quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Wanda Ramos: As Incontáveis Vésperas

TROVA DO TEMPO QUE (NÃO) PASSA

De justiças e injustiças se faz a História. E a da Literatura, como História que é, também.
Wanda Ramos é um belo exemplo de uma injustiça, arrisco (Digo “arrisco” porque não lhe conheço a obra completa.). Quer-me parecer que, onze anos que passaram sobre a sua morte terão sido suficientes para que o seu nome se perdesse. Injusto.




A escritora nasceu no Dundo, Angola, em 1948, e morreu de surpresa em 1998 em Lisboa. Em 1970 publica em edição de autor o livro de poesia “Nas Coxas do Tempo”. Apesar de ter sido incluida em antologias como “Experiência da Liberdade” em 1975, a sua estreia comercial só acontece em 1979, na editora Oiro do Dia, com a plaquete “E Contudo Cantar Sempre”. No mesmo ano, “Que Rio Vem Forçar a Entrada Desta Casa?” é incluido na “Jovem Poesia Portuguesa- volume 1” da Limiar, ao lado de Eduarda Chiote e João Camilo. Em 1983 publica um volume de prosas poéticas na &etc, “Intimidade da Fala” e a sua obra poética termina três anos depois com “Poe-Mas-Com-Sentidos”.
Estreou-se na prosa com “Percursos (Do Luachimo Ao Luena)” em 1981 (Com o qual venceu o Grande Prémio da APE.), e publicaria ainda em prosa, quer romance quer contos, “As Incontáveis Vésperas” (1983), “Os Dias, Depois” (1990), “Litoral (Ara Solis)” (1991) e o póstumo “Crónica com Estuário ao Fundo” (1999), além de dispersos como “Um Homem de Cabeça de Pedra” (1988) na Colóquio Letras.
Acabo o ano de 2008 precisamente a acabar o seu segundo romance, “As Incontáveis Vésperas”. Foi um livro no qual tropecei por acaso, numa feira no Mercado Ferreira Borges, e que me venderam pelo brutal preço de 1 euro. Conhecia o nome do catálogo da &etc, e de alguns poemas com os quais já me cruzara.
A minha experiência com a sua prosa é esta: li e quero mais. Recomendo.


“As Incontáveis Vésperas” não é um romance único e absolutamente insólito. É, no entanto, um romance importante. Trata-se do romance muito em voga no pós-25 de Abril, em que a emancipação da mulher é o assunto central. No entanto, o que diferenciará o que é escrito por estar em voga do que é escrito porque tem que ser escrito e porque tem algo a dizer é precisamente o tempo que passa sobre a época: neste caso, parece-me que Wanda Ramos produziu aqui um retrato implacável de uma sociedade e dos seus costumes, e de uma forma muito particular. Não foi a única. Cito, a título de exemplo, “Notícia da Cidade Silvestre” de Lídia Jorge, publicado no mesmo ano, ou “A Madona” de Natália Correia.
O romance coloca-nos perante um antagonismo claro, logo de início: Augusta Rosa e a sua “saleta sem novidade” e a sua neta, Sara, heroína da história. Por um lado uma tradicionalista avó, ridícula nas suas tentativas de mascarar a sua velhice e a sua vida sensaborona (Maquilhando-se, dando-se a interesses repentinos por mobílias ou animais.), ao mesmo tempo que as vive em pleno, e com comportamento de mártir (Queixando-se à empregada ou fazendo da neta alvo do seu rancor.). Por outro lado, uma adolescente a enfrentar as alterações do corpo, e a renegar todos os códigos sociais e comportamentais que lhe são impostos. Mas, estamos nos anos sessenta, numa época da mais evidente e rígida opressão, onde todas as ideias rebeldes devem ser experienciadas na mais remota intimidade. Uma época em que se vive de incontáveis vésperas de uma mudança que nunca chega a ser consumada.

Um parêntesis para uma nota sobre o título: a formação de Wanda Ramos em Letras não deixa de se notar na atenção que dá às palavras: por “incontáveis vésperas” podemos entender que são vésperas inúmeras, ou seja, antecipações de algo que nunca chega a concrectizar-se; mas por outro lado podemos entender que são vésperas incontáveis, impossíveis de relatar: a ideia do tempo e da sua adulteração dos factos não é estranha à obra da escritora, e, ao longo do romance, é notória a dificuldade que a personagem Sara revela em expressar o seu ódio e o seu desejo de fuga para algo maior.
Ainda a propósito da atenção às palavras, é de notar a reconstituição de linguagem mais recuada que a autora consegue fazer, de uma forma natural ou não, mas que ajuda, de facto, o leitor a inserir a história no seu tempo, sem necessidade de indicação de datas unívocas (Ainda que estas surjam ocasionalmente.).

