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quarta-feira, 10 de setembro de 2014
sábado, 4 de janeiro de 2014
[Estou sozinho, coloco a flor de cinza]
Estou sozinho, coloco a flor de cinza
no corpo cheio de negrume amadurecido. Boca de irmã,
tu dizes uma palavra que sobrevive diante das janelas,
e sem ruído trepa, o que eu sonhei, por mim a cima.
Estou de pé na profusão das horas murchas
e poupo uma resina para um pássaro tardio:
ele traz o floco de neve nas penas vermelho-vivo;
com o grão de gelo no bico, atravessa o verão.
Paul Celan
trad. Yvette K. Centeno
Papoila e Memória
in Sete Rosas Mais Trade
1993, ed. Cotovia
pintura de Guy Denning
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Arte,
guy denning,
Paul Celan,
pintura,
poemas,
Poesia,
Yvette K. Centeno
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Algumas 'Irreflexões'
Deus é um deus cinzento
que não se manifesta
Deus é. Mas só existe
quando se manifesta em mim.
Não há comunicação.
A pessoa que morre separou-se.
É pouco a pouco
que os mortos se separam.
Não são vários. É um único
permanente.
Escrever: forma de ir resistindo.
O amor: continuação nos outros
de nós mesmos.
Eis que o corpo é o único templo
verdadeiro
Yvette K. Centeno
Irreflexões
1974, ed. Ática
desenho de Robbert van Wynendaele
sobre
Arte,
bélgica,
Desenhos,
poemas,
Poesia,
robbert van wynendaele,
Yvette K. Centeno
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Os contos de Florbela Espanca
Há alguns dias, concluí a leitura de 'O Dominó Preto', escrito por Florbela Espanca aproximadamente entre 1926 e 1927, mas publicado apenas em 1982, com um prefácio da poeta Yvette K. Centeno, concluindo assim a leitura da obra completa de Florbela. Além deste, havia um outro livro de contos escrito por Florbela, esse publicado um ano depois da sua morte, 'As Máscaras do Destino', cuja segunda edição conta com um prefácio de Agustina Bessa-Luís.
Estes dois livros correspondem a uma fase em que Florbela estava a escrever os últimos poemas de 'Charneca em Flor', que parecia impossível de publicar (E efectivamente, só veio a lume pouco depois do suicídio da autora.), e, enquanto escrevia, lentamente, alguns dos poemas que apareceriam com o título 'Reliquae' na segunda edição desse derradeiro livro de poesia, Florbela dedicava-se, para juntar algum dinheiro, a traduzir ficção francesa. Podendo parecer que terá sido o contacto com a prosa que a leva a escrever contos, a verdade é que já desde cedo Florbela escrevera alguns contos. Não coligidos pela autora em nenhum dos livros publicados, existem cinco contos, agora disponíveis na edição de bolso 'Contos e Diário'.
O primeiro, Mamã, data dos 13 anos da autora, os três seguintes estavam inseridos no manuscrito de 'Trocando Olhares' que Florbela não conseguiu publicar mas que era anterior a 'Livro de Mágoas' (1919) e existe um úlltimo conto ainda, Carta da Herdade, datado dos últimos anos de vida de Florbela.
Esta nota de leitura não tem o propósito de analisar profundamente os contos de Florbela, primeiro porque não me proponho a tão ambicioso empreendimento e segundo porque me parece que as prefaciadoras destes volumes, Yvette Centeno e Agustina, já fizeram brilhantemente esse trabalho. Aquilo que realmente me apetece referir é aquilo que estes contos dizem dessa mulher que era a um tempo pessoa e personagem, como bem explica outra prefaciadora, desta feita do seu 'Diário do Último Ano', Natália Correia.
