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sábado, 12 de março de 2011

Monotone


Antes de saíres para o trabalho, arrumas à pressa o dia anterior
para debaixo da cama.
Guardas o coração ainda adormecido bem dentro do teu corpo
e esqueces essa canção que já não passa na rádio
mas que vive secretamente dentro de ti.
Fechas a porta à chave com duas voltas e sais.

Os teus passos na escada fria soam ligeiros e apagam-se,
perde-se o rasto, easy listening,
guardas tudo para ti como um ex-DJ. ..
Assim partes, quase a correr.

Parada junto à passadeira, protegida num gesto ledo
fixas o olhar na sombra dos carros que passam.
Esperas pelo Sábado,
pelo Feriado e as suas pontes,
pelas Férias para ouvires as tuas canções.
Sentes-te longe, silenciosa de luz.


João Miguel Queirós
Veludo 038
1998, ed. &etc

desenho de Tony Bevan

quarta-feira, 2 de março de 2011

China Doll


Eu ia na passadeira com um propósito mas

a gravata de um homem atirou-me para o coração
do abismo. Uma insuspeitada gravata de seda
com pintas discretas, o catalizador

da vertigem. Aquilo que o vento levantava
na avenida era uma espécie
de música, um barulho de sinos remoto

e descompassado, viam-se algumas flores
a entrar na boca do esgoto como se fosse ali
a casa delas. E sem deixar eco qualquer coisa ruía

nas fachadas, o próprio oxigénio era nesse instante
como uma língua estrangeira. Eu sentia na garganta os tambores
do sangue e os prédios enfadonhos pulsavam
na taquicardia, caíam em desamparo

para a cova do meu peito. Do outro lado da rua
um sinal de trânsito foi a minha âncora.

Rui Pires Cabral
Música Antológica & Onze Cidades
1997, ed. Presença
desenho de Tony Bevan