Nisto encontramos Sara, enclausurada numa família onde o parecer se sobrepõe ao ser e numa cidade onde nunca há nada de novo a fazer e onde não existe a mínima vontade de mudar, com “Os estores do mundo descidos, podadas em suas casas as poucas rebeldias…” (pag.153)
Estamos, pois, perante uma heroína sem meios para vencer, sem que isso a torne menos heroína, pois “…se se diz que dos fracos não reza a história, eu antes diria que é de certos mortos (…), dos mortos idos representando o seu papel de amputação dos filhotes, transmitido esse à geração seguinte, levado como facho de vitória pelos descaminhos vários, que afinal nunca são as coisas que se teriam previsto(…)” (pag. 39)
São questões destas que o livro coloca em causa- As tentativas de Sara para se soltar do seu facho, quer seja nos braços de Paulo ou nos delírios com Amador, quer ao escrever nas páginas do seu diário ou nas suas cartas, revelam-se sempre insuficientes, por serem falsas soluções- Paulo representa a típica mentalidade machista, querendo “desflorá-la para que ficasse guardada para ele”, Amador é um personagem cujo aspecto e a conduta eram impensaveis para a época (Por acaso, em tudo condiz comigo, menos no nome, foi estranho…) pelo que acaba por desaparecer misteriosamente; as páginas do diário nunca saírão da sua intimidade, e as cartas serão endereçadas a uma amiga com quem cortará. Ou seja, é uma contra todos, e ela perde. Perde porque, por vezes, se encontra contra si própria. Este texto é prodigioso em descobrir os pontos onde a influência dos outros, ainda que reconhecidamente reprovada, consegue fazer-se sentir e não ser contornada.

Também é preciso ter em atenção que este é um relato claramente de uma mulher, inacessível ao homem mais objectivo. A sensibilidade e as sensações partem de um corpo que se auto-descreve. E, nessa auto-descrição (Diferente de auto-biografia.) não se perde, de todo, a linguagem que Wanda Ramos terá herdado dos seus livros de poesia que, no seu grosso, já estavam escritos nesta altura.
Por fim, Wanda chega ao fulcro das dúvidas humanas patentes neste livro- Porque será que as ideias repressoras e conservadoras se afirmam sempre conta o corpo? Contra o sexo e a experiência do corpo? Afinal, porque não poderia uma mulher ir ao café? Ou que mal tinha que se masturbasse? Ou porque não lhe explicavam o que era a menstruação? Assim nos podemos perguntar: qual o peso nocivo do corpo para que se renegue tão frequentemente?
São perguntas cujas respostas variarão conforme quem as faz.
Mas, numa época em que parecemos (Enquanto sociedade.) estar a voltar a um certo conservadorismo, faz este romance todo o sentido, acho eu. Wanda Ramos é, onze anos depois, um nome a reter para quem, como eu, não a conhecia.

Antes do fim, gostava de agradecer ao João e à Conceição que no dia 1 de Maio de 1985 compraram este livro, e depois o venderam. Só assim o pude comprar numa feira por 1 euro, vinte e três anos depois.

1 comentário:

sleeping beauty disse...

Black-Hole
Gostei muito da tua análise/impressão, ao livro da Wanda Ramos.
Confesso que nunca fui leitora da Wanda Ramos. Li alguns poemas desta autora e na altura achei-os sempre demasiado engagé com a cor politica dominante.
A tua análise despertou-me a curiosidade e vou ler "As Incontáveis Vésperas", não esquecendo o trabalho fabuloso de Simone de Beauvoir, das Três Marias, da Virgínia Woolf e de outras mulheres que já tinham colocado o tema deste romance da Wanda Ramos num ponto alto da literatura. As vivências possivelmente seriam outras mas a opressão da mulher, na altura, era igual em toda a Europa. No caso da Virgínia Woolf(Londres-Reino Unido 1882-1941),era mesmo uma visionária. O seu livro "Um Quarto Que Seja Seu" ilustra bem a necessidade de autonomia que uma mulher deveria ter na sociedade, e que depois com as primeiras sufragistas e a seguir as feministas, as suas lutas conseguiram o direito ao voto das mulheres e a luta pela sua emancipação. E a luta continua. Enquanto existirem mulheres oprimidas, maltratadas e de segunda categoria, o feminismo está vivo.
Um beijo
Graça