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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Grave Encounters 2 de John Poliquin

REPETIR PARA EXTENUAR

Uma das tendências mais esquisitas do cinema de horror, originada pelas atitudes, provavelmente inconscientes do futuro impacto, de uma série de realizadores, tem sido a de, de certa forma, medir a qualidade ou a eficácia de um filme pela sua capacidade de gerar sequelas. Talvez realizadores que trabalharam em sequelas, como Rick Rosenthal ('Halloween 2'), Victor Miller (Friday the 13th part 2) ou Scott Derrickson ('Hellraiser: Inferno', a única sequela minimamente digna.) não tivessem consciência do vício que originariam, ou talvez tivessem e não se tenham interessado muito com isso. 
Seja como for, nos dias de hoje parece impensável que qualquer filme de horror (E já não só.) que se preze não gere uma quantidade considerável de sequelas que, mais a mais, por norma acabam não só por esgotar um imaginário, como por tornar invisíveis os filmes originais. Foi o caso dos dois filmes mais importantes de James Wan, 'Saw' (2004) que gerou seis sequelas e 'Insidious' (2010) que terá em breve uma; mas também o caso do clássico imediato de Victor Salva 'Jeepers Creepers' (2001) que teve já uma sequela e tem uma outra pronta a estrear, de 'Paranormal Activity' (2007) de Oran Peli, já com três, e a lista poderia continuar eternamente. 
Evitando aqui explicar por que, obviamente, a ausência de sequelas está longe de atestar a incompetência de um filme, falemos daqueles que as têm. Um caso como o de 'Jeepers Creepers' é de certa forma refrescante pela forma como Victor Salva, realizador e argumentista do filme original, administrou a transição do filme para saga: responsabilizou-se pelos três capítulos, manteve a história sob o seu controlo e, ainda que o segundo filme não estivesse minimamente à altura do primeiro, estava longe de o destruir _além disso, a sinopse e o trailer de 'Jeepers Creepers: Cathedral', a terceira parte, são bastante promissores e é possível que recupere a qualidade do original. Já 'Saw' ou 'Paranormal Activity' são casos muito distintos: a verdade é que as sequelas foram de tal forma balofas e descontroladas que acabaram por extenuar completamente o filme original, por mais que este trouxesse algo de muito interessante ao cinema de horror. Para que o primeiro filme mantenha o seu esplendor, é preciso não só que seja muitíssimo forte, como que, nas sequelas, haja por ele ainda algum respeito. Mas a necessidade de uma produção rápida é quem mais ordena e acabam os filmes por obedecer às supostas exigências de um público que está pronto a esquecer um filme pelo qual muito se interessava.
'Grave Encounters' (2011) dos The Vicious Brothers tinha, mais infelizmente que felizmente, tudo para originar uma saga. E é sem surpresa que se constata logo no ano seguinte a primeira sequela. 


