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sábado, 17 de novembro de 2012

Agustina tem destas coisas... (33)

«(...) No Mundo, passo por todos, vendo alguns; na vida esqueço-me de quase todos, esquecendo-me de mim. Quase tudo me é indiferente.»
Há nesta carta o característico tom provocador de Florbela. Dirige-se a uma presa, tem que paralisá-la pelo espanto, pela admiração e até pelo desgosto que lhe causar. Mas não deixa de ser certo o que diz.





de 'Florbela Espanca' (1978)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A Mãe de um Rio


Em 1981, a Contexto editora publicava, com fotografias de Jorge Molder, um conto de Agustina Bessa-Luís, cujo sugestivo título era 'A Mãe de um Rio'. Três anos depois, reeditar-se-ia o segundo volume de contos de Agustina, 'A Brusca' (1971), numa versão aumentada, que contaria com 'A Mãe de um Rio'. Este conto, escrito de certa forma sob uma certa influência da literatura fantástica, fala-nos de uma mulher de vocação algo ancestral, de contornos religiosos, que vive desde o princípio do mundo numa pequena casa junto a um rio. Essa figura algo divina será visitada por Fisalina, uma rapariga invulgar da comunidade mais próxima do rio, que acabará por suceder à mãe original.
Agustina escreveu muito menos contos do que romances, mas os contos que escreve são de uma suprema força, comparável de certeza à dos romances. 'A Mãe de um Rio' é um exemplo de como, em poucas páginas, Agustina consegue criar uma história densa, que arrasta consigo uma subtil carga política, social e religiosa, cuja lucidez e invulgaridade se farão sentir ainda no leitor de hoje.
Aliás, como praticamente tudo aquilo que Agustina tem vindo a escrever desde 'Mundo Fechado', a novela com que se estreou em 1948. Apesar de obras como 'A Sibila' (1954), 'A Muralha' (1957), 'O Concerto dos Flamengos' (1994) ou a trilogia 'O Princípio da Incerteza' (2001-2003), Agustina foi sempre, como ela mesma dizia, mais conhecida do que lida, o que não se perdoa. A sua obra, intensa, árdua, irónica, é uma eterna tragicomédia cujo centro é o mais óbvio e também o mais difícil: o ser humano. E por isso a obra de Agustina, profundamente portuguesa, torna-se universal: porque universal é o génio que a move.
Já no seu último romance, 'A Ronda da Noite' (2006), Agustina fala-nos dum mutante, um estranho homem cuja inteligência aparta do resto da humanidade. Esse homem, contemplando uma reprodução da pintura de Rembrandt vai descobrindo, definindo e redifinindo o mundo, entretido na tentativa de compreender a eternidade, ou aquilo que, no mundo, se pode chamar eterno _maravilhado nessa tentativa que engloba por vezes o erro, mais do que obcecado por encontrar respostas certas, atitude própria de quem se recusa a estar numa situação de inferioridade perante a vida, e portanto não se leva muito a sério. Melhor retrato de Agustina dificilmente se faria.
Dessa contemplação, não de Rembrandt, mas do mundo, nasce a obra, que corre em direcção a um lugar mais vasto, mas sem se preocupar excessivamente em acelerar a chegada ao seu destino, como um rio. E portanto, hoje que Agustina completa 90 anos, que me seja permitido usar o título desse conto, e chamar à escritora a mãe de um rio, um rio que é a obra, que, creio eu, perfeitamente poderá correr enquanto durar o mundo.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Os contos de Florbela Espanca


Há alguns dias, concluí a leitura de 'O Dominó Preto', escrito por Florbela Espanca aproximadamente entre 1926 e 1927, mas publicado apenas em 1982, com um prefácio da poeta Yvette K. Centeno, concluindo assim a leitura da obra completa de Florbela. Além deste, havia um outro livro de contos escrito por Florbela, esse publicado um ano depois da sua morte, 'As Máscaras do Destino', cuja segunda edição conta com um prefácio de Agustina Bessa-Luís.
Estes dois livros correspondem a uma fase em que Florbela estava a escrever os últimos poemas de 'Charneca em Flor', que parecia impossível de publicar (E efectivamente, só veio a lume pouco depois do suicídio da autora.), e, enquanto escrevia, lentamente, alguns dos poemas que apareceriam com o título 'Reliquae' na segunda edição desse derradeiro livro de poesia, Florbela dedicava-se, para juntar algum dinheiro, a traduzir ficção francesa. Podendo parecer que terá sido o contacto com a prosa que a leva a escrever contos, a verdade é que já desde cedo Florbela escrevera alguns contos. Não coligidos pela autora em nenhum dos livros publicados, existem cinco contos, agora disponíveis na edição de bolso 'Contos e Diário'.



