fotografia: FLORIA SIGISMONDI
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
um poema
fotografia: FLORIA SIGISMONDI
e-mails impensáveis
You know it only breaks my heart
To see you standing in the dark
Alone waiting there for me to come back
I'm too afraid to show
If it's coming over you
Like it's coming over me
I'm crashing like a tidal wave
That drags me out to sea
I wanna be with you
If you wanna be with me
Crashing like a tidal wave
I don't want to be
Stranded
a música é melhor nem dizer qual é, porque mesmo eu não acreditei.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
ouvi num episódio de Ugly Betty, e passei-me
other lives: black tables
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
ao vivo, a cores, e com vitrais... ainda absolutamente... absoluta
Lou Rhodes no seu mais que melhor: They Say
ensaio sobre a lucidez
terça-feira, 3 de novembro de 2009
um poema
um homem vai morrer e não o sabe.
nós sabemos.
amanhã
amanhã alguém apagará o crime da calçada
mas hoje é dor e luto.
amanhã facilmente esqueceremos.
um homem vai morrer e não o sabe.
e consentimos nós
porque sabemos.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
O Manual dos Inquisidores
"Caím" de José Saramago chegou às livrias há quase duas semanas. O caso está complicado. Logo no dia do lançamento, já havia pessoas a manifestar o seu desagrado pelo tema e seu tratamento do novo romance.
O facto de José Saramago ter declarado que, a seu ver, a bíblia é "um manual de maus costumes" e "um catálogo de crueldade" não ajudou. Se já antes as pessoas estavam ultrajadas e a ultrajar um livro que não leram, estas frases de Saramago são a catapulta definitiva que legitima que se fale do livro sem o ler.
Porque o problema maior, penso, não foi o facto de se estar a falar de um livro que não se leu, foi o de estar a falar dum livro que nem se vai ler sequer. E pelos vistos, já nem necessidade disso existe, porque as declarações do autor já servem para os reaccionários lhe caírem em cima.
Mas tudo bem. Entrevista com Judite de Sousa, debate na Sic Notícias com um padre teólogo. Não faltou nada. Para mim, que aprecio sempre um bom escândalo, mas que o aprecio mais ainda se a igreja estiver envolvida, foi um verdadeiro banquete.
Antes de mais, quero realçar a atitude de Saramago, aquando da entrevista com Judite de Sousa. Demarcou-se pelo nível e pela calma com que falou e, acima de tudo, por se mostrar disponível para um debate com qualquer pessoa, partindo do princípio que essa pessoa tivesse lido o livro.
Foi o caso. No dia seguinte, na Sic Notícias, Saramago debate com o padre Carreira das Neves, que além de ministro do senhor na terra, é também teólogo.
Sobre este debate, um apontamento(zinho): Carreira das Neves estava com sérias dificuldades em contrariar José Saramago.
Percebo porquê: pois como se contraria alguém que, para falar, se apoia unicamente na logica? É complicado. O próprio padre admite a existência de evangelhos proibidos, da relutância do clero em colocar o evangelho à disposição e leitura dos crentes, e, no meio de tudo isto, repete repetidamente o mesmo argumento: que não podemos interpretar a bíblia pelo que está lá escrito.
Aí, Saramago lança a cartada mais simples de todas: se é para isso, qual a necessidade da haver texto escrito?
Também particularmente infeliz foi a ideia de Carreira das Neves de comparar a bíblia a qualquer livro, por exemplo os de Saramago. Bem, eu acho que os livros de Saramago, e esta polémica em torno de "Caím" vem comprová-lo, não são sagrados, nem têm uma religião que neles se baseie.
Televisão áparte, há que falar dos jornais. Parece-me que qualquer palerma sem méritos reconhecidos se dá a competência de falar do assunto, mesmo que dele nada perceba. Alguém dizia, numa revista cujo nome agora me escapa, que Saramago era "um bronco" no que toca a política. Na minha opinião, palavras desta categoria não são propriamente dignas de uma coluna de qualquer colunista sério, pelo que a sua utilização é já sintomática do grande disparate que essa coluna era.
