segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Concordo
domingo, 31 de julho de 2011
Um texto
quarta-feira, 1 de junho de 2011
A Purificação sacrificial
Do condenado que me está mais próximo, não sei sequer o nome. Sei que matou num mês de Março e que, no dia em que matou, passou a existir. Foi então que lhe deram
quinta-feira, 17 de março de 2011
Ferida Consentida
Textos de "Um Beijo Dado Mais Tarde" (1990) de Maria Gabriela Llansol, ditos por Regina Guimarães e cantados por Ana Deus. Guitarra de Alexandre Soares.
domingo, 13 de março de 2011
Excerto da Sensualética Llansoliana

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Uma citação
sábado, 23 de outubro de 2010
Jodoigne, 4 de Maio de 1977.
domingo, 17 de outubro de 2010
Maria Gabriela Llansol: Depois de Os Pregos
Durante onze anos não houve livro de Maria Gabriela Llansol. “Os Pregos na Erva” (ed. Portugália) editado em 1962 valeu-lhe a inclusão em várias antologias de contos e a publicação dispersa por jornais e revistas, mas só em 1973 o segundo livro viria a lume. Título genérico: “Depois de Os Pregos na Erva”; subtítulo: “E Que Não Escrevia/ Dez anos de Escrita” (ed. Da autora para Afrontamento). A explicação para a contradição suscitada pelo subtítulo surge particularmente no primeiro texto aqui apresentado, “E Que Não Escrevia”.
Ao abrir este volume encontramos, na página de rosto a indicação dos três “livros” que o constituem e respectivas datas:
Lovaina, 1968- Lovaina, 1971
E QUE NÃO ESCREVIA
Lisboa, 1964- Lovaina, 1968
UM TEXTO DECADENTE
Lisboa, 1961- Lisboa, 1963
O ESTORVO
São portanto três textos ordenados do mais recente para o mais antigo; escritos em 2, 4 e 3 anos, cobrindo realmente dez anos de escrita. Portanto não pode deixar de nos parecer estranho o subtítulo que é também título do primeiro livro.
“E Que Não Escrevia” parece ser um livro auto-biográfico (As datas, os nomes, os factos, coincidem com o que conhecemos da vida de Llansol.), mas não se trata propriamente de uma narrativa, de uma auto-biografia no sentido vulgar do termo. Este texto passa pela reconstrução obsessiva e não linear da vida da narradora, através de memórias, diários, cartas, postais, protestos e de uma relação intrínseca com o poder da imagem.
A figura central é antes de mais uma figura em constante mutação, sendo o aspecto mais evidente o do sexo, ao ponto de chegarmos a ler
“Sinto-me mal. O meu sexo acaba de ser determinado.”
(pag.51)
após várias referências a uma “irmã uterina” (Vejamos que o útero é um lugar de decisão do sexo e, em última análise, de morte e vida.) que será parte integrante dessa indefinição sexual.
As questões da sexualidade, que abrangem a figura central e a do pai, são das mais relevantes, mas a questão da morte tem também um peso decisivo, que passa do pai para a/o filho/a, já que o pai é “centro dos fantasmas da família e dos seus fantasmas” (pag.54), uma ideia que não é de todo estranha à obra posterior de Llansol, com particular incidência em “Um Beijo Dado Mais Tarde” (1991, ed. Rolim).
Entre a sexualidade indefinida ou ambivalente e a morte, esta criança, pois é de uma criança que se trata, escreve, embora admitindo que “sei escrever, amanhã não sei escrever” (pag.70). E, nesta difícil relação com a escrita, a criança concentra-se na pintura: na imagem, portanto. A escrita é, para todos os efeitos, algo de estranho a esta criança, é uma pertença, uma vez mais, do pai, que lhe dedicara contos, que lhe escrevia postais pedindo-lhe que respondesse- e que ouvia os seus protestos escritos. E eis aqui um dos mais interessantes aspectos de “E Que Não Escrevia”: é que a presença contínua do pai não parece expressar qualquer tipo de Complexo de Electra, mas sim uma relação que se prende essencialmente com os livros e, daí, a escrita. E isto é relevante porque, apesar desta criança assumir a pintura como vocação, ambiciona a escrita.
