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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Dia Cinzento


O dia cinzento, o apito do comboio, o funeral que ainda há pouco se arrastava em frente da minha janela... Foi isto, talvez, que me fez pensar em ti.
Foi num dia assim que te encontrei. As hordas bárbaras, então poderosas, estrondeavam pela rua. Estendeiam-se milhares de braços; era a nova saudação.
Impassível, tu assistias. E os meus olhos encontraram os teus, escuros e tristes.
Rompemos a multidão, espámo-nos por essa rua estreita que levava ao rio, e quando chegámos acima da ponte já tudo era tranquilidade.
Mas o dia era cinzento.
Espesso nevoeiro cobria o rio. Saudosa e lenta vinha até nós uma canção. Cantava-a alguém alheio ao mundo de violência.
E as nossas mãos uniram-se.
Sim, esse foi o dia em que te encontrei.
Mas não tardou o outro em que tiveste de fugir às garras dos bárbaros. Estivémos em frente do comboio. Não falávamos, e tanto havia a dizer. Porém a dor cerrava as nossas bocas e abafava as palavras nos corações.
Mais uma vez abrançaram-me os teus olhos, escuros e tristes.
E então o apito do comboio...
Veio depois a carta de tarja negra: as tuas últimas palavras que uma boa alma me transmitiu.
E hoje, num dia cinzento em que o funeral se arrastou em frente da minha janela, tenho de pensar em ti.

Ilse Losa
Grades Brancas
1951, ed. Centro Bibliográfico de Lisboa
pintura de Henri Toulouse-Lautrec

terça-feira, 27 de julho de 2010

1959, Janeiro, Porto



No salão de cima (era todo envidraçado e a rua penetrava-o) havia sempre muita gente. Mas na cave, que os espelhos tornavam de uma solidão maior, as mais das vezes um dos criados encostava-se ao balcão, enquanto o outro servia, sem pressa, os poucos frequentadores. Só ali vinham alguns estudantes decorar, entre fumaças, estafada sebenta, bichanando teoremas e fórmulas, sorvendo golpes, curtos, de líquido fumegante, os que tinham encontros, mais ou menos clandestinos, e dali partiam para uma aventura de amor à hora, em quarto alugado, ou pequenos burgueses sem requintes que discutiam a bola e o avançado centro- "bestial!"- para provarem que estavam vivos e neste mundo. A gerência podia permitir-se aquela tolerância de o deixar dormitar diante da mesa vazia, naquele ambiente aquecido a bafo humano e vapores de café, ao abrigo do nevoeiro que lá fora engolia tudo ou da geada que embaciava as montras e arrefecia os relfexos nos paralelepípedos da rua. Cosido com um canto do café "reservado a senhoras e suas famílias", segundo rezava o letreiro suspenso, parecia um trapo enrodilhado. A gabardina de uma cor indecisa e asfiapada pingava-lhe sobre os sapatos, demasiado grandes, acharlotados. O chapéu cobria-lhe o rosto até ao bigode, murcho, caído, quase a tapar a ranhura dos lábios, fechados, sem desejos. De perto viam-se-lhe à volta dos olhos trémulos, vivos, das veias, vermes saindo do ninho das órbitas e passeando-lhe a cor funérea, onde a barba grisalha, de véspera, punha uma poeira de cinza, que parecia alastrar naquele meio silêncio, raro, cortado.

_Um carioca de limão.
_Café e bagaço.
_Um maço de Porto.
E era tudo. As ondas de sossego, escorraçado, voltavam e espraiavam-se pelas cadeiras vazias. Recomeçavam a conversa entre o criado e o homem do bar, sobre aquele atraso de vida da doença da mulher que tinha de ser operada, do desarranjo do filho mais novo ter de ir para a casa dos avós e ser preciso ir levá-lo, pois não se podia meter uma criança daquela idade sozinha num comboio. O outro ouvia-o distraído, já sonolento, a pensar na vida dele, nos problemas dele, nos pés dele, enganando o cansaço, despertando-se com aquele passeio enjaulado e maquinal, que o gesto da limpeza do balcão acompanhava. Os ruídos do andar de cima chegavam distantes, amortecidos, e era já menor o ruído, tinido, de louça e talheres. O relógio marcava onze e vinte. O homem cosido com o canto do sofá tinha adormecido e o cachecol de lã preta e ensebada guilhotinava-lhe a cabeça que as cordas dos tendões quase não sustinham. Os espelhos multiplicavam a satisfação, estomacal, dos poucos que tomavam café. O colorido dos painéis, o brilho, o mel e o conforto, das luzes. O dourado, sereno, da estatueta. O homem. O homem. O homem. O homem. Como eco. Ou nódoa que tivesse alastrado.

Luísa Dacosta
Na Água do Tempo, diário
1992, ed. Quimera
imagem de Toulouse-Lautrec

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O Fim da Noite



A lava deixou sulcos no céu baixo
entre as nuvens do dia perseguido
como ramos da árvore
do céu batido
pelo vento visível

Os espelhos espalharam este brilho
de cinza
Sobre a zona do
ventre alastra ainda
o labirinto líquido
numa
mancha de ramos e raízes
E as lanças da luz como serpentes
erectas passam entre
as ramificações e as radículas
imprecisas
e fias do dia cor da
noite perseguidora
perseguida

Uma rede de vermes vai roendo
a barriga ferida A noite morre
com um espasmo de esperma e abre a extinta
boca de espuma e esperma e dela solta
retido e consumido um pénis hirto


Gastão Cruz
Órgão de Luzes
ed. &etc, 1981
imagem de Henri Toulouse Lautrec