Mais supreendente ainda foi o Público, na sua edição da quinta feira da semana passada. Eu, que julgava que o Público era um bom jornal, vi-me absolutamente defraudado. Fica ao nível de qualquer pasquim que se distribui gratuitamente. A começar por Manuel Fernandes, director, que atira com ideias como este livro ser um livro destinado ao esquecimento, a avaliar pelas primeiras críticas (Ou seja, não tem uma opinião própria) e, por fim, atira com a acusação mais estúpida que eu já ouvi: que isto se trata de uma estratégia de marketing. Que eu me lembre, completam-se 11 anos que Saramago ganhou o Nobel. Para o bem e para o mal, ele não precisa de mais marketing, todo o marketing está feito já. E mesmo que não tivesse ganho o Nobel, há que reconhecer que Saramago tem já um público que o lê e que, para todos os efeitos, o respeita o suficiente para não precisar de campanhas de marketing.
Há ainda que ver que Manuel Fernandes tinha o dever de saber daquilo que fala. Não é o caso. Porque se fosse, ele não estranharia, nem atribuiria a ideia de estratégia a "Caím", porque, para quem sabe, já há muito tempo que Saramago se dedica a minar as fachadas com que a igreja se impõe entre nós. E se é difícil encontrar um livro em que este não largue as suas farpas á igreja e ao clero, pelo menos em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", já Saramago se tinha insurgido contra a bíblia, num projecto cuja envergadura nada fica a dever a "Caím". Portanto, vir agora dizer que nada disto é a sério e que estamos perante um golpe publicitário só tem um nome: falta de cultura.
Cartas dos leitores, então, isso é que foi. Discursos inflamados sobre Saramago desrespeitar a religião, pessoas que dizem que ele tem inveja porque milhões de pessoas leram a bíblia e ela ficou para sempre na cabeceira, ao passo que os outros livros, como so de José Saramago, chegam e partem. Pessoas que afirmam a falta de inteligência do escritor.
No meio disto tudo, só há uma coisa que eu percebo: são poucas as reações de pessoas que não sejam as que, de facto, dormem com o missal ao lado. Só dessas poderia partir isto, que para mim, é ainda o maior escândalo de "Caím": é que vivemos num país com problemas económicos, com um primeiro-ministro que se recusa a atender aos problemas reais dos cidadãos, onde 120 mil professores saem à rua em protesto e são ignorados, onde hospitais fecham e a saúde se torna cada vez mais um privilégio de classes, onde a exclusão social é ainda uma realidade ignorada, onde temos ainda 10% de analfabetos, onde milhões são dados a quem andou a roubar nos BPI e BPN e por aí, onde o comum cidadão é diariamente manipulado e enganado, onde a cultura não tem existência, onde o desemprego cresce e continuará a crescer. E, no meio de tudo isto, é porque Saramago escreve um romance em que deixa a sua interpretação controversa da Bíblia que surgem discursos inflamados e grandes protestos?
Algo está errado neste país.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Falência e Outros Aspectos da Quasi
Já que todo o tipo de pessoas está a falar do assunto, portanto, não vejo razões para eu mesmo o não fazer.
Para começar, esta notícia em nada me surpreende. Numa editora que nos habituou à pordução massiva de livros, que saíam às dezenas por ano; não deixa de se estranhar que este ano tão poucas notícias nos tenham chegado de Famalicão. Um quarto livro de Rui Lage, um novo original de Rosa Alice Branco, o volume de piedade de Nuno Morais da Rocha e… pouco mais.
“Vissicitudes da crise…” pensei eu. No entanto, parece que essas vissicitudes realmente afectaram a editora de Jorge Reis-Sá.
Àparte de méritos e desméritos deste como autor, como editor, os seus méritos e desméritos são mais que evidentes.
