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segunda-feira, 29 de julho de 2013

[e eis súbito ouço num transporte público:]





















e eis súbito ouço num transporte público:
as luzes todas acesas e ninguém dentro da casa:
sete ou nove metros de labaredas,
e nem um grito, um sussurro, uma palavra:
só a casa ocupada pela grandeza da estrela,
a grandeza primeira

Herberto Helder
Servidões
2012, ed. Assírio e Alvim
pintura de Edward Hopper

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Muriel



Desde que deixaste a cidade, Muriel, os clubes fecharam
E há mais um candeeiro fundido na rua principal
Ali onde costumávamos passear.
Muriel, ainda assombro os mesmos velhos antros
E tu segues-me sempre onde quer que eu vá
Muriel, vejo-te num sábado à noite na casa de jogos
Com o cabelo apanhado, atrás
E aquele brilho de diamante no olhar
E a única aliança que alguma vez te comprarei Muriel.
E, Muriel, quantas vezes abandonei esta cidade
Para me esconder da tua memória
Que me persegue
Mas nunca vou além do bar mais próximo
Onde compro outro charuto barato e te encontro em cada noite
Muriel, Muriel...
Olá amigo, tem lume?

Tom Waits
Nocturnos
1989, ed. Assírio e Alvim
pintura de Edward Hopper

terça-feira, 22 de março de 2011

Café Castro


com cigarros dando para altos janelões
com garrafas soturnas canções vazias
medito em esquemas falhos de viabilidade
financeira – são um descanso estas imaginações
diletantes e portuguesas na recuada
cidade de Budapeste

permitem chegar apenas a este lugar isolado
ao plano B: texto que o autor não
burila no interior do café

mas proponho-lhe:
esqueça tudo isto os cartazes cubanos a empregada
curiosa e loira e avance para o poema seguinte
sem grandes remorsos

evitará demorar-se num desenho de nuvens
no tecto de um quarto (qual?)
festejar o fim de nenhuma vindima
aperceber-se do erro juvenil que é fechar um poema
com a palavra morte
sobretudo não lhe falarei de Walt Whitman
ou David Beckham

mas depois, peço-lhe
atrase-se outra vez suspenda por um momento a leitura
num desses gestos vazios: coçar a cabeça
coçar o queixo

espere que este autor recupere de novo terreno
e partamos os dois para baixo – haverá outro sítio? –
para o poema seguinte

Miguel-Manso
Quando Escreve Descalça-se
2008, ed. Trama
pintura de Edward Hopper

terça-feira, 8 de março de 2011

Cinco


Vais cada vez mais cedo para a rua
dantes só o outro dia te levava.
Não tem mal, deixa-me falar
das pessoas encontradas num jardim
escondo-me no verde dos seus olhos
se fossem os meus, esses acordavam
com a folha de fogo na videira
na latada ao dia mais brilhante
de maio quando as aves voltam
e a glicínia começa a cair.

É assim, eu sei. Depois de se querer tudo
queremos só o corpo e depois nem isso,
apenas que te lembres
de certo canto de rua, da garrafa
num café de bairro, do papel
que tanto recado te levou,
do jardim ao anoitecer
enrolávamos cigarros
na folha de papel "conquistador".

Virás ainda a amar, como por mim,
quem mais amei e se foi embora.
A cabeça curva-se ao desígnio.
A mão de cada um entende essa desordem.
A primeira palavra diz-nos tudo,
a segunda já quase nada diz
dizemos depois dela "até outra altura".
Na tenaz noite quem ganhou
ganhei-te eu ganhaste-me tu, a mim?

Se um dia a oliveira selvagem
souber tão bem a ti como sabe à cabra
cala-te, vai com a criança jogar ao pião.
Leva o teu jogo para tão longe
que não o siga a história.
O combate da razão e da melodia
reanima o coração ameaçado.
Pareces livre na vaia dos relâmpagos.

Um jardim de goivos e de cardos
e rícinos num nódulo de chorões
abre um refúgio junto da falésia.
O mar encapelado finda numa lâmina
sobre o promontório.
E vês alguém sentado numa rua
refaz um charro a muito custo
assobia baixinho uma canção antiga.
Joaquim Manuel Magalhães
António Palolo (1978)
in Consequência do Lugar
2001, ed. Relógio d´Água
pintura de Edward Hopper

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Poema 2


Contigo partilhei os vários leitos
dos amigos dispersos. Mesas, sumos,
os degraus mal ardidos do terror.
Contigo um pouco em cada aldeia, enquanto
nada de nós podia ultrapassar
as paredes dos outros que jaziam
no repouso e no largo e tu compravas
permanecendo os nomes tumulares.

Já então começávamos a longa
inelutável morte dos estios
e eu colhia os agoiros nas fornalhas
de inratigável pão. E cada noite
um maior julgamento nos calava.

Já então nos vestíamos nos cantos
de antigamente sós. Contigo, aos poucos,
recomeçava o frio e as grandes vagens.

De terra em terra, humilde, e raramente
antecedendo a desamor final. Sem transição. Sem dor.
E hoje penso que sobreviverei sem ti
ainda quando a névoa sobreposta nos deixar
tão nús como se de hábitos nascêssemos.


Hélia Correia
na antologia "Poesia 71",
selecção de Fiama Hasse Pais Brandão e Egito Gonçalves
1971, ed. Inova
pintura de Edward Hopper

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Memória Transitória



I
Esqueceste-te de que já uma vez te fizeste comigo
a água irreprimível que sobe do fundo nosso.
Era tão outro o tempo da alegria raramente
derramada como riso de espuma. Quem virá
colher-me o que de ontem já não tenho?
Guardo o silêncio porém. Em mim e na cidade
soa a hora de uma solidão que se interrompe.

II
Esqueceste-te de quanto premente era sermos.
E se hoje escrevo é na raiva de não ter gestos
nem mãos. Quem veio assediar-me o último ponto
intacto da minha pele? Pressinto que inerte
se fecha em mim o desalento. Liquidadas é como
se eu a cidade paríssemos no descontentamento
um ser de névoa geográficamente situado.

III
Esqueceste-te de que nem só as multidões respiram.
Celebrava-se o 14 de Julho na rue mouffetard
e comia-se crepes. Terás então desencadeado este
presságio que me revela o espaço prematuro em branco.
Era talvez meia-noite há vários anos paris fechava-se.
Hoje decisivo será o salto que vou formando.

IV
Esqueceste-te de que era ainda há pouco essa cumplicidade.
Ter-lhe-ás recusado o fogo e também o gelo
e o meu ser intermediária nesse tão breve atalho.
Que de mitos nem longes me propus a alimentar-me
por ser de ferro a matéria que me circula.

V
Esqueceste-te de que estou onde nunca terei estado
por ser só artifício essa imagem que forjei
e ser certa e necessária a fadiga insustentável
quando à epopeia se recusa um só rasto de vinho.
Esqueceste-te (vais apenas vivendo) de que é difícil respirar.

Wanda Ramos
E Contudo Cantar Sempre
1979, edições O Oiro do Dia
imagem de Edward Hooper