It´s Gonna Be
domingo, 1 de agosto de 2010
Norah Jones: The Fall
It´s Gonna Be
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Estou Vivo e Escrevo Sol
Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde
Michelle Branch: Everything Comes and Goes
This Way
You Are Welcome to Elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Lou Rhodes: One Good Thing
Em 2004, os Lamb lançavam "Best Kept Secrets (1996-2002)", uma colectânea que reunia algumas das canções mais marcantes dos quatro álbuns da banda. Dois anos depois, Lou Rhodes apresenta-se em nome próprio com "Beloved One".
One Good Thing
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Um Poema
Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.
Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.
Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho ?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
“Agora és livre, se ainda recordas"
Morrer de Amor
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso.
Irene Lisboa: Começa Uma Vida
"Começa Uma Vida" (ed. Seara Nova, 1940, reed. Presença, 1991) é, de certa forma, uma espécie de primeiro romance de Irene Lisboa. Fora os "13 Contarelos" (ed. autora, 1936), Irene publicara antes "Um Dia e Outro Dia- Diário de Uma Mulher" (ed Seara Nova, 1937) e "Outono Havias de Vir- Latente e Triste" (ed Seara Nova, 1938)- ambos reeditados em 1990 pela Presença no volume "Poesia I"- livros de poemas em verso e ainda a famosa "Solidão" (ed. Seara Nova, 1939, reed. Presença, 1991) que, ainda que leve de subtítulo "Notas do Punho de Uma Mulher" e tendo várias vezes em bibliografias elaboradas pela autora sido descrito como "notas e críticas", me parece ainda dentro de um registo muito poético. É discutível se "Solidão" pode ou não ser considerado um conjunto de poemas em prosa, e se o argumento contra pudesse ser o facto de nele encontrarmos frequentemente um registo diarístico, relembre-se o subtítulo do primeiro livro de poemas para percebermos que, dentro do estilo de Irene Lisboa, esse argumento se torna um tanto inválido.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Os Anéis do Meu Cabelo
No dia do meu enterro
Diz à terra que não coma
Os anéis do meu cabelo.
Já nem digo que viesses
Cobrir de rosas o meu rosto
Ou que num choro dissesses
A qualquer do teu desgosto.
Nem te lembro que beijasses
Meu corpo delgado e belo
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.
1959, Janeiro, Porto
_Um carioca de limão.
_Café e bagaço.
_Um maço de Porto.
E era tudo. As ondas de sossego, escorraçado, voltavam e espraiavam-se pelas cadeiras vazias. Recomeçavam a conversa entre o criado e o homem do bar, sobre aquele atraso de vida da doença da mulher que tinha de ser operada, do desarranjo do filho mais novo ter de ir para a casa dos avós e ser preciso ir levá-lo, pois não se podia meter uma criança daquela idade sozinha num comboio. O outro ouvia-o distraído, já sonolento, a pensar na vida dele, nos problemas dele, nos pés dele, enganando o cansaço, despertando-se com aquele passeio enjaulado e maquinal, que o gesto da limpeza do balcão acompanhava. Os ruídos do andar de cima chegavam distantes, amortecidos, e era já menor o ruído, tinido, de louça e talheres. O relógio marcava onze e vinte. O homem cosido com o canto do sofá tinha adormecido e o cachecol de lã preta e ensebada guilhotinava-lhe a cabeça que as cordas dos tendões quase não sustinham. Os espelhos multiplicavam a satisfação, estomacal, dos poucos que tomavam café. O colorido dos painéis, o brilho, o mel e o conforto, das luzes. O dourado, sereno, da estatueta. O homem. O homem. O homem. O homem. Como eco. Ou nódoa que tivesse alastrado.
domingo, 25 de julho de 2010
Hélia Correia: Lillias Fraser
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Agustina Bessa-Luís: A Sibila
"Agustina não dá respostas. Agustina amplia as perguntas".
