ponto de vista. Um exemplo do perigo desse trabalho é a edição póstuma dos dois volumes de 'Post-Scriptum II' que Mécia de Sena preparou, depois da morte de Jorge de Sena: trata-se dos poemas juvenis do autor, escritos desde (Salvo o erro.) os 14 anos de idade e diga-se de passagem que muitos deles, mais do que serem irrelevantes para um estudo da poesia de Jorge de Sena, nalguns casos até se tornam indignos.
Não é, pelo menos até agora e, esperemos, não será de todo o caso de Pilar del Rio que tem sabido manter toda a dignidade na edição da obra de José Saramago. Isto é particularmente importante quando o caso é como o de 'Claraboia', em que, ao que se sabe, o escritor terá dito que, mesmo não querendo em vida ver o romance editado, a decisão de existir uma edição póstuma caberia à sua executora literária. Ainda não terminei o livro mas, independentemente de tudo, penso que Pilar tomou a decisão acertada. De facto, ainda que este romance nos surja como embrionário, quando confrontado com os romances posteriores, nunca ele deixa de nos parecer um livro bastante rico em ideias, escrito com uma clareza exemplar e cheio de subtilezas de linguagem e, além disso, ele é já demonstrativo das questões filosóficas, éticas e existenciais que seriam sempre uma parte crucial em José Saramago.




A verdade é que a leitura deste livro me fez revisitar um livro que há já alguns anos não relia, talvez dada a condição um tanto estranha que esse livro ocupa na bibliografia do vencedor do Nobel. Refiro-me ao iniciático 'Os Poemas Possíveis', cuja primeira edição, de 1966, da editora Portugália, não tenho (E dada a inflação dos preços nos alfarrabistas, duvido que vá ter nalgum futuro mais próximo...), mas tenho a segunda, já da Caminho, editada em 1982. Acontece que esta segunda edição, como Saramago explica no seu prefácio, procurou tornar Os Poemas Possíveis possíveis outra vez. Ao menos. (p.14), o que se traduz, não na exclusão de poemas da primeira edição, nem na inclusão de inéditos, mas em várias reescritas e correcções dos poemas originais. Mas, pelo menos no que toca aos textos da edição de 1982, fiquei de certa forma surpreendido. Surpreendido por encontrar neste livro alguns poemas cuja intensidade e o rigor me tinham escapado quando li o livro pela primeira vez, em que me pareceu, de alguma forma, um tanto tradicional e até conservador, para um livro surgido já depois do Poesia 61, da Poesia Experimental e de uma série de outros autores que se tinham estreado na década de 60, como Yvette K. Centeno ou Armando Silva Carvalho, entre outros.
Mas de facto, esta tarde, vagueando pelos poemas de Saramago, alguns fui encontrando em que já estão presentes algumas das ideias centrais da obra que surgiria depois, como uma certa mensagem política, a redescoberta do eu na escrita, que muitas vezes de aproxima de outros personagens, e, claro, o grande tema da arbitrariedade dos desígnios da vida e a necessidade de tomarmos conta do nosso destino. É uma maneira muito simplista de colocar um assunto que é de longe mais complexo, mas a verdade é que, aparte alguns tradicionalismos formais, algumas imagens que encontramos nestes poemas não deixam de ser bastante fortes, e a forma como estão escritas, que sabe dar à escrita uma dimensão plástica propriamente dita, e não apenas descritiva, tornam valiosos alguns destes textos.
Não sabemos a que ano ou -mais provavelmente- anos, estes poemas pertencem. No entanto, não será difícil imaginar que eles tenham sido escritos ao mesmo tempo que o recém-publicado 'Claraboia', ou então pouco tempo depois, e é curioso ver como, afinal, nestes 'Poemas Possíveis' parece existir a ideia da escrita -presente não só nas artes poéticas- que, de certa forma, nos parece dar um perfil deste José Saramago que tão mal conhecemos, o destes anos entre 1947, ano de 'Terra do Pecado' e 1970, ano em que, a partir do segundo volume de poesia, 'Provavelmente Alegria', Saramago começa a publicar com grande regularidade. Por exemplo, em Meias Solas:

Bem sei que as meias-solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.

Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.

que pode, de certa forma, representar a luta pela escrita que, sabemos, era particularmente dura nesta época, em que Saramago não era aceite pelas editoras -aliás, acontece que 'Claraboia' foi entregue a uma editora em 1953, que só nos anos oitenta aceitaria editá-la, o que o escritor recusou.
E já em 'Claraboia' encontramos o escritor que escreve da observação de um imaginário minucioso e detalhado, que nada fica a dever ao real. A história de um prédio e dos seus inquilinos, com as suas intrigas, as suas amizades e inimizades, os seus segredos e os seus rumores, pode funcionar, como acontece frequentemente com os livros de Saramago, como uma parábola, uma representação do mundo, viva e palpável. Ou, nas palavras do próprio, em «As palavras são novas...»

Somos iguais aos deuses, inventando
Na solidão do mundo estes sinais
Como pontes que arcam as distâncias.

este podia ser um resumo dos livros de José Saramago, incluindo 'Claraboia': são sinais daquilo que nos une a todos, enquanto Homens, inventados na grande solidão que essas uniões não evitam.



Psicanálise



Em cada homem, dez, ou mais ainda;
Em cada homem, nove disfarçados,
E todos nove, na voz, amordaçados,
Do homem que convém palco e berlinda.


Uma porta da cave aferrolhada
A malícia do sono desmantela:
Fugidos do segredo e da cancela,
Mostram os nove o dez igual a nada.


Depois de bem torcido e recalcado,
Sacode o dez a pele e os detritos,
Disfarçando, subtil, rugas e jeitos,
Do que foi o seu corpo analisado,


Velhaca mascarada, ou sem sentido
De sombras a fingir de corpos vivos,
Cicatrizes tapadas de adesivos,
O falso dez, o zero, o um perdido.

José Saramago
Os Poemas Possíveis (1966)
1982, 2a edição, Caminho
pintura de  Rogério Ribeiro

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

José e Pilar de Miguel Gonçalves Mendes

NO ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO


José Saramago, como escritor e como Nobel da Literatura tem sido objecto de observação em vários documentários, como pudemos confirmar aquando da sua morte que, ao contrário da grande maioria dos escritores desaparecidos recentemente, não escapou despercebida aos media (Não se pode dizer o mesmo em relação a Egito Gonçalves, Sophia de Mello Breyner, Fiama Hasse Pais Brandão ou Maria Gabriela Llansol.). Esta questão faz-nos pensar se Saramago recebeu tanta atenção por ser o grande escritor que é ou por ser Nobel da Literatura.
De qualquer forma, para este filme de Miguel Gonçalves Mendes, essa questão é perfeitamente indiferente e, se há qualidade que tem que se atribuir ao realizador desde logo, é a forma original que tem de se debruçar sobre a vida de Saramago. "José e Pilar", como aliás o título indica, não é um filme sobre José Saramago, mas sim um filme sobre a relação do escritor com a sua terceira e última mulher, Pilar del Rio.
O facto de Saramago ser Nobel é, no entanto, um assunto inevitavelmente central neste filme, uma vez que as grande parte dos a-fazeres com que nos deparamos neste filme, muito disso dependem.
"José e Pilar", cujas primeiras cenas remontam a 2006, acompanha também a escrita de "A Viagem do Elefante", e termina com Saramago a ter uma ideia sobre Caim, para um livro seguinte. Pelo meio, há ainda a promoção de "As Pequenas Memorias", e Miguel Gonçalves Mendes demonstra-se particularmente sensível e, ao mesmo tempo, inteligente, ao aproveitar as dedicatorias de Saramago a Pilar, momentos de inquestionável beleza, para abordar a relação entre os dois.
Tudo o resto é alucinante: este pode muito bem ser um inesperado insight sobre a vida do autor, completamente preenchida de entrevistas, intervençoes, apoios e encontros. Parecendo que Pilar ficaria para segundo plano, desenganemo-nos: é ela o cérebro gestor por trás de tudo isto, e fica bem claro que é ela quem, para todos os efeitos mantém a situação de Saramago de alguma forma praticável. De facto, este filme vem corroborar completamente a conhecida máxima que diz que "atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Não podia ser mais verdade.
E se, a propósito de outros filmes, eu já me tenho referido à autonomia de um objecto artístico, em "José e Pilar" essa questão volta a fazer sentido. É que este filme conta com dois protagonistas que são verdadeiras forças da natureza. Portanto existe o perigo de facilmente o filme se transformar em mero suporte para aforismos. Não parece ser o caso. É verdade que o filme incontornavelmente depende e aproveita a inteligência e ironia de Saramago e Pilar, mas é também verdade que na maneira de aproveitar essas características tem um ritmo particular, o que afecta, evidentemente, a maneira como tudo é percepcionado.
Não sei se seria possível, na verdade, fazer um filme que se tornasse completamente independente da força de Saramago e Pilar. É difícil a câmara não se apaixonar por eles. E nós também.



