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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Os Outros Mundos XXVII



Seremos como a vela arrancada do mastro,
entregue aos vendavais, numa inútil procura.
Atravessaremos os mares sem conhecer a paz
da âncora no porto, submersos no nosso próprio ímpeto.


Estáticos horizontes contemplarão o voo
que jamais tocará o fogo das estrelas.
Dir-nos-ão as nuvens, mostrando-nos o arado:
«Descemos para tornar o solo fértil.»


Seremos um delírio girando eternamente.
Passaremos sedentos à beira do infinito,
ávidos de luz e loucos de voar;


e cobertos do pó que sobe dos caminhos,
repassados de orvalho até à alma,
seremos os peregrinos desta aventura eterna.

Félix Cucurull
trad. de António de Macedo e Carlos de Oliveira
Vida Terrena
1966, ed. Ulisseia
gravura de Giséle Célan-Lestrange

sábado, 23 de abril de 2011

Sobre o Lado Esquerdo

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa:"o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração".




Carlos de Oliveira

Sobre o Lado Esquerdo
1968, Iniciativas editoriais


fotografia de Nan Goldin