O primeiro, Mamã, data dos 13 anos da autora, os três seguintes estavam inseridos no manuscrito de 'Trocando Olhares' que Florbela não conseguiu publicar mas que era anterior a 'Livro de Mágoas' (1919) e existe um úlltimo conto ainda, Carta da Herdade, datado dos últimos anos de vida de Florbela.
Esta nota de leitura não tem o propósito de analisar profundamente os contos de Florbela, primeiro porque não me proponho a tão ambicioso empreendimento e segundo porque me parece que as prefaciadoras destes volumes, Yvette Centeno e Agustina, já fizeram brilhantemente esse trabalho. Aquilo que realmente me apetece referir é aquilo que estes contos dizem dessa mulher que era a um tempo pessoa e personagem, como bem explica outra prefaciadora, desta feita do seu 'Diário do Último Ano', Natália Correia.
O que acontece é que os três contos de 'Trocando Olhares' denunciam uma clara imaturidade da sua autora. Com cerca de vinte anos na altura em que os escreve, Florbela fala-nos acima de tudo de amores perfeitos que se por uma ou outra razão se perderam. A escrita em si revela já, nalgumas passagens, uma sensibilidade poética exacerbada que caracterizaria Florbela nos textos que dela se tornaram mais respeitados, os poemas, mas neste contos, o que se nota ainda é uma tonalidade idealista, por um lado, nas situações que imagina, mas também um moralismo muito tradicional que, hoje, diríamos políticamente correcto. À data em que escreve estes contos, Florbela encontra-se nos primeiros anos do seu primeiro casamento, com Alberto Moutinho e é interessante ver como, nas cartas escritas nesta época à confidente e amiga Júlia Alves, Florbela, aquela que em tantos dos poemas da mesma colectânea não publicada se revela insatisfeita, saudosa e apaixonada quase doentiamente, fala frequentemente da felicidade da vida matrimonial, como que aceitando nas cartas a vida vulgar que, nos poemas, parece não coincidir com a sua personalidade.
Assim, nestes três contos, Florbela envereda não necessariamente pelo elogio da vida de média-burguesia que era a sua, mas pelo menos pela sua defesa. Aqui, encontramos personagens essencialmente comprometidas com todo um código de valores e comportamentos que se sobrepõem a qualquer exaltação dos sentimentos. São pessoas honradas e admiráveis que aqui encontramos e, assim, estes contos ganham uma certa frieza porque, absorvidos pelos códigos tradicionalmente aceites pela sociedade, estes personagens parecem raramente atravessados por alguma humanidade.


Cronologicamente, os seis contos de 'O Dominó Preto' distam quase dez anos desses três incluidos em 'Trocando Olhares'. Quando Florbela os escreve, vive já com o seu último marido, Mário Lage, e atravessou já alguns dos maiores dissabores que marcam a sua curta vida. Além disso, publicara já 'Livro de Mágoas' e 'Livro de Soror Saudade' (1923) e escrevera a maioria dos poemas de 'Charneca em Flor', unanimamente considerado a sua obra-prima. Mas toda a intensidade que, da vida, perpassa para os poemas desse terceiro livro, parece passar completamente ao lado da escrita dos contos de 'O Dominó Preto'. Ler as obras pela sua ordem de escrita só pode causar uma certa confusão ao leitor porque, enquanto na poesia Florbela atinge vários picos de intensidade que trariam valor à sua poesia, o tempo e a vida parecem não ter passado pela escrita em prosa e os contos coligidos neste volume parecem, em muito, pertencer ao mesmo tempo dos outros três, partilhando com eles aquela mediocridade talentosa, como lhe chama Agustina, que torna os seus contos por demais comuns, acabando por, quase sempre, desiludir.
Aliás, o cojunto em si, ao ser maior do que o de 'Trocando Olhares', acaba por potenciar as fragilidades de todo o universo que aqui é explorado.
Na poesia, Florbela escreve exaurida sobre o desejo, a sensualidade e a tristeza, reclama o direito a ser humana e não apenas mulher, canta o esplendor de ter um corpo e de sentir, ou seja, arrisca. Isto é tanto mais importante, quanto a sua poesia em quase tudo é conservadora, passando completamente ao lado dos valores modernistas do 'Orpheu' e de tudo o que de mais vanguardista se fazia na altura. Florbela segue estruturas canónicas, persegue o virtuosismo a um ponto obsessivo, mas demarca-se das restantes fazedoras de sonetos pela intensidade daquilo que diz, da forma destemida como se mostra pois, escrevendo aparentemente de acordo com aquilo que era a poesia escrita pelas mulheres desse tempo, Florbela acaba por escrever contra essa mesma poesia, assim ultrapassando-a.
Assim, apenas pode desiludir-nos ver como, nestes contos, Florbela se revela a mais ordeira e vulgar das mulheres. Nestes contos, quase invariavelmente, temos os homens, que têm as suas vidas amorosas e sexuais com uma mais ou menos discreta liberdade e temos as mulheres que são ou completamente virtuosas e exemplares ou são umas megeras que desgraçam os homens. Acaba por a mulher ter, de facto, o poder, mas esse poder funciona sempre como um presente envenenado, pois acaba por a mulher ser, acima de tudo, aquela que destrói. Uma vez mais, os personagens encontram-se em pleno compromisso com determinados códigos e isso resulta em que estes persoangens não sejam pessoas, mas meros esteriotipos. Assim, por mais que a escrita continue a ser nalgumas das suas frases e das suas imagens absolutamente poética e sensível, não consegue salvar estes contos de pareceram galciais experiências de laboratório em que se experimenta determinado esteriotipo em contacto com outro para ver qual é mais forte. No fundo, é nisto que consiste toda a escrita ficcional, e é para fazer com que essa experiência não seja glacial que serve a humanidade que o escritor tenta conferir aos seus personagens mas Florbela não consegue ou não quer dar-lhes essa humanidade.
E mais surpreendente do que isto, numa escritora como Florbela, é que se estes contos representassem um código de ética, este refutaria completamente os princípios subjacentes na poesia dela, pois aqui, o grande valor a preservar é a vida do homem, do ser masculino, e a mulher é boa se ajuda a preservar essa vida e má se a faz perder-se.
Como bem assinala Yvette Centeno, neste conjunto, apenas O Crime do Pinhal do Cego parece escapar a esta tendência, uma vez que a mulher que cedeu aos desejos passionais e sexuais consegue parecer-nos humana o suficiente para que o conto, em si, não se assemelhe a uma lição de moral. E, como aponta ainda a prefaciadora, é talvez o regresso à charneca alentejana que se dá neste conto que desperta em Florbela a maior profundidade na criação dos seus personagens. A maioria dos contos passa-se no Porto e em Lisboa, e a mitificação do espaço da infância de Florbela pode, de certa forma, relembrar-nos a angústia de Cesário Verde em Lisboa, por exemplo.