sábado, 19 de junho de 2010

Provavelmente Tristeza

Há dias assim, em que vemos de certa forma desaparecer uma referência da nossa vida, cultural e outra. É um desaparecimento que não o é realmente ou completamente, mas não deixa de se perder alguma coisa.
Morreu ontem José Saramago, um dos meus romancistas preferidos, e, de certa forma, perdi uma referência que era cultural, ideológica, e por ser estas duas coisas, pessoal também. Ou principalmente.
Em 1998 foi Prémio Nobel da Literatura, também. Apesar disso, penso que só posso falar de mim, do que significa para mim.



Os livros de José Saramago existiam na casa dos meus pais antes de existir eu, mas para mim, José Saramago começou há cinco anos atrás: eu tinha quinze anos e o "Ensaio Sobre a Cegueira" fez-me ver muitas coisas, bem como o "Ensaio Sobre a Lucidez" que li quase de seguida. Percebi logo que Saramago excedia largamente o conceito do romancista. Ele era, e continua a ser, um pensador, verdadeiramente um lúcido, mesmo quando parecia lúdico. Do José Saramago que tentava ser poeta dos "Poemas Possíveis" e de "Provavelmente Alegria" ao José Saramago que na prosa conquistou a plenitude, ensaiou brilhantemente sobre a nossa cegueira política e humana, uma cegueira profunda e praticamente irresolúvel. Era um homem de uma inteligência extrema que nunca foi glacial, porque a ele devemos também histórias de amor como "Memorial do Convento" que, apesar de desde há vários anos ter vindo a ser objecto de tentativas de destruição com o ensino secundário, continua sendo uma das maiores histórias de amor alguma vez escrita, um amor que é muito mais épico do que o épico da construção do convento de Mafra, o amor entre um homem maneta e uma mulher que em jejum via os homens por dentro e que para não o ver a ele todas as manhãs de olhos fechados comia uma côdea de pão.
A José Saramago devemos também romances que pensam a uma luz diferente da habitual questões como a morte, que parece agora ter mais importância ainda, como em "As Intermitências da Morte", da História de um país e do seu povo, como em "Levantado do Chão" e mesmo de referências culturais como em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", além da igreja, que não deixa de nos parecer uma forma de fuga de um mundo sem deus, como vemos em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e mais recentemente "Caím", romances de uma leitura tão complexa quanto pungente e que tão mal caíram a um país em fuga do seu estado sitiado como é Portugal.
Talvez por o ver morrer o seu autor, parece-me inevitável pensar em "As Intermitências da Morte". Lembremos que a Morte se apaixona pelo violoncelista e "no dia seguinte ninguém morreu". Não só percebemos que afinal a Morte ainda não se apaixonou, como ainda não aprendeu a falar para nós, porque ainda não aprendeu a dizer nada perante a maior dor humana. Isto já o dizia Saramago no seu romance, e ainda não mudou.
Como não mudou ainda a nossa cegueira, a nossa falta de lucidez, a nossa vassalagem ao poder instituido, a nossa falta de rebelião, a nossa inépcia. Saramago não fez mais do que lhe competia: pensou, deu-nos essa arma e a possibilidade de a usar.
Agora que morre o homem e nos ficam os livros, só me resta desejar a José Saramago que por muito tempo não descanse em paz, porque não consigo imaginar pior destino para um artista do que descansar em paz. Espero que durante muito tempo lhe dêem voltas e mais voltas e se debrucem sobre a sua obra de uma forma mais séria do que enquanto foi vivo e despertou tantas invejas e dores de cotovelo, como convém a todos aqueles que arriscam estar acima da banalidade.