Por um lado, frequentemente Jorge Reis-Sá publicou verdadeiras peças de lixo, nomeadamente no que toca aos novos autores, apostando em poesia ou pretensa poesia de todos os tipos e todas as qualidades.
As qualidades gráficas da editora também deixavam muito a desejar. Capas sem qualquer estilo que identificasse a editora, usando todo o tipo de fotografias vulgaríssimas, desenhos taxtativos, e, por vezes, capas sem conexão alguma com o conteúdo dos livros. Digamos que, se julgássemos os livros só pela capa, teria sido a ruína de “As Fábulas” de Fiama, ou de quase todos os que publicou de Ramos Rosa, etc.
Ainda assim, Jorge Reis Sá pode orgulhar-se de ter publicado muitos autores que outros editores não publicaram (Por questões de táctica, etc.), e de, no meio de muito lixo, ter realmente publicado verdadeiras obras-primas. A reter, as obras reunidas de Isabel de Sá e Rosa Alice Branco, vários originais de António Ramos Rosa, um dos mais interessantes livros de Maria Teresa Horta, o livro de Eduarda Chiote que recebeu o prémio Teixeira de Pascoaes, o último original de Fiama Hasse Pais Brandão, um original de Helga Moreira, outro de Jorge Sousa Braga, outro de Manuel Cintra, antologias de Adília Lopes, Al Berto, Carlos de Oliveira ou Pedro Homem de Mello, bem como os primeiros livros de autores como Tiago Araújo, tendo, portanto, sido ele a abrir as portas a autores que só mais tarde viriam a publicar noutras editoras, e portanto, a receber críticas (Nomeadamente de António Guerreiro, que só conta as bibliografias a partir da Averno.).
No meio disto tudo, há que ver que, mesmo sendo de gosto duvidoso, Jorge Reis Sá merece alguns méritos. Só porque é justo que assim seja.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
até arrepia...
I've seen the real atrocities,
Buried in the sand,
Stockpiled safety for a few,
While we stand holding hands.
I'm living in the Ice age,
I'm living in the Ice age,
Nothing will hold,
Nothing will fit,
Into the cold,
a smile on your lips.
Living in the Ice age,
Living in the Ice age,
Living in the Ice age.
Searching for another way,
Hide behind the door,
We'll live in holes and disused shafts,
Hopes for little more.
I'm living in the Ice age,
I'm living in the Ice age,
Nothing will hold,
Nothing will fit,
Into the cold,
No smile on your lips,
Living in the Ice age,
Living in the Ice age,
Living in the Ice age.
IAN CURTIS
joy division: ice age
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Wanda Ramos: Poe-Mas-Com-Sentidos
O caso de Wanda Ramos, no entanto, acrescenta a estas questões paralelas uma mais: a relação da própria autora com os livros, e, concrectamente, com a sua poesia.
Precocemente desaparecida em 1998, em 1999 veio a lume o seu último romance, “Crónica com Estuário ao Fundo” (Caminho). Mas o seu último livro de poesia surgira já em 1986, este “Poe-Mas-Com-Sentidos” (1986, Ulmeiro).
Por outro lado, percebe-se que este é um final precoce, efectivamente:
Colocando Wanda Ramos no seu contexto, ela surge em 1970 com todos os entraves que uma edição de autor implica, e apresenta-nos uma poesia onde dois ecos são visíveis: o romantismo exacerbado de Florbela Espanca e o erotismo assumido de Maria Teresa Horta. Não sendo “Nas Coxas do Tempo” um mau livro (É, alias, do meu ponto de vista, um dos melhores momentos da autora.), perde um pouco do seu impacto pela imediata associação a estes nomes. Posteriormente, em particular em “E Contudo Cantar Sempre” (1979, Inova), estes ecos tornam-se mais diluidos numa voz que efectivamente começa a definir-se.