Esta transição dá-se quando a criança descobre na casa uma figura de braço decepado. Se se podia dizer que o braço pode representar a sexualidade, é certo que também pode representar o acto de escrever. É esta figura, na sua simultaneidade entre sexo e escrita que incita a criança a escrever. Porque se antes ela pensava “livro, os frutos que tu dás estão maduros, mas tu não estás maduro para os teus frutos” (pag.71) será a seguir que a própria criança percebe
“sou uma figura”
(pag.72)
A “figura” é então uma forma de manter presentes os vários elementos: masculino, feminino, vida, morte. Unindo o sexo e a morte, Eros e Thanatos, a figura representa a escrita, a escrita llansoliana como a conhecemos de “Causa Amante” (1984, A Regra do Jogo) ou “Contos do Mal Errante” (1986, Rolim). É numa cena pungente, abarrotante de sexo, que o texto termina com o nascimento da escrita.
E assim se pode explicar, tendo a figura como charneira, essa contradição entre “E Que Não Escrevia” e “Dez anos de escrita”: segundo a ideia da diferença entre tentar escrever e começar a escrever que Marguerite Duras definiu.
O que há, entre “Os Pregos na Erva” e “E Que Não Escrevia” é esses textos de “tentar escrever”. “O Livro das Comunidades” (1978, ed. Afrontamento) é então o verdadeiro “começar a escrever”.
Mas o assunto do nascimento não está, de todo, ausente em “Um Texto Decadente”. O texto inicia com uma citação de S. João da Cruz, “a ascese da memória/ leva à esperança”. Segundo a pequena nota de Llansol, “esta recitação decadente de um texto inspira-se no episódio bíblico de Tobias que foi levado a Gabelo em Reges por um homem que não sabia que era um anjo." (pag77). A esta história sobre um grupo de prisioneiros a ser levado para uma prisão não será também alheia à história do próprio S. João da Cruz, que como sabemos, será uma das futuras figuras de ”Geografia de Rebeldes”- a segunda em, mais particularmente, “O Livro das Comunidades”.
De certa forma, mesmo intuindo que os personagens se preparam para a morte é também certo que vemos que aqui algo se prepara para nascer. E apesar de já perto do final, uma criança nascer de Maria, sem ter sido concebida (O que volta a remeter-nos para a questão do texto bíblico.), parece-me que este nascimento é outro, significando a escrita, provavelmente.
Quando uma personagem, Ávila, sofre uma morte fictícia, é esta a descrição:
“Ela, fossem quais fossem as máscaras de que se servia para esconder como era, no íntimo tinha um desinteresse profundo por tudo o que apaixonava os outros, ou o que deveria apaixoná-la segundo as numas sociais; recusou comunicar autenticamente com alguém; estava na posse das suas ideias e da sua verdade. Havia construído uma solidão defensiva e gostava de deixar vagabundear o seu espírito sem freio ou leis (…)
(pags.154,150)
Não poderá, penso eu, estar mais de acordo com a escrita de Maria Gabriela Llansol, ou com a escrita que neste tempo se desenvolvia, se a própria Llansol, colocando-se num mundo de linguagens diz que “não posso, não podemos, ir mais além do que a linguagem que vou descobrindo, vamos descobrindo.” (pag.106)
O texto, dividido em Tempos de extensão irregular, aborda vários textos bíblicos, transformando-os de acordo com o que é narrado, dando-lhes novas leituras, pautadas de uma pormenorização obsessiva, que consegue atinge o grotesco. No fundo trata-se de conceber um mundo onde a fealdade reina (Repare-se que no Tempo 3 o desenho do arcanjo é apagado da parede da prisão mas deixam-se ficar desenhos de pénis.), um mundo onde a escrita possa nascer porque tem um sentido, uma razão de ser.
Finalmente, “Um Texto Decadente” parece-me sofrer de múltiplas fragilidades, tornando-se em muitos dos seus fragmentos, confuso e excessivo, nomeadamente por questões de pontuação (Que chega a não existir.), o que pode contribuir para tornar o texto mais denso; mas também mais confuso.
Os textos bíblicos serão também uma presença muitíssimo relevante em “O Estorvo”, conjunto de contos que encerra o volume.
E, se em termos formais, “O Estorvo” se encontra mais próximo de “Os Pregos Na Erva”, a verdade é que em relação ao livro de 1962, estes textos marcam uma considerável evolução, ao mesmo tempo que também contribuem para, em muitos aspectos, podermos ver, nestes, mais definido o punho de Maria Gabriela Llansol.