quinta-feira, 4 de março de 2010

José Saramago: Caim

A REDENÇÃO DO ASSASSINO

“Caim”, o mais recente romance de José Saramago não podia ter sido mais aproveitado pelos media, tendo, por muitos, sido inclusivamente recebido com uma estranha surpresa. O que acho estranho. Para ser mais imediato, poderia referir o romance publicado em 1991, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” como romance de heresia, mas ao longo da bibliografia de Saramago, livro a livro, é frequente que este se manifeste claramente contra o catolicismo e, em última análise, contra a própria figura de deus.
É-me então difícil perceber o escândalo gerado por “Caim”. Escândalo maior foi, para mim, que no dia seguinte ao seu lançamento, o livro estivesse já a ser alvo de todos os ataques e todas as considerações, dado que, penso, um dia não será suficiente para ler, ou ler plenamente, este ou outro romance.

Outra questão que importa referir ao falar de “Caim” é a de todo o jogo de ataques e contra-ataques que o romance gerou.
Em entrevistas e depoimentos, o Nobel refere a bíblia como “um manual de maus costumes e um catálogo da crueldade”. Ora e isto, que poderia surgir como uma pequena observação da parte de José Saramago é, na verdade, uma das maiores matrizes de “Caim”.
Caim, assassino de seu irmão, e condenado por deus (Ou o senhor.) à errância durante toda a sua vida é, claramente, personagem central deste romance, mas não é a sua errância, o seu percurso, o verdadeiro tema deste romance.
A errância que José Saramago atribui a Caim é mais uma passagem pelos momentos bíblicos que, de facto, sustentam a ideia do “manual de maus costumes e catálogo da crueldade”. Por assim dizer, este é um romance principalmente argumentativo, onde Saramago prova, por A+B, e com toda a eficácia, essa sua opinião (Que, acrescento a título pessoal, corroboro por inteiro.).
Caim inicia o seu percurso nas terras de Nod, onde se envolve com Lilith, mas passa pela Torre de Babel depois desta ter ruído, presencia o quase sacrifício de Isaac por seu pai Abraão, a destruição de Sodoma e Gomorra, a desgraça de Job, etc.
Neste último caso, Job, homem próspero e fidelíssimo a deus, é vítima de todas as possíveis desgraças, impingidas por Satã na consequência de uma aposta com deus. A Torre de Babel foi destruída por deus para que os homens não pudessem atingir o céu. Abraão sacrificaria o seu filho para provar a sua fé em deus.
No particular caso de Job, intervém a figura de Satanás. E aí, Saramago não o coloca como antítese de deus, antes como um servo insubordinado.
Porque, ao longo de “Caim”, o verdadeiro antagonista de deus não é outro senão Caim. É Caim quem, na verdade, vê o suficiente para poder duvidar de deus, ou do conceito normalizado de deus. É Caim quem, em último caso, confronta deus com a sua crueldade, a sua frieza e a sua natureza megalómana e totalitária. Ou seja, uma natureza de ditador.
Mais ainda, Caim é confrontado com a duplicidade da sua relação com deus: que pacto foi este entre os dois, em que deus lhe diz que estará condenado a errar enquanto viver, mas que ninguém lhe fará mal, pois estará protegido pela marca negra na testa?
O deus que Saramago nos apresenta não é, pois, uma concepção gratuitamente análoga daquela que a sociedade em geral tem dele. Essa analogia é, efectivamente, muito bem sustentada: deus é um ser confuso (Por exemplo no seu pacto com Caim.), sedento de poder (Por exemplo, a conquista de Jericó) e de provas dele (O sacrifício de Isaac.), pouco inteligente por vezes (Ordenando a Noé que construísse a sua arca num vale, longe de água, onde, logo que viesse o dilúvio, a arca de afundaria.), e, acima de tudo, não é todo poderoso. Neste último aspecto, Saramago utiliza a história de que, na batalha contra os amorreus, deus fez o sol (Ou a Terra.) parar para perpetuar o dia e manter a batalha. Vale a pena reproduzir um excerto da conversa do senhor com Josué:
“Não posso fazer parar o sol porque parado já está ele (…) Algo se move realmente, mas não é o sol, é a terra. A terra está parada, senhor, disse Josué (…) se assim é, manda parar a terra, que seja o sol a parar ou que pare a terra, a mim é-me indiferente desde que possa acabar com os amorreus. Se eu fizesse parar a terra, não acabariam só os amorreus, acabava-se o mundo (…) Pensei que o funcionamento da máquina do mundo dependesse apenas da tua vontade, senhor, Já demasiado eu a venho excedendo (…) é que a vida de um deus não é tão fácil quanto vocês crêem, um deus não é senhor daquele contínuo quero, posso e mando que se imagina, nem sempre se pode ir direito aos fins, há que rodear (…)" [pág.124-125]
Na última das suas sequências, a que corresponde à arca de Noé, é que definitivamente “Caim” retira de Satã o peso do anti-cristo e a coloca sobre Caim, sendo este que, verdadeiramente, faz frente a deus e aos seus desígnios. No fundo, Caim, o assassino de seu irmão, acaba por perceber a insignificância do seu acto, face aos actos daquele que o castigou pelo seu crime.
Em última análise, mostra que deus não tem sequer poder sobre os actos dos homens, e muito menos conhecimento do futuro ou do destino, caso contrário, a condenação natural do Caim de Saramago teria sido a sua morte, e não a errância pelo tempo.