Ainda nos anos 70, recebemos os sururus de Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge, que os próprios mais tarde haveriam de reconhecer como idiotices, mas que, para todos os efeitos, sempre causam determinado impacto num meio que tem pavor a não se renovar (Nem que seja pelo non-sense.); a poesia violenta de Al Berto que haveria de se tornar numa das mais originais da nossa literatura; e ainda alguns outros nomes, entre os quais o de Eduarda Chiote, que, passados estes anos, se percebe estarem mais relacionados, ainda que de forma ténue, com a poesia de 80 do que propriamente com a de 70, ainda que nela tenham surgido.
No meio disto, um livro em que há referências que demasiadamente se fazem sentir é para marcar uma pessoa.
Wanda Ramos terá chegado a esta conclusão. O facto de entretanto ter inciado o seu percurso como romancista, com “Percursos (Do Luachimo ao Luena)” (1981, Presença) e de neste se ter demonstrado realmente mais original do que na poesia (“Percursos” é, a meu ver, o melhor romance sobre um outro lado, o da mulher, da Guerra Colonial, depois de “A Costa dos Murmúrios” de Lídia Jorge.) também terá contribuído para que Wanda Ramos tenha decidido em definitivo dedicar-se a um projecto em que podia realmente ser boa, e que, aliás, a conduziu à História da Literatura Portuguesa.
“Poe-Mas-Com-Sentidos” é, portanto, a colecção última de poesia da autora. E uma boa colecção, mesmo assim.
Noutros poemas, a mesma situação acontece sem que o seu resultado seja o desejo, e, nesse caso, é por norma a tristeza e a solidão, também elas experienciadas fisicamente.
Este capítulo, “Poe-Mas-Com-Sentidos”, é também uma espécie de biografia da autora, contendo, além dos poemas mais emotivos ou descritivos de situações que o são, referências à “África (Também) Minha”, e todas as questões de aculturação e distância que uma mudança tão radical implica; e também a própria escrita, enquanto elemento constituinte do quotidiano, a necessidade das palavras para fixar “tantos destes itinerários perdidos nos anos/ achados a cada hora de entrar em casa” (pag.35).
Por fim, o último capítulo, “Brumas”, engloba seis poemas em prosa. A maior diferença em relação aos poemas em verso será provavelmente a densidade narrativa: esta torna-se mais definida a partir do segundo livro da autora, mas, nos poemas em prosa, surge definitivamente mais forte, como se se tratasse de uma “página de diário entreaberto” (título de uma sequência de “Intimidade da Fala”).
Uma questão importa ainda referir: a linguagem. Em Wanda Ramos dificilmente se encontram palavras para procurar no dicionário. Encontram-se, no entanto, palavras que por vezes parecem já ter caído em desuso, algumas abordagens mais distantes de uma erudição que a maioria dos autores procura. Para isto, tanto as suas raízes africanas, como uma leitura dos seus romances que a isto mesmo aludem, ajudam a entender que a linguagem, a “fala” de Wanda Ramos é mesmo profundamente “íntima”, precisamente por isto: é uma fala, um vocabulário, profundamente ligado às suas origens, numa relação quase umbilical, e que à escritora dificilmente passaria despercebida, uma vez que tinha o curso de Letras. Esta assumpção da origem da fala pessoal é, portanto, um dos elementos de maior interesse na poesia de Wanda Ramos, e poderá ter sido, para os delicados ouvidos do meio literário português, uma das razões para a considerar “vulgar”.
Se é certo que a autora atinge uma grande maturidade nestes poemas, e a presença do primeiro texto é, como se disse, um elemento que reforça esta ideia, a verdade é que se entende que houve alguns aspectos que claramente poderiam ter sido mais desenvolvidos. Provavelmente, a poesia de Wanda Ramos teria atingido um outro grau de qualidade ou de completude se tivesse sido continuada.
Enfim… pelo menos seguiram-se romances como “Litoral (Ara Solis)”…
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Poesia dos Anos 80
(1979- Esquizo Frenia, &etc)

Será No Próximo Século
O nosso amor arrasou cidades. Éramos
muito jovens e pensávamos assim.
