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sexta-feira, 11 de março de 2011

A Intimidade do Caos


Um amigo vai morrendo nas palavras
enquanto a cidade estala de crueza.

Ela corre, louca, pelas luzes do poente
à beira do mar mais selvagem
da infância.

Um amigo vai morrendo entre néons
e sonhos carbonizados.

Ela corre, quase feliz, à beira
dos abismos.

A morte veste-lhe as lágrimas
de nudez.

Não há ecos nem poemas
Apenas rios de sangue
escorrendo lentos por dentro
das mudas palavras

Maria Graciete Besse
Espelhos, Ausências
1990, ed. Caminho
fotografia de Frederik Froument

sábado, 28 de fevereiro de 2009

o poema/ a fotografia



fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer? pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.





José Luís Peixoto
no primeiro número da revista "Apeadeiro", quasi, 2001
fotografia: Frederik Froument