terça-feira, 29 de abril de 2008

Control de Anton Corbijn

RETRATO EM BRANCO E PRETO
Como fã que sou dos Joy Division, nunca poderia ter feito um comentário a "Control", primeira incursão no cinema do fotógrafo holandês Anton Corbijn, sem ter visto filme várias vezes.
Não é para este artista nada estranha a opção de fazer um biopic de Ian Curtis, uma vez que Corbijn é o realizador do vídeo de "Atmosphere", além de outros, dos quais os mais famosos serão "Personal Jesus" dos Depeche Mode e "Heart-Shaped Box" dos Nirvana.







E se já fotografou Bjork, os Arcade Fire, PJ Harvey, Jodie Foster, Kate Bush, Naomi Campbell, Massive Attack, Nick Cave ou os Skunk Anansie, não terá sido por ser mau fotógrafo. Pelo contrário. Corbijn tem uma forma de encenar as imagens muito específica, em que o que poderia ser um desastre acaba por resultar muito bem. Esta formação em fotografia, e a própria estética pessoal de Corbijn acabam por transparecer no filme. Por exemplo, e de forma mais imediata, pelo facto do filme ser a preto e branco: depois da "descoberta" das cores, foi muito mais raro o realizador que continuou a usar o preto e branco do que o fotógrafo. E se a fotografia a preto e branco nunca passa de moda, porque tem que passar de moda o filme a preto e branco? Não tem, pois não?
Quando o filme começa, com um monólogo de Ian Curtis, é muito clara a influência da fotografia na escolha dos planos, na fotogenia e na qualidade gráfica das imagens e dos cenários.
Sam Riley, que já havia sido Ian Curtis em "24 Hour Party People", volta a vestir a pele do mito do rock, desta vez num filme onde é ele o centro. Não se trata de um filme sobre os Joy Division. "Control" é o biopic de Ian Curtis, sem dúvida nenhuma. Os Joy Division fazem parte do filme porque fizeram parte da vida de Curtis.
A primeira vez que encontramos este personagem, ele é um adolescente que fuma imenso, ouve David Bowie e é escritor. É por aqui, num concerto do rei do Glam Rock que Ian começa uma relação com Deborah Woodruff, na altura namorada de um amigo. Deborah, com quem casaria, pouco depois, quando ambos tinham 19 anos.
A entrada para os Warsaw, mais tarde Joy Division, o diagnóstico de epilepsia, o caso interminável com Annik Honoré, a ruptura com Deborah Curtis, a primeira tentativa de suicidio... tudo isto vai acontecendo, guiado pela música, principalmente a vinda do EP "An Ideal For Living" e do primeiro álbum, "Unknown Pleasures".



Corbijn perde por escamotear uma parte da biografia de Ian Curtis, ignorando o segundo álbum, "Closer", onde figuram letras mais ligadas ás situações-limite da vida do vocalista/poeta. "24 Hours" é escrito num momento em que nunca podia ter sido escrito, por exemplo.
Em termos de ritmo, o filme está perfeito. Corbijn poderia ter feito um grande músical em desagradável estética á lá "Música no Coração", podia ter cantado em vez de ter contado a vida de Curtis, e não o faz. Nesse aspecto, foi bastante ponderado e tomou as opções certas: as canções surgem não em vez de diálogos, mas mais como didascálias indispensáveis, e ainda consegue passar pelos pontos mais significativos da discografia dos Joy Division: desde "She´s Lost Control" a "Love Will Tear Us Apart" a "Atmosphere", etc, etc, etc.
Além do desempenho excelente de Sam Riley (Que prova que não é só a cara exactamente igual á de Ian Curtis.), Samantha Morton e Alexandra Maria Lara, nos papéis das mulheres da vida de Curtis, respectivamente Deborah Curtis e Annik Honoré, também estão muito bem.
Num tempo em que é muito difícil fazer um bom biopic, afinal, Anton Corbijn saíu-se muito bem. Filmou a vida dessa lenda que é o grande Ian Curtis sem querer exaltá-lo, preocupando-se em fazer um retrato verosímil e adequado da sua pessoa. Ainda por cima, fê-lo de uma forma muito estética. Acho que não se podia pedir mais. Partindo, pelo menos, do princípio de que o filme não poderia trazer Ian Curtis de volta.
Veredicto: 20/20

2 comentários:

cristina m. disse...

Não sei bem o que te desagrada nos grandes musicais. E Robert Wise mostrou-se um grande mestre nesse énero. Nada de mau existe em Musica no Coração.

Supermassive Black-Hole disse...

nao disse que era mau. mas não seria a melhor forma de contar a historia dos Joy Division. O Ian quase tropeçou na banda...

e gosto de alguns musicais. por acaso não gostei de Musica do Coração, mas gostei de outros.