O mundo pertencia-nos. Ninguém
percebia mas nós vivíamos contra
tudo - era um acto político.
Assim alguns seres no mundo
construíram vidas, amaram
e sofreram isolados, por vezes
espoliados, queimados na fogueira.
Mas o nosso amor resistirá
às fronteiras, aos muros de fogo
e à injustiça. Gostaríamos de viver
o tempo da verdadeira transformação,
da felicidade universal.
A Urna no Deserto
Já não páras ao som das laranjeiras,
o silvo da paixão amorteceu,
o lacerar dos grifos
agita devagar a romãzeira,
horizonte vivaz anoiteceu.
Ardem sevícias nos pálios das comédias,
ruem gonzos nos pátios das contritas,
repúdios acontecem em vésperas de concílios,
impedem-se os quebrantos nas rotinas,
fere-se a uva no copo de cristal,
o bago não ateia contusões
nem cega a fruta o gume do cilício
e vibra o pulso ao impedir a dança.
Círios amortinados não acendem,
o leito não acolhe favoritas.
À sombra da cintura a magnólia
urge pavões,
cisma na voz ausente desespero,
range areia no triângulo da pata.
O trípode da morte encosta-se à coluna
e o vento não abriga, da roseira, a urna no deserto.
imagem: Graça Martins, "Ofélia"
O Corpo Espacejado
Meteorológica
Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter
Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas
Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)
A vida
é livro
e o livro
não é livre
Choro
chove
mas isto é
Verlaine
Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico
Mutilações
Escreve agora a música
que os muros trauteiam
como eu dilapidei o meu tesouro.
Desenha agora a árvore
que rebentou por dentro.
Mostra agora o coração
com uma flecha no centro.
Vivi de brilho
e cuspi ouro pela boca.
Se ninguém me quis prender
foi porque não dei caça
não dei luta
nem falei em razão de força maior
nem sequer do futuro que me escuta.
Este livro custa a abrir
e aquela porta a fechar.
Desata agora a chorar
mesmo sem querer
mesmo sem sentir.
Chora por tudo
o que não está para vir.
Retrato Puído nas Entranhas
Mais uma mulher que olha o rio. Tenho as mãos desatadas,
São matéria do verbo fazer e caminham junto ao chão,
Vêm pela beira dos caminhos, a tristeza amável,
E na água que vejo a sua luz descendo o rio.
()
Apenas do amor quero tão alto preço
do mais pouco ou quase nada peço
dias há em que o verso pede rima
como este a querer o que estima
e que não direi; pois que a vida
se se sente desordenada
ou em ardor que começa e finda
imprevisível em cada coisa e nada
ninguém assim o determina.
Apenas de quando em quando vestígios
por entre duas cidades, dois rios
um a norte, outro a sul que te imagina
ou balouça ou adormenta se o penso
querer dizer aqui o que não posso
()
E dói-me esse rio de já me não amares
de já me não quereres assim como eu te quero
de não sobressaltares porque sou eu que te espero
em esquinas de lágrima ou sorriso
foi-se o amor chegou o siso
e eu
que não nasci para ter juízo
E dói-me o teu ventre que não afago
como quem depois de amanhã se afoga
e hoje apenas está, dê para o que der
e doa a quem doer
Passam sanguessugas pelos trilhos da memória
umas são mortas, outras são vivas,
outras são glória
de já não existir e teimar em persistir
e eu vou ao vento, sou palmeira seca,
sou teimoso sou frágil sou de teca de cetim
sou uns dias teu, outros assim assim
E dói-me o teu ventre que não afago
como quem depois de amanhã se afoga
e hoje apenas sente, e já pouco quer
para além de seres mulher
E sei que já não sinto o que senti nem sei quem sou
mas seja eu quem for fazes-me falta, ainda és música
perdi a pauta, nada sei cantar, acho que esta conversa
é coça umbigo, vai ter que parar
Mas dói-me o teu ventre que não afago
como quem não sabe nadar
e hoje é de festa, amanhã é de mar
é de mar
domingo, 18 de outubro de 2009
Ídolos de Domingo
Mas pronto, é noite, nada que fazer… e na sic está a passar o Ídolos. Lembro-me das grandes gargalhadas que dei há alguns anos quando foi a primeira edição, precisamente aquela em que uma rapariga com reportório de show-girl insultou o Luís Jardim ou então a Luciana Abreu conseguiu chegar longe, num concurso de cantores, para mais tarde se tornar Floribella. Momentos destes certamente, não indo para o cancioneiro, pelo menos chegam ao imaginário de uma população como a nossa, em que o vazio é ainda um belo ócio.
