quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Day's End/ Day's Passing

Será difícil encontrar, penso eu, um trabalho mais conciso e menos artificial no que toca a quase materializar dois dos elementos mais essenciais da Arquitectura: a luz e o tempo.
É certo que alguns arquitectos têm sido pródigos em projectar tendo como directrizes principais esses dois elementos (A título de exemplo, o trabalho de Norman Foster ou de Jacques Herozg e Pierre de Meuron.).
Podemos, de certa maneira, achar que é quase um contra-senso que dois elementos-chave da Arquitectura sejam dois elementos sem consistência física propriamente dita: mas o facto é que a Arquitectura não pode ser experienciada sem luz nem sem a quarta dimensão, que nos permite percorrer o espaço (Já agora, o próprio espaço, em si, é delimitado, mas também não tem consistência física...).
Ora a relação, que se quer fusional, do espaço para a luz e o tempo, não pode, pura e simplesmente, ser feita sem uma compreensão profunda daquilo que cada um significa.


O Arquitecto pouquíssimo convencional Gordon Matta-Clark começa a trabalhar durante os anos de ouro da Arte Conceptual, e o Arquitecto esteve ligado quase umbilicalmente ao movimento Anarquitectura. A sua morte prematura, aos 35 anos (Por cancro.), não significou que tivesse trabalhado pouco, ainda que, por razões que abaixo clarificarei, poucas tenham sobrevivido muito tempo; e também não significou que o seu trabalho tenha sido esquecido. Mas é, certamente, muito polémico. O teor altamente experimental e teórico da sua obra tem dividido as opiniões dos críticos, que hesitam entre classificá-lo como Arquitecto, ou como Artista Plástico. Claro que, para mim, o Arquitecto não deixa nunca de ser um Artista Plástico. Mas, partindo do princípio que eu subscrevo essa separação entre um e outro, continuaria a afirmar que Matta-Clark é um Arquitecto. Isto porque não podemos ver a sua obra fora do contexto da época em que foi construída (Ou desconstruída?). Há que relembrar que um dos princípios cruciais da Arte Conceptual era precisamente que o discurso sobre Arte era Arte em si.
Claro que o trabalho de Matta-Clark existiu sempre fisicamente, e não sob a forma de ensaios ou estudos. No entanto, toda essa obra não deixa de ser uma profunda reflexão sobre o que é a Arquitectura -sendo, portanto, em si mesma, Arquitectura.
De entre as suas obras, algumas tornar-se-iam realmente emblemáticas, caso de 'Splitting' de 1974, em que o Arquitecto parte, literalmente, uma casa a meio -expondo depois as suas conclusões através de montagens fotográficas -método que, aliás, usará frequentemente para mostrar o seu trabalho.
No entanto, é em 1975 que Gordon faz a sua obra a meu ver mais complexa e filosófica, e também uma das que vai mais longe nessa densa análise, que é simultaneamente um desafio, à Arquitectura.



'Day's End', também conhecido como 'Day's Passing' foi uma intervenção que Matta-Clark projectou para uma fábrica nas margens do Rio Hudson, a Pier 52, abandonada há vários anos pela empresa que a possuía.
Dando grande atenção à orientação solar e aos efeitos de reflexão da luz na água do rio, Matta-Clark abriu um buraco em forma de olho numa das paredes do grande complexo fabril. Assim, era possível, pela entrada de luz, ter noção, dentro da fábrica, do passar do dia lá fora, através do movimento da luz projectada.
Mesmo ignorando a beleza plástica do trabalho, que hoje, já depois da Pier 52 ter sido demolida, podemos testemunhar pelas fotografias e videos feitos sobre 'Day's End', interessa acima de tudo tentar compreender as conclusões que esta obra nos dá sobre a Arquitectura propriamente dita. Em primeiro lugar, percebemos que a luz é ainda uma das melhores maneiras de acompanhar o movimento abstracto do tempo, já que o dia, em si, é definido por um movimento de que o sol -protagonista de 'Day's End'- é responsável. E o que realmente é genial nesta obra é a maneira como tanto a luz como o tempo são materializadas, ou, pelo menos, tão materializadas quanto possível: a luz através da projecção, e ao tempo através do seu movimento. A luz é, por si mesma, visível, mas torna-se identificável ao ganhar aquela forma, e o tempo, invisível, claro, passa a ser visto.
Outra questão ainda que podemos encontrar em 'Day's End' é a questão do interior/exterior.  Esta dicotomia, também ela crucial em Arquitectura, parece, de uma forma subtil mas firme, ser quase contornada. Claro que as paredes e o tecto continuam a existir na fábrica. Mas é precisamente através daquele óculo, que não tem outra função senão controlar a luz, que, como acima defendi, conta o dia, que, estando dentro da Pier 52, temos um contacto permanente e irrecusável com a realidade exterior. Assim, é também através da luz que a separação espacial do interior e do exterior existe, mas não como barreira, existe mas não limita a percepção. Para esta ideia, a da tentativa reiterada de jogar com a percepção de quem experiencia aquele espaço, contribuirá certamente a ideia da forma do buraco: um olho. Ideia, aliás, ambígua: pode ser um apelo ao visitante, a olhar o fenómeno ali criado; como pode funcionar ao contrário, e ser o próprio fenómeno que olha o visitante.
Mais ainda, há que notar que a intervenção de Gordon Matta-Clark transforma um espaço perfeitamente vulgar num espaço invulgar que se torna quase 'pensante'. E consegue esta metamorfose através de uma combinação perfeita entre luz e tempo. Inclusivamente, percebemos que basta essa alteração, "simples" como abrir um buraco numa parede, para alterar redondamente a própria função do edifício. Matta-Clark não operou mais nenhuma alteração estrutural no espaço, mas transforma um lugar de trabalho a grande escala perfeitamente canónico num espaço artístico e ensaístico.
Apesar do valor incalculável desta intervenção de Gordon Matta-Clark, 'Day's End' valeu ao Arquitecto a invasão da polícia à inauguração, bem como um processo judicial por uso do espaço sem autorização dos proprietários. E, mesmo resolvida essa questão, nada impediu que a Pier 52 fosse demolida, e com ela uma das obras mais relevantes de Matta-Clark e de todo o pensamento arquitectónico. Claro que Gordon estava prevenido, e felizmente, temos ainda como rever 'Day's End'. O que faz falta.

2 comentários:

miguel fernandes disse...

Desconhecia esse arquitecto, graças ao texto fiquei a conhece-lo.

GRAÇA MARTINS disse...

Adoro o Matta-Clark. Um arquitecto rebelde e poeta. A sua observação da vida levou-o a desconstruir a essência da arquitectura.
Gostei muito deste teu olhar sobre este arquitecto.