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quarta-feira, 11 de julho de 2012

A infância! Esse musical falar. De morte.


Falas de amor.
Não conheço tal cadência,
nunca estive completa,
nunca teve forma
a forma servilíssima da forma.
E quem a nota? «Não te amo, quero-te
com o furor cego que o sangue me devora?»
Não conheço essa gota _devocional_
de um verso em rima.
Preparavas a mesa, o pão
de cego oiro _gramaticais acentos
de vertigem,
mas havia o som agudíssimo das trevas
e grave, com ternários, se medindo.
Repara!, no altar em que tocámos a súplica
pungentíssima do vinho.
Iam assim correndo, sem abrandar, Eysinga,
na musical execução do trecho,
cravos _nuances
de pianos e piedades,
cordas de desprezo: martelos de ignonímia.
Não conheço essa cova
que ao dares-me vida, honraste
a doce perdição da minha morte e só por isso,
ó meu lugar deserto de erros, míseras
generosidades _cordas, linhas,
compaixão sem paixão,
meu canto breve o corpo,
pois tê-lo enchido de desprezo nobre
foi infantil recuperá-lo enigma.

Eduarda Chiote
Branca Morte
1994, ed. &etc
desenho de Jorge Pinheiro


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

desenho de jorge pinheiro


na minha mesa está pousado este
retrato à pena de uma mulher sentada.
a sua face rural e melancólica
debruça-se equânime como a fitar por dentro

as figuras de sombra no côncavo das vagas,
ou, citereia de trazer por casa,
sabe de mim, medita intimamente
as coisas certas sobre o meu trabalho.

não pergunto do olhar, nem do sorriso, nem da
serenidade. sei que é tudo interior e devaneia
por artes da memória e de sibila, fixando uma ou outra
passagem dos sonhos e do indizível,

junto à janela quando escuta
as ressonâncias que chegam justamente ao
tampo da mesa e entram ou não entram
inquietas de papel.

Vasco Graça Moura
A Sombra das Figuras
1985, edição do autor
pintura de Jorge Pinheiro

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Rosto Sitiado, 13



De novo curvamos o corpo
cingido o arrepio das casas.
De novo apertamos nos olhos
a dor monótona da chuva
árvores despenteadas
ossos
húmida negrura.

O silêncio do vento
fere
nosso rosto sitiado.

De novo nos consumimos
em outono
fogo lento
e as mãos perfumam a tarde
consentem o cansaço
como pássaros
assustados de cinzento.






Maria Graciete Besse
Rosto Sitiado
ed. Fenda, 1983
imagem de Jorge Pinheiro

i

domingo, 27 de dezembro de 2009

Escolho Branca Morte



Faço da infância vocação.
Dores lancinantes, pedidos urgentes
e a impossibilidade de exorcizar-me branca morte.
Exaustão, velhice, desencanto?
Por certo, uma mistura.
Sinto-me uma espécie de refugo, vivendo dos restos,
dos resíduos,
absolutamente só.
Numa primeira proximidade desta solidão,
dir-se-ia que obsessivamente só.
Nem os pensamentos me acompanham. Por enquanto,
ainda a dor impura de lembranças,
fragmentos que esboroam: restos de sol,
uma bóis enfiada em águas de Aljezur, toalhas
de praia, sardinhas, não importa: fragmentos
aflitivamente vivos que me fazem pensar: estou a
morrer, estou morto.
Ninguém acredita nesta morte nem eu mesmo a choro.
Mas é por estes indícios que sou conduzido
ao seu cadáver- uma estrada, algures, a caminho
de Estarreja e às escuras,
antes das louças da Vista Alegre- memórias
minúsculas e incomodatícias.
Não choro. Não conheço esse doce apaziguamento,
enjoo líquido da alma.
Vêm ainda silêncios não inteiramente pacientes
entrecortados destas fugidias e estéreis
recordações, dizer-me que tive vida, fui vivo,
um dia comi queijadas em Sintra.
Nisso se resume uma vida. A minha vida.
Também não escrevo. Algo se quebrou dentro de mim,
não sei se definitivamente, é bem possível,
e esta clausura mortífera e mortal
é também, ironicamente o reconheço, económica.
Não se gastam solas nem saliva,
nem se anda por uma Lisboa intolerável e festiva.
Não és tu quem me faz falta,
tu fazes parte da falta. Sou eu que me falto.
Esforço-me por aproximar-me e não encontro nada.
Nem o vazio que dá acesso ao abismo.
Não é agradável, mas sair e ir ao cinema
também não é agradável para quem está em falta.
Falto-me. Depois vem a dor física e a outra...
e penso: "tenho que deslocar o centro de gravidade
de tudo isto", mas não sei o que é isto.
Desejo o negativo- profanação da ordem que equilibra a
revolta, o vigor do vivo, mas "Uma vida de desejo
só é possível se a falta que é a sua chave
aparecer como pedra angular".
Não tenho apoio. Não tenho onde apoiar-me.
Quando digo estou a morrer e falo de morte, ninguém
entende a morte. Esta morte.
Não é outra morte. É a minha morte.


Eduarda Chiote
Branca Morte
1994, edições &etc
imagem: Jorge Pinheiro