quarta-feira, 14 de março de 2012

Hélia Correia: A Terceira Miséria

UMA POETA EM TEMPOS DE INDIGÊNCIA

Durante cerca de dez anos, Hélia Correia publicou poemas dispersamente por vários jornais e revistas, e ainda que, em 1981, a publicação de 'O Separar das Águas' tenha funcionado como uma escolha da autora pela prosa, talvez seja justo dizer que mesmo na sua escrita de ficcionista, Hélia não abandonou a poesia -se na poesia, mais do que na prosa, parecem inserir-se os seus livros. Poesia publicada também houve, ainda que rara: 'A Pequena Morte' (1986) publicado juntamente com 'Esse Eterno Canto' de Jaime Rocha, e 'Apodera-te de Mim' (2002).


As raízes da formação helenística de Hélia Correia eram nítidas em 'Apodera-te de Mim', e o seu livro mais recente, 'A Terceira Miséria', acabado de lançar, retoma a sombra da Grécia. No entanto, tanto à partida como depois da leitura, 'A Terceira Miséria' parece ocupar um lugar muito específico na poesia que conhecemos de Hélia. Reparemos que os dois livros prévios são edições discretas e de tiragem reduzida (Ainda que de um apurado cuidado gráfico, típico das edições da Black Sun.) ao passo que agora, pela primeira vez, Hélia publica poesia numa edição de maior visibilidade, da Relógio d'Água, que talvez permita a este livro uma difusão maior do que a dos outros.
Para entender uma possível razão para isto, só mesmo lendo o livro. 
Vista de determinado ponto de vista, toda a obra de arte tem uma dimensão política. 'A Terceira Miséria' é um poema só, dividido em 33 fragmentos, que se debruça sobre a Grécia -e não só- de forma a dar-nos uma dimensão de que mundo é este em que actualmente vivemos. Se se torna quase chavão dizer que o desconhecimento do passado é uma condenação a repeti-lo, este poema tem a eficácia de mostrar-nos que esse chavão não deixa de traduzir uma realidade. No centro do poema fulgura a plenitude clássica da Grécia no seu apogeu cultural. Esse centro fornece-nos as linhas mestras para um desenho da actualidade não necessariamente grega, mas europeia

Sofremos, sim, de idêntica indigência
Da ruína da Grécia.
(p.13)

e quem sofre somos

Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizam
(p.13)

o que é ainda uma admirável e natural descrição de nós- nós os europeus em crise, sujeitos ao monopólio económico, à corrupção e à perda da independência, nós, sobretudo, que nos perdemos do passado enquanto herança cultural e, daí, política.
A ideia de que é, no fundo, a esta questão que 'A Terceira Miséria' se refere fica clara logo no primeiro fragmento, onde o eco de Hölderlin origina uma espécie de constatação a um tempo angustiada e irónica

Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
(p.7)

precisamente esta será a interrogação que origina o poema, uma vez que todo ele é, mais directamente por vezes, outras menos, uma resposta a estes primeiros dois versos

                                Às suas mãos
Atenas viu os quartos, as cozinhas,
A roupa de seus filhos devassados,
As passadas de gelo atravessando,
Cortando os corredores e os corações.
Outra vez conquistada, olhando ainda,
No pequeno intervalo da servidão,
Pela janela, para o fim da rua,
Onde nada se avista. Pois, tal como
Os sentidos do corpo se compensam,
Tomando, como tomam os guerreiros,
O lugar do caído, assim também
Os sentidos da alma se engrandecem
E alcançam o que tanto querem ver:
(p.27)

lemos no fragmento 21. Momentos como este não faltam ao longo de todo o poema, e são bastante importantes, no sentido em que nos mostram que este poema não intenta contrapor um tempo de indigência com um tempo de prosperidade. Antes 'A Terceira Miséria' contrapõe dois tempos de indigência em que a oposição existe na forma como essa indigência de resolve. Essa resolução é aquela que encontramos na explicação das três misérias:

                                           Sim, foi essa
A primeira miséria, a deserção
Dos deuses. A segunda, a sua morte,
Já na morte de Pã anunciada
Pelo lamento dos bosques, o clamor
Lutuoso das ilhas do Egeu.
(p.24)

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
  
(p.29)

Contrapor estes dois fragmentos é encontrar uma das mais interessantes características do poema. Se repararmos bem, à superfície, este contraponto cruza, além de vários tempos, vários universos, sendo que as primeiras misérias se desenrolam no plano da mitologia, ao passo que a terceira miséria pertence a um plano bem concreto e realista. No entanto, um outro entendimento desta separação de universos pode dar-nos outra possível pista para a leitura de 'A Terceira Miséria': a mitologia era uma parte crucial da cultura grega, e ela representa uma forma de viver, uma forma de olhar o real, forma essa que, no tempo desta terceira miséria, já se perdeu. Se para os gregos os deuses eram uma forma de olhar e resolver a realidade, este tempo com que estamos a lidar, é um tempo em que os deuses, naquele sentido, se perderam, o que pode ser uma maneira de reduzir[mos] a beleza a pequenas tarefas, como se lia no fragmento 7.
No final do livro, encontramos uma Dívida confessada, onde Hélia assume os ecos que neste poema se fazem sentir, de Maria Gabriela Llansol, Hölderlin, Nietzsche, Ésquilo, Glenway Wescott, Plutarco, Tucídides e de Lord Byron. Este último, Byron, é citado pelo seu último poema, On This Day I Complete My Thirty-Sixth Year e onde o chamamento da Grécia que lhe marcou a vida e a escrita se faz sentir. A sua presença em 'A Terceira Miséria' é, de certa forma, das mais significativas. Este poema é escrito no século XIX, já longe da Antiguidade Clássica, quando a Grécia era já um país entre vários da Europa. No entanto, é Byron, poeta, quem diz que a Grécia está desperta. Esse mesmo sentimento de que, sob a Grécia de hoje, que se encontra numa situação semelhante ou pior que a de Portugal e, já agora, do resto da Europa, existe ainda uma possibilidade de recuperar a intensa cultura

