
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Dia Cinzento

terça-feira, 27 de julho de 2010
1959, Janeiro, Porto
_Um carioca de limão.
_Café e bagaço.
_Um maço de Porto.
E era tudo. As ondas de sossego, escorraçado, voltavam e espraiavam-se pelas cadeiras vazias. Recomeçavam a conversa entre o criado e o homem do bar, sobre aquele atraso de vida da doença da mulher que tinha de ser operada, do desarranjo do filho mais novo ter de ir para a casa dos avós e ser preciso ir levá-lo, pois não se podia meter uma criança daquela idade sozinha num comboio. O outro ouvia-o distraído, já sonolento, a pensar na vida dele, nos problemas dele, nos pés dele, enganando o cansaço, despertando-se com aquele passeio enjaulado e maquinal, que o gesto da limpeza do balcão acompanhava. Os ruídos do andar de cima chegavam distantes, amortecidos, e era já menor o ruído, tinido, de louça e talheres. O relógio marcava onze e vinte. O homem cosido com o canto do sofá tinha adormecido e o cachecol de lã preta e ensebada guilhotinava-lhe a cabeça que as cordas dos tendões quase não sustinham. Os espelhos multiplicavam a satisfação, estomacal, dos poucos que tomavam café. O colorido dos painéis, o brilho, o mel e o conforto, das luzes. O dourado, sereno, da estatueta. O homem. O homem. O homem. O homem. Como eco. Ou nódoa que tivesse alastrado.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
O Fim da Noite
entre as nuvens do dia perseguido
como ramos da árvore
do céu batido
pelo vento visível
Os espelhos espalharam este brilho
de cinza
Sobre a zona do
ventre alastra ainda
o labirinto líquido
numa
mancha de ramos e raízes
E as lanças da luz como serpentes
erectas passam entre
as ramificações e as radículas
imprecisas
e fias do dia cor da
noite perseguidora
perseguida
Uma rede de vermes vai roendo
a barriga ferida A noite morre
com um espasmo de esperma e abre a extinta
boca de espuma e esperma e dela solta
retido e consumido um pénis hirto
Gastão Cruz
Órgão de Luzes
ed. &etc, 1981

