sexta-feira, 23 de julho de 2010

Agustina Bessa-Luís: A Sibila

A EXPERIÊNCIA PESSOAL DA DUALIDADE


"A Sibila" foi o romance que, em 1954, lançou para a ribalta o nome de Agustina Bessa-Luís. Recorde-se que, anteriormente, Agustina havia já publicado "Mundo Fechado" (novela, 1948), "Os Super-Homens" (romance, 1950) o os "Contos Impopulares" (contos, 1953).



Contextualizando a sua prosa, percebemos que ela se inicia num tempo em que a prosa neo-relista, umas vezes como convicção profunda, outras vezes por militância partidária, era o "regime vigente".
Agustina, no entanto, não envereda por esse caminho. Em "A Sibila" nota-se já a romancista genial que viria a autora viria a ser.
"A Sibila" é, como todos os romances da sua autora, uma saga de família e da sua casa, a Casa da Vessada. A questão das casas é essencial na obra de Agustina: elas são o verdadeiro "narrador", a personagem omnisciente, que testemunha as várias gerações que a habitam. A história da Casa da Vessada remonta a Francisco, o patriarca da família, e das suas várias reacções "promíscuas", antes e depois do seu casamento com Maria. A primeira relação realmente importante que denotamos é a dele com a filha, Joaquina, chamada de Quina, mais profunda e complexa do que a que tem com qualquer outro dos filhos, Estina, João e Abel.
Após a morte do patriarca, os filhos vão gradualmente abandonado a Casa da Vessada, até restarem apenas Maria e Quina. Após a morte da primeira, Quina torna-se a senhora da Vessada, e vai alargando os seus negócios e as suas terras e as suas boas relações com a comunidade envolvente. E se inicialmente essas relações compreendem os empregados da Casa, depois de estar bem na vida, Quina acaba por se relacionar com a camada "alta". E essas relações com pessoas da nobreza constrói-se menos pelas suas qualidades como latifundiária, e mais pelas suas ligações com o "oculto". Depois do desaparecimento de uma sobrinha, filha de Estina, filha provavelmente psicótica, Quina "prevê" que ela não voltará. Di-lo com tal convicção que todos ficam a acreditar que ela terá algum tipo de visão, uma vez que esse tipo de previsões lhe ocorriam desde que, mais nova, estivera gravemente doente. De facto, a sobrinha é encontrada morta.
É quando essa história se espalha que Quina passa a ser recebida nos meios restritos como "sibila".



A maior dualidade, pois é sempre de dualidades que Agustina discorre, deste romance é precisamente essa: por que haveria de uma mulher bem sucedida de interessar-se por esse tipo de experiências "alternativas"?
"A Sibila" é por isso um romance altamente filosófico, e igualmente humano: como Germa, herdeira de Quina, acabará por concluir, a matriarca aspirava áquilo que todos os seres humanos aspiram: a uma experiência sobre-natural. A grande questão deste livro é essa: que por mais que uma pessoa conquiste tudo aquilo que quer "neste mundo" há-de sempre ter aspiração a algo fora do comum, algo de insólito. E isso toca tanto ao pobre diabo como à mulher rica e bem instalada. E toca também aos corações mais frios, que são frios mas não são invioláveis. Para esse efeito, Agustina convoca mais um personagem: um acidental afilhado de Quina, que acaba por ser para ela como um filho, ainda que a relação entre os dois seja aparentemente cordial, quase distante.
Como a própria Agustina, e como qualquer ser humano no fundo, Quina é incongruente: é a mulher pragmática que no entanto tem o seu vínculo com o divino, é uma gestora mas acaba por depositar o seu afecto num rapaz que nem era do seu sangue. E por essas mesmas incongruências, Quina é um fascínio para todos os que a rodeiam e para Germa, que a odiava e amava ao mesmo tempo. E por isso se constroi esta história. Porque somos obrigados a seguir atentamente cada capítulo: Quina é imprevisível, apesar de parecer que não. No fundo, ela não é fiel a qualquer categoria habitual, a uma estrutura definida: ela é fiel por vezes aos afectos, outras às obrigações. No fundo, é fiel apenas a si mesma, como toda a gente. Assim foi até à morte, e mesmo na morte, como vemos nos últimos capítulos.
Essa contemplação dos mecanismos íntimos que regem a vida de cada um e influenciam os outros tem sido o assunto interminável de Agustina Bessa-Luís, porque tudo o que é humano é interminável. Como viria a afirmar em "O Susto", "o eu é inimigo do conhecimento". É na verdade simples: a pessoalidade é distante ao conhecimento imparcial, dito científico, e é essa a força principal de "A Sibila". E também a sua principal fonte de modernidade e de intemporalidade: Agustina escreve fora da sua época (Poderemos talvez citar Coco Chanel: "estar na moda é estar fora dela".), porque os seus romances não se gastam na análise de estruturas sociais. Agustina prefere o pessoal ao social, prefere os mecanismos íntimos aos mecanismos que definem as massas: sabe que ninguém por dentro é igual a ninguém e que qualquer categorização sempre deixa algo esquecido. Os seus romances desenvolvem-se precisamente na tentativa de deixar esquecido o menos possível. É provavelmente isso que faz de Agustina um nome actual em qualquer época, porque da mesma maneira que o que é humano não tem fim, também não tem um tempo.
Importante é também reforçar a pessoalidade daquilo que escrevo: não penso que seja conclusivo fazerem-se estudos técnicos da prosa de Agustina Bessa-Luís, sendo a meu ver muito mais importante exporem-se leituras dela, interpretações, que façam jus à dimensão muito mais humana do que literária da sua obra. Relembro algumas palavras de Inês Pedrosa sobre Agustina:

"Agustina não dá respostas. Agustina amplia as perguntas".

Isso definirá o bom escritor. É interessar contrapor os romances de Agustina com a sua imagem pública: dela dizem ser de direita, conservadora, até salazarista (Ainda que Sophia tenha várias vezes dito que Agustina não era nem de direita nem salazarista, apenas não gostava de falar mal do governo português no estrangeiro.). No entanto, ao ler os seus romances não há nem rasto dessas características, bem pelo contrário: Agustina cria uma espécie de fotografia interior dos seus personagens, mas deixa para o leitor a interpretação dessa fotografia, "não dá respostas". Talvez por isso se possa dizer com toda a justiça que Agustina não é uma prosadora fácil, apesar da linearidade da sua prosa. "A Sibila" representa um culminar destas características que poderiam estar menos desenvoltas nos seus textos inicias.

5 comentários:

sleeping beauty disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
sleeping beauty disse...

estou neste Verão, a ler a SIBILA, e encontro nesta escrita a obsessão plena da palavra. Na mesma altura, anos 50 era editado a LOLITA do NABOKOV. Um abismo separa estes dois escritores na FORMA. Mas no sentido até talvez exista uma ponte. Tanto um como outro reflectem na sua escrita uma cicatriz que não fecha. No caso de Agustina o prazer compulsivo do pormenor quase repulsivo e perto da bestialidade. Reparo agora que, a escrita da Agustina, neste seu livro SIBILA, está muito próxima da pintura da Paula Rego e também observei que me fez lembrar o livro Maina da Velho da Costa. A Maria Velho da Costa, num registo feminista, aproxima-se dos pormenores escabrosos das relações bárbaras e repletas de boçalidade entre homens e mulheres. Um registo do povo português muito interessante. Também não será por acaso que todos os dias, neste Verão, um homem mata a mulher, ou a amante ou o filho da mulher e da amante. Algo de residual dessa animalidade machista??ainda no século XXI ??? e observado pelas escritoras referidas??

sleeping beauty disse...

no livro Maina Mendes e mais ainda no romance CASAS PARDAS de Maria Velho da Costa, a utilização de uma escrita subversiva fundida em linguagem tradicional e desconstrução dessa linguagem criando uma irradiação textual. A Agustina estava na origem, por isso fiz esta ponte...achei muito interessante esta relação com as duas escritoras.

Supermassive Black-Hole disse...

que é aliás muito bem apontada. Acrescento apenas que na escrita da Agustina, como na da Maria Velho da Costa, a AGRESSIVIDADE é um dos elementos mais importantes, porque é através dela que esses detalhes de que falas ficam realmente a nu. Por isso é que eu dizia que a Agustina é mais humana do que literária, porque é a visão de uma pessoa e não de um literato. Interessante fazeres essa comparação porque comecei hoje a ler a Maina Mendes... Coincidências.

juliana muniz de castro disse...

Foi a melhor resenha que encontrei na internet. Escrevo esse comentário para parabenizá-la. Estou lendo Sibila e adorando como Agustina traça a teia narrativa de forma peculiar.