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quarta-feira, 20 de março de 2013

Um 'Apontamento'


Muitas vezes me pergunto a mim mesma o que é um livro.
O mesmo que as pessoas! apetecia-me responder. Ou: são tão diversos os livros como elas... Mas estabelecendo uma comparação destas eu daria grandes âmbitos à obra escrita, dar-lhe-ia foros de extraordinária variedade. E não me sinto com esse direito.
Eu penso nos livros, lembro-os, distingo-os, com a maior calma. Um livro é sempre uma mensagem entregue, por mais banal que seja o dito. E uma pessoa, qualquer que seja, é uma verdadeira incógnita... É um ser incompleto, defendido e misterioso, sempre apto a desdobrar-se, a confundir-nos.
Um livro tem uma conclusão e uma única alma, aquela que lhe deu existência numa dada época. E as pessoas são eternamente variáveis! Complicadas e irregulares. Não vamos nós tantas vezes com bondade ao seu encontro, para lhes oferecermos o que temos acumulado no coração; doçura ou virilidade? E não voltamos desiludidos? A alma alheia é uma perfeita antagonista da nossa.
Podemos fazer dela a ideia que se faz de um livro, julgá-la definida e característica... mas enganamo-nos. Um livro deixa-nos umas tantas impressões, que se guardam ou que lentamente se dissolvem. E as pessoas têm mil pequenas almas, todas elas vivas e contraditórias. Constantemente inquietas, vaidosas, reprimidas e prontas a saltar.
As pessoas são infinitamente desanimadoras e diversas. E os livros não; são simples. São uns produtos artificiais e ocasionais dos nossos estados; passaram a viver fora de nós, tornam-nos apenas lembrados.

Irene Lisboa
Apontamentos
1943, ed. da autora
desenho de Dante Gabriel Rossetti

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

The Prince's Progress (fragmento)


Till all sweet gums and juices flow, 
Till the blossom of blossoms blow, 
The long hours go and come and go, 
 The bride she sleepeth, waketh, sleepeth, 
Waiting for one whose coming is slow
:— Hark! the bride weepeth. 

'How long shall I wait, come heat come rime?'
— 'Till the strong Prince comes, who must come in time' 
(Her women say), 'there's a mountain to climb, 
 A river to ford. Sleep, dream and sleep; 
Sleep' (they say): 'we've muffled the chime, 
 Better dream than weep.' 

In his world-end palace the strong Prince sat, 
Taking his ease on cushion and mat, 
Close at hand lay his staff and his hat.
'When wilt thou start? the bride waits, 
O youth.'— 'Now the moon's at full; I tarried for that, 
Now I start in truth. 

'But tell me first, true voice of my doom, 
Of my veiled bride in her maiden bloom; 
Keeps she watch through glare and through gloom, 
 Watch for me asleep and awake?'
— 'Spell-bound she watches in one white room, 
 And is patient for thy sake. 

'By her head lilies and rosebuds grow; 
The lilies droop, will the rosebuds blow? 
The silver slim lilies hang the head low; 
 Their stream is scanty, their sunshine rare: 
Let the sun blaze out, and let the stream flow, 
 They will blossom and wax fair. 

'Red and white poppies grow at her feet, 
The blood-red wait for sweet summer heat, 
Wrapped in bud-coats hairy and neat; 
 But the white buds swell, one day they will burst, 
Will open their death-cups drowsy and sweet
— Which will open the first?' 

Then a hundred sad voices lifted a wail, 
And a hundred glad voices piped on the gale: 
'Time is short, life is short,' they took up the tale: 
 'Life is sweet, love is sweet, use to-day while you may; 
Love is sweet, and to-morrow may fail; 
 Love is sweet, use to-day.'

Christina Rossetti
The Prince's Progress and Other Poems
1866, ed. McMillan
gravura de Dante Gabriel Rossetti
(feita para a 1ª edição deste livro)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Ambiciosa


Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O voo dum gesto para os alcançar ...

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar ...
__Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar !

Minh’ alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus !

O amor dum homem ? __Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada ...
Um homem ? __Quando eu sonho o amor de um Deus ! ...

Florbela Espanca
Charneca em Flor
1930
pintura de Dante Gabriel Rossetti

terça-feira, 22 de maio de 2012

A Ballad of Dreamland



I hid my heart in a nest of roses,
Out of the sun's way, hidden apart;
In a softer bed than the soft white snow's is,
Under the roses I hid my heart.
Why would it sleep not? why should it start,
When never a leaf of the rose-tree stirred?
What made sleep flutter his wings and part?
Only the song of a secret bird.


Lie still, I said, for the wind's wing closes,
And mild leaves muffle the keen sun's dart;
Lie still, for the wind on the warm seas dozes,
And the wind is unquieter yet than thou art.
Does a thought in thee still as a thorn's wound smart?
Does the fang still fret thee of hope deferred?
What bids the lips of thy sleep dispart?
Only the song of a secret bird.