'Grave Encounters 2' não parece grande ameaça quando sabemos que os autores do argumento são ainda os Vicious Brothers. A realização fica a cargo de um estreante, John Poliquin. A sua presença, em muitos aspectos, mal se faz notar, uma vez que ele segue o modelo que já encontrávamos no primeiro filme (Bem como numa série de outros, diga-se.). Dir-se-ia que o papel de um realizador não é só o de decidir como se posicionará uma câmara, o que é certo. O seu trabalho passaria também pela marcação dos tempos, pela criação das próprias imagens e dos momentos que poderão induzir o espectador numa espécie de auto-sugestão que conferirá ao filme uma espécie de subtexto. Mas, mesmo nestas questões, Poliquin raramente consegue demarcar-se daquilo que já os Vicious Brothers haviam feito no seu filme.
Comecemos pelo mais óbvio: as aparições dos fantasmas. No primeiro filme, tinha realmente uma estranha força o rosto amedrontado da rapariga de bata branca que num ápice se tornava negro e grotesco. Aqui, as aparições são mais (Parece ser uma regra para sequelas, a de haver mais momentos fortes.), mas todas seguindo aborrecidamente o mesmo esquema: o rosto dos fantasmas começa por ser lívido mas normal, de depressa ganha fundos círculos negros à volta dos olhos e da boca; tudo isto filmado em infravermelho. Por forte que fosse a imagem, dificilmente ela resistiria a tanta repetição. A única cena em que se consegue ainda um mínimo de intensidade é a da perseguição pelo corredor, toda ela bastante tensa e arrepiante. Todas as outras aparições são demasiado deja-vu para serem eficazes. Com o espaço do asilo psiquiátrico, passa-se o mesmo: uma vez mais, os personagens entram nele equipados para filmar mas o espaço desdobra-se e multiplica-se, impossibilitando a saída. Neste filme, contudo, dois dos personagens conseguem fugir e recolher ao hotel onde estavam hospedados, apenas para, ao descerem do elevador, se encontrarem novamente dentro do asilo.
O que parece acontecer, em ambos os exemplos, é que 'Grave Encounters 2' se limita a refazer tudo o que 'Grave Encounters' fizera já, apenas levando tudo a um outro extremo. De propriamente inédito, quase nada encontramos nesta sequela.
A primeira coisa que acontece neste filme é que se reconhece que o primeiro fora, na verdade, um filme. Vemos reacções do público, opiniões de bloggers e vloggers, entrevistas, etc. Entre tudo isto, Alex (Richard Harmon), um estudante de cinema, está convencido de que as filmagens de 'Grave Encounters' são verdadeiras e que haviam sido editadas como filme de ficção, não o sendo. Quando, na internet, fala das suas intenções de investigar a veracidade do filme, recebe uma mensagem assinada DeathAwaits666 (Relembre-se que na porta do asilo havia um graffiti em que se lia 'Death awaits'.) que lhe confirma as suas suspeitas e acaba por encaminhá-lo para a mãe de Sean Rogerson, o protagonista do primeiro filme. Depois de falar com ela, e também com o produtor do filme, Alex acaba por rumar ao Canadá acompanhado de Jennifer (Leanne Lapp), Trevor (Dylan Playfair) e Jared (Howie Lai), para visitar o asilo onde 'Grave Encounters' fora filmado. Uma vez lá dentro, a equipa vem preparada para rodar o seu documentário, e prevenida quanto aos perigos do espaço (Por exemplo, trazem sticks luminosos para marcar o caminho que percorrem, de maneira a não se perderem.) e, inicialmente, encontram pouco mais que indícios circunstanciais de que efectivamente tivesse ocorrido ali algo de estranho. Mas cedo começam as assombrações, a certeza de que, apesar de todos os cuidados, estão perdidos dentro do asilo, os desaparecimentos, etc.  Pelo caminho, há o encontro com DeathAwaits666, que acaba por ser através de jogo de ouija. A entidade exige-lhes que filmem tudo o que se passar. Tudo culmina no encontro com Sean Rogerson que, afinal, vivera naquele asilo durante nove anos e que percebera qual a forma de sair. 
Para já nem falar de como é idiota que fantasmas utilizem serviços de internet, ou de como é excessiva a cena com o ouija, refira-se que Rogerson é uma das coisas que mais prejudica 'Grave Encounters 2'. Não que a sua prestação seja má, mas a forma como o caracterizam é previsível ao ponto do ridículo, chega a parecer em certos momentos uma caricatura dos Flinstones.


A cena da fuga para o hotel de Alex e Jennifer para o hotel, que acaba por fazê-los regressar ao asilo quando saem do elevador, é uma das mais bem conseguidas do filme, bem como a cena em que as portas de um corredor explodem uma por uma, ou ainda o encontro com o psiquiatra e as suas enfermeiras. Estas cenas, de facto, destacam-se, mas a verdade é que todo o misticismo barato que define a saída real do asilo acaba por transformar esse momento em mais uma anedota muito pouco conveniente a um filme de tantas fragilidades. E o desenlace, em si, também não oferece nada de entusiasmante. Pelo contrário, é aquele que antecipamos desde a recta final da estadia no asilo.
Já recentemente aqui tinha falado de 'Grave Encounters' e de como, ainda que se tratasse de um bom filme de horror, ele apresentava algumas difíceis fragilidades. E o facto dos Vicious Brothers terem escrito esta sequela da forma que escreveram, mostra que não só eles não souberam lidar com essas fragilidades, como também não souberam lidar com o que o seu filme tinha de bom. Assim, escreveram uma sequela que não só amplia as falhas do primeiro como extenua completamente as qualidades do original, ao repeti-las. Ainda que o filme não nos enfastie, quase tudo aquilo que nos apresenta roça o esforço inglório que nos deixa com a impressão de que, se este filme não se tivesse feito, não se teria perdido nada de mais.