Caso com contornos diferentes é o de 'As Máscaras do Destino'. Trata-se de um livro escrito em honra de Apeles Espanca, o irmão de Florbela, que havia falecido em 1927. O luto de Florbela parece em muito passar por estes contos e talvez seja isso que, nalguns aspectos, lhe confere alguma da profundidade que faltava aos contos que havia escrito até então. Apoquentada como estava com os perigos que corriam os homens e com a manutenção das morais tradicionalistas, Florbela acabava por negligenciar um pouco até os sentimentos que se propunha analisar nos seus contos. E isto não acontece com 'As Máscaras do Destino'.
A dedicatória ao irmão morto será, talvez dos mais belos e mais intensos textos escritos por Florbela e nela, como bem nota Agustina, além da agonia em que Florbela se sentia mergulhada, subliminarmente se nota um certo sentimento de culpa. O Aviador, conto que abre a colectânea, descreve precisamente a morte do irmão de Florbela, mas completamente transfigurada, de maneira a parecer uma espécie de pintura fantasiosa em movimento. O conto seguinte, A Morta, parece claramente projectar Florbela, mortificada pela perda do irmão amado e desejando ter força para fazer acordar os mortos. Os restantes contos parecem ser traçados a partir destes dois, havendo constantes projecções de Apeles e de Florbela, e criando entre eles laços distintos que passam, inclusivamente, pela pulsão erótica sublimada que se sente sempre que Florbela escreve sobre o irmão.
Se por um lado é intensificado o discurso sobre os sentimentos, a morte e o desaparecimento mais ainda parecem perpassar as personagens dos contos e, mais do que nunca, estes nos parecem como que espíritos sem corpo e sem densidade, esvaziados da multiplicidade que caracteriza o ser humano. E uma vez mais, Florbela nos apresenta a vida burguesa como modelo de estabilidade e a vida dos simples como modelo de bondade e de virtude. A figura da mãe é uma vez mais tutelar, ela é a  mulher que todas as mulheres deveriam ser e, de facto, é a uma espécie de pureza virginal que parecem aspirar as boas mulheres destes contos, como em As Orações de Soror Maria da Pureza.
Agustina está convicta, e com razão, de que para ler estes contos é preciso conhecer a mulher. Mas a mulher, parece-me, fez todos os possíveis para nunca ser verdadeiramente conhecida. O seu Diário deixa bem clara a intenção de Florbela de criar uma versão ideal de si mesma e de por essa versão ser tomada.
Assim, os seus contos vêm lançar ainda mais confusão sobre uma persoanlidade que se nos apresenta em tudo estilhaçada. Florbela defende-se enquanto mulher na poesia, reivindica direitos e liberdades, ao passo que nos contos é moralista a um ponto que nos soa forçado. E será talvez isso que nos dizem estes contos. Florbela, como diz Agustina, não foi vítima do seu tempo. Diria eu que foi vítima de si mesma, até certo ponto. Ela sabia que não era como as outras mulheres, e isso mesmo dizia ao expressar-se poeticamente. Para a prosa, ela reserva os seus sentimentos de culpa e, projectando-se nas suas personagens ela diz-nos duas coisas: que temia que a sua diferença fizesse dela essa mulher desgraçada que destruía os homens e, assim, o mundo; e que aspirava a ser essa mulher exemplar e admirável, cuja vida nunca diferiria muito do ascetismo moral da vida monástica. Mas a sua poesia foi mais sentida do que vivida, uma vez que Florbela não encontrou no amor de nenhum homem, esse terreno tão pisado, o amor de um deus que desejava. Por outro lado, não viveu como nenhum dos esteriotipos de mulher que encontramos nos seus contos. Ou seja, não foi o que sentia e não foi o que queria ser. Não pôde ser livre como não pôde ser virtuosa.
Os seus contos são, assim, uma outra faceta da sua complicada estrutura. Eles representam os medos e as esperanças de Florbela e só adensam o seu sofrimento, porque nem uns nem outros chegaram a uma concretização, condenando-a assim a uma existência difusa. E se o seu Diário subliminarmente nos confirma esta ideia, a verdade é que, mesmo diarísticamente, Florbela é incapaz de se escrever objectivamente, nem pouco mais ou menos. E por isso, a pergunta mantém-se: quem era Florbela Espanca? Cada linha que escreve a torna mais confusa e o suicídio só nos mostra que ela partilhava esta confusão. Talvez sobre ela possamos parafrasear Agustina quando falava de Byron: artista demais para ser honesta.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Agustina tem destas coisas... (32)

Um grande amor nunca é espontâneo.



de 'Adivinhas de Pedro e Inês', 1986

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Agustina tem destas coisas... (31)

_Se queres que te diga, faz falta um cálice de licor. Mas a viscondessa não mandou os licores.
_Como é ela? -indagou, pressuroso, Albino. _Claro que me refiro ao aspecto ético.
_Oh, é uma mulher gorda, mas emagrecida. Daí extrai toda a ética que tu quiseres.




de 'Contos Impopulares' (1953)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Agustina Bessa-Luís: Contos Impopulares

ENTRE O SER E O HUMANO: UMA CONSTRUÇÃO

Acontece muitas vezes que, depois de conhecermos a produção mais recente e maturada de um autor, nos surpreendamos com a produção mais inicial, que não raras vezes nos parece, nem que só por comparação, ainda um universo em construção, mais do que um universo desenvolvido densamente.