Isso definirá o bom escritor. É interessar contrapor os romances de Agustina com a sua imagem pública: dela dizem ser de direita, conservadora, até salazarista (Ainda que Sophia tenha várias vezes dito que Agustina não era nem de direita nem salazarista, apenas não gostava de falar mal do governo português no estrangeiro.). No entanto, ao ler os seus romances não há nem rasto dessas características, bem pelo contrário: Agustina cria uma espécie de fotografia interior dos seus personagens, mas deixa para o leitor a interpretação dessa fotografia, "não dá respostas". Talvez por isso se possa dizer com toda a justiça que Agustina não é uma prosadora fácil, apesar da linearidade da sua prosa. "A Sibila" representa um culminar destas características que poderiam estar menos desenvoltas nos seus textos inicias.
Sade: Soldier of Love
Sade (Pronuncia-se "sha-day".) revelou-se em 1984: o álbum chamava-se "Diamond Life" e foi difícil a partir daí não se conhecer esse maravilhoso hino que era "Smooth Operator". Sade, originária da Somália, é uma cantora de canções onde a suavidade e a sensualidade andam continuamente de mãos dadas, numa celebração do amor. Ao contrário do que acontece em muitos álbuns de estreia, "Diamond Life" não era promissor, era já a confirmação. O percurso da cantora prosseguiu com "Promise" (1985), "Stronger Than Pride" (1988), "Love Deluxe" (1992) e "Lovers Rock" (2000), além das colectâneas "Best Of" (1994) e "Lovers Live" (2002) constituido inteiramente por canções ao vivo.
Le Temps Qui Reste de François Ozon
Isabel de Sá
Foi-me inevitável pensar em poesia ao ver, finalmente, “Le Temps Qui Reste” (2005) de François Ozon. Vejo-o anos já depois da estreia e do fecho da editora responsável pelos filmes de Ozon em Portugal: sim é isso mesmo, actualmente é impossível encontrar as versões legendadas em português dos filmes do realizador de “Sous Le Sand” e “8 Femmes”, que aliás formam com este filme uma espécie de trilogia sobre a morte, analisada de distintos pontos de vista.
Dado que não tinha nenhuma forma de ver o filme por meios legais, tive que fazê-lo através de outros menos ortodoxos. Já toda a gente percebeu que fiz, ou melhor, me fizeram o download do filme.
Mas, e era por aí que este texto ia iniciar-se com o paralelismo entre a poesia e esta brutalíssima obra de Fraçois Ozon. Ao vê-lo são inegáveis as imagens que descobrem a verdadeira poesia nas imagens desta história tão triste.
Romain (Melvil Poupaud), fotógrafo profissional aos 30 anos recebe, depois de um desmaio durante uma sessão fotográfica, o diagnóstico de um cancro, em estado avançado e com muitíssimas possibilidades do tratamento não resultar, uma vez que grande parte dos órgãos estão já afectados. Tem três meses de vida.
“Le Temps Qui Reste” é portanto o atravessar dessa condenação. Inicialmente, observamo-lo numa espécie de auto-isolamento penoso: insulta a irmã grávida, agride o namorado, sai de casa.
Parte depois para visitar a avó Laura (Jeanne Moreau), a única a quem contará a verdade. Pelo caminho conhece Jany (Valeria Bruni Tedeschi), empregada de café, que será a maior reviravolta na história, quando lhe conta que o marido é estéril, perguntado a Romain se ele estaria disposto a ser pai do filho do casal. A resposta fica em suspenso.
Quando Romain regressa a casa, Sasha (Christian Sengewald), o namorado já a deixara. Cada vez mais sozinho, Romain procura espaços comuns, ligados à infância e ao passado.
Um dos elementos que mais me leva a ver este filme como um poema filmado é precisamente a força da tristeza e do desespero- e Melvil Poupaud mostra-se nisso muito competente: não precisa de falar muito nem de se movimentar-se particularmente: as suas expressões faciais, o realismo extremo dos seus choros constantes são suficientes para dar “o murro no estômago” que, a meu ver, demarca o filme da obra de arte que “Le Temps Qui Reste” sem sombra de dúvida é. Vemos um ser humano efectivamente a confrontar-se com a sua morte e com a forma como decidiu encará-la: o silêncio.
Vê-mo-lo caminhar pela cidade, chorando desesperadamente, e mais desesperadamente ainda fotografando pequenos detalhes, como se recolhesse imagens que levasse para a morte, ainda que sabendo que tal será impossível.