O que acontece é que os três contos de 'Trocando Olhares' denunciam uma clara imaturidade da sua autora. Com cerca de vinte anos na altura em que os escreve, Florbela fala-nos acima de tudo de amores perfeitos que se por uma ou outra razão se perderam. A escrita em si revela já, nalgumas passagens, uma sensibilidade poética exacerbada que caracterizaria Florbela nos textos que dela se tornaram mais respeitados, os poemas, mas neste contos, o que se nota ainda é uma tonalidade idealista, por um lado, nas situações que imagina, mas também um moralismo muito tradicional que, hoje, diríamos políticamente correcto. À data em que escreve estes contos, Florbela encontra-se nos primeiros anos do seu primeiro casamento, com Alberto Moutinho e é interessante ver como, nas cartas escritas nesta época à confidente e amiga Júlia Alves, Florbela, aquela que em tantos dos poemas da mesma colectânea não publicada se revela insatisfeita, saudosa e apaixonada quase doentiamente, fala frequentemente da felicidade da vida matrimonial, como que aceitando nas cartas a vida vulgar que, nos poemas, parece não coincidir com a sua personalidade.
Assim, nestes três contos, Florbela envereda não necessariamente pelo elogio da vida de média-burguesia que era a sua, mas pelo menos pela sua defesa. Aqui, encontramos personagens essencialmente comprometidas com todo um código de valores e comportamentos que se sobrepõem a qualquer exaltação dos sentimentos. São pessoas honradas e admiráveis que aqui encontramos e, assim, estes contos ganham uma certa frieza porque, absorvidos pelos códigos tradicionalmente aceites pela sociedade, estes personagens parecem raramente atravessados por alguma humanidade.
Cronologicamente, os seis contos de 'O Dominó Preto' distam quase dez anos desses três incluidos em 'Trocando Olhares'. Quando Florbela os escreve, vive já com o seu último marido, Mário Lage, e atravessou já alguns dos maiores dissabores que marcam a sua curta vida. Além disso, publicara já 'Livro de Mágoas' e 'Livro de Soror Saudade' (1923) e escrevera a maioria dos poemas de 'Charneca em Flor', unanimamente considerado a sua obra-prima. Mas toda a intensidade que, da vida, perpassa para os poemas desse terceiro livro, parece passar completamente ao lado da escrita dos contos de 'O Dominó Preto'. Ler as obras pela sua ordem de escrita só pode causar uma certa confusão ao leitor porque, enquanto na poesia Florbela atinge vários picos de intensidade que trariam valor à sua poesia, o tempo e a vida parecem não ter passado pela escrita em prosa e os contos coligidos neste volume parecem, em muito, pertencer ao mesmo tempo dos outros três, partilhando com eles aquela mediocridade talentosa, como lhe chama Agustina, que torna os seus contos por demais comuns, acabando por, quase sempre, desiludir.
Aliás, o cojunto em si, ao ser maior do que o de 'Trocando Olhares', acaba por potenciar as fragilidades de todo o universo que aqui é explorado.
Na poesia, Florbela escreve exaurida sobre o desejo, a sensualidade e a tristeza, reclama o direito a ser humana e não apenas mulher, canta o esplendor de ter um corpo e de sentir, ou seja, arrisca. Isto é tanto mais importante, quanto a sua poesia em quase tudo é conservadora, passando completamente ao lado dos valores modernistas do 'Orpheu' e de tudo o que de mais vanguardista se fazia na altura. Florbela segue estruturas canónicas, persegue o virtuosismo a um ponto obsessivo, mas demarca-se das restantes fazedoras de sonetos pela intensidade daquilo que diz, da forma destemida como se mostra pois, escrevendo aparentemente de acordo com aquilo que era a poesia escrita pelas mulheres desse tempo, Florbela acaba por escrever contra essa mesma poesia, assim ultrapassando-a.
Assim, apenas pode desiludir-nos ver como, nestes contos, Florbela se revela a mais ordeira e vulgar das mulheres. Nestes contos, quase invariavelmente, temos os homens, que têm as suas vidas amorosas e sexuais com uma mais ou menos discreta liberdade e temos as mulheres que são ou completamente virtuosas e exemplares ou são umas megeras que desgraçam os homens. Acaba por a mulher ter, de facto, o poder, mas esse poder funciona sempre como um presente envenenado, pois acaba por a mulher ser, acima de tudo, aquela que destrói. Uma vez mais, os personagens encontram-se em pleno compromisso com determinados códigos e isso resulta em que estes persoangens não sejam pessoas, mas meros esteriotipos. Assim, por mais que a escrita continue a ser nalgumas das suas frases e das suas imagens absolutamente poética e sensível, não consegue salvar estes contos de pareceram galciais experiências de laboratório em que se experimenta determinado esteriotipo em contacto com outro para ver qual é mais forte. No fundo, é nisto que consiste toda a escrita ficcional, e é para fazer com que essa experiência não seja glacial que serve a humanidade que o escritor tenta conferir aos seus personagens mas Florbela não consegue ou não quer dar-lhes essa humanidade.