«Que o meu corpo não seja», escreveu ele,
«Levado, entregue a túmulo inglês.»
Mas foi. Que pode um voto, que podia
Um último poema, dito a custo,
Por quem se ergueu do leito nessa casa
Que o fogo em breve ia destruir,
O que pode o desejo contra a ordem?
Que segurou nos braços essa Grécia
A quem ele deu tudo, quando as urnas,
A do corpo e a das vísceras embarcaram?
(p.35)

lemos ainda no encalço de Byron. A importância da presença deste poeta no poema de Hélia Correia é, como acima disse, bastante, a meu ver, e por isto: primeiro, porque Byron, como se disse, escreve o seu último poema já depois da Antiguidade Clássica e segundo, e bastante mais importante, porque a referência a Byron, que surge a partir do fragmento 27 (Sendo que o poema são 33 fragmentos.), quase no final,. como que encaminhando-nos discretamente para a resposta à pergunta principal deste 'A Terceira Miséria', da necessidade de poetas em tempos de indigência

Para onde olharemos? Para quem?
Certo é que Atenas se mantém oculta
E de algum modo intacta, por debaixo
Do alcatrão, do ferro retorcido.
(p.36)

E esta permanência, que Byron viu no seu último poema, e que Hélia explora neste seu, é talvez a única e grande utilidade dos poetas em tempo de indigência: a de ver e ressuscitar essa Atenas simbólica que existe sobre a actual, é a de recuperar toda uma carga cultural que está perto de se perder completamente, de não deixar esquecer aquele que foi noutros tempos o grande caminho para vencer a adversidade e o caos. A terceira miséria, onde culminam a primeira e a segunda, é, no fundo, uma miséria a que só os poetas conseguem apontar uma saída, como se a sua função fosse não deixar o tempo perder-se do tempo.
Mas mais do que esta mensagem que fica patente em 'A Terceira Miséria', interessa ler o poema com atenção e apreciá-lo em toda a sua intensidade, que excede a própria mensagem, e nos deixa um testemunho potente e fulgurante que, mesmo que se situe no tempo actual, é um testemunho sobre toda uma cronologia que começa na Antiguidade Clássica e termina hoje, escrito com uma força tão acutilante que nos chega a dar a impressão que Hélia Correia pudesse ter atravessado efectivamente todo este tempo.
É difícil falar deste livro no contexto da poesia de Hélia Correia, uma vez que dimensão publicada desta é reduzida, mas 'A Terceira Miséria' parece de alguma forma retormar 'Apodera-te de Mim' que, como acima se disse, procurava já a herança grega. A linguagem de Hélia é aqui mais lapidar e directa, sem por isso perder a sua subtileza, a sua tensão e a sua incandescência que oscila entre a beleza extrema e um realismo quase grotesco, que no prazer exacerbado dos sentidos faz fulgurar o miserabilismo que também passa por este poema. Além disso, talvez mais do que os outros livros, este livro marca um diálogo aberto e rico com várias figuras do pensamento e da literatura. Esse diálogo acaba por intensificar a relação que este poema cria com o tempo, no sentido em que, recuperando o pensamento dessas figuras, Hélia recupera também aquilo que, no tempo delas, era comum a este tempo, mostrando-nos que, no fundo, não se trata dessas figuras estarem à frente do seu tempo, mas sim do facto desse tempo ser, em muito, igual ao nosso, senão o mesmo que o nosso.

No resto, este poema vai de encontro àquilo a que Hélia Correia nos habituou nos poemas que dela conhecemos, mas também na sua prosa que, agora fica provado por completo, é profundamente poética: uma imagética fortíssima, ligada muitas vezes a situações de violência extrema, numa certa tendência para o caos, imagética essa associada a um outro lado analítico e mais ligado à dimensão psicológica e a um certo contexto cultural das imagens já dadas e que, no caso deste poema, são essenciais para ele, senão a própria motivação dele.
Se este livro servir, como para mim se justifica pensar, como uma forma de marcar uma posição e uma opinião, então ele é certamente uma das opiniões mais informadas, sensíveis e inteligentes sobre este tempo assustador em que vivemos, e não deixa de ser uma irónica resposta para a grande pergunta deste poema, que uma opinião desta natureza venha de uma poeta. Mas talvez uma opinião assim só uma ou um poeta a pudesse dar. E por isso, valeu a pena que deste poema se fizesse uma tiragem mais generosa e mais difundida, por mais que graficamente menos interessante. E claro, vale sempre a pena que se dêem a conhecer poemas de uma poeta, ela sim, verdadeiramente obscura -no sentido em que quase não temos acesso aos seus poemas- poemas esses que só podem deslumbrar-nos, tanto pela sua violência como pela força da sua beleza. O pretexto pode ser o pior, mas 'A Terceira Miséria' é um grande poema e eu só tenho a lamentar que o estrondo que este poema é não cause um estrondo em quem mais precisava dele.

2 comentários:

GRAÇA MARTINS disse...

Óptimo!! Vou partilhar no Facebook!
Espero que aproves!!!

GRAÇA MARTINS disse...

Óptimo!! Vou partilhar no Facebook!
Espero que aproves!!!