domingo, 7 de julho de 2013

Grave Encounters dos The Vicious Brothers

TRASH-TV EM VERSÃO MORTAL

Recentemente, falei de 'The Tunnel', um filme de horror australiano que, a meu ver, é de uma invulgar qualidade para aquilo que, nos últimos anos, se tem feito dentro do género.


E se 'The Tunnel' chegava aos cinemas em Maio de 2011, após uma insólita campanha de angariação de fundos, menos de um mês antes, tinha estreado este 'Grave Encounters', filme que, em muitos aspectos, tem paralelismos impressionantes com o filme de Carlo Ledesma. Por um lado, o facto destes dois filmes se estarem a produzir ao mesmo tempo pode indicar-nos a aparente falta de ideias que o género, e o cinema em geral, atravessam. No entanto, é raro que se encontre um filme que conte algo de verdadeiramente novo: nova, por norma, quando o filme é original, é a forma como se trata um determinado assunto que é já conhecido. O caso de 'The Tunnel' era esse: ele aludia a filmes como 'The Blair Witch Project' (1999), mas na sua execução e na sua sensibilidade, era verdadeiramente criativo e refrescante. 
Tal como os dois filmes já referidos, também 'Grave Encounters' resulta da suposta montagem de um suposto documentário. Neste caso, trata-se do reality-show de Lance Preston (Sean Rogerson), 'Grave Encounters', que consiste na visita a locais assombrados, com uma série de máquinas que permitem captar fenómenos paranormais. O episódio 6 decorreria num asilo psiquiátrico abandonado e é lá que Lance e a sua equipa se confrontam, pela primeira vez, com uma verdadeira assombração, na sequência da qual, ao que percebemos no início, teriam desaparecido. 
As filmagens mostram-nos, numa primeira fase, a farsa que permite realizar o programa. Todos os elementos da equipa parecem acreditar realmente em fenómenos paranormais, admitindo apenas que nunca se depararam com nenhum, problema que resolvem com uma série de efeitos e de sugestões que se destinam ao espectador.
Mas à medida que a noite de produção vai avançando e nos dias seguintes (O encarregado no asilo nunca chega a aparecer para lhes abrir a porta.), os membros da equipa vão desaparecendo e uma série de fenómenos começa a registar-se, culminando na aparição de dois fantasmas, a partir da qual o próprio espaço começa a alterar-se, impossibilitando de todo a saída dos sobreviventes.
Uma das coisas que surpreende neste filme é como, na verdade, um filme perfeitamente discreto pode exercer uma influência insuspeitada sobre todo um género. 'Session 9' (2001) de Brad Anderson, aquele que me parece ser o melhor filme de horror entre 2000 e 2010 (Disso falei aqui.) era um filme independente, de produção simples e despretensiosa, sem efeitos especiais, sem aparatos, e passou, em muitos aspectos despercebido. Talvez agora comecemos a constatar que não terá passado tão despercebido assim: se mesmo em 'The Tunnel' a sensação de que o espaço se tornava um labirinto angustioso e irrespirável, quando em 'Grave Encounters'  T.C. (Merwin Mondesir) se depara com uma cadeira de rodas parada no meio de um corredor vazio, a referência ao filme de Brad Anderson não podia ser mais óbvia. E de facto, todo este filme parece partir do de Anderson. A 'Grave Encounters' não faltam o asilo psiquiátrico com corredores tortuosamente iguais e escuros, a história macabra que contribuíra para o seu encerramento, a suspeita de que algum do horror dessa história paira ainda no lugar e a equipa que entra no local e embate inesperadamente nessa história. 
Não diremos, no entanto, que 'Grave Encounters' seja uma cópia de 'Session 9', e nem sequer que seja propriamente uma variação. Mais se diria que os Vicious Brothers tentaram criar uma nova premissa, começando a partir da mesma base. E se por um lado conseguem em vários momentos desviar-se muito eficazmente do lugar-comum dentro daquilo que por norma acontece em filmes deste género, por outro, falta aos Vicious Brothers um ingrediente que colocava Brad Anderson do lado da excelência: a subtileza.
Essencialmente, o que falta a 'Grave Encounters' é subtileza. A subtileza que tornava 'Session 9' e 'The Tunnel' peças cinematográficas impressionantes.
Por um lado, a ideia de apresentar um reality-show sobre presenças paranormais parece conter uma certa ironia em relação aos excessos da trash-tv, bem como à absoluta vulgarização de um tema que, à partida, mereceria algum respeito. A própria falta de seriedade da equipa precisamente reforça esta espectacularização do macabro e do sobrenatural. Portanto, é também de certa forma muito irónico que estas pessoas acabem por deparar-se com o horror que pensavam estar a inventar _como se se dissesse que, realmente, quem brinca com o fogo se queima. Mas as subtilezas, morrem no argumento.
A nível de realização, 'Grave Encounters' varia entre momentos de verdadeira intensidade e momentos que não podem deixar de desiludir ou de, no mínimo, saber a pouco. A aparição do primeiro fantasma, a mulher, é um exemplo do primeiro caso: a sua breve aparição é um dos momentos mais fortes do filme, a sua presença parece real, mas a alteração súbita no seu rosto causa um verdadeiro susto, ainda que os efeitos sejam previsíveis e até um tanto cómicos. De lamentar é que não haja mais momentos assim. A aparição do segundo fantasma já não tem a mesma força, pois em muitos aspectos repete a primeira. O desaparecimento de alguns dos membros da equipa de facto prepara-se e concretiza-se da forma mais esperada para este género de filme, com excepção de Sasha (Ashleigh Gryzko), cujo desaparecimento parece ter sido feito à pressa, à última da hora. Principalmente tendo em conta a magnífica cena de desaparecimento, regresso e novo desaparecimento de Matt (Juan Riedinger), uma das sequências mais poderosas e perturbantes de todo o filme.