E mais surpreendente do que isto, numa escritora como Florbela, é que se estes contos representassem um código de ética, este refutaria completamente os princípios subjacentes na poesia dela, pois aqui, o grande valor a preservar é a vida do homem, do ser masculino, e a mulher é boa se ajuda a preservar essa vida e má se a faz perder-se.
Como bem assinala Yvette Centeno, neste conjunto, apenas O Crime do Pinhal do Cego parece escapar a esta tendência, uma vez que a mulher que cedeu aos desejos passionais e sexuais consegue parecer-nos humana o suficiente para que o conto, em si, não se assemelhe a uma lição de moral. E, como aponta ainda a prefaciadora, é talvez o regresso à charneca alentejana que se dá neste conto que desperta em Florbela a maior profundidade na criação dos seus personagens. A maioria dos contos passa-se no Porto e em Lisboa, e a mitificação do espaço da infância de Florbela pode, de certa forma, relembrar-nos a angústia de Cesário Verde em Lisboa, por exemplo.
Caso com contornos diferentes é o de 'As Máscaras do Destino'. Trata-se de um livro escrito em honra de Apeles Espanca, o irmão de Florbela, que havia falecido em 1927. O luto de Florbela parece em muito passar por estes contos e talvez seja isso que, nalguns aspectos, lhe confere alguma da profundidade que faltava aos contos que havia escrito até então. Apoquentada como estava com os perigos que corriam os homens e com a manutenção das morais tradicionalistas, Florbela acabava por negligenciar um pouco até os sentimentos que se propunha analisar nos seus contos. E isto não acontece com 'As Máscaras do Destino'.
A dedicatória ao irmão morto será, talvez dos mais belos e mais intensos textos escritos por Florbela e nela, como bem nota Agustina, além da agonia em que Florbela se sentia mergulhada, subliminarmente se nota um certo sentimento de culpa. O Aviador, conto que abre a colectânea, descreve precisamente a morte do irmão de Florbela, mas completamente transfigurada, de maneira a parecer uma espécie de pintura fantasiosa em movimento. O conto seguinte, A Morta, parece claramente projectar Florbela, mortificada pela perda do irmão amado e desejando ter força para fazer acordar os mortos. Os restantes contos parecem ser traçados a partir destes dois, havendo constantes projecções de Apeles e de Florbela, e criando entre eles laços distintos que passam, inclusivamente, pela pulsão erótica sublimada que se sente sempre que Florbela escreve sobre o irmão.
Se por um lado é intensificado o discurso sobre os sentimentos, a morte e o desaparecimento mais ainda parecem perpassar as personagens dos contos e, mais do que nunca, estes nos parecem como que espíritos sem corpo e sem densidade, esvaziados da multiplicidade que caracteriza o ser humano. E uma vez mais, Florbela nos apresenta a vida burguesa como modelo de estabilidade e a vida dos simples como modelo de bondade e de virtude. A figura da mãe é uma vez mais tutelar, ela é a mulher que todas as mulheres deveriam ser e, de facto, é a uma espécie de pureza virginal que parecem aspirar as boas mulheres destes contos, como em As Orações de Soror Maria da Pureza.
Agustina está convicta, e com razão, de que para ler estes contos é preciso conhecer a mulher. Mas a mulher, parece-me, fez todos os possíveis para nunca ser verdadeiramente conhecida. O seu Diário deixa bem clara a intenção de Florbela de criar uma versão ideal de si mesma e de por essa versão ser tomada.