Assim, “O Estorvo” volta a colocar-nos perante personagens anónimas, ou quase. E é na sua forma de viver absolutamente comum que acontecem os mais surpreendente casos. O texto bíblico é não raras vezes suporte deste imaginário (Sendo “Os Imitadores” o caso mais flagrante.), não no sentido em que Llansol os recria, mas que os questiona. Questões de sexualidade, de posse, de perda e de morte incluídas. Destes 11 contos, aquele que me parece mais relevante será “Cordeiro Negro”, que possivelmente nos aponta a questão do sacrifício, mas vai mais longe: não o trata como oferenda propriamente dita, mas como serviço aos desejos do Homem, aniquilando o sentido do homem que mata para se provar a deus.
E é curioso, porque mesmo em “O Estorvo”, há um conto que volta a abordar a questão do nascimento. E aqui justamente este conjunto de demarca de “Os Pregos na Erva”: ao passo que no primeiro estávamos perante um acontecimento prestes a acontecer e nos deixava a angustia de não chegarmos a vê-lo, em “O Estorvo” assistimos mesmo a essa contínua transformação, a esse acontecimento. A questão da violência, tão patente- a meu ver- em “Os Pregos na Erva”, mantém-se aqui, portanto, mas de forma mais acentuada.
Neste “livro” estamos perante um mundo em que os pequenos presságios se concretizam, onde pequenos acontecimentos se vão dando, principalmente nessa trama a que chamamos “as relações humanas”. Mas a sensação que “O Estorvo” nos deixa é a de que alguma coisa maior se aproxima. E é essa urgência que em nós causa maior eco.
No geral, “Depois de Os Pregos na Erva” é efectivamente a sobreposição de “três momentos de uma escrita a braços com uma história que, em português, é a da expropriação inexorável de um presente que não pode ser gerido pelo indicativo” (hors-texte) - é portanto um presente que se constrói pela convocação dos tempos passado e futuro-não só pessoais, mas também colectivos. Ainda que entre os três textos possamos encontrar várias diferenças as de uma escrita em rápida construção -podemos encontrar-lhe essa principal unidade, que não é nada estranha à escrita de Maria Gabriela Llansol.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Um Excerto
(...)
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Maria Gabriela Llansol: Os Pregos Na Erva


terça-feira, 17 de agosto de 2010
Maria Gabriela Llansol: Uma Data em Cada Mão (Livro de Horas 1)
Já tivemos exemplos de bons diários, no sentido em que eles aumentam a obra e a esclarecem: recordo os diários de Fernando Pessoa (“Páginas Íntimas e de Auto-Análise”), de Luísa Dacosta (“Na Água do Tempo” e “Um Olhar Naufragado”), de Luiz Pacheco (“Diário Remendado”), só por exemplo. Por outro lado, a série dos “Cadernos de Lanzarote” de José Saramago, além de extensíssimos, nem sempre existem nessa lógica de surgirem para esclarecer ou acrescentar a obra, sendo muitas vezes relatos da vida do autor. É uma opção, apenas não me parece a mais interessante.
No caso de Maria Gabriela Llansol, a publicação de um diário não constitui novidade. Recuemos até 1985, e encontramos a publicação de “Um Falcão no Punho” (ed. Rolim, reed. Relógio d´Água), que levava como subtítulo “Diário 1”, depois em 1987, “Finita- Diário 2” (ed. Rolim, reed. Assírio e Alvim), em 1996, “Inquérito às Quatro Confidências- Diário 3” (ed. Relógio d´Água). Percebemos que os seus diários cumprem a um tempo todos os aspectos que acima enumerei e que considero fundações para um diário, a meu ver, pertinente.
João Barrento e Maria Etelvina Santos estão desde já de parabéns, pois tiveram a seu cargo uma tarefa nada fácil, e na qual só inicialmente tiveram a ajuda de Maria Gabriela Llansol: trata-se da transcrição dos cadernos, das várias anotações que muitas vezes se revelam quase essenciais para uma boa compreensão do texto e das suas múltiplas referências, quer à obra da própria Llansol quer a outras obras, além das folhas soltas que foram anexadas aos cadernos. Além disso, tiveram também o cuidado de inserir algumas páginas fac-similadas dos manuscritos, que nos permitem formar uma ideia relativamente a essas questões aparentemente menores como são a caligrafia, os doodles, os desenhos e outras coisas afins que Llansol inseria nos seus cadernos. Mais ainda, há que felicitá-los pela escolha do título deste volume: se a designação de serie “Livros de Horas” foi escolhida pela autora ainda em vida, o título de cada volume é escolhido por Barrento e Etelvina Santos e “Uma Data em Cada Mão” parece-me, além de muito adequado, muito bem localizado entre os títulos que habitualmente Llansol escolhia para os seus livros- a expressão é colhida do documento.