The green land's name that a charm encloses,
It never was writ in the traveller's chart,
And sweet on its trees as the fruit that grows is,
It never was sold in the merchant's mart.
The swallows of dreams through its dim fields dart,
And sleep's are the tunes in its tree-tops heard;
No hound's note wakens the wildwood hart,
Only the song of a secret bird.




ENVOI


In the world of dreams I have chosen my part,
To sleep for a season and hear no word
Of true love's truth or of light love's art,
Only the song of a secret bird.

Algernon Charles Swinburne
Poems and Ballads, Second Series
1878
vídeo com pinturas de Dante Gabriel Rossetti

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Necrophilia 12


Um grito vem de dentro de uma mata, do
círculo que se cria entre as heras
e os troncos. É o grito de um abutre a ser
engolido por outro, um desafio à
seiva derretida, à própria ausência de vida.
Não há tempo para esperar pela erosão
do vento, a não ser que o pó castanho dos
velhos dormitórios invada os campos de
batalha e cubra tudo de veneno. A
mulher aparece no caminho de urzes,
subitamente, como um pedaço de carvão
que cai de cima de um móvel, uma visão
demasiado brutal para um humano.

Jaime Rocha
Necrophilia
2010, ed. Relógio d'Água
desenho de Dante Gabriel Rossetti

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Violação de Lucrécia



Há muito que as flores ficaram esquecidas. Sentimos chegar de novo o seu odor
que existe apenas junto das nossas mãos. Esperamos assim a noite. Poderiam
nascer no interior de qualquer sala as mesmas sombras, o que para ti era
semelhante ao leve rumor de quaisquer passos que vinham atravessar um caminho
que a ninguém pertencia. «Fiquei mais envelhecida; quantos instantes
passaram, como se fosse a água que desde sobre o peito ao despertarmos, -tranquilo
sinal que nos fica do amor. Talvez seja o seu brilho que vem ao nosso encontro, sereno
como a resposta do sangue; era só um murmúrio que se aproxima devagar, ao esperarmos
o mesmo voo que nos procura inutilmente.» Que outras palavras
aqui ficaram repetidas? As aves afastaram-se, elas que tinham apenas
a forma das nossas pálpebras. Tornara-se mais leve o sofrimento, e sobre cada rosto
distingue-se o que talvez fosse uma nova carícia: alguém havia de trazer consigo a luz
necessária, a que ilumina os corpos. «Fecha os teus olhos», disse. «Assim principia
a afastar-se de nós um gesto quase inútil. Entregaste-me esse movimento destinado
a ser uma promessa que vinha para nos magoar; por isso, me venceste.» Nada mais te 
                                                                                                        [queria dizer;
tranquila era esta maneira de olhar na curva de qualquer caminho não para
alguém, mas apenas o lugar onde já não estávamos. Existe a ternura como se fosse
ainda um aceno; era o que recordavas só para que de novo nos pertencesse.
Compreendemos que muitas coisas ficaram esquecidas no interior dos nossos olhos
e foi em sua direcção que caminhaste. «Um amor como o meu é demasiado grande
para que o possas perdoar. Mas o que te venho dizer é simples; espero há muito
que adormeças, como se dentro de ti se perdesse agora a minha voz. O sono
traz consigo um pouco da nossa morta, e a dor há-de existir como se víssemos as margens
do mesmo rio.» Tudo tem um fim; porque começava nele a tua pureza?

Fernando Guimarães
Tratado da Harmonia
1988, ed. Justiça e Paz
pintura de Dante Gabriel Rossetti

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

(Monólogo a horas mortas)


Não sei o que me toma a esta hora ou, sabendo-o, ignoro-o para que não sejam cúmplices os ouvidos da cidade -queda e translúcida se pudessem deambular nela meus passos. Nenhuma coisa é já premente se bem que me construa afincadamente até me doerem as pálpebras e o gosto acre do perfil. Seremos protagonistas de uma história sem fim vislumbrado, a cidade e eu, ensimesmadas no abandono de quem laboriosamente representa o teu papel, o meu, o de tantos eus que por não se morderem se infertilizaram. Sitiados é bem verdade dentro da razão sua, ás vezes da revolta, também omissos, inoportunos na displicência instituída de cada dia. E se uivam agora os cães, que presságios acarreta o eco enquanto tantos dormem? Será versátil todo este viver connosco próprios na espera do amanhã vir. Debalda-se a expectativa na despedida de alguma luz que se apaga vista desta janela. Como se um comboio viesse mesmo sem alguém no cais.
Quem chegará a colher os meus passos? [Tempos houve em que falei de heróis de espuma, do aliciante vento da promessa. Ou, à beira de renegá-los, escrevia já poemas de raiva prevendo a desesperança -foi a confissão que alguém, podendo uma vez ter lido, nunca leu. E vinham então os arrebatamentos pueris, o espasmo por limar da decepção. E crescendo ia sempre este casulo à força de se me fatigarem as palavras.] Quem me cortará os atalhos, a fim de que chegue mais depressa? Do lado de cá, onde eu ciclicamente como que deixo de sentir-me, que apelos sobressaem dos ruídos, dos imensos múltiplos ruídos do canal da vida? Será vagarosa e interminável esta luta. Além, imobilizam-se os desatinos de eu-espectadora. Cá, deste lado, talvez o travo do cigarro como marca, algum troço mais indelével, alguma crença restabelecida que que o mundo sancione e eu esforçadamente alimente. Este o destino do que é fluido e incomestível: a passividade das paredes, o odor a esperma transviado, um simulacro de aventura. E se alguém se esvai de noite entre os lençóis, sei não ser eu a causa primeira, nem final.