Assim, os seus contos vêm lançar ainda mais confusão sobre uma persoanlidade que se nos apresenta em tudo estilhaçada. Florbela defende-se enquanto mulher na poesia, reivindica direitos e liberdades, ao passo que nos contos é moralista a um ponto que nos soa forçado. E será talvez isso que nos dizem estes contos. Florbela, como diz Agustina, não foi vítima do seu tempo. Diria eu que foi vítima de si mesma, até certo ponto. Ela sabia que não era como as outras mulheres, e isso mesmo dizia ao expressar-se poeticamente. Para a prosa, ela reserva os seus sentimentos de culpa e, projectando-se nas suas personagens ela diz-nos duas coisas: que temia que a sua diferença fizesse dela essa mulher desgraçada que destruía os homens e, assim, o mundo; e que aspirava a ser essa mulher exemplar e admirável, cuja vida nunca diferiria muito do ascetismo moral da vida monástica. Mas a sua poesia foi mais sentida do que vivida, uma vez que Florbela não encontrou no amor de nenhum homem, esse terreno tão pisado, o amor de um deus que desejava. Por outro lado, não viveu como nenhum dos esteriotipos de mulher que encontramos nos seus contos. Ou seja, não foi o que sentia e não foi o que queria ser. Não pôde ser livre como não pôde ser virtuosa.
Os seus contos são, assim, uma outra faceta da sua complicada estrutura. Eles representam os medos e as esperanças de Florbela e só adensam o seu sofrimento, porque nem uns nem outros chegaram a uma concretização, condenando-a assim a uma existência difusa. E se o seu Diário subliminarmente nos confirma esta ideia, a verdade é que, mesmo diarísticamente, Florbela é incapaz de se escrever objectivamente, nem pouco mais ou menos. E por isso, a pergunta mantém-se: quem era Florbela Espanca? Cada linha que escreve a torna mais confusa e o suicídio só nos mostra que ela partilhava esta confusão. Talvez sobre ela possamos parafrasear Agustina quando falava de Byron: artista demais para ser honesta.
domingo, 1 de abril de 2012
Despedida
sentei-me ao sol
no alto das escadas de Alcântara
a ver os barcos
o rio
os carros que faziam barulho
lá em baixo
fiquei assim muito tempo
sentada ao sol
deixei o sol aquecer
um corpo que já tremia
por ter ficado sozinho
perplexo
sem resistência
por ter ficado sozinho
o corpo já se morria
todas as árvores são
aquelas mesmas árvores que eu vi?
e o céu
é sempre o mesmo céu?
e a terra em que me deito
é sempre a mesma terra
quer eu diga que vivo
ou que morri?
Yvette K. Centeno
Perto da Terra
1984, ed. Presença
imagem de Lourdes Castro
sobre
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Lourdes Castro,
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Yvette K. Centeno
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Autobiografia
Lembro-me que houve um tempo
em que escrevia coisas.
Um tempo em que fechava portas e janelas
e saía de mim
e percorria o espaço cerebral.
Lembro-me que mais tarde
tudo me correu mal.
Foi como se tivesse morrido nas palavras
tão carinhosamente
tão cuidadosamente escolhidas
entre as outras palavras.
Lembro-me que houve noites de insónia
e de lua
e de passeios em branco pela rua
com uma vontade doida de chorar
subindo na garganta.
Lembro-me de não poder falar
e de sentir saudades perseguidas
do primeiro tempo
em que escrevia coisas.
Saudades.
Então fui ter com elas.
Estranhas damas de dentro
que não saem de casa
estranhas damas sentadas
em cadeiras mentais
fui ter com elas
porque em verdade lembro-me
que não podia mais
e tinha de as matar.
Para começar sentei-me
numa cadeira ao lado.
Falei do tempo
e do espaço
e do momento marcado
no relógio.
Depois disso agarrei no ponteiro das horas.
Uma pancada seca na cabeça.
Fim.
Lembro-me ainda que saí
deixando a porta aberta
atrás de mim.
