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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sem corpo nenhum



Sem corpo nenhum, 
como te hei de amar? 
— Minha alma, minha alma, 
tu mesma escolheste 
esse doce mal! 


Sem palavra alguma, 
como o hei de saber? 
— Minha alma, minha alma, 
tu mesma desejas 
o que não se vê! 


Nenhuma esperança 
me dás, nem te dou:  
— Minha alma, minha alma, 
eis toda a conquista 
do mais longo amor!

Cecília Meireles
Poesia (1942-1959)
pintura de Graça Martins

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Um poema


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles
Viagem
1939
fotografia de Nuno Félix da Costa

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Um Poema



Esse rosto na sombra, esse olhar na memória,
o tempo do silêncio, os braços da esperança,
uma rosa indefesa - e esse vento inimigo.

Ficou somente a luz do constante deserto,
e o sobrenatural reino obscuro do vento,
com seu povo indistinto a carpir noutro idioma.

Ideias de saudade em tal paisagem morrem.
Que arroio pode haver, de contínuos espelhos,
a repetir o que é deixado? Por devota,

solidária ternura e aceitação da angústia?
- Ah, deixarei meu nome entre as antigas mortes.
Só nessas mortes pode estar meu nome escrito.

Nome: pequena lágrima atenta.



Cecília Meireles
Solombra
1963
pintura de Álvaro Lapa

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Um Poema



Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho ?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

“Agora és livre, se ainda recordas"





Cecília Meireles
Solombra
1963
pintura de René Magritte