terça-feira, 23 de setembro de 2008

A Caça de Manoel de Oliveira

Aproveitando a muito feliz iniciativa da Fundação de Serralves de expôr a obra do realizador português Manoel de Oliveira, aqui ficam as minhas impressões da curta-metragem "A Caça". Realizado em 1963, a ideia original de Oliveira era uam longa-metragem, mas acabou por se ficar pelos 21 minutos. Esta curta poderá ser incluída no mesmo grupo de "Pão" e "Acto de Primavera", onde o cineasta usa cenários naturais e actores amadores.

Parece-me que o caso de "A Caça" terá sido muito bem-sucedido.


É a história de dois rapazes a deambular por um terreno de caça mormente preenchido por pântanos. Após uma cena particularmente boa em que são ameaçados por um caçador que aponta a caçadeira directamente à câmara, discutem o assunto que acaba por parecer paradigmático:
"se os animais fossem bons não se matavam uns aos outros."
Filosofias à parte, os dois rapazes vão brincando pelo imenso terreno, até que um deles fica preso num pântano. O amigo corre à população mais próxima a pedir ajuda.
Os homens que acorrem formam um cordão humano para salvar José, que se afoga. No entanto, quando o cordão se quebra, todos ficam distraídos a discutir quem foi o responsável, deixando o rapaz a afogar-se, seguro apenas por um maneta, que no meio dos outros berros grita
_A mão, a mão, a mão...
tudo enquanto um cão ladra agressiva e ruidosamente para a câmara.
Numa sequência acrescentada por ordem da censura, o rapaz é salvo, mas a concepção original de Mnaoel de Oliveira parece-me mais interessante na medida em que, como quase tudo no filme, acaba por se tornar num paradigma:
Quem, num terreno de caça, não caça, é caçado.
Além desta, é também de referência a ideia de que a salvação de José passa para segundo plano quando se começa a tentar "caçar" um culpado.
A rever.

3 comentários:

Pedro M. Tavares disse...

Óptima escolha não haja dúvida. Vejo que tens ido às sessões de cinema em Serralves. Fiquei com a imagem do homem maneta a gritar "A mão, a mão..." desde a primeira vez que vi "A caça" numa visita de estudo. Mais uma vez uma óptima escolha. Um abraço João

Henrique Sansão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
branca martins disse...

Queria vos dizer que aquele homem maneta a gritar " a mão, a mão..." foi um grande homem! de nome Manuel de Sá Maganinho, residente na Rua das Matas - vagos, faleceu aos 71 anos.Enquanto existiu foi exemplo para todos, ajudou muita gente e só com uma mao, ensinou-me que vale a pena viver, nada acontece por acaso e que devemos lutar por aquilo que queremos só assim seremos felizes...obrigada avô por tudo o que me ensinas-te e vou-te amar sempre até ao meu ultimo dia de vida. Tenho mtas saudades tuas...Luto pela vida em pró de ti.