Yvette K. Centeno
O Barco na Cidade
1965, ed. Guimarães
imagem de Hans Bellmer
sobre
Arte,
hans bellmer,
poemas,
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Yvette K. Centeno
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
O Rei
I
conta-me
conta-me entre as amêndoas
entre as mulheres
que é preciso
depor
aos pés
do rei
conta-me
torna-me
amarga
faz-me saber
mais
do que sei
Yvette K. Centeno
in 'Poesia do Mundo'
org. Maria Irene Ramalho de Sousa Santos
1995, ed. Afrontamento
pintura de William Holman Hunt
sobre
Arte,
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poemas,
Poesia,
William Holman Hunt,
Yvette K. Centeno
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Vozes
Vozes
contra as paredes
nessas vozes
não se pode nadar
o fluido é espesso
misto de alga
e de esgoto
destroçar
das paixões
Água libertadora
na praia
ao fim da tarde
nadando
com a maré vaza
na direcção da rocha
onde os deuses
se escondem
YVETTE K. CENTENO
Entre Silêncios
1997, ed. Pedra Formosa
pintura de ÂNGELO DE SOUSA
sobre
Ângelo de Sousa,
Arte,
poemas,
Poesia,
Yvette K. Centeno
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Um poema
Que aconteceu? A pedra saiu do monte.
Quem despertou? Tu e eu.
Linguagem, linguagem. Co-estrela. Terra-próxima.
Mais pobre. Aberta. Pátria.
Para onde foi? Para o que não se perdeu.
Foi com a pedra, com nós dois.
Coração e coração. Que achámos pesado demais.
Tornar-se mais pesado. Ser mais leve.
Paul Celan
trad. Yvette K. Centeno
Poemas de Paul Celan
1979, ed. Inova
água-forte de Gisèle Celan-Lestrange
sobre
Paul Celan,
poemas,
Poesia,
Yvette K. Centeno
sexta-feira, 11 de março de 2011
Canções Para R.C.

I
Com uma ruga
interrogaste a morte
.
sem desviar os olhos
viste-a lançar os dados
e decidir a sorte.
II
Era a casa das flores.
No corredor
choravam as mulheres.
Não sabiam porquê.
Era tarde?
Era cedo?
Era a casa do medo.
III
Já não perguntas
já sabes.
De noite a fada madrinha
vem trazer a luz da vida.
Só de noite,
não de dia.
não de dia.
De dia fica escondida
porque a luz é pequinina
IV
Ao longe na floresta
o riso dos irmãos
pequeno brilho
de ouro
não é uma clareira
é a fresta rasgada
na pupila dos olhos.
Yvette K. Centeno
Canções do Rio Profundo
2002, ed. Asa
2002, ed. Asa
pintua de Edvard Munch
sobre
Arte,
Edvard Munch,
pintura,
poemas,
Poesia,
Yvette K. Centeno
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Evocações

Só matéria e memória
o caminhar do homem na treva da sua alma
Há um portão? Uma esfinge? Uma ilusão de resposta?
Radioso, também o mito cega
Terá sido difícil abandonar a floresta. Lá permanece
a raiz
a floresta, mar profundo, verde azul montanhoso...
Chegou-se ao fim do percurso
Toscos são os coturnos, mas de boa madeira: a tábua
que o levará, ao homem transfigurado
Não há guardião nesta porta
o fio do labirinto, no interior
do olhar
ressuscitando a pedra que é só isso
a dura flor da terra.
Yvette K. Centeno
Entre Silêncios
1997, ed. Pedra Formosa
pintura de Paul Cézanne
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Yvette K. Centeno
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Elogio da Distância

Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.
Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:
Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.
Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.
Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.
Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.
Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:
Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.
Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.
Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.
Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.
Paul Celan (trad. Yvette K. Centeno)
Papoila e Memória
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Yvette K. Centeno
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Yvette K. Centeno: Matriz
ROMANCE COM SENTIDOS


Yvette K. Centeno tem, desde a sua estreia em 1961, sido uma das autoras mais prolíferas da literatura contemporânea. Se à primeira vista se poderia dizer que se dividiu entre a poesia, o romance, o ensaio, o teatro e a tradução, eu antes diria que Centeno juntou em si todas estas categorias. Aqui há, antes de mais nada, um universo, um mundo, uma individualidade: estamos perante uma produção que tem as suas leis, definidas e concretas, com um imaginário próprio ligado não raras vezes aos símbolos alquímicos, herméticos e maçónicos, e também uma forma muito marcada, que se prende essencialmente com questões de ritmo, de escolha minuciosa de palavras. Tudo isto talvez explique por que, no fim de contas, a escrita de Yvette K. Centeno não é uma escrita fácil. Nisto não há qualquer tipo de demérito, antes uma característica como outra qualquer. Dela disse, maldosamente, João Gaspar Simões que "não é deste nem daquele país: não é deste mundo", que nos seus romances "Há algo de esperanto, um esperanto altamente trabalhado". No entanto, aquilo que serviu a Gaspar Simões para maldizer a escrita da autora tem sido notado por críticos menos reaccionários como justamente uma das características mais individuais e fascinantes desta escrita.

