sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Agustina Bessa Luís: O Mistério da Légua da Póvoa

DA LOUCURA (E) DO DESEJO

Não será por acaso que um dos títulos mais importantes e de maior qualidade da escritora portuense Agustina Bessa-Luís é “A Sibila”. De facto, no contexto da História, as sibilas eram adivinhas que sibilavam o destino das pessoas. É um pouco isso que Agustina faz nos seus romances, não propriamente adivinhando, mas traçando, a vida dos seus personagens e certamente não sibilando, mas falando dele com toda a objectividade e “frieza”.
“O Mistério da Légua da Póvoa”, ainda que seja um romance, foi publicado como folhetim, capítulo a capítulo n´”O Independente” entre 2001 e 2002, sendo publicado posteriormente em livro em 2004. Assim, assume-se como folhetim, mas não perde nenhuma característica das habituais nos romances de Agustina, sendo o único problema o facto de por vezes redundar demasiado nalguns episódios da história, o que se compreende, visto ser necessário manter o público a par da história, relembrando factos que podem, por vezes, ser esquecidos.
Parece-me que o romance, enquanto estilo de escrita, exige ao seu autor que seja absolutamente fotográfico e absolutamente cru naquilo que escreve, cingindo-se a narrar a história, de uma forma o mais precisa possível. Partindo deste princípio, na minha opinião, entre os escritores portugueses vivos, apenas dois são romancistas puros, e serão Agustina Bessa-Luís e José Saramago, ainda que tenham estilos absolutamente distintos. Não estou com isto a criticar os restantes, porque me parece que se este estilo mais fotográfico é exigente, pode por vezes resultar demasiado inexpressivo, se o autor não souber evitar isso, como o sabem Agustina e Saramago. Nos restantes romancistas, nota-se uma influência de outros estilos, como, por exemplo, a poesia, o que evita precisamente o perigo de se escrever uma narrativa demasiado objectiva.

Agustina será a mais bem-sucedida descendente de uma forma de escrever muito própria dos escritores realistas, e o caso de Eça de Queiroz vem inevitavelmente à baila no que a isto toca.

Concrectamente, “O Mistério da Légua da Póvoa” é uma história que terá surgido à sua narradora por sugestão do seu amigo Freirão das Forças, a propósito de uma conversa sobre folhetins, em particular “O Mistério da Estrada de Sintra” de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão.
Trata-se da história de Maria Adelaide Coelho, filha de uma importante família de Lisboa, que inclui o pai, Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias.
Ao aperceber-se de que está a envelhecer, graças a um poema cómico que o marilho lhe dedica, Maria Adelaide é atacada por aquilo que três grandes alienistas definem como “loucura lúcida”, e decide fugir com o seu motorista para a Serra das Gralheira, e levar uma vida de pobre, ignorando a fortuna de que é detentora.
O marido é que não se fica, e acaba por perseguir a evadida mulher, internando-a no Hospital do Conde de Ferreira, de onde esta consegue escapar-se duas vezes.
Não querendo revelar demasiado da história, parece-me ser esta uma típica prosa agustiniana, onde a acutilância da voz narradora é elemento essencial para uma compreensão da narrativa, estando esta situada numa família burguesa a debater-se com os problemas do seu tempo e com os seus próprios problemas.

Além disto, Agustina consegue também penetrar a fundo as questões psiquiátricas que a história implica, reforçando a sua controvérsia através de referências a documentos da época, reconstituida com o rigor que Agustina não dispensa nunca.
É portanto mais uma história da sibila, a ler como forma de compreensão do mundo em que vivemos e de quem, além de nós, mas incluindo nós, o constitui.

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