Tudo bem. Vamos lá ver o que há por aqui. Para começar, apresentadores e juri alteram-se. Em vez o Pedro Granger e da Sílvia Alberto, estão a Cláudia Vieira e o João Manzarra. Ou seja, por mais que os apresentadores tenham mudado, o seu efeito em mim em nada mudou: ainda há um que me irrita consideravelmente (Cláudia Vieira sucede, portanto, a Pedro Granger.) e há outro que não deixa de me parecer um tanto mal aproveitado (De Sílvia Alberto passa para João Manzarra.).
O juri, idem-aspas. Não percebo bem qual é esta mania que a sic tem de arranjar para juri pessoas que não percebem nada de música. Na primeira edição tínhamos o Luís Jardim que já trabalhou, é bom lembrá-lo, com a Bjork, a Vanessa Mae, e por aí. Neste caso, temos um Luís Jardim português, que cabe a Philipe Laurent. Depois, temos três pessoas que pouco ou nada percebem de música: Manuel Moura dos Santos, manager, que transita da primeira edição para presidente do juri nesta, Roberta Medina, organizadora do Rock In Rio, ou seja, empresária e um outro gajo que parece que é director dos canais da sic, cujo nome me escapa, mas cuja presença é, sem dúvida, a mais irritante, porque afinal é quem menos está relacionado com música e é quem faz os comentários mais irritantes e pretensiosos.
Agora os concorrentes. Truncando Luiza Neto Jorge: “chorar ou rir? Um medo tal!”.
Bom, sinceramente, do que vi, achei assustador. Eu percebo que todos nós, e isso incluiu-me a mim, achamos engraçado cantar no banho, e que alguns, e isso excluiu-me mas inclui a Rachel de Friends, gostam de fingir que o gel de banho é uma Grammy para Melhor Artista Revelação. Mas daí até estar a grunhir ou guinchar ou ranger em frente a uma câmara que nos mostra ao país todo, parece-me que há uma considerável distância.
Há de tudo. Uns esquecem-se da letra, outros cantam de uma forma afectada, outros berram para mostrar boa ginástica de voz, outros dançam e murmuram qualquer coisa, outros grunhem e acham surpreendente que lhes digam que não é bom ou boa, outros cantam ópera e deixam cair o queixo quando lhes dizem que querem um ídolo pop, outros levam roupas atrevidas a ver se caem nas boas graças do juri, outros começam a chorar quando lhes dizem que não, outros choram quando lhes dizem que sim... Enfim. No meio disto tudo, lá apareceu um ou outro gato pingado que até cantava bem.
Última nota: a versão americana passava na Fox Life. Não é que os concorrentes fossem melhores, mas nada substitui aquelas brigas idiotas do Simon com a Paula Abdul. Também nada substitui aquela emotividade histérica da Paula Abdul. Nem as tendências espiritualistas da Kara DioGuardi.
Portanto, entre concorrentes malucos, juris que não percebem nada e ainda por cima não se chateiam uns com os outros e uma apresentadora desenxabida, deixo duas sugestões à sic:
A primeira prende-se com o lugar onde filmam as audições e as galas: há um lugar no Porto chamado Hospital do Conde de Ferreira. Não seria má ideia irem para lá.
