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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

[foram breves e medonhas as noites de amor]


foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos

estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição

os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida

e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração

AL BERTO
O Medo
1997, ed. Assírio e Alvim

imagem de ISABEL DE SÁ

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida


há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


Al Berto
Salsugem
1984, ed. Contexto
imagem de Helena Almeida

domingo, 12 de abril de 2009

vestígios




noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavam
os líquenes das imundas máscaras


hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se


onde se pode - num vocabulário reduzido e
obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir
apesar de tudo
continuamos e repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva - vamos pela febre
dos cedros acima - até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial



Al Berto, "Horto de Incêndio"
imagem: Floria Sigismondi

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Al Berto: Lunário

OLD SCHOOL REMEDIES

Vergonha ou não, só agora li “Lunário”, obra em prosa escrita em 1988 pelo por norma poeta Al Berto. Confesso que nunca senti grande atracção pela obra deste escritor, por me ter cruzado com vários poemas em que o espectáculo parecia sobrepôr-se ao conteúdo.
No entanto, renego completamente esta visão, pelo menos no que toca a “Lunário”.
É uma história de solidão, acima de tudo. Inevitavelmente passa pelo amor, mas o que “Lunário” realmente tem de bom e o que lhe confere uma excelente carga emotiva, é a sensação de deserto interior, que se encontra, por exemplo, em alguns poemas de António Ramos Rosa, ou, porque não, nalguns poemas de Al Berto.

Um abandono curado com sexo, com droga, com álcool, enfim, old-school remedies. Homossexual assumidíssimo, Al Berto é, no entanto, dos que não se pode queixar que a imagem dos homossexuais é denegrida, uma vez que ele próprio faz a descrição de um ambiente em tudo decadente.
Mas, concretamente sobre a história de “Lunário”, nada nela é particularmente inovador, o que não implica que o livro seja mau, que não é. É, parece-me, um relato acima de tudo emocional e bem conseguido, pois, em vez de ceder à ideia de uma amor gratuito, Al Berto mostra-nos como nada é suficiente para encher a solidão de Beno, o personagem que vamos seguindo. É seguindo-o que vamos encontrando o ambiente da noite onde todos se vão deixando morrer aos poucos, os engates de rua, a fácil morte de quem lhe é próximo, e, essencialmente a perda.
Encontramo-lo algures numa fase em que vagueia por um país, só sentado num quarto de pensão. Adormece e vai desenrolando o seu drama pessoal: memórias da mulher com quem viveu e viajou e teve um filho, Alba; de Nému, um rapaz que conhece e de quem nunca chega a saber o verdadeiro nome, apesar de terem vivido juntos vários anos; de Kid, uma espécie de travesti cuja personalidade, ao mesmo tempo que funde o masculino e o feminino, funde a vida e a morte; de Zohía, com as suas alucinações que acabam por levá-la a um hoospício; de Alaíno, companheiro de Zohía, que acaba por ter que lidar com a “morte” metafórica da companheira; de um casal que gostava de assaltar casas apenas para ter sexo em camas alheias.
Uma espécie de odisseia invertida. Em vez de uma aventura é mesmo uma desventura, porque, por mais que possa encontrar alguma estabilidade, a vida de Beno caminha sempre para uma espécie de perdição, de vazio, de solidão com o corpo. Aliás, o narrador diz-nos, logo no princípio, “o corpo magro que transportara de um lado para o outro, sem descanso, fora sempre a sua única morada.” (pag.18). Como todos nós, de resto.
Inevitável, no entanto, entre tudo isto, é tirar-se uma leitura possivel, que não deixa de ser um tanto desagradável por ser moralista: pode este deserto ser um “castigo” de Beno por ter levado uma vida em que, nas palavras do próprio, não teve medo de si mesmo? Al Berto não é muito claro nisso. Somos tentados a seguir a ideia de que Beno é um sujeito que não pode existir a não ser no deserto, mas tal é apenas deixado implícito.
Talvez não seja muito exacto falar de “deserto” acerca de Beno, ou de toda a ambiência de “Lunário”. Não é exactamente um deserto, porque a vida deste personagem é construída sobre um vai-e-vem de pessoas: chegam e, conforme chegam, acabam por partir, por se perder de alguma forma.
E Al Berto é realmente muito verista no relato da tristeza e do isolamento que tudo isto causa no interior do seu personagem. Estamos, parece-me, perante uma obra em que a ficção e a auto-biografia se misturam consideravelmente.
Também de destacar é a capacidade descritiva, tanto de elementos psíquicos como físicos que o autor revela.