Não é esse o caso de Agustina Bessa-Luís. Estes 'Contos Impopulares' surgem entre 1951 e 1953 (É em 53 que são coligidos em volume.), ou seja, depois de publicadas as novelas 'Mundo Fechado' (1948) e 'Os Super-Homens' (1950), e um ano antes da publicação do romance que iria chamar a atenção sobre Agustina, 'A Sibila', de 1954.
De facto, se avaliarmos a publicação de Agustina, até ao último romance, 'A Ronda da Noite' de 2006, vemos que o seu registo essencial foi o romance, sendo raras as excepções para contos, crónicas, livros de memórias, teatro e biografias. É por isso ainda mais interessante ler estes contos, que, podemos perceber ao terminar o livro, mesmo sendo contos, muito têm a dizer sobre a estrutura da escrita de Agustina.
Em relação a este livro, conviria talvez analisarmos o seu título. 'Contos Impopulares' denuncia-nos, em primeiro lugar, o género literário do texto, ou textos, neste caso; e também uma posição, posição essa que se marca pela oposição a determinada tradição, que se pode pressupor ligada aos arquétipos  de determinado tipo de histórias. Os contos populares serão, à partida, histórias de um universo oralizado, ligado a determinadas morais, sendo por norma percursos dotados de alguma impessoalidade, uma vez que nessas narrativas o personagem é meramente um nome dado a alguém que faz um percurso que termina com o atingir de um status quo, um estado que é dado por definitivo e que dispensa sequer a imaginação do que se passa depois do desenlace. Será, penso, precisamente no contrário destas características que Agustina inscreve os seus 'Contos Impopulares', sendo que através deste título a autora não deixa de manifestar uma relação, neste caso pela oposição, aos contos populares.
Como dizia no início deste texto, o caso de Agustina não é um em que encontremos um universo ainda em construção nesta obra tão inicial. Sabemos que Agustina nos fala de pessoas, acima de tudo, e nos fala de ideias, através das pessoas. O caso dos 'Contos Impopulares' só é diferente dos romances de um certo ponto de vista muito imediato. Isto porque o que acontece é que o conjunto destes contos parece formar uma ideia bastante concisa e bastante direccionada, e que se prende com o percurso que vai entre o ser e o humano. Pode este livro não ser o percurso de um personagem, mas é certamente o percurso de uma ideia.
O conto de abre esta colectânea, O Búzio, é escrito com um certo piscar de olho a Kafka (Como, aliás, é referido na badana.), em que um personagem vive ouvindo dentro de casa o som de um piano, resgatado da infância, dentro da sua casa, como se habitasse um búzio em que um som longínquo se faz de novo ouvir. No fundo, a ideia essencial é a de um homem encerrado em si mesmo, através de uma memória quase traumática.
Aliás, destes 14 contos, é-nos possível quatro que são como pontos de viragem dentro dessa narrativa de uma ideia, no sentido em que é nesses quatro que é sintetizado todo um segmento do percurso, de modo a que se possa passar ao segmento seguinte. O primeiro é precisamente esse O Búzio, em que encontramos o Homem, Homem que, mesmo desdobrando-se em vários homens e mulheres, é o personagem essencial desta ideia, encerrado em si mesmo, encurralado dentro do búzio que é ele, e não o lugar onde realmente vive.
O quinto conto, A Pousada, parece-me ser a segunda viragem. Ajudado por uma mulher, um homem, feirante, procura uma pousada onde passar a noite, durante a estadia para trabalho numa localidade. É remetido de uma pousada a outra, sem nunca conseguir encontrar um lugar para ficar. Assim, esse Homem que, no primeiro conto, vive encerrado dentro de si mesmo e dos seus fantasmas, não consegue encontrar um lugar, o seu lugar.
O terceiro momento de viragem seria, a partir daqui, o oitavo conto, Espaço Para Sonhar. Este conto, pela sua extensão, resvala talvez um pouco para o registo de uma novela curta. Neste conto, que nos fala de Gil, um rapaz de descendência pouco clara no seio de uma burguesia decadente, encontramos precisamente a premissa para o novo segmento que neste ponto de livro se inaugura:

A simplicidade é um aspecto superficial do complexo, ou então a síntese duma estrutura difícil. A simplicidade adquire-se com a maturação do espírito; a sobriedade e a concisão obtêm-se por sistema de eliminação e são obra de uma intensa experiência. Mas aqueles cuja alma resta como um germe que não evoluiu, esses nunca serão simples.
(p.51)

ou seja, é nesta dualidade, entre os simples e os que não são simples, que estamos inscritos ao ler estes textos. Nele, Gil é forçado a descobrir que o armário dentro do qual dormia enquanto criança, e que era esconso e pobre, tinha, na verdade, espaço para sonhar, e que é a partir desse espaço que toda a vida se desenrola. E portanto, esse Homem que vivia encurralado em si mesmo e não encontrava o seu lugar, é forçado agora a encontrar uma nova forma de percepcionar a sua vida, e a partir dessa nova percepção, vivê-la.
O décimo primeiro conto, Fetos em Álcool, vem então apresentar-nos esta interessante teoria:

o homem não é o mais alto expoente do humano. Admirando o homem, adorando-o na sua integridade, querendo suster a sua marcha, porque o acreditamos já digno de entronização como significado supremo do humano, o que fazemos é atrofiá-lo ou consentir a sua conservação de feto, gérmen de seres normais, fruindo uma morte parcial encerrados em bocetas de álcool.
(p.125)

e aqui chegamos ao essencial da ideia destes 'Contos Impopulares', a de que é necessária uma construção para que o homem, o ser, se torne humano e, aí sim, sujeito digno da adoração devida àqueles que atingem esse mais alto expoente. É de uma construção que nos fala o conjunto destes textos, e, de certa forma, ele encaminha-se não direi para uma moral, mas certamente para uma ética. Poderemos então dizer que assim este livro se aproxima dos contos populares, contradizendo então o título? Eu continuo a achar que não. Isto porque, em primeiro lugar, essa ética, essa mensagem, atinge-se com a leitura de todos os contos; mas cada um deles prodigaliza, de certa forma, um aspecto fragmentário, dando-nos um momento de uma mensagem, mas não a sua totalidade, ficando determinadas questões em aberto, ou então retomadas de outra forma nos contos seguintes. E, por outro lado, ao contrário dos contos populares, mesmo entendendo os textos deste volume como um todo, eles não atingem um status quo e, bem pelo contrário,tudo fica em aberto a partir do fim. Isto porque de um caos vago e insciente, o Homem atinge uma espécie de conhecimento suficiente de si mesmo para se tornar uma espécie de tábua rasa: o seu destino está para começar a ser escrito, começará a partir daqui, em vez de aqui terminar.


Já por várias vezes neste blog me referi à questão dos contos e das novelas e até dos diários como sendo vistas pela generalidade do público e muitas vezes dos críticos como trabalhos menores num contexto que conhece momentos que, por serem romances, são automaticamente mais relevantes. Agustina é mais um escritor que contraria esta ideia, sendo que estes 'Contos Impopulares' ocupam perfeitamente um lugar muito importante na obra total, enquanto elemento de certa forma fundador, mas também como elemento já conseguido e já consequente.
Estilisticamente, este livro está bastante longe daquilo que são os livros mais recentes de Agustina. Nestes contos sente-se muito uma imagética mais obsessiva e detalhada, com descrições generosas e complexas; aspectos que conheceriam uma acentuada depuração nos livros posteriores.
Mas há que considerar este livro enquanto livro publicado em determinado contexto. É certo que Agustina sempre esteve distanciada de compromissos com correntes literárias ou até políticas. No entanto, Agustina não é independente de um tempo, e muito menos estes 'Contos Impopulares' estão independentes do seu tempo. Mais importante do que estes contos surgirem ao mesmo tempo, mais ou menos, que surge a literatura neo-realista, é importante o facto deste livro aparecer pouco depois do fim da II Guerra Mundial, quando parece realmente essencial para os artistas, onde se incluem os escritores, pensar o que é o Homem, o que é o Humano e quais as suas possibilidades. E é aliás esse o motor principal daquilo que seria a literatura neo-realista, e o engajamento político de muitos dos seus autores foi precisamente o que os distraiu desse propósito e, assim, os levou a deitar a perder a própria obra.
Não é o caso de Agustina. Da mesma forma que, na década de 50, há vários autores a questionar vários aspectos da situação em que a Humanidade é deixada depois das atrocidades da guerra (Impossível não pensar no caso de Ilse Losa, com o seu 'O Mundo em que Vivi' de 1948, que se apoia justamente na questão da II Guerra Mundial.), também Agustina se encaminha para pensar o que é o Homem e o que é a Humanidade. E fá-lo da maneira prodigiosa que ao seu nome ficaria sempre associado.

[As indicações de página são da 4ª edição, da Guimarães editores, 1984]

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Agustina tem destas coisas... (30)

Na sua área importava mais ser bem relacionado do que ser culto. Sabiam-se umas coisas de música, de política, mas nada muito aprofundado.
_Quem aprofunda, quebra as unhas 



de 'A Quinta Essência' (1999)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Agustina tem destas coisas... (29)

Ela tinha oito filhos à volta, como um colar em que os desejos se esbarravam, ficando porém algo enredado nos pensamentos. Ora tristes, ora vingativos. Escreveu versos aos trinta anos. O Baena teve medo e comprou-lhe um carro para que ela passeasse e, com a excentricidade, escondesse as decepções.



de 'O Concerto dos Flamengos' (1994)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Agustina tem destas coisas...(28)

_Os casamentos não duram.
_Não duram mas repetem-se. É uma forma de duração.




de 'Prazer e Glória' (1988)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Concordo

De Agustina Bessa-Luís a Maria Gabriela Llansol a ficção moderna portuguesa desprendeu-se da poética – entre nós de frágil tradição – do realismo, sob todas as suas formas, e entregou-se ao mesmo tipo de pulsão que inunda a nossa poesia.









