segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Isabel de Sá: Restos de Infantas

O SUSTO DA INFÂNCIA

Olhando para o percurso de Isabel de Sá, iniciado à precisamente 30 anos, é possível percebermos que estamos perante um dos mais coesos e maduros projectos poeticos no panorama português.
A par com Luís Miguel Nava, Isabel de Sá foi o nome da poesia dos anos 80, fase mais activa do seu percurso literário. Paralelamente, exerce actividade plástica, que muitas vezes, senão sempre, acaba por estar unida à sua pordução poética. E se é possível reconhecer alguns ciclos nessa poesia, certamente ela tem elementos que a ligam e tornam unitária. Elementos como a infância, a beleza (Ou Beleza.), a linguagem do corpo ligada à dos sentimentos, e uma clareza no discurso que resulta como clarividência, e, acima de tudo, a extrema humanidade dos conteúdos. A nível de ciclos, podemos falar de um primeiro, de extrema densidade expressiva, desde "Esquizo Frenia" (1979). Outra fase mais madura e analítica principia mais ou menos em "Em Nome do Corpo" (1986). A partir de "Escrevo Para Desistir" (1988) a relação da escrita com a vida torna-se fulcro, com particular incidência em "O Avesso do Rosto" (1991), que pode ser entendido como uma arte poética. Esta é uma característica com grande peso ainda em "O Duplo Dividido" (1993), o conjunto mais eventualmente (psic)analítico, mas este, como viriam a confirmar "Erosão de Sentimentos" (1997) e "O Brilho da Lama" (1999), é mais fortemente marcado por uma linguagem interior, mais clara, suave e brilhante do que nunca, e também mais emotiva.
Se fôr possível falar de premissas na obra desta escritora, no seu livro de estreia, o folheto "Esquizo Frenia", Isabel de Sá afirma que "sem beleza não se aguenta estar vivo".

Falar de "Restos de Infantas", quarto livro da autora, é necessária e primeiramente falar de beleza. O tema da beleza é por vezes assunto central dos textos presentes neste livro, mas é invariavelmente característica próxima e intrínseca desta escrita. Escrito entre 1979 e 1980, apesar de ter sido publicado pela Ulmeiro apenas em 1984, "Restos de Infantas" é um livro que podemos agrupar com outros dois da bibliografia de Isabel de Sá: "Bonecas Trapos Suspensos" e "Autismo". De certa forma, é possível e provável uma ligação com todos os livros da autora, mas com estes dois em específico, "Restos de Infantas" parece criar um ciclo lógico, ligado essencialmente à infância, ou ao que dela resta, como uma forma de autismo ou de utopia.
Ou de distopia, visto que muitas vezes, essa infância se revela detentora de uma certa crueldade, pois, como já afirmara em "O Festim das Serpentes Novas", "A infância é um susto." Aqui, Isabel de Sá escreve que "Foi um tempo de múltiplos cansaços" (pag.18). Mas, como não podia deixar de ser, a beleza é sempre a máscara ou, porque não, a realidade, destas descrições: "Comiam seu coração pisado de tanta vida" (pag.19). Parece-me que uma das mais assinaláveis características desta poesia é, na sua simplicidade, ser capaz de conferir beleza a tudo. Ao cansaço, a antropofagia, ao susto.
O que também não é exterior a este livro é uma certa influência de uma imagética quase expressionista, densamente metafórica, "cintura tatuada de açucena" (pag.24), "Laços mortos de outras crianças" (pag.22), "Recolhia despojos de muitas infâncias" (pag.23).
Nesse registo, de quem paira "sobre abismos tão estranhamente brancos" (pag.17) esta poesia, feita "no incêndio de inúmeras agonias" (pag.20), traz-nos a infância em visita, mas dá-nos também conta de um crescimento. Assim lemos "Chegou a hora de minha alma não ser ela" (pag.28), e percebemos as implicações do abandono da infância, quando a vida se torna assumidamente um susto, o abandono das visões paradisíacas. Essa segunda parte do livro é mais claramente triste, mais distante, e a interioridade torna-se mais melancólica e menos explosiva. "Ia em longas tardes visitá-la", passado.
A separação ou, se se quiser, o crescimento definitivo, ocorre quando "A cinza de luz é tanta que não posso abandonar-me" (pag.27).
Além dos poemas, é de referência a capa e o separador da autoria de Graça Martins, certamente muito ilustrativos do espírito deste livro.

1 comentário:

sleeping beauty disse...

Obrigada pela parte que me toca.
As análises do Black-hole são sempre tão incisivas e sensíveis.
Ainda vais escrever para o JL. Os astros devem saber...
Um beijo
Graça