E se a estreia de Centeno se deu em 1961, com a publicação de "Opus 1", em poesia, foi no ano seguinte que editou o seu primeiro romance, "Quem, Se Eu Gritar". Seguiram-se "Não Só Quem Nos Odeia" (1964), "As Palavras, Que Pena" (1972), que formavam com o primeiro uma espécie de trilogia. A novela cómica "As Muralhas", publicada em 1986 sob o pseudónimo de Barbara Escrava e a que não faltavam alguns elementos mais sérios ligados aos símbolos herméticos é uma história que, de qualquer forma, se desvia um pouco dos primeiros três romances da autora, ainda que se aproxime de alguns momentos da sua bibliografia, como poderia ser a peça de teatro "Será Deus o Dr. Freud?" (2000).
"Matriz", editado em 1988, é um romance que, sob alguns aspectos, dá continuidade ao universo de Yvette K. Centeno, mas, sob outros, não deixa de representar um certo desvio.
Explico-me: tal como acontecia nos primeiros romances, "Matriz" está cheio de símbolos facilmente associáveis à poesia, e à poesia da autora, e não só os símbolos, como a própria linguagem, mostram um conhecimento dos processos mais característicos da poesia, eles representam uma maneira de olhar para o mundo. A questão do ritmo não é alheia à da poesia, mas vale também por si só, uma vez que, em certos trechos do texto é fácil sentir como as palavras vão ganhando uma musicalidade própria, e não é difícil lembrarmo-nos que foi justamente esse ritmo que levou a autora a manter uma série de citações na sua língua original em "As Palavras, Que Pena". Portanto, como vemos, nalgumas questões formais, este continua a ser um romance em que facilmente reconhecemos a voz de Yvette K. Centeno.
Falemos agora do desvio. "Matriz" propõe-se a uma tarefa nada fácil. O que percebemos após algumas páginas, é que não estamos aqui só a ler a história de "Matriz". A construção do romance, o lugar que tem na vida da sua autora e dos que a rodeiam são igualmente parte desta arquitectura.
Imaginemos o projecto de um edifício, primeiro como desenho que sai das mãos de um arquitecto. Depois, o edifício está pronto, e é possível observar no real aquilo que estava no desenho. No entanto, todas as técnicas de construção e de engenharia são mais do que partes integrantes da realização desse desenho: elas tornam-no possível.

É exactamente isto que se passa com "Matriz". Assim sendo, a história constrói-se e nela, vemos também essa construção, passamos a ter uma noção das dúvidas, dos conceitos, dos objectivos e até da leitura que a escritora tem daquilo que escreve. Por isso, neste livro não faltam aforismos, referências culturais, e até referências biográficas, como por exemplo à publicação do primeiro romance, há 26 anos atrás. Este romance é definido pela sua autora como "Narrativa dialogada? Ficção sem descrições, sem personagens-tipo, sem fio regular, sem desenvolvimento" (pag.44). E é esta outra das questões que importa referir: é que "Matriz" vem colocar em causa o objectivo do livro, da prosa; um pouco aquilo que num estilo completamente diferente Maria Gabriela Llansol fez com os seus romances.