Eduardo Lourenço

Agustina Bessa-Luís: A Ronda da Noite

DO PODER, DO REAL E DA FUGA A ELES

Foi em 2006 que se editou o último romance de Agustina Bessa-Luís, "A Ronda da Noite" (ed. Guimarães), que se segue a "Doidos e Amantes" (2005).
Não é a primeira vez que Agustina se debruça sobre as artes plásticas para desenvolver uma história e, desta vez, a escolha não podia ser mais interessante: trata-se do polémico "A Companhia do Capitão Banning Cocq" de Rembrandt, mais conhecido pelo nome que Agustina escolheu para o seu romance. É uma das obras mais controversas de Rembrandt, que já deu origem a inúmeros ensaios e até a um filme de Peter Greenaway.
Neste romance, encontramos a família Nabasco que, ao longo de gerações, nas suas várias casas, possui uma falsificação em tamanho real da Ronda da Noite, que vai ocupando sempre um lugar à-parte entre os pertences da família. Martinho Nabasco é um rapaz singular, uma espécie de mutante, criado pela avó Maria Rosa: desde criança, ele adoece facilmente, manifesta de forma estranha os seus afectos que são, por si só, também estranhos, e o seu maior interesse parece ser mesmo a Ronda. Apesar de ser um rapaz inapto para a vida prática e para a vida sentimental, Martinho demonstra capacidades analíticas e intelectuais desde cedo, um pouco espicaçado pela inteligência altiva e por vezes contraditória de Maria Rosa, a sua principal interlocutora. É de Maria Rosa, que vai dispensando sempre alguma atenção à Ronda, que parte a ideia que o quadro possa mesmo ser o verdadeiro. Na impossibilidade de se confirmar esta teoria, todos parecem aceitar que, pelo menos, aquela reprodução teria vindo do atlier do próprio Rembrandt.
A apatia de Martinho é posta em causa quando Maria Rosa decide adoptar Judite, para viver lá em casa. Judite é uma rapariga de doze anos, cujo pai terá assassinado a mãe por causa de um arrufo conjugal. Judite passa a ser criada com os Nabasco e, por fim, Maria Rosa consegue casá-la com Martinho. O casamento, que não dá filhos, é vivido por ambos com uma certa dose de alienação, ao ponto de uma quase indiferença, e acaba por fracassar. Quando Judite se apaixona por Manuel Andrade, Martinho sente alguma raiva e algum desgosto, sem, no entanto, sentir que ama a mulher especialmente. O caso acaba por ser esquecido e o casal regressa à sua vida de parco contacto amoroso. No entanto, no meio da confusão, Martinho acaba por considerar uma hipótese que havia sido colocada pelas empregadas da casa, aquando da vinda de Judite: a teoria de que teria sido ela, e não o pai, a assassinar a mãe, Estrelinha Sopa-de-Massa.
Mas é principalmente através da Ronda que Martinho percebe aquilo que se passa na casa dos Nabasco, que primeiro é a Casa do Cão e depois o Torreão Vermelho, em Águas Santas. E aqui se entende um pouco a estranheza de Martinho: ele não é capaz de se relacionar directamente com a realidade, precisa sempre de a fazer passar pela Ronda, a sua mais antiga paixão, para poder entendê-la. É isso que o torna tão especial na sua indefinição: porque Martinho é, acima de tudo, uma pessoa indefinida, em todos os aspectos, excepto enquanto ser intelectual. É essa intelectualidade tão particular que faz com que, cada vez mais, Martinho vá projectando a vida para a Ronda da Noite, acabando por se isolar da vida propriamente dita e das pessoas.
Na maneira como Agustina escreve esta história, é essencial a questão do ritmo: "A Ronda da Noite" parece viver de uma espécie de narrativa interrompida, pois a acção vai-se desenvolvendo com alguma velocidade, mas a sua narração é interrompida frequentemente para nos dar acesso às análises de Martinho: assim tomamos consciência da maneira como ele, o mutante, experiencia os acontecimentos, como que retirando-se deles para poder pensá-los, concretamente através das minuciosas observações da reprodução de Rembrandt. Mais ainda, nota-se neste livro de Agustina uma tendência para escrever como quem pinta, com uma pincelada que em muito nos faz lembrar a do próprio Rembrandt, carregada de sombras significativas, de contrastes garridos e até de uma certa ambivalência em relação àquilo que é mostrado. Porque essa é uma das questões mais prementes em "A Ronda da Noite": as diferenças entre o que é verdadeiro e o que é mostrado; sabendo que sempre que no que é mostrado continua a haver algo de verdadeiro, ainda que esse "verdadeiro" possa pertencer apenas à imagem, e não à verdade dos factos.
A questão do poder também aqui está presente, como na maioria, senão na totalidade, dos livros de Agustina. No quadro de Rembrandt, o poder de Banning Cocq está na iminência de ser desobedecido; ou, numa outra teoria, apenas aparenta ser poder, quando, na verdade, a pintura retrata uma festa. Pelo meio desta dúbia manifestação política, encontramos a pequena Saskia, num vestido claro, com uma galinha e uma pistola penduradas na cintura. Se Judite parece representar Saskia no seio da família Nabasco, também é certo que o interesse particular de Martinho pela Ronda parece evidenciar-nos que ele está à margem das hierarquias estabelecidas na sua família, mesmo que inintencionalmente, mas por condição, a sua condição de mutante. Assim nos parece lógico que essa figura que parece existir à revelia do poder, Saskia, seja, na verdade, a esposa de Martinho. E, numa história em que o poder é omnipresente, ainda que surja sempre de forma subliminar, não deixa de nos parecer sintomático que o personagem extraviado da realidade desse poder seja precisamente aquele que se interessa mais por analisar a pintura onde tudo está representado: ele é aquele que está de fora, dialogante, sim, mas com um elemento em que não está realmente inserido.