Há, apesar disso, um momento em que os Vicious Brothers conseguem fazer reverter a seu favor a inépcia que destrói alguns outros momentos: o tratamento espacial. Ao contrário de 'Session 9', em 'Grave Encounters' temos a sensação de estar num espaço grande, mas não tão fora de escala quanto isso. No entanto, quando percebemos que o próprio espaço se multiplicou, impedindo fisicamente que os sobreviventes abandonassem o asilo, a sensação de angústia aumenta. Tem-se a impressão de que os Vicious Brothers quiseram inventar uma maneira do asilo se tornar numa prisão incompreensível e que o fizeram da maneira mais básica. No entanto, ela resulta. O espaço do asilo torna-se de repente imprevisível, ele mesmo uma ameaça e uma personagem.
O final do filme não chega sem alguma surpresa e, de facto, tem essa capacidade de nos surpreender e nos causar, no mínimo, um calafrio. Toda a sequência final é de uma estranheza que impressiona e emociona, ao mesmo tempo que nos faz perguntar por que não foi assim todo o filme.
Sendo, afinal, um filme um tanto desajeitado mas que várias vezes sabe potenciar os seus pontos fortes, 'Grave Encounters' vai de um imperdoável aborrecimento a uma perturbante estranheza e, se perde, perde pela sua instabilidade enquanto filme de horror. Isto porque, para que um filme de horror seja eficaz, ele precisa, acima de tudo, de conseguir emocionar, de criar emoções das mais extremas e até indesejadas (Medo, desconforto, confusão, náusea...) e é muito esquisito quando um realizador, que neste caso são dois, no mesmo filme o consegue por vezes e noutras não. Valha aos Vicious Brothers que, quando conseguem, conseguem mesmo.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

'The Hours'

