sexta-feira, 23 de julho de 2010

Sade: Soldier of Love

OS ELEMENTOS DO DESEJO

Sade (Pronuncia-se "sha-day".) revelou-se em 1984: o álbum chamava-se "Diamond Life" e foi difícil a partir daí não se conhecer esse maravilhoso hino que era "Smooth Operator". Sade, originária da Somália, é uma cantora de canções onde a suavidade e a sensualidade andam continuamente de mãos dadas, numa celebração do amor. Ao contrário do que acontece em muitos álbuns de estreia, "Diamond Life" não era promissor, era já a confirmação. O percurso da cantora prosseguiu com "Promise" (1985), "Stronger Than Pride" (1988), "Love Deluxe" (1992) e "Lovers Rock" (2000), além das colectâneas "Best Of" (1994) e "Lovers Live" (2002) constituido inteiramente por canções ao vivo.
Sade não é o tipo de cantora que grava muito, nem o tipo de cantora que depende tanto ou mais do que dela se diz nos jornais de música ou outros do que da própria música. Bem pelo contrário: os seus álbuns são recolhas de canções certeiras, e que falam por si só. Será uma das cantoras com um percurso mais individual e genuíno da música actual, e por isso mesmo com ela acontece algo que muitas vezes não acontece: a sua música permanece intemporal ou anacrónica, porque as suas canções fazem o mesmo sentido em 2010 que faziam em nos anos 80.



"Soldier Of Love", lançado este ano, vem pôr termo a dez anos sem originais. Perante isto, é evidente perguntar-se de Sade precisou de um tempo para assimilar o seu percurso 1984-2000, de que "Lovers Live" vem dar um perfeitíssimo testemunho. Poderá ter sido esse o caso.
O álbum abre com "To The Moon and the Sky", que será talvez a canção mais ancorada no passado. No entanto, não há motivo para alarme, porque se segue a canção "Soldier of Love", que nos vem mostrar exactamente em que consiste o som do álbum a que dá título: por um lado nota-se ainda a atmosfera que representa a identidade musical de Sade, mas algo mudou: há nestas canções algo de selvagem, de animal, porque nunca como agora a sua música soou a algo exótico, mas muito interiorizado, muito humano, muito sincero. Há na maioria das canções beats com ritmos muito demarcados, mas não o tipo de beats a que estamos habituados que chamam pela dança: estes ritmos vão mais longe, chamam pelo próprio corpo, pelo movimento, como se traduzissem essa linguagem corporal: daí que diga que estas canções têm algo de profundamente humano. São canções que parecem tornar claros os elementos do desejo. Outros exemplos perfeitos do que acabo de escrever serão canções como "Bring Me Home" ou "Long Hard Road". Nesta última, é de notar como essa "animalidade" pode inclusivamente fazer-se ouvir nas canções mais melancólicas, e "Long Hard Road" será eventualmente a mais melancólica de "Soldier of Love". E se já no passado ouvimos Sade em canções tristes, não ouvimos agora os belíssimos lamentos, como por exemplo "Jezebel": é já outra coisa, mais natural, numa postura precisamente de "guerreiro", e não esqueçamos que na canção que dá título ao disco Sade se assume como um soldado do amor. Outro exemplo de uma pungente melancolia é a canção que termina o álbum, "The Safest Place": uma história do amor que põe fim ao deserto, construida com pouco mais que uma guitarra, um contrabaixo e arranjos de cordas.
Canções como "Babyfather" ou "Be That Easy" podem, a uma primeira audição, parecer gerar uma espécie de desequilíbrio na dinâmica do disco: não por serem más canções, mas por nos soarem familiares. No entanto, desengane-se quem pensa ouvir aqui novas versões de músicas como "By Your Side": estas canções instauram uma espécie de "modernidade" da música de Sade: trata-se de pensar um pouco "outside the box": com pequenos arranjos electrónicos, de onde transpira uma espécie de alegria. Serão no entanto as canções menos interessantes do disco.


De notar são ainda os arranjos, complexos, e no entanto construidos com base em pouco mais que guitarra-bateria-baixo-saxofone-cordas. Ouçam-se "In Another Time" ou "Skin" para o confirmar: são canções em que os arranjos constituem uma parte indispensável da melodia, e no entanto, Sade não se moveu do esquema habitual das suas canções. Mas penso que é isso que acontece quando realmente se conquistou o poder de escolher o que se quer: trabalha-se da forma mais confortável sem que as canções resultem menos criativas por isso: o minimalismo não é uma limitação aqui.
"Soldier Of Love" também não contribui para que se possa fazer aquilo que até agora ainda não foi possível fazer: catalogar a música de Sade. De facto, um pouco como acontece com todos os álbuns passados, se quisermos classificar "Soldier Of Love" seremos obrigados a uma série de palavras separadas por barras. Algo assim: jazz/soul/ r&b/ sexy-hip-hop/blues/smooth jazz/classic pop/new-age (...) etc, etc, etc. No fundo, isso só favorece a cantora. É um facto: Sade está definitivamente dentro do seu estilo, daí não a podermos incluir num género ou numa tendência.
As letras mantém-se dentro das que Sade sempre escreveu, falam-nos maioritariamente do amor e da relação com o outro, com poucas palavras, só as essenciais, muitas vezes dentro do estilo story-telling que já ouvíramos em álbuns anteriores. Algum vocabulário, no entanto, ajuda a reforçar a ideia central do disco, de que o título é resumo, portanto Sade soube sintetizar bem as suas palavras numa ideia só.
Por último, penso que é importante perceber que o facto de, em 26 anos, Sade ter apenas seis álbuns de originais só a favorece: isto porque cada vez mais se percebe que o que Sade grava é apenas o essencial, de maneira que no seu percurso não há "palha". Talvez por isso mesmo "Soldier of Love" é mais um triunfo para o percurso de Sade, mais um álbum certeiro que convém ouvir repetidamente.


2 comentários:

sleeping beauty disse...

sempre gostei da Sade porque ao longo do tempo continua a ter um universo pessoal, sem pressas nem cedências a floreados para aceitação de massas/exito imediato. Mas com a tua análise tão bem observada e construida, dá vontade de ir a correr comprar os discos tods e principalmente Soldier of Love...

Supermassive Black-Hole disse...

Aconselho completamente. Vale a pena ouvir, e confirar exactamente aquilo que dizes: não há cedências nem vontade de aceitação...