O final do livro, que não dispensa uma forte tragicidade, vem comprovar a relação quase simbiótica de Martinho com a Ronda, sendo que, nessa simbiose está todo um modo de vida -baseado numa fuga ao real- que, uma vez eliminado, acaba por destruir Martinho.
Romance onde lemos ainda a ironia aguçada do costume, "A Ronda da Noite" é um livro muitíssimo forte, aberto a muitíssimos diálogos, diálogos esses que, em muito, passam pela realidade dos dias de hoje. E, assim, funciona este livro para a realidade actual como funciona a Ronda para Martinho Nabasco.

sábado, 13 de agosto de 2011

Agustina tem destas coisas... (27)

aos dezoito anos os rapazes não têm queda para essas presas de solteirões ou maduros conhecedores, e nem sequer notam a beleza pueril duma madona de bairro. Preferem as loiras vividas ou as primas com iniciativa.



de "Prazer e Glória" (1988)

domingo, 31 de julho de 2011

Agustina tem destas coisas... (26)

Estava sempre em riscos de se matar, e João Pinheiro (que ele tratava sempre por tio, porque, dizia, assim não sofreria traumas edipianos) esperava a todo o momento a notícia de uma fatalidade.
_É um doido -dizia, não sem uma ponta de orgulho. Todos os pais sentem pelos filhos delinquentes a predilecção que se tem pelo perigo não de todo indomável.




de "Prazer e Glória" (1988)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Agustina tem destas coisas... (25)

Tinha conseguido três filhos dum marido meio assexuado e que detestava crianças. Ela disse:
_Fiz a minha obrigação. Agora quero viver sossegada e fazer montes de outras coisas.
_Não sabes fazer nada. Mesmo os teus filhos nasceram à custa de cesarianas. Que aldrabona, menina!
_Não me esforcei, mas o caso não era para isso. Dar à luz já não é uma brutalidade, tenhamos maneiras.





de "Prazer e Glória" (1988)

sábado, 30 de abril de 2011

Agustina Bessa-Luís: O Concerto dos Flamengos

OUVIR VOZES



Editado em 1994, "O Concerto dos Flamengos" é, a meu ver, um dos romances mais modernos e mais excepcionais de Agustina Bessa-Luís. As leituras que pode ter são inúmeras, desdobrando-se no plano romanesco, no plano histórico e, como sempre, no plano analítico e político, ainda que a escrita, subtil e nítida, nos possa enganar a pensar que se trata de um romance mais simples do que, na verdade, é.




Na linha da frente, encontramos três mulheres residentes em Lisboa, deslocadas aos Açores para assistir ao Concerto dos Flamengos, um evento anual que dura vários dias. Estas três mulheres são Luísa Baena, a sua prima Maria Vicente e a criada, Serpa.

Delas todas, a mais destacada será Luísa Baena e será através dela também que a história do Concerto dos Flamengos se cruza com a História de algumas figuras como Carlos o Temerário, Maximiliano e Isabel de Borgonha. O que cada um destes personagens representa são aspectos relacionados com o poder e com a ocupação geográfica, que, evidente, afectará também toda uma área cultural que aqui está também em análise.

Luísa parece mais interessada em ouvir, em "dialogar" com as suas figuras históricas do que propriamente em ouvir o Concerto. No entanto, a sua presença no evento é, também ela, sintomática de alguma coisa: porque, acima de tudo, o Concerto dos Flamengos parece ser símbolo de uma Europa culturalmente fracturada, incapaz de compreender a importância das mudanças do tempo que, em último caso, dependem directamente das mudanças de poder. A presença dos flamengos no século XVI nos Açores deixou muitas marcas, a maioria das quais nunca verdadeiramente chegou a ser apagada, convivendo confusamente com o tempo real do romance, que é a transição dos anos 80 para os anos 90.

Assim sendo, Luísa apresenta as suas reações ao espectáculo, sendo particularmente rígida para com o ragtime, em que o músico japonês toca Gershwin de uma maneira personalizada. É de notar que essa interpretação que, para Luísa, é também uma deturpação é tocada por um músico cujo nome nem sequer sabemos, sendo apenas referido como "o japonês do ragtime".

Luísa tem, mesmo assim, vários motivos para tentar entender as relações entre cultura e poder, motivos acima de tudo pessoais, que remontam à sua infância em Nevogilde Park, no Porto, onde ela já apresentava dificuldades em lidar com o poder, neste caso exercido pela mãe e pelo avô Baena. É assim que, aos 18 anos, Luísa tem uma tentativa falhada de fugir do país com um marinheiro, acabando por, depois, ir para Itália estudar canto lírico, carreira que, também ela, é falhada. Assim, ela acaba por se casar com Xavier, descendente da família dos Jornada Branca, que tem várias ligações com a resistência ao regime, acabando por arrastar para essa luta Luísa, apesar do casamento conturbado que têm e que acaba em divórcio. No fundo, toda a vida de Luísa é baseada em confrontar-se com questões básicas como a sociedade, o poder, os códigos de comportamento, as éticas e as relações humanas. Será por isso que ela dá mais atenção aos fantasmas históricos dos Açores, que lhe permitem prosseguir nas mesmas questões, do que ao espectáculo pobre do Concerto.

Apesar de Luísa nos surgir como uma mulher "extraordinária demais para ser sincera" (p.130), também a vemos como uma espécie de heroína falhada, um tanto incompetente e incapaz de conseguir alguma coisa na vida. Acima de tudo, ela parece ter um sistema de referências culturais e políticas bastante abrangente, e é uma boa ouvinte: ouvinte da História e dos sistemas sociais.

