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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

no barroco, as freiras a escrever até pontuavam... (4)


Tenho amor, sem ter amores
Tenho amor, sem ter amores.

Este mal que não tem cura,
Este bem que me arrebata,
Este rigor que me mata,
Esta entendida loucura
É mal e é bem que me apura;
Se equivocando os rigores
Da fortuna aos desfavores,
É remédio em caso tal
Dar por resposta ao meu mal:
Tenho amor, sem ter amores.

É fogo, é incêndio, é raio,
Este, que em penosa calma,
Sendo do meu peito alma,
De minha vida é desmaio:
É pois em moral ensaio
Da dor padeço os rigores,
Pergunta em tristes clamores
A causa minha aflição,
Respondeu o coração:
Tenho amor, sem ter amores.

Soror Madalena da Glória
Brados do Desengano Contra o Profundo Sono do Esquecimento
imagem: Paul Gauguin, "Nevermore"

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

No barroco as freiras a escrever até pontuavam... (3)



É ciúmes a Cidra.
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que picos e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Sidrach foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes, e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos!

Soror Maria do Céu
Enganos do Bosque, Desenganos do Rio em Que a Alma Entra Perdida e Sai Desenganada
Lisboa, 1736
imagem: Robert Mapplethorpe

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

No barroco, as freiras a escrever até pontuavam...2



Cobridme de flores
Que muero de amores.

Porque me mi aliento el ayre
No lleve el olor sublime,
Cobridme.

Sea porque tudo es uno,
Alientos de amores e olores,
De flores

De azucenas y jasmines
Aqui la mortaja espero,
Que muero.

Si me perguntais de que
Respondo em dulces rigores:
De amores.



Soror Maria do Céu
Enganos no Bosque, Desenganos no Rio, Em que a Alma Entra Perdida e Sai Desenganada
Lisboa, 1736
imagem: Graça Martins

No barroco, as freiras a escrever até pontuavam...


Vida que não acaba de acabar-se,
Chegando já de vós a despedir-se,
Ou deixa, por sentida, de sentir-se,
Ou pode de imortal acreditar-se.

Vida que já não chega a terminar-se,
Pois chega já de vós a dividir-se,
Ou procura, vivendo, consumir-se,
Ou pretende, matando, eternizar-se.

O certo é, Senhor, que não fenece,
Antes no que padece se reporta,
Por que não se limite o que padece.

Mas viver entre lágrimas, que importa
Se vida que entre ausência permanece
É só viva ao pesar, ao gosto morta?

Soror Violante do Céu
Rimas Várias
(Rouen, 1646)
imagem: Graça Martins