No entanto, algumas coisas deveriam acontecer: para começar, dever-se-ia explicitar a relação deste livro com os três diários previamente publicados: podemos comparar as datas, e vemos que este livro contém textos escritos de 1972 a 1977, e "Finita" incluia textos de 1974 a 1977 (E ainda um único texto escrito em 1939.). Assinala-se, a 8 de Dezembro de 1976, a passagem do segundo para o terceiro caderno, mas, por alguma razão, a 19 de Julho de 1976 não há qualquer indicação de se passar do primeiro para o segundo caderno, o que conviria. Uma última falha na edição dos cadernos, e se calhar a menos importante: lemos nas notas que foram excluídas todas as passagens que já tivessem sido incluídas noutros livros de Llansol; no entanto, parece-me que seria interessante, pelo menos em nota de rodapé, dar uma indicação de que, em determinado lugar existia uma passagem que foi retirada, mesmo que se não especificasse qual (Poderia tornar as notas demasiado longas e/ou confusas.). Não são propriamente falhas graves, mas são o que falta para a edição ser mesmo irrepreensível.
O que encontramos em “Uma Data em Cada Mão” é, acima de tudo, um livro de Maria Gabriela Llansol, com todas as características que nos habituámos a encontrar nos restantes, ainda que, estranhamente, aqui a escrita pareça, de alguma forma, menos encriptada.
Este é um diário em que entendemos o quotidiano de Maria Gabriela Llansol: completamente consumido pela escrita, pela leitura, e acima de tudo, por um profundo pensamento que a ligava, enquanto ser humano, a elas.
A obsessão pela escrita é de facto pungente. E se na entrada de 30 de Abril de 1972, Llansol escreve
“Alheamento da vida de trabalho de todos os dias: actividade da Escola, compras, preparação da comida. Esqueço-me de tudo isso, e só vivo conduzida pelas vozes destas páginas (…)”
em 21 de Abril de 1976, ela escreve já
“(…) mal passava a ferro, mal lavava os pés (qualquer trabalho) tinha que pegar com a mão livre na caneta, deixar sempre a outra mão livre para escrever.”
É muito claro por que o diário de Maria Gabriela Llansol não tem, de longe, tantos detalhes sobre outras coisas como tem sobre leitura e escrita. Porque Maria Gabriela Llansol era verdadeiramente dependente dos livros, dos que lia e principalmente dos que escrevia. E é isso que mais encontramos neste livro: como se, ao remover as “paredes” dos restantes livros fôssemos encontrar este livro: é ele a estrutura que sustenta os livros que Llansol foi publicando ao longo da sua vida, em particular, neste volume, “O Livro Das Comunidades” (1977) e “A Restante Vida” (1983). Se poderia parecer estranha a quase completa ausência de referências a “Os Pregos na Erva” (1962) e “Depois de Os Pregos na Erva: E Que Não Escrevia” (1973), isso poderá talvez ser explicado com a diferença que, neste espaço de 11 anos se operou na escrita llansoliana. E mesmo assim, ainda lhe lemos sobre esses dois livros, em 13 de Julho de 1976 “Aqui, quase não se fala do que escrevo, publica-se e fala-se de outras coisas, coisas úteis, compreensíveis, exigidas ao momento presente.” (pag.170) E, ainda sobre os livros que aqui parecem ter a sua raiz, (Se é que não têm todos, directa ou indirectamente, uma vez que toda a obra de Llansol tem uma continuidade, uma comunicação entre todos os livros.), aqui estão muitas “figuras”, muitos “pensamentos” que afinal vamos reencontrar em “Contos do Mal Errante” (1986), “Da Sebe ao Ser” (1988) ou “Um Beijo Dado Mais Tarde” (1990). E até ao lermos “Vida e morte de Augusto e Gabriela, desejo de, quando esta forma humana nos deixar, a mim e ao Augusto, perspectivar nossa época nos confins de um livro” (pag.157) é fácil pensar em “Amigo e Amiga: Curso de Silêncio em 2004” (2006).