E ainda a propósito do aniversário de Virginia Woolf, relembremos o filme de Stephen Daldry adaptado do romance de Michael Cunningham, 'As Horas' que acompanha os últimos dias de Virginia Woolf, além da vida de duas mulheres cuja vida, de alguma forma, se encaixa na personagem de 'Mrs. Dalloway'.
O filme conta com a brilhante interpretação de Nicole Kidman, que lhe valeu aliás o Oscar de Melhor Actriz, que quase se demite enquanto actriz e encarna com uma verosimilhança impressionante a personalidade que transpira dos textos íntimos (O Diário e as cartas.) de Virginia Woolf.
Um filme trágico sobre a procura do amor, a inevitabilidade da morte e a força dos sentimentos que perduram para além da desgraça que Mrs. Dalloway pressentia no início do romance, quando decidiu comprar as flores ela mesma.

sábado, 11 de setembro de 2010

Masters of Horror: Jenifer de Dario Argento (1x04)

HOJE À NOITE AQUI NA SELVA QUEM COME É A LEOA

Seria praticamente impossível falar de filmes de terror sobre o sobrenatural, uma das categorias mais aclamadas do género, sem referir o nome do realizador de origem italiana Dario Argento. Desde 1970, Argento já nos deu filmes tão inacreditáveis como "Profondo Rosso" (1975), "Suspiria" (1977), "Phenomena" (1985), "Non Ho Sono" (2001) ou "The Mother of Tears" (2007).


A média-metragem com que participou na primeira época de "Masters of Horror" é este interessantíssimo "Jenifer". Sendo um filme com algo de sobrenatural, esta classificação, como sempre, revela-se um tanto insuficiente para o definir. Não se trata também propriamente de um filme de zombies, mas o esquema não é completamente alheio a este filme, escrito a partir de uma história de banda-desenhada de terror dos anos 70.
É a história de Frank Spivey (Steven Weber- que é também argumentista da película.), um polícia que, durante uma patrulha salva das mãos de um sem-abrigo louco uma jovem rapariga, que o sem-abrigo diz chamar-se Jenifer (Carrie Anne Fleming). A rapariga, totalmente desfigurada no rosto, apesar do corpo belo, acaba por ser internada num asilo psiquiátrico. Comovido, Fank acaba por levá-la para sua casa, apesar da relutância da mulher e do filho. Jenifer aparenta ser verdadeiramente atrasada mental, pois mais não consegue que grunhir e gemer e enrolar-se num canto como um animal. Até que seduz Frank, que começa a ter relações sexuais com ela pontualmente. Cedo descobre também que Jenifer parece sobreviver comendo gatos e crianças. Após o incidente do gato, a mulher e o filho de Frank abandonam a casa e, depois de Jenifer devorar a vizinha de oito ou nove anos, Frank foge com ela algures para o meio da selva.
É no meio desta sensação de inevitabilidade que Frank se encontra absolutamente incapaz de fugir a Jenifer, tanto quanto sentimos que o seu fim será algo semelhante ao que acontecia ao sem-abrigo no início do filme.


Na verdade, Argento consegue em "Jenifer" planos belíssimos e bizarros, capazes de se equiparar com o seu restante trabalho. Foge também à maioria dos clichés que este género de filme parece impingir, e facilmente se desvia de qualquer predicabilidade, seguindo uma narrativa que pode ser estranha mas não deixa de ser lógica.
Não é um filme particularmente gore, ainda que certos planos não tenham dificuldade em causar-nos um esgar.
A figura de Jenifer é excelentemente caracterizada, sendo que, a certa altura do filme, já desistimos de tentar entender a sua origem ou o seu passado: percebemos que Argento, como os grandes mestres do terror, está mais interessado em mostrar-nos o Mal no seu estado puro, que, tal como o suposto Deus, foi "gerado e não criado".
No entanto, e será isso que nos deixa a pensar no fim do filme, não é claro se estamos perante uma criatura que é apenas uma personificação do Mal ou se estamos simplesmente perante o instinto de sobrevivência de qualquer predador. Pergunto-me se a opção de fazer de Jenifer uma atrasada mental não poderá contribuir para que ela acabe sendo susceptível da nossa pena ou da nossa compreensão: se assim é, a ideia de nos confrontar com o Mal e até com o instinto assassino fica um tanto ao quanto desfavorecida.
Àparte disso, tudo em "Jenifer" parece bater certo. Argento prova uma vez mais que ainda é um expert no que toca a fazer filmes de zombies ou de quase-zombies, que resulta no mesmo.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Masters of Horror: Dance of the Dead de Tobe Hooper (1x03)