É por isso que, nas suas divagações, ela tem visões do Cortejo de Maximiliano, que parece ser o foco da sua atenção, muito mais que o Concerto dos Flamengos. Talvez porque ela tem consciência de que esse espectáculo confirma uma cultura que não soube relacionar-se com o poder e com a História de maneira a sobreviver plenamente. Os músicos são ora difíceis de entender, ora verdadeiramente decadentes e de qualidade questionável.

Com o público passa-se a mesma coisa. A música é-nos descrita por Agustina como uma catarse de problemas de violência e de erotismo; e o público parece completamente inconsciente de questões artísticas, estando as pessoas presentes mais por pretensão do que por interesse cultural.

Outro elemento que nos evidencia este desfasamento é o comportamento da criada Serpa, cuja lealdade se prova através da maldade e de uma série de códigos de comportamento que, aparentemente, já ninguém segue.






Por fim, temos ainda a surpresa da chegada de dois personagens: Herberto, amigo de Luísa; e Clara Bulcão, uma velha rival da protagonista, que inclusivamente estivera envolvida com Xavier, depois do divórcio dele e de Luísa.

A Bulcão é-nos mostrada como "uma proxeneta com talento" (p.146). Esse talento é, acima de tudo, um talento de comunicação: ela tem o dom da palavra, é encantatória quando fala e até temível; mas, no fundo, percebemos que ela entende muito pouco do assunto de que mais fala, que é o da cultura.

É particularmente nas passagens sobre a Bulcão que Agustina mais revela a sua pena aguçada, descrevendo-a com uma deliciosa ironia que toca as raias da maldade.

A presença da Bulcão vem trazer ainda outra componente à fractura cultural com que "O Concerto dos Flamengos" nos vem confrontar. Ela parece representar uma precipitação, uma alteração demasiado acelerada nos valores e nas ideias, conquistando os seus ouvintes pela forma desabrida como se expressa, ainda que, tanto ela como eles, estejam longe de entender aqueles assuntos, que não raro se relacionam com a escrita, a poesia e o sexo; assunto este último que está mais ou menos implícito por todo o romance, como um problema que afecta directamente tanto o poder como a cultura (Os dois assuntos, afinal, centrais, neste livro.).

Herberto, por seu lado, representa um homem sábio mas apagado, bastante analítico e também bastante céptico, razão pela qual Luísa, ainda que lhe conte grande parte dos seus pensamentos relativos à História, se abstém inicialmente de lhe contar das suas visões do Cortejo de Maximiliano.

Também Herberto terá a sua palavra sobre a ocupação dos Açores pelos Flamengos e as suas repercursões no tempo actual, quatrocentos anos depois.

Quando deixam os Açores, depois do Concerto dos Flamengos, Luísa e Herberto acabam por planear um regresso, com o propósito de conseguirem ver de novo o Cortejo. O facto de irem, no fundo, em busca de uma alucinação, dá-nos conta de uma dimensão algo utópica (Que nos é referida na badana do livro, inclusivé.) que se faz sentir neste romance de Agustina. Ensaiando sobre um tempo que recebe uma cultura desfeita e incapaz de entender a sua relação com o poder, Agustina parece deixar-nos o caminho livre para repensarmos esta relação. Os dois personagens deste livro que melhor a percebem são também os únicos capazes de aceder a essa alucinação, descrita de uma forma magnífica, fazendo lembrar bastante o trabalho de Albrecht Dürer (É de lembrar que Agustina já trabalhara sobre este pintor em "O Apocalipse de Albrech Dürer", 1986.).

E será esta visão a ser realmente marcanta para Luísa, a mais definitiva; porque ela representa um todo, ao contrário do Concerto dos Flamengos, a que Luísa assiste fragmentariamente.

É, de facto, um romance com uma inclinação ensaística e politizada; paralelamente à apaixonante construção de pessoas a que Agustina sempre nos habituou. Porque se há coisa que "O Concerto dos Flamengos" consegue em todas as suas páginas, é ser apaixonante.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Agustina tem destas coisas... (24)

O velho motorista de Valentina, que a levava aos casamentos e ao cabeleireiro a Viana, apresentou-se subitamente munido duma lista de direitos que, somados os retroactivos, pareciam uma forma de esbulho. Valentina disse:

_Falei-lhe em francês porque isso eu sei que é o que mais o incomoda.

_A ele a toda a gente. O teu francês é horrível -disse o cunhado.
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de "Um Cão Que Sonha" (1997)

domingo, 3 de abril de 2011

Agustina tem destas coisas... (23)

O marido tentava sossegá-la e fazia-o duma maneira original: gritava mais do que ela. ......................... .......................... ................................................................................................................... ........... .......... ................................ ....................... ........................ ............. ........................... ............ . . . . . de "O Concerto dos Flamengos" (1994)

terça-feira, 22 de março de 2011

Agustina tem destas coisas... (22)

Homem que casa duas vezes ou é mormon ou é suicida.
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de "O Concerto dos Flamengos" (1994)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Agustina tem destas coisas... (21)

Elas hão-de recompensá-los, não com jogos eróticos, mas tortilhas de camarão e sopas de alho francês. Que há mais luxúria num prato de lentilhas, do que nas confissões duma freira.
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de "O Concerto dos Flamengos"

terça-feira, 15 de março de 2011

Agustina tem destas coisas... (20)

Depois, não tendo a quem ferir e desprezar, caiu em si, o que é o mesmo que cair de uma escada.
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de "O Concerto dos Flamengos" (1994)