A esta tendência devemos a grande quantidade de imagens que Llansol convoca, que parecem construir um texto sobre os dias, descartando-se de lhe narrar os pormenores, e preferindo a imagética a que podemos atribuir uma tremenda vida interior. A que originou os livros.
Esta comunicação entre livros está longe de ser gratuita e imponderada. Pelo contrário, é em 1976 (Quando Llansol publicara apenas os primeiros dois livros.) que ela escreve “Todos estes textos integram o texto do meu livro. Livro único, que aparece publicado em lugares, datas, textos ou volumes diferentes.” (pag.115). É esta ideia que melhor sintetiza os livros de Maria Gabriela Llansol: ela escreveu um livro apenas, todos os seus textos formam um longo longo livro, que a todos os momentos se evoca a si mesmo e a outros, que é a sua história e a forma como essa história foi escrita, é o resultado e o acto de escrever. E se é verdade que são os diários que mais contêm a parte respeitante ao acto de escrever, a verdade é que também o resultado passa por aqui, da mesma maneira que nos ditos romances o acto de escrever não está ausente, sendo por muitas vezes ele próprio um tema. Como se Llansol decidisse expor quais os seus processos, as suas ferramentas, para construir um livro, incluindo-os no próprio livro.
Além dos livros, outra questão que me parece relevante referir é a do “exílio” em que Maria Gabriela Llansol e Augusto Joaquim viviam, ao tempo na Bélgica, entre Lovaina e Jodoigne. Essa questão do exílio, que Llansol aborda vezes sem conta, mas com particular interesse no texto escrito em folhas avulsas inseridas neste diário “A Vocação do Exílio” (pag.158). Além do problema do exílio propriamente dito, há ainda outro, que a escritora aborda de uma forma a um tempo analítica e emotiva: Portugal. A sua relação com Portugal é, além de duma perspectiva biográfica, vista também da perspectiva da escrita. É assim que encontramos Gabriela Llansol visitando Lisboa ao fim de dez anos de exílio, meditando “As expressões usadas são imutáveis, as de há dez anos. (…) Como poderá opor-se à linguagem dos detentores do poder (esses sismos do poder), pessoas para quem a linguagem e os gestos não mudam? Como poderá inventar formas de comunicação de um grupo sem espaço?” (pag.89)
De certa forma, Llansol sabia que Portugal não estaria pronto para a sua “estranha forma de escrita”, que o foi de vida também. Talvez por isso, em 28 de Março de 1976 ela escreve “Foi uma desolação, em Portugal. Talvez nem sequer houvesse um país, era um estado, um lugar insignificante.” (pag.133). Não só a escrita, mas também a perda do quotidiano e dos locais e talvez dos afectos, nos vão dando conta do desfasamento que, pelo menos nesta fase da sua vida, Llansol sentia em relação ao país.
“___________a primeira imagem do Diário não é, para mim, o repouso na vida quotidiana, mas uma constelação de imagens, caminhando todas as constelações umas sobre as outras. Qualquer aprendiz imagético, quando sobe ao meu quarto e atravessa o meu escritório, tem o sentimento de que «um belo lixo de imagens se criou aqui». Se for menos inocente dirá: «que belo luxo de imagens». Eu diria: aqui está a raiz de qualquer livro.”
E está mesmo.
sábado, 14 de agosto de 2010
Uma Citação
terça-feira, 20 de julho de 2010
Uma Citação
quinta-feira, 1 de abril de 2010
dois poemas de Maria Gabriela Llansol
O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro___mantém o começo prosseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão da intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ______ linha, confiança, crédito, tecido.
7
Não resisto a contar à rapariga:
Ontem passei por um encontro entre dois rapazes que se amavam,
Curtiam, como dizes, sentados no colo um do outro. Era um amor
Humano nas raias do explícito. Aquele laço de se receberem
Mutuamente no regaço estava todavia perto de desatar-se Triste
Que assim fosse.
Havia sobre a cena uma pequena caixa, e aquele que decidira
Desunir-se escrevia o seu nome animal dentro dela. Por sua vez,
O outro para nomear o próximo, desenhou com lentidão um
Pequeno candeeiro de muitas luzes. Vi perfeitamente a progressão
Do desenho, e como ele se detinha na contemplação de cada
Anjo.
Maria Gabriela Llansol
O Começo de Um Livro é Precioso
2003, ed. Assírio e Alvim


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