A segunda tem a ver com o juri: mandem importar a Paula Abdul. Pode ser que alguém comece a pôr na ordem o gajo dos canais da sic.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Barcas Novas
barcas novas mandei lavrar.
Joao Zorro
Lisboa tem suas barcas
agora lavradas de armas
Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens
Barcas novas levam guerra
As armas não lavram terra
São de guerra as barcas novas
no mar deitadas com homens
Barcas novas são mandadas
sobre o mar com suas armas
Não lavram terra com elas
os homens que levam guerra
Nelas mandaram meter
os homens com sua guerra
Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas
Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas
Muse: The Resistance
terça-feira, 6 de outubro de 2009
amália
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Luís Filipe Rocha: Sinais de Fogo
o café
Sentadas nas mesas do café
as pessoas olhavam sem ver bem
e nos olhos de cada uma iam passando a sério
os ódios pequeninos quotidianos
como um enterro de terceira classe lento
e grave
seguido por dois cães de luto
e um chapéu funerário sem cabeça
Yvette K. Centeno
Opus 1
1961, edições ática
domingo, 4 de outubro de 2009
a muito óbvia cópia de um original que já de si não era grande coisa
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
podia chamar-se "contemplação carinhosa da angústia"*
tori amos "gold dust"
*livro de Agustina Bessa-Luís
"sócratas" perdeu a maioria absoluta, e as boas notícias continuam a chegar
"uprising" é o single de avanço de "the resistance", novo álbum dos Muse
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
um poema
nasci um dia
da raça mais triste da terra
do sexo perfumado
na quietude dos canaviais
à hora erma da copulação
do amor efémero dos seres
sou da geração mais perdida
mais infinitamente solitária
da geração vivida um dia
à margem dos desertos
com esplendores de sóis no ventre
a tatuagens irisadas nas mãos
fiquei pelas dunas
nostálgica e estática
soletrando amor
sensualmente dizendo um nome
de homem quase-divino sensível
um nome de ecos na paisagem
Wanda Ramos
"Nas Coxas do Tempo"
1970- edição da autora
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Brilho no Escuro
(as fotografias do lançamento vieram do site do Clube Literário do Porto)
sábado, 12 de setembro de 2009
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Shirley Ann Eales
e Usados sob o azul inclinado
de um toldo – mesmo em frente
à glacial cafetaria de franchise
onde o dia destrata o desejo
e não se pode fumar. Subo
aos pequenos gabinetes
mergulhados no doce bafio
da literatura e percorro de A
a Z as espinhas estreitas
e rachadas da poesia. É o sítio
mais vazio de Novembro
e o que mais me reconforta;
o livro que escolho, por metade
de uma libra, traz no frontispício
um nome e uma morada: Shirley Ann
Eales, de Scottsville – um sumido
autógrafo de maiúsculas magras
e triangulares onde a imaginação
encontra por enquanto pretexto
e oxigénio suficientes para arder.
O livro teve outra existência,
pertenceu a outra casa, a outra mesa
de cabeceira – e o pensamento,
de tão óbvio, conjura de repente
uma vertigem, é um corredor
abrupto para a imensidão do mundo
onde trafica o acaso. Ah, sabemos
que a vida é improvável se damos
por nós a cismar, a meio de uma tarde
insípida, numa mulher desconhecida
que lia poemas em Scottsville, nos anos
70. Mas haverá aqui alguma espécie
de sentido, algum sinal guardado
para alguém mais sábio ou inocente
do que eu? Não sei quem és
nem onde estás agora, Shirley Ann,
mas como seria belo se pudesses
um dia encontrar, por obra da mesma
sorte, o teu nome nestes versos.
RUI PIRES CABRAL
Longe da Aldeia
edições Averno, 2005
sábado, 5 de setembro de 2009
Tori Amos: Abnormally Attracted to Sin
"give"
