FOR YOUR ENTERTAINMENT

Em 1969, "Eggshells" marcava o início da carreira de Tobe Hooper, mas o nome só se tornaria célebre em 1974, com o clássico "The Texas Chainsaw Massacre". A sequela, também da responsabilidade de Hooper, em 1986, não seria tão bem sucedida, e o segundo título mais facilmente associável ao realizador seria "Poltergeist", de 1982. Com (Pelo menos.) dois filmes de culto na bagagem, Tobe Hooper apresenta-se na primeira época de "Masters of Horror" com a média-metragem "Dance of the Dead", baseado numa novela de Richard Matheson.


Mas este não é já o sangrento filme de terror que encontrávamos em "The Texas Chainsaw Massacre", nem o filme de terror psicológico/paranormal de "Poltergeist". "Dace of the Dead" poderia muito bem ser um filme de ficção científica, se não fosse a sua história tão macabra.
Trata-se de um filme que nos coloca num futuro mais ou menos próximo, mas já depois do eclodir da Terceira Guerra Mundial, e do cessar-fogo. Mesmo com a guerra terminada, os efeitos da devastação são ainda visíveis e decisivos naquilo que sobrou do mundo.
Ainda que uma parte daquilo que conhecemos como normalidade subsista ainda, a maioria das regiões, um pouco por todo o mundo, estão povoadas essencialmente de seres humanos contaminados por uma espécie de violência irreprimível, onde homicídios, carnificinas e torturas são o pão-nosso-de-cada-dia. Muskeet é uma dessas zonas. Muskeet tem ainda a particularidade de incluir um pequeno bar, o Doom Room, cujo Mestre de Cerimónias (Robert Englund, mais conhecido por Fred Krueger.) anuncia um espectáculo que se deve à ciência.
Apesar de não termos, inicialmente, uma ideia concreta do conteúdo do espectáculo, é fácil entendermos que, o que quer que seja, é alimentado pelo sangue que Boxx (Ryan McDonald) e Jak (Jonathan Tucker) recolhem em assaltos de rua. Será um destes, Jak, que se apaixonará rapidamente por Peggy (Jessica Lowndes), a única sobrevivente de uma família normal, a par com a mãe. E aqui começa o típico rapaz-mau-conhece-rapariga-boa, rapariga-boa-é-arrastada-para-os-vícios-do-rapaz-mau. Jak leva-a a Muskeet, e finalmente assistimos ao espéctáculo tão louvado pelo Mestre de Cerimónias e pelo público do Doom Room.
Trata-se da "dança dos mortos", mais propriamente de uma espécie de mutantes, os L.U.P., mais conhecidos por Luppies: mortos que, quando injectados com sangue de vivos, são capazes de se contorcer com brutais espasmos em frente a uma audiência voraz. O espectáculo será também a ponte que ligará Peggy à verdade sobre a sua família.
E assim temos um particularmente decadente filme de zombies.


Se podemos dizer que Tobe Hooper já antes tinha criado uma visão algo satírica do american way of life, nomeadamente com a família de Leatherface, aqui Hooper vai bastante mais longe: apesar de nos colocar num cenário diverso daquele que conhecemos, é interessante verificar como, afinal, as questões que são colocadas estão tudo menos distanciadas da realidade actual: estamos ante um público sedento de sangue e violência, completamente indiferente ao sofrimento de quem lhes dá esse entretenimento, num mundo em que tudo é susceptível de ser traficado, mesmo os mortos: logo que isso dê lucro. E até o fuel que move os Luppies pode ser entendido como uma metáfora: ele é colhido à força dos poucos cidadãos que não foram ainda afectados pela loucura da maioria. Ainda, os espectáculos com os Luppies não são totalmente ilegais: eles haviam já sido permitidos pelo governo, uma vez que podiam ser considerados exposições de ciência e tecnologia.
No fundo, não há tanto de surreal neste filme como à primeira vista possa parecer. Este é um mundo em que o dinheiro é fácil, porque o público está disposto a qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, para se ver retirado do aborrecimento do quotidiano, o que é ainda uma forma de neurose ou de loucura. E se para isso é necessário sacrificar pessoas que nada têm a ver com isso, o governo, que supostamente representa e protege não é a entidade que se vai opor. Na verdade, qual é que é a grande diferença em relação àquilo que vivemos neste 2010?