A verdade é que é pouco relevante se "Matriz" é um romance. É de facto uma narrativa, que cruza em si a poesia, o romance, o diário, o ensaio, a análise, a filosofia, o aforismo. Portanto, o que interessa é saber se o faz bem. E parece-me que sim. Note-se que esta junção de formas tem toda a probabilidade de resultar mal: poderia ser excessivo, confuso, aborrecido, inconsequente, pretensioso e desregrado. De tudo isto, "Matriz" será apenas um pouco confuso, nalguns dos seus fragmentos: não é o tipo de livro que se possa ler enquanto se ouve música ou se espera por um amigo no café. Requer atenção para ser plenamente entendendido. E dada a mestria, quase obcessiva com que está articulado, a verdade é que este é um romance que nos dá aquele insight sobre o processo criativo da sua autora, e levanta toda a sorte de questões relativas à escrita, ao romance, à leitura, à literatura, aos leitores e à crítica.
Com isto, podemos voltar àquilo que afirmei no início deste texto: é que Yvette K. Centeno não se divide entre géneros, reúne em si os diferentes géneros. O resultado é que os seus romances são verdadeiros momentos culturais, que questionam tudo aquilo que constitui esse mundo a que chamam "literatura", penetram no desconhecido, buscam respostas ou possibilidades.
E mais interessante ainda é que eu tenha lido este livro vinte e dois anos depois de ele ter sido publicado e mesmo assim, tanto do que ali se lê tem ainda completo sentido hoje. Porque ser-se bom é já muito bom, mas resistir-se ao tempo é melhor. E estes livros aí estão, sem envelhecer.
sobre
Livros,
notas de leitura,
Yvette K. Centeno
terça-feira, 1 de junho de 2010
um poema
Não conhecia a noite povoada
Não conhecia a noite
cheia por dentro de espaços
e de tempos
Não conhecia a noite
andando primeiro pela estrada
e andando depois por um caminho
Não conhecia a noite
dos corpos sem amor
em êxtase de pé
devagarinho
Yvette K. Centeno
Poemas Fracturados
1967, Guimarães editores, colecção Poesia e Verdade
desenho de Sadsamson
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Desenhos,
poemas,
Yvette K. Centeno
domingo, 7 de março de 2010
As Mães (IV)
Chegou.
Vinha da noite escura.
Sentou-se à mesa connosco
pediu o pão
e o vinho.
Não disse mais,
só um pouco de luz,
um Anjo que nos guarde.
Assim como chegou
assim partiu.
Yvette K. Centeno
Canções do Rio Profundo
ed. Asa, 2002 (esgotado)
desenho de Sadsamson
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Primavera
O homem funerário tirou respeitosamente o boné preto
quando o morto entrou no cemitério
e do boné sairam dois coelhos brancos
um ramo de tulipas
três cravos amarelos
e um cavalo árabe das noites.
É Primavera disse o cavalo árabe das noites
e comeu as tulipas e os cravos
e assustou os dois coelhos brancos
É Primavera
e as pessoas começaram a morrer
porque gostam de flores e de sol
e de música lenta
Y. K. Centeno
O Barco na Cidade
guimarães- col. poesia e verdade, 1965
imagem: Paul Klee
sobre
Klee,
poemas,
Yvette K. Centeno
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
o café
Sentadas nas mesas do café
as pessoas olhavam sem ver bem
e nos olhos de cada uma iam passando a sério
os ódios pequeninos quotidianos
como um enterro de terceira classe lento
e grave
seguido por dois cães de luto
e um chapéu funerário sem cabeça
Yvette K. Centeno
Opus 1
1961, edições ática
imagem: Ângelo de Sousa
sobre
Ângelo de Sousa,
poemas,
Yvette K. Centeno
sábado, 5 de setembro de 2009
o estilo
O estilo é uma arte de bem dizer o que se pensa. Se não se pensa se não se tem nada a dizer qual é o estilo? Arabescos no vazio não me interessam.
Yvette K. Centeno
"No Jardim das Nogueiras"
Bertrand editora, 1982
sábado, 22 de agosto de 2009
Doença

Aos pés da minha cama
o pássaro do pensamento.
Está pousado. Não voa.
Toda a noite
todo o dia
porque não voa ele?
Qual o sinal que espera?
Mando abrir a janela
mostro as árvores fora
sopra o vento
as folhas cantam
uma canção repetida.
Mas o pássaro não voa.
Está de guarda
ou está sem vida?
Yvette K. Centeno
Sinais
1977, editorial Inova
imagem: Salvador Dalí
sobre
poemas,
Salvador Dali,
Yvette K. Centeno
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