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sexta-feira, 11 de março de 2011

A Intimidade do Caos


Um amigo vai morrendo nas palavras
enquanto a cidade estala de crueza.

Ela corre, louca, pelas luzes do poente
à beira do mar mais selvagem
da infância.

Um amigo vai morrendo entre néons
e sonhos carbonizados.

Ela corre, quase feliz, à beira
dos abismos.

A morte veste-lhe as lágrimas
de nudez.

Não há ecos nem poemas
Apenas rios de sangue
escorrendo lentos por dentro
das mudas palavras

Maria Graciete Besse
Espelhos, Ausências
1990, ed. Caminho
fotografia de Frederik Froument

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Rosto Sitiado, 13



De novo curvamos o corpo
cingido o arrepio das casas.
De novo apertamos nos olhos
a dor monótona da chuva
árvores despenteadas
ossos
húmida negrura.

O silêncio do vento
fere
nosso rosto sitiado.

De novo nos consumimos
em outono
fogo lento
e as mãos perfumam a tarde
consentem o cansaço
como pássaros
assustados de cinzento.






Maria Graciete Besse
Rosto Sitiado
ed. Fenda, 1983
imagem de Jorge Pinheiro

i

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

um poema



É um homem muito jovem, de olhos excessivos, onde a ternura se mistura com o medo. Os seus olhos são, por vezes, interrogadores, olhos bandeirantes a resvalar em terreno novo. A boca é ávida e quente. Audácia. Vício. Claridade. O corpo do homem é frágil. Viajando no interior doutro corpo, derramando-se em grito, quase choro. Recomeçando. Quase sem palavras. Quase sem loucura. Como quem desfaz o sonho. Como quem assiste ao lento nascimento de alguém. Seguro. Sem projectos. Fuga adiada. Rejeitada. Homem que bebe o instante, insensível à gelada inquietação.
À volta do homem, os objectos. A mesa baixa, o sofá onde se acumula a roupa em desordem, a aceitação da loucura. Rápida é a maneira do homem se despir do azul. Sem pudor. Homem que entra vagarosamente na audácia de outro espaço. Homem transgressão. Nu, como sem memória. Desfazendo o êxtase com o olhar escorregando no relógio. A pressa. E as palavras dizendo a eternidade.





Maria Graciete Besse
Mulher Sentada no Silêncio
1985, edições Ulmeiro.


fotografia: FLORIA SIGISMONDI