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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

[Com os seus nomes há-de chegar a morte,]



Com os seus nomes há-de chegar a morte,
e neles se desprende outro sentido
para envolver agora qualquer réstia
de luz, o que nos cerca como o vento


preso a leves perfis de novo erguidos
assim como veias, lábios que procuram
apenas a surpresa da palavra
mais cedo abandonada noutra súbita


manhã que se transforme no vestígio
da voz quase desperta ao recordar
o que nos pertencia e foi mais nosso


que a suspeita, o lamento onde se apaga
o limite de tudo, um gesto ao longo
da nudez, que era a sombra de a mostrar.

Fernando Guimarães
Casa: O Seu Desenho
1985, ed. Imprensa Nacional- Casa da Moeda
desenho de Henry Moore

sexta-feira, 11 de março de 2011

O Antes Peso da Cinza


no tempo em que os animais falavam
ficávamos ímpares de monotonia
na margem.
o barqueiro das evidências depunha-nos aos pés mais um morango cinzento
que nos dizia ainda respeito na espera e na maternidade desconhecida.
sob a sebe de damasco amarelo e dourado da orla da colina
os carteiros descreviam arcos de sub-nutrição e de paixoneta
ferindo os tímpanos da chuva com o embrião da roda da bicicleta suprema.
enquanto flatulentos flirtavam tubarões na tranquilidade.

por mais que não nos queiramos impedir
assiste-nos a dor:
a tampa do bule tem a sua circunferência,
na tampa do bule reproduz-se o lírio das tuas nádegas fumegantes.
assiste-nos anterior a ânsia.
Regina Guimarães
Abaixo da Banalidade, Abastança
1980, ed. Hélastre
desenho de Henry Moore

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Elogio da Distância


Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.

Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.

Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.


Paul Celan (trad. Yvette K. Centeno)
Papoila e Memória