Como romance, “Caim” não desilude, mantendo-se dentro do ciclo restrito das melhores obras de José Saramago. Por um lado, alude à fase histórica dos romances iniciais (Como sejam “Levantado do Chão”, “Memorial do Convento” ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.), mas, pelo tratamento que dá à história, mostra-se também muito próximo dos romances pós-modernos (Em que poderíamos incluir “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Ensaio Sobre a Lucidez” ou “As Intermitências da Morte”.), dado o desenrolar praticamente livre de historicismos do romance, acrescido ainda de uma vertente altamente filosófica (Que poderemos reconhecer em “Todos Os Nomes” ou “O Homem Duplicado”.) que é toda a relação directa ou indirecta entre Caim e o senhor nos vários episódios do romance.
A única falha possível neste livro, será a diferença entre a premissa prometida pelo título, que nos relatasse a errância verdadeira de Caim, e “descambar” para uma errância conduzida por José Saramago. O que não tem que ser defeito, e, neste caso, resulta até bastante melhor.
De qualquer forma, a visão fria e crua de José Saramago sobre a bíblia, vem confirmar uma frase que Woody Allen escreveu há uns anos “Se deus existe, é melhor que tenha uma boa desculpa”.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O Manual dos Inquisidores



"Caím" de José Saramago chegou às livrias há quase duas semanas. O caso está complicado. Logo no dia do lançamento, já havia pessoas a manifestar o seu desagrado pelo tema e seu tratamento do novo romance.
O facto de José Saramago ter declarado que, a seu ver, a bíblia é "um manual de maus costumes" e "um catálogo de crueldade" não ajudou. Se já antes as pessoas estavam ultrajadas e a ultrajar um livro que não leram, estas frases de Saramago são a catapulta definitiva que legitima que se fale do livro sem o ler.
Porque o problema maior, penso, não foi o facto de se estar a falar de um livro que não se leu, foi o de estar a falar dum livro que nem se vai ler sequer. E pelos vistos, já nem necessidade disso existe, porque as declarações do autor já servem para os reaccionários lhe caírem em cima.
Mas tudo bem. Entrevista com Judite de Sousa, debate na Sic Notícias com um padre teólogo. Não faltou nada. Para mim, que aprecio sempre um bom escândalo, mas que o aprecio mais ainda se a igreja estiver envolvida, foi um verdadeiro banquete.
Antes de mais, quero realçar a atitude de Saramago, aquando da entrevista com Judite de Sousa. Demarcou-se pelo nível e pela calma com que falou e, acima de tudo, por se mostrar disponível para um debate com qualquer pessoa, partindo do princípio que essa pessoa tivesse lido o livro.
Foi o caso. No dia seguinte, na Sic Notícias, Saramago debate com o padre Carreira das Neves, que além de ministro do senhor na terra, é também teólogo.
Sobre este debate, um apontamento(zinho): Carreira das Neves estava com sérias dificuldades em contrariar José Saramago.
Percebo porquê: pois como se contraria alguém que, para falar, se apoia unicamente na logica? É complicado. O próprio padre admite a existência de evangelhos proibidos, da relutância do clero em colocar o evangelho à disposição e leitura dos crentes, e, no meio de tudo isto, repete repetidamente o mesmo argumento: que não podemos interpretar a bíblia pelo que está lá escrito.
Aí, Saramago lança a cartada mais simples de todas: se é para isso, qual a necessidade da haver texto escrito?
Também particularmente infeliz foi a ideia de Carreira das Neves de comparar a bíblia a qualquer livro, por exemplo os de Saramago. Bem, eu acho que os livros de Saramago, e esta polémica em torno de "Caím" vem comprová-lo, não são sagrados, nem têm uma religião que neles se baseie.