Masters of Horror: Cigarette Burns de John Carpenter (1x08)

OS PODERES DO FILME

De John Carpenter não havíamos filme desde "Fantasmas de Marte", de 2001. Com o próximo filme já anunciado para estrear este ano, no interregno de nove anos entre ambos, além de dois dos seus filmes terem sido alvo de remakes duvidosos- "Halloween" e "The Fog"- Carpenter participou por duas vezes na série "Masters of Horror", ao lado de nomes como Dario Argento, Tobe Hooper, Takashi Miike ou Brad Anderson.



Na primeira época desta saga, John Carpenter que será provavelmente o mais absoluto mestre do horror, apresenta-nos este "Cigarette Burns".
Esta média-metragem coloca-nos ante uma situação próxima do filme-ensaio, ainda que à primeira vista isto nos possa escapar. A história é simples: Kirby Sweetman (Norman Reedus), programador de um cinema, é contratado por Mr. Bellinger (Udo Kier) para lhe encontrar um filme raro, trabalho que, aparentemente, Sweetman já havia feito antes. Mas o filme em questão é "o mais raro dos raros". Trata-se de "La Fin Absolute du Monde" de Hans Backovic: exibido uma única vez durante um pequeno festival, criou na assistência um motim sangrento de onde resultaram inúmeros mortos e feridos, levando a que a única cópia do filme fosse apreendida e eventualmente destruida. Se esta última parte era discutível, acabou por gerar uma espécie de mito urbano, segundo o qual o filme subsistira e por várias vezes haveria sido exibido em sessões clandestinas. No entanto, Bellinger tem uma fonte um tanto mais credível de que o filme existe ainda: ele tem, em casa, um elemento utilizado na rodagem. Trata-se de uma espécie de albino liliputiano, que ostenta nas costas sinais de lhe terem sido arrancado um par de asas, que Bellinger tem exposto no seu escritório. Segundo este ser, se o filme tivesse sido destruido, aqueles que, como ele, tivessem tomado parte dele, senti-lo-iam. Pressionado pelo facto de ter que pagar 200 mil dólares ao pai da falecida namorada que lhe cedera o cinema, Kirby acaba por aceitar o trabalho.

Ao longo dos cinquenta e oito minutos de "Cigarette Burns" o grande desafio, quer para Kirby, quer para o espectador, é entender que poder é esse que "La Fin Absolute du Monde" tinha, para criar à sua volta tamanha ambiência de loucura e de carnificina. É assim que Kirby encontra um crítico de cinema que desistira do seu trabalho para se dedicar a escrever uma verdadeira crítica ao filme de Backovic: crítica essa que se divide em resmas e resmas de páginas dactilografadas, e que ocupa toda a casa do crítico, que ainda nem a terminada.
Kirby acaba por se deslocar a Paris, onde o filme teria sido rodado, na tentativa de encontrar alguém que estivesse incluido na produção do filme, apesar de quase todos estarem mortos. É quando começa a ter alucinações. Vê frequentemente essa marca na película, conhecida como cigarette burn, que marca, em cerca de 0,17 segundos a transição de bobine. A partir dessa marca, tem flashbacks do momento em que encontrara a namorada na banheira, após o seu suicídio por auto-mutilação.
À medida que se aproxima do filme, estas alucinações vão-se tornando mais e mais intensas. Dos seus encontros com aqueles que o poderão levar ao filme, ele percebe que "La Fin Absolute du Monde", mais do que um filme de extremo gore, teria que ter algo de real para despertar nas pessoas tamanha violência, como deduz ao cruzar-se com um realizador enlouquecido que nem chegara a ver o filme de Backovic, mas que dele recebera vários elementos, e que assassina uma mulher à sua frente, em poucos segundos, enquanto filma, explicando-lhe como a grande descoberta de Backovic havia sido justamente que a ficção não perturbaria ninguém, e que aquele apelo ao que de mais negro existia na alma do espectador só se conseguia através do Mal em estado puro, e real: como sacrificar um anjo, arrancando-lhe as asas. Fica assim explicada a criatura que Bellinger mantinha na sua casa.
Quando, no final do filme, vislumbramos algumas cenas de "La Fin Absolute du Monde", percebemos que se trata de uma série de planos entrecortados em que a violência é efectivamente incomodativa, grosseira, penosa e arrepiantemente real, o que conduz "Cigarette Burns" ao seu final abrupto e desesperante. Os últimos segundos do filme tornam esse final um final aberto, dúbio, como tantas vezes acontece com os filmes de Carpenter.



