sábado, 14 de julho de 2007

Laurie Anderson no Theatro Circo

ODISSEIA










Esta Sexta-Feira 13 não correu nada mal nem a mim, nem a Laurie Anderson, ela porque brilhou apresentando o projecto que lançará em breve, "Homeland", no Theatro Circo de Braga; e eu porque assisiti.
Com um longo e bem-sucedido percurso na música experimental, que começa em 1976 com o álbum "For Instants" e se prolonga por (Até agora.) 12 álbuns, que passam pelo megalómano sucesso de "O Superman" em 1982. O seu próximo álbum, objecto de análise de dois espctáculos em Portugal (Um no Theatro Circo, outro na Culturgest, a 15 de Julho.), inseridos na corrente digressão europeia, chama-se "Homeland", e são-lhe aliados conceitos como "poema épico" e um olhar "para as obsessões que a América tem com a segurança, a distância, a informação, a relação entre o medo e a liberdade, a aceitação crescente da violência e a persistente nova linguagem de guerra". Estão correctos. Tudo isto é baseado em factos verídicos.




Face ás barrocas decorações da sala, onde o vermelho joga com o dourado, e ambos jogam com a luz; o palco parecia muito minimalista. Quatro cadeiras, teclados, uma guitarra, uma tela no fundo, lâmpadas pendendo desde o tecto em longos cabos brancos, e muitas velas acesas pelo palco.
Laurie Anderson entrou no palco com os três músicos, com pouco tempo de atraso, e lança-se numa estupenda história que relata a origem da memória. A partir daí, somos avassalados por uma espécie de ópera experimental, com a famigerada dimensão épica, a omnipresente e directa componente de ataque político á América de Bush e á América típica, a que tão bem conhecemos, dos adolescentes obesos, trôpegos, estúpidos e com pouco para dizer. Há também os retratos da América que já não sabe pensar por si mesma, questiona a hegemonia da nação de W. Bush, tudo com uma adorável ironia e uma invejável perspicácia. E, no meio de tudo isto, Anderson ainda tem tempo de nos falar de histórias de humanidade, tanto pessoais, como num sentido mais geral.
Era impossível, literalmente, dizer qual foi o melhor momento de todos, ter-se-ia que referir obrigatóriamente (E os títulos podem não ser exactamente estes.) "Only An Expert Can Deal With A Problem", a beat mais forte, e um fenomenal arranjo de violino, uma letra fantástica que nos diz que só um perito pode lidar com um problema, porque detectar o problema é metade do problema, e, por surpreendente que possa parecer, ainda consegue um espacinho para o programa de Oprah Winfrey, para os Óscars, e para (Lá está.) os bombardeamentos da América. Depois, claro, "This Transitory Life" uma letra mais filosófica, com laivos de inteligência que não encontramos em muita gente; "The Sky, The Land" em que nos conta uma história de um mundo que não existe, onde o que existe são apenas imagens desse mundo, "I´m a Bad Guy", a história do tal típico americano, contada na primeira pessoa, com um irresistivelmente sarcástico
"_Cause I´m a bad guy..."
a deslizar por dois violinos em linhas diferentes.
Por muito bom que tudo isto tenha sido, fiquei sem resposta para a pergunta
"Para onde foi o expectáculo multimédia que costumava acompanhar os concertos de Laurie Anderson?"
isto porque gostaria de ter visto este último. Mas pronto, perdoa-se.
Com tudo isto, só é uma pena que este tipo de músicos passe apenas por salas mais pequenas. Claro que o Theatro Circo não deixa de ser um espaço agradável, e, a nível de programa, é provavelmente a melhor sala do Norte, precisamente porque músicos como Laurie Anderson, ou Joanna Newsom, Andrew Bird ou Patrick Wolf, ou seja, do universo da música alternativa, que folk, quer experimental, quer indie, não vão aos Coliseus, não vão ás salas grandes. Não percebo porquê, mas não deixo de lamentar que se recebam os D´ZRT nessas salas e não se receba Laurie Anderson. Uma trsiteza e um clássico português.




Nota Final_ 19/20

1 comentário:

Daisy Duck disse...

Obrigada por me fazer recordar, com mais nitidez, o que vi/ouvi nesse espectáculo. As músicas que põe em evidência são também as que mais apreciei.