quarta-feira, 12 de agosto de 2009

quando os nossos corpos se separaram





quando os nossos corpos se separaram olhámo-nos quase a desejar ser felizes.
vesti-me devagar, o corpo a ser ridículo. disse espero que encontres um homem
que te ame, e ambos baixámos o olhar por sabermos que esse homem não existe.
despedimo-nos. tu ficaste para sempre deitada na cama e nua, eu saí para sempre
na noite. olhamo-nos pela última vez e despedimo-nos sem sequer nos conhecermos.



José Luís Peixoto
A Criança em Ruínas
2000, quasi edições


imagem: Nan Goldin

2 comentários:

sleeping beauty disse...

Fantástico. Neste poema existe a noção exacta de que sexo, intimidade e amor, são momentos completamente diferentes. Há quem nunca encontre o amor e há quem ao despir-se, nunca revele a sua intimidade.
Muito interessante.

Supermassive Black-Hole disse...

E consegue dizer tudo isso sem surrealismos e sem que, ao ler, tenhamos que consultar o dicionário larousse. um achado, nos dias que correm