"Cigarette Burns", apesar de ser uma média-metragem, é perfeitamente capaz de se inserir entre os melhores filmes de Carpenter.
A ideia da relação arte-vida, sendo que a loucura de uma verte para a outra, não é inédita no percurso deste cineasta. Já em "A Bíblia de Satanás", de 1995, assistíamos à loucura de um livro tornar-se a realidade do seu escritor. Em "Cigarette Burns", no entanto, o objecto, neste caso um filme, é uma espécie de paciente zero de uma epidemia de loucura violenta e aluncinada. Como ouvimos de um dos personagens do filme, "o espectador desafia o realizador a perturbá-lo". Então, o que acontece se realmente o realizador decide mesmo perturbar o espectador? O motim em que resultou a primeira exibição do filme é uma resposta interessante. Além disso, há ainda a questão do aborrecimento da ficção, dos truques levados ao extremo, do cinema ter deixado de ser "a grande ilusão", para se tornar "uma mera ilusão", em que as pessoas fazem o favor de acreditar. Carpenter coloca então a hipótese de o cinema nem sequer ser ilusão, mas registo de algo real.
E neste campo, não pensei propriamente em mais filmes de Carpenter, mas justamente num outro mito urbano (Talvez...), o do snuff-movie. O mito e o termo já fizeram parte de muitas especulações não necessariamente recentes, como a de Charles Manson: alguns teóricos afirmam a pés juntos que a família de Manson era especialista em snuff-movies. O snuff-movie consiste em, sem qualquer tipo de ficção, assassinar alguém em frente a uma câmara, para depois espalhar o resultado pela internet. Além de Charles Manson, outro famoso assassino, Son of Sam, foi também alvo do rumor de produzir snuff-movies. Apesar de já terem circulado vários filmes pela internet que aparentavam ser snuffs, até hoje, um por um foram provados falsos, sendo que os únicos verdadeiros incluem apenas animais.
Propositadamente ou não, Carpenter traz também este assunto em "Cigarette Burns", pois afinal, o filme que retrata uma violência não-forjada teve um impacto tremedo, muito difícil de igualar por qualquer bom filme.
O que pode o cinema ainda fazer? O que esperam as pessoas ainda ver? Que influência pode a vida ter na arte, e a arte na vida? Todas estas questões parecem passar-nos pela cabeça ao longo de quase uma hora em que somos sugados para dentro deste universo doentio e exasperante.
Como se toda esta pungência não fosse suficiente, "Cigarette Burns" é ainda um filme de planos fantásticos, com a atenção aos espaços a que Carpenter, o mais arquitectónico dos realizadores, nos habituou, e uma música brutal, composta por Cody Carpenter, capaz de aumentar em nós o calafrio que as imagens já têm toda a probabilidade de criar.
O único defeito que realmente me sinto capaz de apontar a "Ciagrette Burns" é mesmo o facto de ser uma média-metragem, porque a verdade é que não é difícil sentirmos que há aqui material para uma longa.
Se ainda precisávamos de provas de que, desde o longínquo "Dark Star" de 1974, John Carpenter cresceu para ser realmente o mestre do cinema de terror, "Cigarette Burns" pode muito bem ser a prova dos nove.



sábado, 5 de janeiro de 2008

Control (Trailer)

http://www.youtube.com/watch?v=7c2_B_cWK_M

Trailer do mais recente filme de Anton Corbijn, sobre os Joy Division em particular sobre Ian Curtis. "Love Will Tear Us Apart" serve de banda sonora a este minuto e tal de antevisão do promissor filme.