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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Comment voyager


Comment voyager
sans voir le sang
qui a fertilisé la terre
sans voir la sueur
qui a salé la mer
nous piétinons l'histoire
les morts pour rien
des siècles de carnage et d'oppression
sont notre fierté
notre culture notre identité
à en vomir d'être homme
on envie l'immobilité de l'arbre
on voudrait se raccrocher aux oiseaux
on marche au petit bonheur
espérant que toute l'eau de la mousson
suffira
à laver notre passage
effacer notre empreinte

Saguenail
Le Peu de Chose
2009, ed. Hélastre
pintura de Frank Auerbach

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

[Aonde está o vidro da janela,]



Aonde está o vidro da janela,
aonde está o longe, o além, o ali
réstia de sol que eu sabia
morar dentro de mim?


Que pássaros vorazes comeram as estrelas
tragaram nos penedos
nuvens de fogo correndo à desvairada?


Miragem da distância transparente
que mãos te destruíram memória sonhos ruína
na ponte que me leva as lágrimas ao vento?


E o meu cabelo preso na porta que fechaste.


             Não há canto de galo
             nem manhã com perto
             não há silêncio,
             nem vozes para o ver.
             Não há senão
             o não haver.


Morre fastio azul no corredor deserto.


Sem rebanhos,
perco mãos nas cristas das montanhas
e sinto as algemas da ordem
sem segredo.


Manteiga sem vaca, nem mugido, nem esterco.


Ai rio, rio,
braços que me escorrem à procura de mar.
Como me dói o ar!

Salette Tavares
Espelho Cego
1957, ed. Ática
pintura de Frank Auerbach

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

[Nunca mais como ontem eu me visse]



Nunca mais como ontem eu me visse
se o acaso ainda me der em sorte
e este corpo completamente vestisse
outro andar outro olhar outro porte
e fingisse, fosse réplica ou clone
ou simplesmente aresta
não com ar de século dezanove
anos sessenta ou tuberculose
tão-só o ar andrógino dos noventa
cabelo em riste em arco-íris pintado
bom chic bom genre que bem assenta
no meu olhar verde e triste, cansado
em signos listrado tigre e touro
voz grave e sardas, cabelo louro
Helga Moreira
Tumulto
2003, ed. &etc
pintura de Frank Auerbach

sábado, 30 de abril de 2011

quarta-feira, 9 de março de 2011

30


Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.

António Franco Alexandre
Duende
2002, ed. Assírio e Alvim
pintura de Frank Auerbach

terça-feira, 1 de março de 2011

Panic


You know you ain't going nowhere
You're stuck inside while the mind is flying
You said you'd help me in the morning
Twisting on pins into my eyes
And dragging on the ceiling below you
Fixing up the walls with your crooked hands
While you're miles away, miles away, miles away

I didn't think it'll all end up like this
There's spiders on the wall and they stink of piss
Dead heads lying in the corner
Staring at me making me feel bad
I put my hands up to my eyes
But the holes in my palms let me find a way
To corner you, corner you, corner you

I can feel my chest crushing inwards
Sucking through my skin into my brain
Oxygen pushing on the window
cracks in the glass let It slip away
I start to cry and I keep on laughing
I close my eyes at what's left inside
And then I'll ran away, ran away, ran away

For all the time this land
For all the time in my hand
Slip around in depth found
Calmness fall once again, once again, once again

Razor blades floating in the warm bath
Air bubbles in your veins turning my hands black
Whispers coming from the next room
Window cleaner keep on spying
I put my hands up to my eyes
But the holes in my palms let me find a way
to corner me, corner me, corner me

Twelve tonnes hammer for my breakfast
Slipping of the edge in catatonic blood
Multiple decibel inscriptions
Trying all they can in miles an hour
Our face is grey and looming downwards
Sniffing all the time for a ounce of silence
Screaming all the way, all the way, all the way

Numbers counting down inside me
Solar system thoughts circle round my head
False teeth hanging from the ceiling
Feet looking of the goms of the 2nd sun
I eat my hands cos my legs are crying
You Broke my neck cause I snapped my spine
I wish you would die away, die away, die away

To all the time in this land
And all the time in my hands
Circle Round in depth found
Calmness Fall once again, once again, once again ...




Danny Cavanagh, John Douglas

(Anathema)

A Fine Day to Exit, 2001

pintura de Frank Auerbach
*****


Sabes que não vais a lugar algum
Estás preso por dentro enquanto a mente voa
Disseste que irias ajudar-me de manhã
Torcendo alfinetes nos meus olhos
E arrastando-me no tecto abaixo de ti
A arranjar as paredes com as tuas mãos tortas
Enquanto estás a milhas de distância, milhas de distância, milhas de distância

Eu não pensei que tudo fosse acabar assim
Há aranhas nas paredes e fedem a mijo
Cabeças mortas pousadas num canto
Olhando para mim, fazendo-me adoecer
Levo as mãos aos meus olhos
Mas os buracos nas palmas deixam-me encontrar uma maneira
De encurralar-te, encurralar-te, encurralar-te.

Consigo sentir o meu coração a esmagar-se dentro
Sugando a minha pele para o cérebro
Oxigênio empurrando a janela
Rachadelas no vidro deixam-no escapar
Começo a chorar e continuo a rir
Fecho os olhos ao que dentro continua
E então fugirei, fugirei, fugirei.

Para todo o sempre nesta terra
Para todo o sempre na minha mão
Círculos em torno da profundidade que descobri
Caio serenamente uma vez mais, uma vez mais, uma vez mais.

Lâminas de barbear flutuam no banho morno
Bolhas de ar nas tuas veias tornam negras as minhas mãos
Mumúrios chegam do quarto ao lado
O empregado que limpa as janelas continua a espiar
Levo as minhas mãos aos olhos
Mas os buracos nas palmas deixam-me encontrar uma maneira
de encurralar-me, encurralar-me, encurralar-me.
.
Um martelo de doze toneladas de pequeno-almoço
Deslizando pelo limite do sangue catatónico
Inscrições de muitos decibeis
Tentando tudo que podem a milhas por hora
Nosso rosto é cinzento e baixa-se
Farejando o tempo todo por uma onça de silêncio
Gritando todo o caminho, todo o caminho, todo o caminho.

Os números decrescem dentro de mim
Pensamentos como um sistema solar na minha cabeça
Dentes falsos pendurados no tecto
Os pés parecem gomos de um segundo sol
Eu como as minhas mãos porque as minhas pernas choram
Partiste o meu pescoço porque esgarcei a minha espinha
Só queria que morresses longe, morresses longe, morresses longe.

Para todo o sempre nesta terra
E todo o sempre nas minhas mãos
Círculos em torno da profundidade que descobri
Caio serenamente uma vez mais, uma vez mais, uma vez mais.


Tradução-livre de Sadsamson