Televisão áparte, há que falar dos jornais. Parece-me que qualquer palerma sem méritos reconhecidos se dá a competência de falar do assunto, mesmo que dele nada perceba. Alguém dizia, numa revista cujo nome agora me escapa, que Saramago era "um bronco" no que toca a política. Na minha opinião, palavras desta categoria não são propriamente dignas de uma coluna de qualquer colunista sério, pelo que a sua utilização é já sintomática do grande disparate que essa coluna era.
Mais supreendente ainda foi o Público, na sua edição da quinta feira da semana passada. Eu, que julgava que o Público era um bom jornal, vi-me absolutamente defraudado. Fica ao nível de qualquer pasquim que se distribui gratuitamente. A começar por Manuel Fernandes, director, que atira com ideias como este livro ser um livro destinado ao esquecimento, a avaliar pelas primeiras críticas (Ou seja, não tem uma opinião própria) e, por fim, atira com a acusação mais estúpida que eu já ouvi: que isto se trata de uma estratégia de marketing. Que eu me lembre, completam-se 11 anos que Saramago ganhou o Nobel. Para o bem e para o mal, ele não precisa de mais marketing, todo o marketing está feito já. E mesmo que não tivesse ganho o Nobel, há que reconhecer que Saramago tem já um público que o lê e que, para todos os efeitos, o respeita o suficiente para não precisar de campanhas de marketing.
Há ainda que ver que Manuel Fernandes tinha o dever de saber daquilo que fala. Não é o caso. Porque se fosse, ele não estranharia, nem atribuiria a ideia de estratégia a "Caím", porque, para quem sabe, já há muito tempo que Saramago se dedica a minar as fachadas com que a igreja se impõe entre nós. E se é difícil encontrar um livro em que este não largue as suas farpas á igreja e ao clero, pelo menos em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", já Saramago se tinha insurgido contra a bíblia, num projecto cuja envergadura nada fica a dever a "Caím". Portanto, vir agora dizer que nada disto é a sério e que estamos perante um golpe publicitário só tem um nome: falta de cultura.
Cartas dos leitores, então, isso é que foi. Discursos inflamados sobre Saramago desrespeitar a religião, pessoas que dizem que ele tem inveja porque milhões de pessoas leram a bíblia e ela ficou para sempre na cabeceira, ao passo que os outros livros, como so de José Saramago, chegam e partem. Pessoas que afirmam a falta de inteligência do escritor.


No meio disto tudo, só há uma coisa que eu percebo: são poucas as reações de pessoas que não sejam as que, de facto, dormem com o missal ao lado. Só dessas poderia partir isto, que para mim, é ainda o maior escândalo de "Caím": é que vivemos num país com problemas económicos, com um primeiro-ministro que se recusa a atender aos problemas reais dos cidadãos, onde 120 mil professores saem à rua em protesto e são ignorados, onde hospitais fecham e a saúde se torna cada vez mais um privilégio de classes, onde a exclusão social é ainda uma realidade ignorada, onde temos ainda 10% de analfabetos, onde milhões são dados a quem andou a roubar nos BPI e BPN e por aí, onde o comum cidadão é diariamente manipulado e enganado, onde a cultura não tem existência, onde o desemprego cresce e continuará a crescer. E, no meio de tudo isto, é porque Saramago escreve um romance em que deixa a sua interpretação controversa da Bíblia que surgem discursos inflamados e grandes protestos?
Algo está errado neste país.