A questão do choro parece-me também digna de grande referência: vemos Melvil Poupaud chorar em inúmeras cenas, sem que no entanto seja excessivo. O curioso é ver como esse choro se vai alterando, e através dele, vamos recebendo sinais de que a sua relação agora tão estreita com a morte, assunto afinal fulcral neste filme, se vai alterando. Esse é um dos aspectos que considero mais importantes em “Le Temps Qui Reste”: a sua densíssima poética, o seu tom profundamente elegíaco e desesperante. E repare-se que no filme não há grandes diálogos, e dos que há, poucos têm realmente um substrato importante para o que vemos: é um filme construído a partir do poder ilimitado da imagem, de um conteúdo que dispensa palavras. Ainda que tenha falado em poesia a propósito deste filme, e mantenho que me parece um poema filmado, da poesia refiro-me ao que possa ter de pungente e marcante, e menos das palavras que a escrever. “Le Temps Qui Reste”, poema ou não, não poderia ser um livro: necessita destas imagens, só com elas pode fazer sentido. É um dos casos em que uma imagem definitivamente vale mais do que mil palavras, porque nem toda a mestria de escrita deste mundo poderia produzir um efeito tão forte como estes planos de Ozon.
Ao reencontrar o ex-namorado, Romain pede-lhe que lhe pouse a mão no peito e diz-lhe
“Tu sens mon coeur… il bat encore”
e esse será provavelmente o diálogo mais decisivo de todo o filme: é o momento em que Roman decide aceder ao pedido de Jany. Poderá parecer um cliché a ideia do moribundo que deixa um filho, mas a verdade é que a forma como acontece consegue mesmo ser surpreendente e surpreendentemente triste, quando o vemos preso entre um sorriso e uma dor atroz, sabendo que e mulher deitada entre o seu marido e ele irão ser os pais do seu filho que ele nem irá conhecer.
Não se pode dizer que não é um filme angustiante, porque o é, profundamente. Mas é também de uma naturalidade que torna quase impossível ao espectador não se contagiar daquela angústia, e é aí que Ozon é verdadeiramente genial: é na sua capacidade de nos contaminar com o drama que nos coloca à frente: só há obra de arte onde há uma íntima agressão.
Somos nós que também nos confrontamos com a nossa morte que também está pronta a acontecer.
E o mais interessante é que, se acompanharmos o filme atentamente, vamos percebendo que Romain aceitou a sua morte, por perceber-lhe o “carácter perfeito, isento de mesquinhez” de que Isabel de Sá fala no seu poema inaugural.
Depois de uma visão mais parodística da morte com “8 Femmes”, François Ozon enveredou pelo lado mais realista da morte. E o resultado nunca poderia ter sido melhor, nem mais pungente, nem mais humano.
Um filme brutal e violento nos vários sentidos das palavras. Às pessoas mais susceptíveis à angústia só recomendo que sejam um pouco fortes, porque “Le Temps Qui Reste” merece o esforço. Definitivamente.
Agustina tem destas coisas... (15)
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Des Pieds et Des Mains
Eu conheço as coisas de tu não estares
as voltas que o mundo não dá
assim tu estejas e pares.
Encostado a uma parede
despido e vegetal
encostado a uma parede, a cantar
cheio de ramos tenros e novos
incalculável.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Outubro, 1949
terça-feira, 20 de julho de 2010
Olga Gonçalves: Caixa Inglesa
Uma Citação
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Bem-Vindos ao Amadorismo: Um Balanço sobre o Marés Vivas
domingo, 18 de julho de 2010
Marés Vivas: Editors
O último dia do festival Marés Vivas é em definitivo a cereja em cima do bolo: um bolo de São João cheio de cantigas populares e ambiente hedonista a que não faltam bailaricos, farturas e claro, cereveja. Refiro-me ao ambiente e à organização, claro. No que respeita os concertos, há que dizer que o dos dEUS foi definitivamente excelente, ainda que fosse o de Ben Harper o mais aguardado.
sábado, 17 de julho de 2010
Marés Vivas: Placebo
O segundo dia do Marés Vivas contribuiu consideravelmente para a atmosfera de amadorismo que me pareceu tão evidente no primeiro dia.
Every You and Every Me
Battle For The Sun
Trigger Happy
All Apologies
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Marés Vivas: Goldfrapp
Number One
Ooh La La
Rocket


