Wanda Ramos
Intimidade da Fala
1983, ed. &etc
desenho de Dante Gabriel Rossetti

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Caravelas



Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
De um estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...

Florbela Espanca
Livro de Mágoas
1919, Tipografia Maurício
desenho de Dante Gabriel Rossetti

sábado, 10 de setembro de 2011

97. A Superscription



Look in my face; my name is Might-have-been;
         I am also call'd No-more, Too-late, Farewell;
         Unto thine ear I hold the dead-sea shell
Cast up thy Life's foam-fretted feet between;
Unto thine eyes the glass where that is seen
         Which had Life's form and Love's, but by my spell
         Is now a shaken shadow intolerable,
Of ultimate things unutter'd the frail screen.


Mark me, how still I am! But should there dart
         One moment through thy soul the soft surprise
         Of that wing'd Peace which lulls the breath of sighs,—
Then shalt thou see me smile, and turn apart
Thy visage to mine ambush at thy heart
         Sleepless with cold commemorative eyes.

Dante Gabriel Rossetti
'The House of Life'
Poems by D.G. Rossetti, 1870
gravura de Dante Gabriel Rossetti

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Os manos Rossetti, noutra foto de Lewis Carroll


Da esquerda para a direita:
Christina Rossetti (1830-1894), poeta e escritora; Maria Rossetti (1827-1876), freira e autora de um ensaio sobre Dante Allighieri; Frances Lavinia Polidori (1800-1886), a mãe; e Dante Gabriel Rossetti (1828-1882), pintor, fundador da Pre-Raphaelite Brotherhood e poeta.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Christina Rossetti pintada por Dante Gabriel Rossetti

pormenor de "Ecce Ancilla Domini! A anunciação"

Christina Rossetti pintada por Dante Gabriel Rossetti



pormenor de "A Infância da Virgem Maria"

Christina Rossetti desenhada por Dante Gabriel Rossetti



Christina Rossetti desenhada por Dante Gabriel Rossetti



Christina Rossetti pintada por Dante Gabriel Rossetti



Christina Rossetti desenhada por Dante Gabriel Rossetti



A primeira representação de Elizabeth Siddal

foi este "Twelfth Night", de Walter Deverell, que adapta uma cena de Shakespeare. Elizabeth é a primeira figura à esquerda, uma mulher vestida de homem. No mesmo quadro, ainda antes de se envolver amorosamente com Elizabeth, Dante Gabriel Rossetti posa como o palhaço.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Lost Days


The lost days of my life until to-day,
What were they, could I see them on the street
Lie as they fell? Would they be ears of wheat
Sown once for food but trodden into clay?

Or golden coins squandered and still to pay?
Or drops of blood dabbling the guilty feet?
Or such spilt water as in dreams must cheat
The throats of men in Hell, who thirst alway?

I do not see them here; but after death
God knows I know the faces I shall see,
Each one a murdered self, with low last breath.

‘I am thyself, — what hast thou done to me?’
‘And I—and I—thyself,’ (lo! each one saith,)
‘And thou thyself to all eternity!’


Dante Gabriel Rosetti
The House Of Life
1881



sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A beleza de Elizabeth Eleanor Siddall, pintada por Dante Gabriel Rossetti

Estou, de momento, a meio da leitura do mais recente romance de Hélia Correia. "Adoecer" é uma belíssima história de amor, entre dois seres excepcionais, o pintor Pré-Rafaelita Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal, sua companheira e modelo para as mais variadas pinturas.
Se já o poeta Jaime Rocha, companheiro de longa data de Hélia, dedicara vários livros aos Pré-Rafaelitas, entre os quais "Lacrimatória" e "Necrophilya", "Adoecer" é mais uma oportunidade de atravessarmos algumas visões apaixonantes quer dos Pré-Rafaelitas, quer da relação entre Siddall e Rossetti.